Uma contribuição sobre o narcisismo

[ Ein Beitrag zum Narzissismus ]

por Otto Rank

Apresentação e Tradução | Caio Padovan & Norma Müller

Sobre o narcisismo | uma tradução

Caio Padovan & Norma Müller

O que estamos propondo aqui, eu e minha colega Norma Müller, é uma tradução para o texto Ein Beitrag zum Narzissismus, publicado em 1911 no Anuário de pesquisas psicanalíticas e psicopatológicas por Otto Rank. Norma é uma jovem tradutora interessada em psicanálise e eu, um jovem psicanalista interessado na tradução de textos clássicos que marcaram a história da psicanálise. A cada um de nós talvez falte a necessária experiência, mas não o entusiasmo. Nosso objetivo, em todo caso, é apenas o de tornar acessível algo que até então, seja por questões linguísticas, seja por questões políticas, permanecia inacessível ao leitor brasileiro. Nesse sentido, entendendo possuir um tal projeto uma certa pertinência, esperamos que este seja o primeiro de outros importantes textos a serem traduzidos e comentados em língua portuguesa.

Mas por que Rank e por que o texto sobre o Narcisismo?

Tal como Caio Padovan e Norma Müller, Otto Rank era um jovem entusiasmado. A partir de 1905 passa a frequentar as sessões da então Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, sessões presididas por Freud e realizadas em um dos cômodos de seu apartamento. No ano seguinte, Rank torna-se secretário desta mesma Sociedade e realiza a sua primeira intervenção no dia 10 de outubro, cujo tema seria “O drama do incesto e suas complicações” no contexto da literatura[1], trabalho que seria publicado em um grande volume seis anos mais tarde, em 1912[2]. Em 1907 publica o seu primeiro texto psicanalítico intitulado Der Kunstler[3], sobre a psicologia e a sexualidade do artista, e em 1909 o conhecido Der Mythus von der Geburt des Helden[4], sobre a interpretação psicológica dos mitos, em particular o mito do nascimento do herói.

Serralheiro de formação, Otto conhece a psicanálise por intermédio de Alfred Adler, na época seu médico pessoal. Com a ajuda financeira de Freud, que em algum momento teria reconhecido no jovem curioso um potencial colaborador, Rank termina seus estudos defendendo em 1912 uma tese de doutorado em filosofia que, segundo um de seus biógrafos[5], teria sido a primeira tese escrita sobre um tema psicanalítico defendida na Universidade de Viena. Uma versão em livro deste trabalho, intitulado Die Lohengrinsage. Ein Beitrag zu ihrer Motivgestaltung und Deutung, seria publicada um ano antes pela editora Franz Deuticke, no interior da coleção dirigida por Freud “Escritos de psicologia aplicada”[6]. A partir de 1912, sabemos que Freud, que teria organizado em sua residência uma “pequena ceia” para celebrar junto de seus pares a titulação do jovem Doutor[7], começa a encaminhar a Rank alguns de seus pacientes[8].

É também neste mesmo ano de 1912 que Rank, junto de Hans Sachs – doutor em direito que passaria a frequentar as reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena a partir de 1909 – funda a revista Imago, periódico voltado para a “aplicação da psicanálise às ciências do espírito [Geisteswissenschaften]”[9]. Nesta revista, que teria Sachs e Rank como editores e Freud como diretor, foram publicados diversos artigos de grande impacto, como os quatro capítulos que comporiam o ensaio de Freud Totem e Tabu[10], o trabalho de Karl Abraham sobre Amenhotep IV[11], entre outros. Rank ele mesmo, enquanto editor, publicou na Imago uma série de artigos que por anos foram considerados como referência em estudos de psicanálise dita aplicada. A título de exemplo, cito aqui apenas dois mais conhecidos, o primeiro sobre o Duplo e o segundo sobre a Figura de Don Juan[12].

Em meio a todas estes contribuições, escolhemos um artigo em particular, escrito em 1911 e cujo tema vem a ser justamente o conceito de Narcisismo. Mas por que o Narcisismo?

Dado o projeto de traduzir textos clássicos da história da psicanálise, nos colocamos inicialmente a questão sobre o interesse e a utilidade deste para a reflexão psicanalítica atual. Sabe-se que, diferente de conceitos datados ou pouco expressivos, o conceito de Narcisismo se configura como um constructo que atravessou, desde a sua invenção, diferentes tradições psicanalíticas, das mais às menos ortodoxas, chegando até nossos dias como uma elaboração teórica que ainda hoje parece responder questões não apenas psicopatológicas, mas também referentes à cultura em geral.

Algo que também nos motivou a escolher este texto e não outro tem a ver com a sua data e contexto de publicação. Diferente daquilo que normalmente se pensa a respeito da formação do conceito de Narcisismo em psicanálise[13], este teria sido inicialmente adotado pela comunidade psicanalítica em 1908 e debatido no interior desta até meados de 1912. Oriunda do contexto médico-psiquiátrico do final do século XIX, o fenômeno do amor narcísico será descrito pela primeira[14] vez em 1898, por Havelock Ellis[15], e, um ano mais tarde, por Paul Näcke[16]. Quase dez anos mais tarde, tal noção seria então recuperada e trabalhada desde um ponto de vista psicodinânico pelo psicanalista vienense Isidor Sadger, em um artigo intitulado Questões neuropsiquiátricas à luz da psicanálise[17]. Entre 1908 e 1910, o tema teria sido ainda discutido em diversas reuniões da Sociedade Psicanalítica de Viena, principalmente em sua articulação com a homossexualidade e com a psicose. Foram também publicados neste mesmo período alguns artigos a seu respeito, dentre os quais destacaria aquele publicado em 1909[18] pelo psicanalista suíço Alphonse Maeder, na época responsável pelo setor de epilépticos do Hospital Burghölzli em Zurique, e cujo tema é justamente a sexualidade na etiologia da epilepsia, e aquele publicado por Sadger em 1910, sobre um caso de perversão[19], talvez um dos mais importantes do ponto de vista histórico.

Em 1911, data da publicação do artigo de Rank, é também a data de publicação do artigo de Freud sobre o caso Schreber, onde o psicanalista se ocupa pela primeira vez da definição e também da fixação de uma nomenclatura para o conceito de Narcisismo. Sabemos que ambos os artigos são publicados no Anuário de pesquisas psicanalíticas e psicopatológicas, no mesmo volume e no mesmo número. Sabemos também por meio de cartas que ambos já vinham sendo escritos desde meados de 1910. No caso de Rank, inclusive, o artigo sobre o Narcisismo pode ser considerado como um desdobramento de outro publicado neste ano sobre a teoria dos sonhos[20].

Para se referir à noção em questão, Rank faz uso em seu texto do termo Narzissismus, mais correto do ponto de vista gramatical e utilizado atualmente por muitos psicanalistas de língua alemã. Freud, no entanto, ao se referir a um debate que o antecede – citando inclusive o texto de Sadger publicado em 1910 – reconhece o uso deste termo nos debates a respeito dos fenômenos ditos narcísicos, mas propõe um outro, julgado por ele como mais curto e sonoro: Narzißmus. Com o passar dos anos, como podemos acompanhar lendo publicações ulteriores, principalmente após 1914, o termo proposto por Freud se tornará o oficial. A confusão terminológica, contudo, não para por aí. Desde o seu surgimento e até meados dos anos 1920, o termo assumiu variadas formas, tantas que a maior parte dos historiadores que chegam a abordar o assunto incorre em erros que só se justificam por uma repetição desavisada de referências não verificadas. Por esta razão, creio que valha a pena abrir aqui um pequeno parêntese com o objetivo de esclarecer o seu emprego pelo menos até 1911.

