Resenha | Françoise Dolto: cultura, psicossomática e clínica (Pires [org.], 2023)

por Gabriela de Araujo

PIRES, Luciana (Org.) (2023) Françoise Dolto: cultura, psicossomática e clínica. São Paulo: Ed. Blucher.

Dolto e a curiosidade premiada

A experiência da maternidade me permitiu o (re)encontro com a literatura infantil. Para além dos clássicos, que de algum modo seguem habitando o nosso universo mesmo quando nos afastamos da nossa infância, conheci e reencontrei outras leituras que são verdadeiros tesouros. 

O livro A curiosidade premiada, da escritora brasileira Fernanda Lopes de Almeida foi um desses felizes reencontros.  Tinha lido na minha infância – a primeira edição data de 1975 – e, por muito tempo não tinha mais registro dessa história, até reencontrar com o livro, na Feira do Livro de Porto Alegre, passeando com o meu primeiro filho.

Nesse livro conhecemos a Glorinha, uma menina muito curiosa, que fazia perguntas o tempo todo. Seus pais, exaustos de tantas perguntas, resolvem procurar a Dona Domingas, uma velha senhora que todos buscavam para pedir conselhos. Dona Domingas, após escutar o relato da mãe, explica que Glorinha sofria de curiosidade acumulada e que, para resolver isso, bastava que respondessem às perguntas dela. Caso contrário, ela ficaria entupida de perguntas e poderia até explodir. Ao retornar para casa a mãe conta tudo para o pai. Eles começam então a responder, sempre a verdade. Dona Domingas explica que primeiro ela precisa gastar a curiosidade acumulada, depois perguntaria com mais calma. Foi isso mesmo que aconteceu, mas Glorinha passa então a fazer perguntas mais difíceis. Os pais, preocupados, voltam para Dona Domingas aflitos por não saberem responder. É então que Dona Domingas diz: 

— Então comecem a perguntar junto com ela.

— Mas Dona Domingas! Nós somos grandes!

— E daí? Eu também sou grande e pergunto até hoje.

Eu também sou grande e pergunto até hoje. Foi assim que uma grande modificação aconteceu naquela família. Ao buscarem juntos respostas para tantas perguntas, sobre as estrelas, a vida, a natureza, os pais percebem quão interessante e maravilhoso é o mundo em que vivem. E terminam por concluir que a curiosidade de Glorinha é um verdadeiro prêmio para eles todos.

No meu trabalho cotidiano, como psicanalista, percebo a recorrência da dificuldade de se conseguir escutar e se deixar levar pelas perguntas das crianças.  É próprio do trabalho da análise o de sustentar e acompanhar o movimento de se perguntar. Assim, associo esse livro e a personagem de Dona Domingas a muitos analistas de crianças, mais especificamente à Françoise Dolto.  

Françoise Dolto foi uma pediatra e psicanalista francesa que desdobrou do seu trabalho como analista muitas elaborações sobre a infância. Pelas contingências do período em que vivia, o pós-guerra, Dolto dedicou muito do seu trabalho aos órfãos de guerra, às crianças que viviam em abrigos, e às famílias que padeciam dos efeitos da Guerra. Dolto certamente se dedicou à tarefa de alargar e levar a sério as questões que a ela chegavam. 

No ano passado (2023), saiu, pela editora Blucher e organizado pela psicanalista Luciana Pires, um livro sobre Françoise Dolto. É resultado de um evento ocorrido em 2018 com vários estudiosos da obra de Dolto e se divide em três partes: Cultura, Psicossomática e Clínica. A partir da leitura desse livro se esclarecem mais pontos de semelhança entre Dolto e Domingas. E são essas associações que me proponho a trazer aqui.

Françoise Dolto é conhecida muito mais pelo seu modo de trabalhar, por sua ética, do que pela elaboração de grandes conceitos teóricos (apesar de ter construído dois conceitos importantes: Imagem inconsciente do corpo e as Castrações Simboligênicas). Quando criança, Dolto definiu para si seu campo de atuação: seria Médica da educação. É no trabalho de psicanalista de crianças que Dolto se aproxima dessa premissa inicial. É ali que ela sustenta a ideia de que “as doenças corporais infantis (comumente encaminhadas aos médicos) dizem respeito ao modo como são tratadas pelos adultos”.

Tal como Domingas, Dolto aposta na criança como sujeito de pleno direito, que merece ser escutado e ter seu mundo traduzido em palavras. No exercício de ambas, vemos a atribuição de verdade à fala das crianças. Em muitos de seus atendimentos, Dolto dizia aos seus pacientes: eu não sei bem o que isso significa, mas sei que isso significa alguma coisa.  Essa fala, ao mesmo tempo que afirma um saber na criança, também afirma a disponibilidade do adulto de ir junto buscar saber, de ir na direção da criança. Do mesmo modo, Domingas se põe nesse lugar quando coloca que ela não sabe tudo, autorizando os pais a poderem não tudo saber e a seguir perguntando junto com as crianças. 