Quando o termo surge na psiquiatria de língua alemã em 1899, com Paul Näcke, o termo utilizado é Narcismus. Em 1910, quando Havelock Ellis cita Näcke em uma terceira versão inglesa do seu texto de 1898 sobre o autoerotismo, reproduz o termo alemão[21]. Em 1906, em um artigo posterior[22], onde Näcke faz nova referência ao conceito, o mesmo utilizará Narzismus, ligeiramente diferente do termo Narzissmus escolhido pelo tradutor alemão[23] das obras de Ellis em 1907 – consultadas e citadas por Rank em seu artigo de 1911 – e por Isidor Sadger, tanto em 1908, como em 1910. Freud por sua vez, desde 1910, na nota à segunda edição dos Três ensaios e no comentário feito em seu Leonardo, utiliza sua forma preferida, Narzißmus – escolha que certos psicanalistas, como Gabrielle Rubin[24] e Giovanni Foresti[25], chegam curiosamente a considerar como tendo sido motivada pelas mesmas razões inconscientes que o levaram a retirar o “is” de Sigismund, seu primeiro nome (!).

Em relação ao contexto de publicação do artigo de Rank, não seria aqui um exagero de nossa parte chamar a atenção para o fato de ele ter sido publicado no Anuário de pesquisas psicanalíticas e psicopatológicas [Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung], o primeiro periódico psicanalítico colocado em circulação, em 1909. Antes desta data, por razões óbvias, psicanalistas e estudiosos da psicanálise publicavam seus artigos em revistas médicas da época, como a berlinense Neurologisches Zentralblatt, de Emmanuel Mendel, a genebresa Archives de Psychologie, de Édouard Claparède, e a vienense Wiener Klinische Wochenschrift, ligada à Universidade de Viena. Foi durante o primeiro Congresso Psicanalítico Internacional, em 1908, que se decidiu pela criação do Anuário, periódico editado por Carl Gustav Jung – psiquiatra ligado ao Hospital Burghölzli – e dirigido por Freud e Eugen Bleuler. Lembramos que Bleuler era ninguém menos que o diretor da clínica psiquiátrica do Burghölzli, um dos institutos de psiquiatria mais importantes do mundo na época, e o responsável em 1911 pela introdução da categoria de esquizofrenia.

Textos clínicos importantes e conhecidos por todos foram publicados neste periódico, como o caso do Homem dos Ratos[26] e o relato da análise do pequeno Hans[27], mas também relatos de análise menos conhecidos e nem por isso menos interessantes, como o de Ludwig Binswanger sobre um caso de histeria[28] e o de Franz Riklin, sobre um caso de neurose obsessiva[29]. Segundo seu editorial, o objetivo do Anuário era justamente o de publicar “trabalhos capazes de nos conduzir de maneira positiva à solução e a uma mais profunda compreensão de nossos problemas”[30]. Mais tarde, o Jahrbuch seria substituído pelo Internationale Zeitschrift für ärztliche Psychoanalyse, a “Revista internacional de psicanálise médica”, editada por Ferenczi e Rank e dirigida unicamente por Freud, e que a partir de 1913 passa a ser o órgão oficial da recém-criada Associação Psicanalítica Internacional. Também ela, em seu editorial, se define como uma revista “da qual se pode esperar trabalhos originais que ampliem nossos conhecimentos em psicanálise, assim como contribuições capazes de esclarecer e confirmar as teorias já conhecidas”[31]. No caso dos dois periódicos, uma tal produção era suposta coletiva, ideia promissora que, passado mais de um século, parece ter sido esquecida pelo movimento psicanalítico contemporâneo.

Tendo sido publicado no primeiro número do terceiro volume do Anuário, o texto de Rank não foge à regra e deve ser considerado não apenas como um indispensável elo de ligação no debate que culminaria na publicação do artigo escrito por Freud sobre o Narcisismo em 1914, mas também como um artigo que possui por si só um grande mérito que, tenho certeza, será reconhecido pelo leitor atento e interessado.

*

Após esta breve contextualização histórica do texto, proponho aqui um pequeno resumo da densa exposição feita pelo nosso jovem Otto, a qual talvez nos seja útil estudar antes de começar a leitura propriamente dita do artigo.

Rank inicia seu texto circunscrevendo esta classe de fenômenos ditos narcísicos em referência a dois autores, Havelock Ellis, médico inglês que teria sido o primeiro a descrevê-lo como um caso particular de autoerotismo em seu artigo de 1898, e Paul Näcke, psiquiatra alemão que retoma a descrição de Ellis em 1899. O autor faz ainda referência a outros trabalhos que, “de forma ocasional e isolada”, teriam abordado o mesmo fenômeno sem propriamente desenvolvê-lo, como o das contribuições de Iwan Bloch[32], em 1902.

Segundo Rank, no entanto, tais fenômenos teriam sido até então estudados de maneira bastante superficial e que, neste sentido, estaria reservada à pesquisa psicanalítica “o lançar de uma primeira luz sobre a gênese e as supostas ligações psicossexuais dessa forma singular de emprego da libido”. Sendo assim, o autor chama a atenção para as experiências psicanalíticas recentes, em particular aquelas ligadas à análise de casos de homossexualidade masculina, que têm apontado para o Narcisismo como um período de transição entre o chamado autoerotismo e o dito amor objetal, etapas descritas por Freud alguns anos antes, em seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905). Sabemos que a mesma definição de Narcisismo como um período intermediário seria exposta por Freud neste mesmo ano, em seu artigo sobre o caso Schreber. Ambas as definições, no entanto, teriam origem no artigo clínico de Sadger, publicado em 1910, que o define justamente como: “uma fase necessária do desenvolvimento na transição do autoerotismo para o futuro amor objetal”[33].

Dada essa definição, Rank apresenta então aquilo que havia sido possível dizer até o presente momento sobre a origem das expressões deste mesmo narcisismo na vida adulta, argumentando com Freud que: indivíduos narcisistas teriam atravessado “nos primeiros anos de sua infância uma fase muito intensa, ainda que breve, de fixação na mulher [Weib] (em geral a mãe). Superada esta fase, identificam-se então com essa mulher e tomam a si mesmos como objeto sexual, ou seja, partindo do Narcisismo, buscando assim homens jovens e semelhantes a si mesmos a quem tendem a amar tal como a mãe os amou”. Uma tal equação, apresentada aqui por Freud em forma resumida, seria desenvolvida em seu ensaio sobre Leonardo da Vinci e encontraria uma descrição detalhada em Sadger que acrescentaria aí uma série de outros elementos, os quais não teremos como tratar neste breve comentário com a devida profundidade[34]. Em todo caso, caberia atentar aqui apenas para uma importante e fundamental dimensão trabalhada por este autor, quer dizer, a ideia de que este “amar tal como a mãe” é mais do que um amar tal como a mãe o amou, é na verdade amar uma idealizacão de si criada pela mãe.

Feitas estas considerações, Rank reconhece que esse mecanismo está na base de um certo tipo de homossexualidade masculina e lamenta o fato do conhecimento psicanalítico não ter avançado no que diz respeito a origem da “tendência à inversão” em mulheres. Tendo isso em vista, o autor lança seu objetivo nos seguintes termos:

A breve comunicação aqui proposta não pretende, de forma alguma, dar conta de todas as lacunas de nosso conhecimento a respeito do tema, mas sim fazer uma humilde contribuição sobre a questão do narcisismo feminino capaz de mostrar, por um lado, como a paixão pelo próprio corpo tem implicações em boa parte da vaidade feminina normal e, por outro, como ela se relaciona intimamente com uma tendência à inversão, mesmo que inconsciente, e, por fim, como ela pode se fazer valer também em uma vida heterossexual normal.

A partir deste momento, seria possível dividir a exposição de Rank em duas partes. Na primeira o autor se dedicaria a explorar as expressões contemporâneas ou “secundárias” deste narcisismo que poderíamos chamar de “primário” em uma jovem “que não pode ser considerada como particularmente neurótica ou manifestamente invertida” através de alguns de seus sonhos[35]. Na segunda, que corresponde a um pós-escrito publicado junto com o artigo, Rank se dedicará ao estudo daquilo que ele entende ser um exemplo de “sonho de confirmação”, isto é, um sonho sonhado em resposta à interpretação de um sonho precedente e que é capaz de confirmar o conteúdo da interpretação do primeiro sonho.

Começamos nosso comentário pela discussão da primeira parte que tem início com a exposição de um primeiro sonho. Feita a análise deste e a sua contextualização levando em conta a situação atual da sonhadora, Rank demonstra algo que o leitor familiarizado com alguns princípios básicos da teoria freudiana dos sonhos será capaz de entender sem dificuldade, quer dizer, que o sonho reflete a vida mental inconsciente do sonhador. Posto isso, um dos pontos centrais da interpretação fornecida pelo autor diz respeito à expressão no sonho de uma constelação infantil que se tornaria um verdadeiro modelo para todo amor objetal futuro, uma “condição para o amor” [Liebesbedingung], nas palavras de Rank. Detenhamo-nos no uso deste termo, “Liebesbedingung”, que não poderá passar despercebido pelo leitor.

Sabemos que Freud fora o primeiro a utilizá-lo em um sentido quasi teórico um ano antes, em seu primeiro artigo sobre a “psicologia do amor”[36]. Nesta breve contribuição, em que o psicanalista se propõe a falar sobre um tipo particular de escolha objetal feita por homens, a noção de “condição para o amor” é descrita em referência ao modo como as pessoas escolhem seus objetos por meio de uma conciliação entre suas fantasias e as exigências da realidade[37]. Sem se pretender exaustivo, Freud enumera duas condições para o amor em homens. A primeira delas vem a ser chamada de condição “de um terceiro prejudicado”, a partir da qual sempre deve haver outro prejudicado – neste caso o parceiro da mulher desejada – para que o sentimento de amor possa se produzir. A segunda, chamada condição de “amor à prostituta”, é aquela que só pode ser satisfeita por mulheres cuja fidelidade é duvidosa. Em 1911, um ano mais tarde, em uma conferência feita por Sadger no terceiro Congresso Internacional de Psicanálise, realizado em Weimar, a noção em questão é mais uma vez evocada a partir de um belo exemplo clínico. Trata-se da confissão de um paciente que afirma ter alimentado em fantasia o desejo de ser tratado como uma criança pela sua amada, exibindo assim seu anseio por satisfazer uma “condição” desenvolvida em seus primeiros anos de vida[38]. Finalmente, em 1912, em A dinâmica da transferência, Freud retoma a mesma ideia sustentando que será pela ação conjunta de “disposições inatas” e “influências experimentadas na infância” que o sujeito construirá para si um modo muito particular de conduzir sua vida amorosa, estabelecendo assim determinadas “condições para o amor”. Quando não satisfeitas, acrescenta Freud, tais condições tendem a se atualizar nas mais variadas situações, dentre as quais a analítica, entre terapeuta e paciente, constituindo assim o fundamento psicossexual disso que a psicanálise virá chamar de transferência[39].

No caso da jovem sonhadora de Rank, as influências experimentadas na infância que entram em ação na forma de uma constelação infantil de representações ligadas à satisfação de determinadas condições, “condições para o amor”, terá relação com uma certa exigência de “superar a mãe em beleza desbancando-a diante do pai”. Rank nos faz pensar aqui que uma tal condição, assim como aquelas estabelecidas por Freud em relação aos homens, poderia ser estabelecida em relação às mulheres, como um tipo de escolha de objeto possível – neste caso baseado no princípio do “triunfo sobre a rival” – e que esta condição predisporia estas mulheres ao narcisismo. Para justificar seu argumento, o autor recorre a passagens do sonho buscando demonstrar em que medida a frustração desta condição se transfigura simbolicamente amor narcísico. Do ponto de vista metapsicológico, Rank afirma que a libido não satisfeita na realidade retorna sobre si mesma em sonho, conforme a “condição para o amor” a qual a sonhadora estava sujeita, exibindo assim cenas claramente narcísicas e cuidadosamente construídas para fins de satisfação substitutiva. Estabelecido o argumento, nosso autor recorre a uma série de exemplos extraídos da literatura com o objetivo de ilustrar seu ponto.

Retomando o “caso” da jovem sonhadora, Rank chama a atenção para o fato de a moça possuir uma admiração especial pela beleza feminina, em particular por retratos de mulheres belas, mais até do que pela visão de mulheres reais. O ideal de beleza assumido pela jovem, como o texto nos sugere, parece encontrar seu referente nas telas do pintor flamengo Peter Paul Rubens, artista do século XVII conhecido pelos seus nus sensuais de mulheres especialmente encorpadas e pelos seus retratos provocantes que exibem mulheres de olhar marcante[40].

Como podemos ler no relato de Rank, ambos os traços, corpulência e traços faciais marcantes, em particular o olhar, serão escolhidos pela sonhadora como qualidades estéticas essenciais. Serão estes também os traços que ela irá reconhecer em si mesma, em seu próprio corpo, aqueles que a caracterizariam como a possuidora de beleza singular. Rank vê aqui a expressão de um desejo comum entre o indivíduo narcisista e o homossexual; ambos teriam origem em uma certa constelação infantil sobre a qual já falamos, exibindo assim condições para o amor semelhantes. Encontrariam, no entanto, a sua diferença na escolha do objeto propriamente dito. Nas palavras do autor, enquanto o narcisismo “influencia a escolha de objeto dirigindo-a antes à própria pessoa”, a homossexualidade “define o sexo do objeto amoroso a ser escolhido”. No caso da jovem, haveria uma cota de homossexualidade que teria sido em um dado momento reprimida pelo desenvolvimento de sentimentos heterossexuais ligados à trama edípica e que retornaria na forma de narcisismo para fins de satisfação substitutiva. Desta forma, havendo uma mescla de elementos narcisistas e homossexuais, seu desejo seria reorientado em direção a pessoas que apresentassem uma imagem de si e que, ao mesmo tempo, evocassem a intensa relação vivida junto da mãe. Em termos psicossexuais, Rank nos explica esta complexa dinâmica da seguinte forma:

Sua primeira posição, temos que pensá-la como bissexual, isto é, indiferenciada; por conseguinte, (…) ela passou por um período intenso, ainda que breve, de fixação na mãe, o que fora suficiente para que (…) uma sobrepujante cota de sentimentos homossexuais inconscientes se estabelecesse de forma permanente. Esta imagem arcaica de uma ‘mãe sendo pela primeira vez amada’ [erstgeliebten Mutter] não pode agora (…) ser diretamente reanimada nos objetos amorosos. É então aqui que o narcisismo parece atuar modificando, fazendo com que a escolha de objeto passe a se orientar em direção a pessoas que apresentem uma imagem de si próprio (…). Estes objetos, em razão da semelhança que geralmente existe, em algum nível, entre mãe e filho, representam na realidade, por assim dizer, versões rejuvenescidas da primeira pessoa amada, isto é, representam uma resultante entre o eu e o progenitor (no caso, a mãe).

Não fica claro aqui se a relação com esta mãe, que parece determinar o surgimento da cota de sentimentos homossexuais inconscientes, poderia levar este corpo inicialmente dotado de uma sexualidade indiferenciada a assumir uma posição heterossexual caso não tivesse sido marcada por uma intensa fixação. Rank não chega a problematizar o fato de que, diferente do que acontece com homens, o primeiro objeto de investimento de uma mulher é também uma mulher, questão que na verdade não seria explorada senão muito mais tarde pela pesquisa psicanalítica[41].

De qualquer forma, é evidente que uma tal pergunta não mais se colocaria desta mesma forma em nossos dias. Em contrapartida, uma questão que parece poder ser ainda colocada, sendo inclusive de nosso maior interesse, é o lugar assumido por esta erstgeliebten Mutter, expressão que traduzimos não sem constrangimento pela deselegante frase “mãe sendo pela primeira vez amada”. Com esta noção, Rank traz a ideia de uma mãe que atua como um primeiro objeto de satisfação sexual para a criança, algo que de maneira descritiva fora definida por nós em nota como uma “mãe que fora pela primeira tomada por alguém como objeto de amor”.