Mas o ponto que mais me comove, tanto em Domingas como em Dolto, é o fato de não se assombrarem com a manifestação da criança. Vejo na clínica e nas obras da cultura, pais e educadores muito assustados com as produções das crianças. Diversos comportamentos, próprios da infância, são lidos com estranhamento e compreendidos como algo possivelmente patológico ou desviante. 

Pensando na época de atuação da Dolto — ela teve sua produção de analista durante os anos 1934 a 1988 — e, também no período de escrita do livro de Dona Domingas — os anos 1970 — fica claro que esse desencontro não é de hoje. Mas certamente, tem algo no nosso tempo que faz isso ficar ainda mais explícito. 

Retomo algumas outras cenas das intervenções de Dona Domingas:

— Para unha encravada, o que a senhora aconselha?

— Andar descalça…

— Meu filho vive com galo na cabeça. O que devo fazer?

— Arranje uma galinha e pintinhos. O pobre galo precisa de companhia.

São respostas irreverentes e certamente diferentes daquelas que se espera encontrar quando se vai na direção de um analista pedindo auxílio. Mas mais do que a resposta em si, o interessante é a abertura que cada uma dessas afirmações carrega. Um convite para que se olhe de outro modo para a situação da qual se queixa. 

Associo essas cenas, pela abertura que carregam, com os programas de rádio que Dolto elaborou. Ali, ela lia cartas de pais que buscavam ajuda na compreensão de manifestações de seus filhos, que traziam seus impasses. Dolto não tomava esses pais nem essas crianças como pacientes, não era da psicanálise stricto senso que se tratava. Entretanto, seu modo de responder era construído e atravessado pela sua prática clínica e pelo saber da psicanálise. Importante frisar aqui, tal como desprendemos do referido livro sobre a obra de Dolto, que esta não tinha uma relação de mera apreensão teórica com a psicanálise, ou em outras palavras, para ela “a psicanálise é tudo menos o território das últimas palavras”.

Sua ideia das cartas partia da aposta que ao “formular por escrito suas dificuldades já seria um meio de ajudar a si mesmo” . Na sequência, ela juntava cartas que traziam perguntas semelhantes, na tentativa de aliar questões particulares com respostas que tivessem o maior alcance possível:

Deveríamos falar, através de casos particulares, dessas dificuldades mais frequentes, para que o programa servisse realmente a uma compreensão da infância por adultos que, em grande parte, não tivessem nenhuma ideia dessas provações específicas da infância e das modalidades reacionais que acompanham obrigatoriamente, segundo a natureza de cada criança, sua resolução favorável.

Aos moldes de Dona Domingas, Dolto acolhia com seriedade e curiosidade às cartas a ela endereçadas, e respondia de modo a permitir um novo encontro com a criança e com as dúvidas enunciadas. Além disso, a singularidade de suas respostas, propiciava uma abertura para que fosse constantemente questionada e criticada, sem ser tomada como verdade absoluta. 

Aponto aqui um exemplo: em dado momento, ao receber a carta de uma mãe que critica uma ideia falada em  outro programa, onde Dolto apontava que as crianças poderiam se sentir abandonadas ao dormir sozinhas em seu quarto, posto que seu bebê só conseguia dormir na sua cama, no seu quarto. Ao que Dolto responde:

Ela tem toda razão. Generalizamos demais. Existem crianças que, desde que nascem, adormecem quando precisam e no seu ritmo onde quer que estejam. Esse menino não. […] Não existe uma criança igual a outra. E a mãe, desde que ele era pequeno, deve tê-lo feito adquirir o hábito de dormir somente na sua própria cama. Bem! Essa mãe tem razão. Já o acostumou a certo ritmo de vida. Por que não? Já que ela entendeu que, posto no quarto, ele adormece, tudo bem, convém continuar assim e não precisa se questionar. Fico muito contente que as pessoas contestem o que eu digo.

Um outro ponto interessante do livro A curiosidade premiada é o de mostrar adultos exaustos, cansados e sem paciência. Temos inclusive, na primeira página, um senhor com um charuto aceso, que perde a compostura com a Glorinha. Para além das tinturas de cada época, importa aqui destacar o encontro com adultos que se permitem estar longe da imagem ideal. Adultos, tais quais os que escreviam cartas para Dolto, que conseguem mostrar que não sabem mais o que fazer, que percebem suas falhas e seus limites. Adultos que se aproximam muito mais das realidades cotidianas de cada família, distantes das imagens filtradas que a atualidade das redes sociais insiste em mostrar.

A irreverência de Dolto/Domingas comove pelo que elas promovem de abertura ética, de uma desdramatização. Diferente de tantos falsos mestres, de tantos que supõem tudo saber dentro de uma lógica clientelista, as colocações que elas operam vão no sentido de abertura associativa. De permitir aos pais e aos educadores que possam tentar se aproximar de um novo modo das produções da criança. Trata-se, como é próprio do trabalho do analista, da busca da justa medida de palavras necessárias para fazer a associação do paciente avançar, sem oferecer em demasia a nossa própria verdade.