Deve estar claro que se trata aqui de uma mãe que não é apenas uma responsável pelos primeiros cuidados, mas sim de um objeto capaz de amar, quer dizer, de oferecer ao bebê uma experiência de satisfação que não coincide totalmente com a experiência de nutrição. O modo estas primeiras experiências de satisfação irão determinar a futura orientação dos indivíduos que as vivenciaram, construindo assim, a partir de seus primeiros amores, as bases para as suas “condições para o amor”, é sem dúvida uma questão princeps para todo psicanalista.

Por fim, em tom de conclusão, Rank afirma ter reunido dados suficientes para justificar a existência de um grupo de mulheres de tendência homossexual, caracterizadas por ele de uraninas[42] em função de “sua escolha de objeto amoroso”, escolha marcada pelo intenso recalque de uma forte fixação primária na mãe e pela identificação com ela estabelecida. Em função desta identificação, tal escolha teria sempre a mãe como modelo. No que diz respeito ao uso do modelo materno, Rank cita Freud e Sadger de maneira genérica e parece se referir a certos traços da mãe que serão reconhecidos e apreciados nos objetos de amor escolhidos pela jovem. No caso de W., por exemplo, rapaz por quem ela se apaixona, serão reconhecidos certos traços de feminilidade. Por outro lado, no que concerne à componente narcísica do seu desejo, Rank afirma, ainda fazendo referência à relação da jovem com W., que “ela enaltece a si própria e ele a ama, consequentemente, ela também o ama, mas, na verdade, ama nele apenas a si mesma”.

Terminada esta primeira parte do artigo, tem então início o pós-escrito, que irá trabalhar quase que exclusivamente a partir do relato de um segundo e de um terceiro sonho, ambos sonhados pela mesma sonhadora. Ainda que não tenhamos até agora explorado esta dimensão, assinalamos no início deste comentário que cada um dos elementos constituintes dos enunciados propostos por Rank se baseiam firmemente na análise das produções oníricas oferecidas pela jovem. Neste sentido, podemos considerar o trabalho de nosso intérprete como exemplar e mesmo único, caso levemos em conta a literatura psicanalítica a qual estamos acostumados[43].

Dando então como dado este estudo, Rank irá trazer na segunda parte de seu artigo um sonho que fora sonhado pela mesma sonhadora depois dela ter tomado conhecimento da análise e da interpretação feitas pelo jovem Otto. Segundo ele, este sonho teria um caráter probatório, razão pela qual poderia ser considerado como um sonho de “confirmação” em relação à interpretação proposta pelo autor na primeira parte. Ainda nesta terceira parte, um terceiro sonho será também analisado em caráter complementar.

Pensar na ideia de “confirmação” no contexto dos sonhos, nos leva a refletir sobre o importante problema da validação intraclínica de enunciados teóricos em psicanálise. Poucos foram os psicanalistas que entraram neste debate de maneira direta. Por esta razão, creio valer a pena explorar aqui uma parte da argumentação de Rank a partir dos elementos oníricos por ele trazidos. Abordaremos primeiramente o conteúdo dos sonhos e, na sequência, problematizaremos a questão da confirmação de maneira mais ampla.

O relato de sonho exposto na primeira parte gira em torno da figura masculina designada como W., um rapaz por quem a jovem havia se apaixonado e de quem não recebia mais notícias já há algum tempo. Em sonho, ela recebe em sua casa um envelope enviado por este homem contendo dentro dele três outras cartas. A primeira era uma carta de amor, a segunda possuía um conteúdo poético do qual ela não se recordava muito bem e, enfim, a terceira era composta por uma série de retratos encadernados, um dos quais vinha representar a mulher feia com quem W. teria supostamente se casado, enquanto que o outro uma mulher muito bonita com quem a sonhadora termina por se identificar. De um modo bastante sintético, podemos dizer que Rank o interpreta associando a mulher feia, que aparece retratada em posição sentada, a sua rival, sobre a qual ela então triunfaria satisfazendo assim suas necessidades inconscientes de superação das concorrentes. Por outro lado, a mulher bonita é associada à imagem narcísica que ela faz de si mesma, como uma jovem dotada de uma beleza ímpar, capaz de atrair a atenção de todo e qualquer homem. De certa forma, ambas representariam a mãe, mas apenas a última condensaria mãe e filha em uma única imagem.

O segundo sonho, por sua vez, começa de modo semelhante, uma carta lhe é entregue, mas agora em seu domicílio. Trata-se de uma carta grande e pesada. Assim como a primeira, era composta por três elementos, neste caso, no entanto, três fotografias da sonhadora, uma sentada, uma de chapéu e uma retratando um busto em cores. Ainda dentro do mesmo pacote, aparece uma segunda carta, na qual M., seu ex-noivo, escreve dizendo não mais querer aquelas fotografias, isso pelo fato dela, a jovem, não mais demonstrar interesse por ele. Ao olhar seus retratos, ainda em sonho, a jovem se surpreende e se irrita com o fato dela parecer muito mais velha em um deles, o colorido. O sonho termina com ela olhando e se contentando em possuir novamente todos os seus retratos, inclusive o colorido. Finalmente ela acorda enquanto ainda os olhava. É curioso notar que, na realidade, após o término do noivado e ao saber que M. já possuía uma nova pretendente, tinha sido ela que lhe havia pedido para devolver os seus dois retratos que de fato estavam em seu poder. Tais retratos correspondiam àqueles que em sonho eram o “de chapéu” e o “busto em cores”. M., no entanto, não atende a seu pedido e, quando a jovem resolve fazer uma nova demanda pessoalmente, eles se encontram e ela acaba vendo um retrato de sua atual esposa. Sem qualquer constrangimento, ela teria lhe dito na ocasião que sua mulher era terrivelmente feia.

Na sequência, Rank se ocupa então de demonstrar de que modo o conteúdo do segundo sonho confirmaria a interpretação do primeiro. Tomarei aqui de maneira bastante simplificada apenas dois elementos de confirmação trazidos pelo autor. O primeiro diz respeito à fotografia que traz a imagem da sonhadora em posição sentada, presente nos dois sonhos e ausente na realidade. Segundo Rank, a insistência desta imagem no sonho – que ao mesmo tempo vem representar de maneira condensada a sua rival feia e a bela imagem que ela sustenta de si mesma – confirmaria a presença da fantasia fundamental ligada à fixação e à identificação com a mãe. O segundo, por sua vez, se afirma em relação à fotografia em que ela parece estar mais velha, a qual viria na realidade representar a atual esposa de M., também entendida como uma concorrente a ser superada e, portanto, alguém com quem ela buscaria se identificar expressando assim a mesma fantasia ligada à mãe. Em um comentário adicional, Rank endossa o seu argumento revelando que a jovem teria dito que ambas as mulheres pareciam ter em torno de 40 anos, “mais ou menos a idade da mãe” e que ela os tinha reconhecido em função de alguns traços faciais, como os olhos e a parte superior da testa, justamente os traços que ela teria em comum com a própria mãe.

Em um terceiro sonho, cujo conteúdo também inclui uma imagem feminina: uma pintura a óleo que retrata uma mulher nua, de cabelos longos e ondulados, de profundos olhos negros, face rosada, seios belos e bem formados – como a sonhadora afirma serem os seus – entre outros atributos. A sonhadora de início é levada a identificá-la a alguém e, finalmente, em um momento posterior, conclui que “se P.” pudesse vê-la, “certamente iria agrada-lo”. Na sequência, o retrato some e uma moça com as mesmas características surge no meio de um salão. Um cavaleiro de uniforme e barba bem feita se aproxima e flerta com a moça. De repente, a sonhadora se reconhece nesta moça em função das suas olheiras azuladas de nascença e, na sequência, o mesmo cavaleiro retorna com o objetivo de lhe fazer algum bem. Nisso, a moça dá meia volta, corre para longe e o sonho se acaba.

Mais uma vez vemos aqui a presença de uma outra mulher com quem a jovem se identifica. O homem que em sonho é identificado como P. é descrito como um de seus admiradores e que aparece condensado com W. na figura do cavaleiro, que por sua vez reunia respectivamente duas características próprias a cada um dos pretendentes, o uso do uniforme e a barba bem feita. Um breve sonho relatado em nota de rodapé ainda na primeira parte do artigo pode agora nos vir em apoio. Cito aqui na íntegra este sonho que:

(…) apresenta uma fantasia de adultério da mãe com um pretendente da jovem. O pai, quando o descobre, considera então casar com a filha, consumando assim uma união cuja legitimidade deveria ser afirmada através da negação da relação de parentesco consanguínea entre ambos, o que se justificaria em função da fantasia de adultério da mãe.

Levando em conta esta sequência, uma relação com as Liebesbedingungen da sonhadora, isto, com as “condições para o amor” eleitas pela jovem, parece poder ser estabelecida sem muita dificuldade. O cavaleiro que condensa W. e P. no terceiro sonho aparece personificado neste último na figura do pai, enquanto que a mãe aparece representada na bela mulher que se relaciona com o pretendente da jovem. Ao que tudo indica, este suposto pretendente é um desdobramento da figura paterna, o pai que a abandona, sendo a bela moça de profundos olhos negros uma representante da mãe, com quem a jovem se identifica com o objetivo de desbancá-la, triunfando assim sobre a sua concorrente. O ciclo então se fecha e o desejo insatisfeito na realidade se realiza em sonho.

Desenvolvido o argumento exposto pelo autor em seu pós-escrito, poderíamos então agora, em tom crítico, nos perguntar: em que medida esse estudo comparativo de diferentes sonhos pode ser realmente entendido como um procedimento de confirmação? O que nos garantiria que Rank, enquanto intérprete e enquanto sujeito desejante, não estaria selecionando apenas os sonhos e as partes de sonhos que vêm corroborar sua hipótese interpretativa? Ou então, por que não considerar o sonho de confirmação como um sonho de sugestão, quer dizer, um sonho induzido pelo intérprete através de sua interpretação?

Seguindo aqui a lógica implícita a qualquer investigação científica realizada no início do século XX, podemos dizer que um enunciado hipotético deve ser construído a partir da observação, quer dizer, deve estar baseado em fenômenos observáveis, para que, em um segundo momento, possa ser ou não confirmado através da experiência. O trabalho de confirmação por meio da confrontação de um enunciado com a experiência é, por sua vez, chamado de procedimento de verificação. Se, na experiência, um tal enunciado se verifica, então dizemos que ele foi confirmado, caso contrário, ou seja, se ele não se verifica, dizemos então que ele foi infirmado.

Tomando agora o caso particular da investigação conduzida por Rank, podemos em princípio dizer que seus enunciados estão baseados em dados da observação, notadamente na observação elaborações oníricas representadas em alguns sonhos construídos por uma jovem. Por meio de uma mescla de dados oriundos desta observação e de dados oriundos da observação de outros pesquisadores, Rank constrói então uma hipótese ligada às motivações inconscientes destes sonhos. Em um segundo momento, ao submeter este enunciado hipotético à experiência, analisando para tal um segundo e um terceiro sonho produzido por esta mesma jovem, nosso intérprete parece então verificá-la, confirmando assim sua hipótese. Neste sentido, ao menos no que diz respeito a seu aspecto formal, poderíamos considerar o procedimento descrito por Rank como um verdadeiro procedimento de validação.

Se o jovem Otto teria ou não forjado tais dados para fins de satisfação pessoal, não temos como saber, pois seria impossível reproduzir a experiência de Rank tal como ela foi vivenciada em meados de 1910. Em todo caso, talvez fosse possível a um psicanalista clínico realizá-la com um de seus pacientes, de preferência um que apresente os mesmos traços de caráter da sonhadora de Rank, permitindo assim a emissão de algum juízo a este respeito. Caso haja verificação em algum nível, poderíamos finalmente pensar em alguma forma de generalização, afirmando, por exemplo, a existência de um tipo de escolha objetal marcada pela Liebesbedingung exibida pela jovem cujos sonhos foram estudados por Rank. Ao que tudo indica, foi assim que os primeiros psicanalistas chegaram a afirmar algumas generalizações que hoje tomamos como certas, como é o caso das hipóteses ligadas à afirmação de certos mecanismos neuróticos de defesa, por exemplo.

A respeito das condições de possibilidade de um tal procedimento de verificação que teria lugar na clínica, Freud, em um texto por nós já citado sobre um “tipo de escolha de objeto feita por homens”, sugere algo que parece vir ao encontro destes questionamentos. Considerando a psicanálise como uma ciência da vida amorosa, o psicanalista afirma que observação e a experiência científicas representam a “mais completa renúncia do princípio do prazer que a nossa atividade psíquica é capaz de fazer” e que, portanto, mesmo sendo o cientista um sujeito do desejo, seria ele, mais do que qualquer outro, capaz de “se privar da obtenção de um prazer maior” em prol do conhecimento[44]. É verdade que, do ponto de vista filosófico, este modelo de ciência, baseado no princípio da “menor desonestidade”, se mostra hoje ultrapassado, mas é também verdade que, ao menos do ponto de vista da prática científica, falte-nos outro melhor.

De qualquer forma, partindo de alguns questionamentos contemporâneos sobre as condições de existência de uma verdadeira experiência no contexto psicanalítico, sobretudo a partir dos anos 1980 – com o aparecimento dos argumentos trazidos filósofo Adolf Grünbaum – poderíamos problematizar também aqui o estatuto empírico disso que o psicanalista tem acesso na clínica. Não teremos como desenvolver esse ponto neste curto comentário, mas é certo que um psicanalista influencia muito mais seu objeto de estudo, contaminando-o com suas próprias expectativas e anseios, do que um físico influencia a estrutura da matéria ao estudá-la – ainda que este último dependa muitas vezes de instrumentos de observação que por si só podem determinar o conteúdo de suas observações.  Em relação a isso, no entanto, seríamos levados a responder dizendo que há uma dimensão do objeto de investigação visado pela psicanálise que possui uma absoluta autonomia, seja em relação aos sujeitos por ele governados, seja em relação aos analistas por ele provocados. Haveria, portanto, uma dimensão objetiva disso que se convencionou chamar de psiquismo inconsciente, dimensão essa capaz de ser, portanto, apreendida e estudada de maneira positiva. Para ter acesso a tal “objetividade”, temos apenas que nos esforçar para não nos comportarmos como a sonhadora de Rank que, como sugere o psicanalista em seu artigo, não era capaz de se dirigir ao mundo dos objetos senão através de uma “lâmina de projeção”, transformando-o em “um quadro emoldurado de seu amado e admirado eu”. 

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Uma contribuição sobre o narcismo

Otto Rank

Desde que Havelock Ellis chamou a atenção para o estado patológico da paixão por si mesmo como uma forma especial de autoerotismo[45], tal fenômeno [Erscheinung] que Näcke nomeou de “Narcisismo“ [Narzissismus][46] por indicação de Ellis[47], não voltou a ser tratado senão de forma ocasional e isolada por alguns pesquisadores[48]. Mas, com exceção de algumas interessantes observações casuísticas e literárias, feitas principalmente por Ellis[49], nada veio a se saber sobre a origem e o sentido profundo desse curioso fenômeno [Phänomen]. Estaria, portanto, reservada à pesquisa psicanalítica o lançar de uma primeira luz sobre a gênese e as supostas ligações psicossexuais dessa forma singular de emprego da libido, mas sem que com isso se tivesse podido apreender em toda sua dimensão seu significado para a vida mental e amorosa dos seres humanos.