Para depurarmos o que importa na escuta analítica, para que o não saber possa ser convidado à nossa escuta e, assim, nos submetermos ao sem sentido dos significantes que ouvimos, encontramos em Dolto o conselho recorrente de que pais e profissionais da infância desdramatizem suas apreensões das cenas infantis. Desdramatizar aqui é o correlato da indicação freudiana da atenção flutuante para que psicanalistas possam ouvir além de si mesmos e de seus conhecimentos prévios. 

Dolto se deixa habitar pelo saber de seus pacientes, pelo seu universo simbólico, para encontrar palavras que possam traduzir o sofrimento pelo qual o sujeito passa. Importa aqui, tal como as cartas a ela dirigidas, a possibilidade de colocar em palavras, de criar uma narrativa. O traumático é quando o sofrimento não encontra palavras para se narrar. 

Ao longo da obra de Dolto podemos acompanhar, que suas manifestações, intervenções, conversas com seus pacientes e seus pais eram feitas a partir da leitura que ela fazia da situação. Dolto sabia “que não compete ao psicanalista compreender, mas sim saber escutar”, apontando assim para uma “qualidade receptiva às alteridades de seus pacientes, fazendo-se habitar pelos saberes desses”

Submetia-se ao “sem sentido” dos significantes que ouvia e os valorizava mais do que os referentes teóricos das escolas de psicanálise, que quebrava constantemente, para espanto dos analistas, que queriam entender de onde provinha a eficácia de sua prática clínica (p. 141).

Fernanda Lopes de Almeida, a escritora da Curiosidade Premiada, faleceu em dezembro de 2023, aos 96 anos. Escritora e psicóloga, deixa uma vasta contribuição para a literatura infanto-juvenil, como “A fada que tinha ideias”, “Pinote, o Fracote e Janjão, o fortão”, “A Margarida Friorenta”, entre tantos outros. Suas obras enfatizam, com irreverência, as crianças em seu papel investigativo e questionador. 

Esse livro que destaco, com Glorinha e Domingas, alegra aos meus filhos, mas certamente produz mais efeitos em mim. É uma mensagem para os adultos que se ocupam de crianças. Tem um efeito semelhante ao esperado dos primeiros encontros com pais que demandam uma análise para seus filhos: de conseguir olhar para si, se implicar com a queixa apontada em seus filhos. 

No livro encontramos um irmão mais novo, que parece compor com as crianças leitoras/expectadoras, nesse papel de se espantar com o espanto do adulto. Para o irmão de Glorinha – e para as crianças – é óbvio que a curiosidade é um valor e elas a levam a sério. 

Penso que se me atenho aqui mais às intervenções de Domingas do que às manifestações de Glorinha é porque, apesar de Glorinha ser encantadora, sua curiosidade é da ordem da banalidade da infância. Toda criança, quando está bem, carrega essa curiosidade. A diferença aqui está no encontro com adultos que ofereçam trilho, ora respondendo, ora se perguntando, para que as investigações das crianças possam avançar. Adultos que aos moldes de Domingas/Dolto possibilitem que sua curiosidade seja tomada como prêmio.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Fernanda Lopes de (1975) A curiosidade premiada. São Paulo: Ática, 2008.

DOLTO, F. (1977) Quando os filhos precisam dos pais. São Paulo: Martins Fontes, 2008. 

MOLLOY, Carmem; FERREIRA, Julia Pires (2023) “Comentário sobre o caso Claudine, de Dolto”. In: PIRES, Luciana, Françoise Dolto – Cultura, psicossomática e clínica. São Paulo: Blucher, pp. 137-158

PIRES, Luciana (2023) “A ética das tarefas impossíveis e o devido tensionamento das “palavras verdadeiras”. In: Françoise Dolto – Cultura, psicossomática e clínica. São Paulo: Blucher, 2023, pp. 61- 77.

_____. (Org.) (2023) “Prefácio”. In: Françoise Dolto – Cultura, psicossomática e clínica. São Paulo: Blucher, 2023, pp. 7-12

_____. (Org.) (2023) Françoise Dolto – Cultura, psicossomática e clínica. São Paulo: Blucher.

VALLIM, Miguel (2023) “Uma obra, a cultura e o tempo. In: PIRES, Luciana (Org.) Françoise Dolto – Cultura, psicossomática e clínica. São Paulo: Blucher, pp. 23-43


Gabriela de Araújo é psicóloga, psicanalista, com especialização em psicopatologia do bebê pela Université Paris XIII. É Mestre (2009) e Doutora (2013) em Psicopatologia Psicanalítica pela Université Paris VII – França, este último realizado em cotutela com o Instituto de Psicologia da USP. Email: gabrielaxderaujo@hotmail.com




COMO CITAR ESTE ARTIGO | ARAUJO, Gabriela (2024) Dolto e a curiosidade premiada. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -16, p. 11, 2024. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2024/08/01/n-16-11/>.