Experiências recentes em psicanálise, principalmente junto a pacientes com tendências homossexuais [gleichgeschlechtlichen Neigungen][50], têm nos mostrado que o Narcisismo – a paixão por si mesmo – pode ser interpretado como um estágio normal do desenvolvimento que acompanha a puberdade, e que virá determinar a transição necessária do mais puro autoerotismo ao amor objetal. A psicanálise de homens invertidos nos ensinou como a permanência nesta etapa de transição narcísica pode determinar sua futura orientação homossexual[51]: estes atravessaram “(…) nos primeiros anos de sua infância uma fase muito intensa, ainda que breve, de fixação na mulher [Weib] (em geral a mãe). Superada esta fase, identificam-se então com essa mulher e tomam a si mesmos como objeto sexual, ou seja, partindo do Narcisismo, buscando assim homens jovens e semelhantes a si mesmos a quem tendem a amar tal como a mãe os amou”[52]. Ao que tudo indica, esse mecanismo particular de recalque, dificilmente observado em sujeitos heterossexualmente orientados, está de fato por trás de um tipo específico de homossexualidade masculina. Faltam-nos, em contrapartida, a experiência e a explicação psicanalíticas para a compreensão da tendência à inversão na mulher, o que é bastante lamentável, dado que as tendências homossexuais latentes (inconscientes) na vida mental e amorosa de mulheres normais são aparentemente muito mais intensas e menos inibidas do que em geral se observa nas amizades entre homens, estas altamente sublimadas. A breve comunicação aqui proposta não pretende, de forma alguma, dar conta de todas as lacunas de nosso conhecimento a respeito do tema, mas sim fazer uma humilde contribuição sobre a questão do narcisismo feminino capaz de mostrar, por um lado, como a paixão pelo próprio corpo tem implicações em boa parte da vaidade feminina normal e, por outro, como ela se relaciona intimamente com uma tendência à inversão, mesmo que inconsciente, e, por fim, como ela pode se fazer valer também em uma vida heterossexual normal.

Trataremos aqui do caso de uma jovem que não pode ser considerada como particularmente neurótica ou manifestamente invertida, mas cuja tendência homossexual latente pode ser demonstrada através da análise minuciosa de um de seus sonhos[53]. Ela narra detalhadamente o seguinte sonho narcísico, cuja interpretação deve se limitar essencialmente ao complexo narcísico predominantemente nele contido, e cujas relações mais distantes, que vêm dar contorno a esse complexo essencial, serão apenas mencionadas.

Sonho

“A campainha tocou. A criada bateu em minha porta e disse: tem uma carta para a senhora, e me trouxe a carta na cama. Era um envelope azul, impresso em preto, como o de uma loja. Eu pensei: de quem será esta carta? mas logo me ocorreu que era de W. Fiquei muito feliz, me sentei e rapidamente abri a carta. Em seu conteúdo havia três cartas que estavam dobradas como um livro. A primeira era uma carta de amor, cujo conteúdo era mais ou menos o assim: ele estava muito feliz por eu lhe ter escrito e agora ele tinha meu endereço. Ele estava mais uma vez surpreso em receber notícias minhas. Ele sempre pensava em mim, olhava todo dia minha imagem [uma grande pintura a óleo] e invejava aqueles que podiam me ver pessoalmente. Ele contou que estava casado e perguntou como eu estava. Ele achava que eu também estava feliz casada e que tudo ia bem comigo. Disse que embora tivesse uma esposa, pensava muito mais em mim (ao ler, pensei que ele teria querido casar comigo, mas que talvez acabou tendo que se juntar a uma mulher mais rica). Aliás, ele me mandou junto da carta um retrato de sua mulher. tomei então em mãos a segunda carta, na qual vinha impresso na parte superior em preto: Em sonho. Do conteúdo, que era muito belo e poético não me lembro de nada. Pensei apenas que ele tinha escrito a carta em sonho, ou seja, em devaneio [fantasia], ele deitara-se estirado e sonhara “vivamente”. Então pensei, agora preciso procurar sua mulher, e peguei a terceira carta que tinha os retratos encadernados como em um livro. Comecei a folhear do início. Primeiro apareceram uns bustos meio foscos que não me interessaram. Então voltei a folhar até que um retrato bonito apareceu e, diante dele, pensei: essa não pode ser a mulher dele, ele não deve ter uma mulher tão bonita! Folheei mais uma página e logo voltei para aquele belo retrato para verificar o que estava escrito embaixo, se não era mesmo a mulher dele. Então eu vi que não era ela, pois estava escrito outro nome embaixo (que me era conhecido, mas do qual não consigo me lembrar). Continuei folheando e de novo apareceu uma mulher, menos bonita que a outra e, abaixo dessa imagem, li o nome da mulher dele (ou seja, o nome dele). E aí eu pensei: bom, com uma mulher assim, acho que ele pensaria sempre em mim mesmo. Folhando, voltei então para a foto bonita e a olhei profundamente. Era uma silhueta nua (ou usando um collant) na posição sentada, os braços estavam cruzados sobre o peito e as pernas, retas, esticadas e cruzadas embaixo[54]. Olhei principalmente o rosto e a metade inferior do corpo. O que me chamou mais a atenção foi o rosto: primeiro o cabelo e o penteado amarrado com uma faixa. Logo pensei: ela o usa do mesmo jeito que eu. Seus olhos lembravam os meus em um de meus retratos, e também a forma do rosto era como a do meu. Suas belas pernas me chamaram a atenção, assim como seu ventre, que também lembravam o meu próprio corpo. Eu gostei muito do retrato e mergulhei meio que apaixonadamente nisso que essa imagem transmitia [Anblick]. Fiquei olhando-a por um longo tempo e então pensei: poderia ter sido pintado por Rubens (talvez Rubens a tenha pintado)[55]. Depois disso fiquei com a impressão de ter falado com W., mas não tenho certeza se isso de fato aconteceu, nem de que forma teria acontecido: se eu estava lá, ou se era ele que estava aqui. Via apenas seu rosto, sua cabeça, diante de mim”.

Eis a atual situação da sonhadora, que se mostra claramente presente na superfície do sonho e que fornece, por assim dizer, um enquadramento para esse expressivo reflexo de sua vida mental inconsciente. Diante de um conflito psicológico profundo e visivelmente intenso, que culminaria no dilema entre ter uma posição social autônoma ou um marido, a jovem tinha se colocado a seguinte questão: deveria ela deixar sua cidade atual e, lançando-se à própria sorte, dirigir-se a uma cidade em particular na região central da Alemanha pela qual ela teria especial adoração? Um impulso [Impuls] como esse, do contrário totalmente desmotivado, explica-se por ela alimentar em segredo a esperança de, na tal cidade, encontrar um jovem rapaz que no passado a havia idolatrado e do qual havia guardado uma carinhosa lembrança, mas de quem também, há alguns anos, não tinha mais ouvido falar. Esse jovem rapaz é a pessoa do sonho designada por W. Toda série de detalhes a respeito deste jovem podem ser entendidos como simples reminiscências da época em que os dois se relacionaram. Daí o envelope azul impresso em preto, normalmente usado por ele nas cartas a ela endereçadas durante seus períodos de ausência. Da mesma forma, a parte da carta em itálico e negrito que ela lera em sonho tem origem em um de seus escritos, que ela teria lido tantas vezes a ponto de decorar seu conteúdo. Como recordação, ele tinha obtido uma pintura a óleo a representando, e teria escrito na referida carta justamente a frase que ela cita em sonho, a saber, de que ele sempre pensava nela e que olhava todos os dias para seu retrato, invejando aqueles a ela próximos que poderiam ver sua real imagem. O que antecede esta simples frase recordada na carta do sonho, e o que a ela se segue (itálico), não têm mais origem nas reminiscências de cartas reais, mas sim em fantasias, em parte manifestas, em parte veladas, de realização de desejos. Ela havia pensado nisso antes do projeto de se lançar à própria sorte no interior da Alemanha, buscando eventualmente saber se ele ainda se encontrava lá, ou se por acaso já não estava casado. Mas em razão de sua habitual indecisão, desistiu novamente da ideia. O sonho mostra então a sua intenção de escrever para ele. A carta de W. vem em resposta a sua e à comunicação feita a ele de seu endereço. A tendência à realização de desejo fez com que ela recebesse uma carta dele, sem que ela tivesse de dar esse primeiro passo por ela anunciado no início. O final da carta, em que ele comunica seu casamento, expressa por sua vez seu temor secreto e contradiz não apenas a primeira parte da carta, mas também a tendência à realização de desejo. Por outro lado, porém, sugere como já consumado também o casamento da sonhadora (ainda que com outro homem). A aparente contradição da realização de desejo na comunicação do casamento de W. encontra solução e explicação na revivescência de uma constelação infantil que se tornou uma condição para o amor [Liebesbedingung] nesta jovem. Para melhor esclarecer este ponto, nos guiaremos aqui pela interpretação da cena narcísica propriamente dita.

Por estar ela ocupada com pensamentos matrimoniais ligados a W., era compreensível o seu interesse em saber se o seu pretendido estava ou não casado e, caso estivesse, seria igualmente compreensível a sua curiosidade em relação à aparência de sua atual mulher. De certa forma, esta teria ocupado o seu lugar, tal como na fotografia, onde outra mulher havia de fato ocupado o seu “lugar”[56]. O sonho a tranquiliza em relação a isso: ele teria se casado com outra apenas por motivos materiais, com uma mulher inclusive menos bela, sendo que a admiração pelo seu retrato não teria diminuído. Esse triunfo sobre a rival, em meio ao qual até mesmo a esperança de se casar com W. vem a ser abandonada, aparece como uma condição para o amor [Liebesbedingung] que tem a sua origem na relação estabelecida pela sonhadora durante a sua infância para com seus pais, da exigência de superar[57] a mãe em beleza, desbancando-a diante do pai. Enfim, tal como acontece na fábula da Branca de Neve – em que a rainha volta-se novamente em vaidosa contemplação de seu eu no espelho após triunfar sobre a sua concorrente – a libido de nossa sonhadora, desapontada em suas esperanças, recorre a si mesma[58]. É em torno da tenra contemplação e descrição das suas qualidades que gira toda a cena seguinte do sonho.

Não há como negar que, após realizar tal descrição no sonho, a sonhadora tenha admirado a si mesma no belo retrato. Com naturalidade e sem dificuldade, ela se reconhece conscientemente no retrato e acrescenta que a maneira de cruzar os pés, destacada no sonho, já seria o suficiente para que esta aproximação fosse feita. Esta era a sua posição preferida, especialmente quando ficava deitada, “sonhando acordada” (fantasiando), assim como atribui no sonho a W[59]. O fato de ela não se reconhecer no sonho pode ser atribuído, primeiramente, ao trabalho da censura, para a qual a paixão consciente por si própria é demasiado obscena. Ao mesmo tempo, pode também representar um fino traço que claramente denuncia o fundamento narcisista da paixão homossexual, pois, de acordo com o conteúdo manifesto, ela se apaixona por um retrato feminino que se parece com ela mesma “a ponto de se confundir”. Talvez seja exatamente por isso que ela se apaixone, por ser tão semelhante a ela.

Esta paixão pela própria imagem, inicialmente não atribuída a si mesmo e que claramente denuncia a influência narcisista na escolha do objeto de amor homossexual, está na base da lenda euboico-beócia de Narciso. Nas Metamorfoses de Ovídio[60], Narciso se apaixona de tal forma por seu próprio reflexo na água que chega a tomá-lo pela imagem real de um belo rapaz que ele ali via. Ao que parece, é fazendo uso de certa licença poética que o poeta latino atribui o aparecimento desse estranho amor próprio a uma forma de punição pelo desdém do amor de Eco, enquanto que Wieseler[61] se limita a relacionar o mito à frieza do amor próprio. Mas é claro que no mito apresentam-se também impulsos homossexuais: Amina se suicida defronte a porta de Narciso quando este lhe envia uma espada como resposta à declaração de seu amor [62]. De acordo com a representação nos murais de Pompeia[63], Narciso também desnuda seu corpo para admirar suas belas formas na água[64].

A personificação do próprio reflexo se expressa de forma ainda mais clara em uma lenda análoga [Parallelsage] narrada por Plutarco a respeito de Eutelidas[65]. De tão belo que se mostrava o próprio rosto refletido no espelho d´agua, Eutelidas acaba adoecendo de seu próprio olhar zangado, levando-o assim a perder ao mesmo tempo sua beleza e sua paz:

Crinibus Eutelidas olim vel Apolline dignis

conspicuus, visu se fascinat ipse maligno

fluminis in speculo: turpis tunc excipit aegror . . .[66]

Ao ser diretamente questionada, a sonhadora admite sem constrangimento ter sentido uma certa paixão por si mesma desde a puberdade. No decorrer dos anos, esta paixão teria apenas se intensificado[67] em função da admiração e veneração ocasional manifesta tanto por homens como por mulheres. Em primeiro lugar, era obviamente o seu rosto aquilo que em particular mais a agradava; depois, em um movimento de admiração crescente, sua adoração ia do ventre aos quadris, chegando, por fim, às pernas[68]. São também estas partes do corpo que ela observa em mulheres belas e de físico bem trabalhado, especialmente em retratos – o que ganha inclusive expressão no sonho. A estas se somam ainda a visão dos belos e volumosos cabelos, assim como a dos olhares sedutores, atributos que a bem dizer despertam nela própria grande orgulho e vaidade.

Este tipo de projeção imagética, plena de afeto [liebevolle Ausmalung], da beleza de seu próprio corpo no sonho assemelha-se aos incontáveis autorretratos que quase todo grande pintor deixou. Parece indubitável que esse tipo de estudo realizado em detalhe, assim como a reprodução plena de afeto das próprias feições, estão na base de uma paixão narcísica pela própria imagem, sendo que a série de autorretratos registrados em tela com incomparável maestria por Rembrant[69], o grande retratista, nos permite supor uma profunda relação da arte do retrato com uma certa forma de sublimação da paixão narcísica.

No romance de Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray[70], em que já de saída o que está em jogo é também a paixão pela própria imagem que vem revelar ao herói sua própria beleza[71], o pintor Basil Hallward diz abertamente: “Todo retrato pintado com sentimento é o retrato do artista, não do modelo. Este é apenas o pretexto, a oportunidade dada a isso. Não é ele que é representado pelo pintor, mas sim o pintor que se revela a si mesmo na tela colorida”[72].

Uma situação análoga parece estar na base da representação poética de si [poetischen Selbstdarstellungen], além de também colaborar com ela, quando atores escrevem papéis para si mesmos ou poetas atuam em suas próprias peças.

Ainda que possa parecer desnecessário, vale destacar que a vaidosa jovem tem o hábito de se olhar no espelho – não raro seu corpo nu[73] – que contempla quase todas as manhãs enquanto permanece deitada na cama com as pernas cruzadas. Porém, essa admiração narcísica da própria imagem refletida, que serve de base para a fábula grega de Narciso, é um fenômeno tão recorrente, frequente e típico que vale a pena realizar aqui uma breve divagação a respeito de seus pormenores.

Em outro de seus sonhos, ela via em um grande espelho (como se estivesse em pé sobre um cavalete) o reflexo de seu corpo até a altura do busto, o que muito lhe agradou. Mas o que ela via era apenas a imagem no espelho e não sua própria pessoa diante dele, o que remonta ao fato de que, na noite anterior, ela teria visto em uma galeria “uma imagem em abismo” [“Bild im Bild”][74] semelhante: uma moça nua que se olhava no espelho sendo observada por um terceiro cuja imagem podia ser vista apenas no reflexo do espelho. Também em seus sonhos anteriores[75], cenas em espelhos relacionadas a traços de vaidade assumem um papel importante. Em uma situação posterior, ela declarou abertamente que chegava com frequência a excitar-se sexualmente enquanto, sem pressa, penteava-se em frente ao espelho. Às vezes tal experiência era também acompanhada de certa irritação. – Para Bloch[76] “não há como negar que alguns rapazes e algumas moças se excitem sexualmente ao olharem seus próprios corpos no espelho. Possivelmente, a representação do próprio eu nu no espelho pode também influenciar a fantasia em um sentido anormal, especialmente naquilo que se refere à sensibilidade sexual ainda indiferenciada, quando há ainda o desconhecimento do outro sexo”. [Albert] Moll[77] menciona o caso de um homem heterossexual que tinha paixão por despir-se e examinar-se nu diante do espelho e, diante da imagem obtida, comparar sua beleza a de outros homens. Ele desenhava também a Genitalia virorum[78] e teria declarado tendências homossexuais.

De acordo com Ellis[79], o novelista espanhol [Juan] Valera[80] descreveu há alguns anos, em Genio y figura[81], este impulso [Trieb] de admirar-se no espelho. Sua heroína Rafaela diz diante do lago: “eu imito narciso, coloco meus lábios sobre o vidro gelado e beijo minha imagem refletida.” – Näcke relata a respeito de um jovem rapaz com Dementia praecox que beijava seu próprio reflexo[82]. No mesmo sentido, a verdadeira heroína de Diário de uma moça perdida [Tagebuche einer Verlorenen] escreve: eu sou linda, me alegra atirar uma peça de roupa após a outra e me olhar no espelho[83].

Também Goethe sugere algo semelhante em “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister”[84]. No livro, um jovem apelidado de Narciso em função de sua natureza presunçosa é ferido por um ciumento capitão. Sua futura noiva, fazendo-lhe o curativo, mancha-se de sangue e narra a seguinte cena: “A dona da casa conduziu-me então ao seu quarto; obrigou-me a me despir completamente, e, tão logo meu corpo se viu limpo de todo aquele sangue, devo confessar que, ao casualmente mirar-me no espelho, me dei conta pela primeira vez que, mesmo sem vestes, poderia considerar-me bonita”.

Ela gosta muito de ver belos retratos de mulheres (“Rubens”), até mais do que mulheres reais[85]; isso menos em razão dos corpos nus e mais em função de seu interesse pelos rostos e pelos traços faciais, que ela costuma comparar com os seus próprios, assim como o fez em sonho em relação aos dois retratos. A íntima dependência entre os interesses [Belagen] homossexuais e narcisistas se expressa aqui mais uma vez. Em todo caso, no entanto, parece que o Narcisismo, que surge de forma clara apenas na puberdade, influencia a escolha de objeto dirigindo-a antes para a própria pessoa, ao passo que a homossexualidade, igualmente manifesta de forma decisiva na puberdade, define o sexo do objeto amoroso a ser escolhido. Aqui também, mais uma vez, vemos como esses dois determinantes da escolha amorosa estão indiretamente ligadas pelo ideal infantil. Já se sugeriu que a concorrente “menos bela” representa no segundo retrato uma substituta da mãe que, em última instância, despertou e determinou o sentimento homossexual da jovem[86]. Sua primeira posição, temos que pensá-la como bissexual, isto é, indiferenciada; por conseguinte – assim como já é sabido a respeito de um tipo [Typus] de homossexualidade masculina – ela passou por um período intenso, ainda que breve, de fixação na mãe, o que fora suficiente para que, mesmo após a enérgica repressão dessa tendência homossexual e também do desenvolvimento de sentimentos heterossexuais manifestos (posição ou atitude incestuosa [Inzesteinstellung]), uma sobrepujante cota de sentimentos homossexuais inconscientes se estabelecesse de forma permanente. Esta imagem arcaica de uma “mãe sendo pela primeira vez amada” [erstgeliebte Mutter][87] não pode agora, seja em razão da repressão da afeição a ela dirigida, seja em função da diferença de idade (beleza) – o que seria constrangedor para um indivíduo sexualmente maduro – ser diretamente reanimada nos objetos amorosos. É então aqui que o narcisismo parece atuar modificando, fazendo com que a escolha de objeto passe a se orientar em direção a pessoas que apresentem uma imagem de si próprio, tendo principalmente como critério idade e beleza. Estes objetos, em razão da semelhança que geralmente existe, em algum nível, entre mãe e filho, representam na realidade, por assim dizer, versões rejuvenescidas da primeira pessoa amada, isto é, representam uma resultante entre o eu e o progenitor (no caso, a mãe)[88].

Esta tendência ligada ao rejuvenescimento [Verjüngungstendenz], assim como e em igual medida, as raízes desta tendência na paixão por si mesmo, se denuncia claramente nos desejos abertamente expressos de nossa sonhadora: permanecer para sempre jovem e bonita como ela é agora. Um certo grupo de homossexuais masculinos realiza este mesmo desejo escolhendo homens sempre mais jovens e a eles semelhantes em um estágio específico de seu desenvolvimento, isso com o objetivo de eternizar a sua própria pessoa como objeto amoroso. Algo semelhante, ainda mais claramente narcisista, pode ser lido no interessante romance de Wilde[89], quando o desejo precipitado de seu herói indubitavelmente homossexual, Dorian Gray, se realiza: o desejo de permanecer sempre belo e intacto como seu retrato de juventude o representa, fazendo com que os rastros da idade, do pecado e da ruína fossem projetados na pintura[90]. Primeiramente, Dorian, que é caracterizado diretamente como Narciso[91], ama seu próprio retrato, e então seu próprio corpo: “Passara muitas manhãs sentado em frente ao retrato, às vezes quase dele enamorado”— “Uma vez, num infantil arremedo de Narciso, beijara, ou fingira beijar, aqueles lábios pintados”. Quando, no entanto, o retrato começa a se tornar mais velho e feio, e a mostrar a ele todos os seus pecados, como um espelho de sua alma, ele passa então a odiá-lo, e o retira do alcance de seus olhos[92]. Mas a intuição do poeta não conhece apenas o estágio defensivo do narcisismo e o objeto de amor narcísico (da homossexualidade), ele também conhece a neurose que surge na base do narcisismo, mesmo que superficialmente superado, mas ainda não completamente recalcado. Tal como revelado pelo artifício pictórico da imagem em abismo [Bild im Bild], o poeta faz com que o próprio herói de seu romance leia um romance cujo herói tinha — em direta e explícita oposição a Dorian Gray[93] — “um terror um tanto grotesco dos espelhos, e das superfícies de metal polido e das águas paradas que se apoderara do jovem parisiense muito cedo e que fora causado pela súbita decadência de uma beleza que outrora havia sido, indubitavelmente, tão extraordinária”.

A propósito, o poeta menciona de maneira aparentemente bastante despropositada, a “constrangedora semelhança” [auffallende Ähnlichkeit] de Dorian com sua mãe[94], de quem “herdara a beleza e a paixão pela beleza dos outros”[95]. Vemos aqui que o narcisista não apenas pode direcionar seu amor objetal apaixonando-se homossexualmente pela imagem de um outro de si mesmo mais jovem, como também, e a priori, tomando e retomando no próprio corpo o corpo de uma outra pessoa outrora amada (aqui, a mãe). Muito parecida é a atitude de Narciso que, de acordo com a versão de Pausanias[96] da fábula grega, contempla o próprio reflexo não buscando exatamente nele a própria imagem, mas sim a de sua amada, idêntica a ele em aparência e vestimenta, como uma irmã gêmea[97], que já havia sido levada pela morte[98].

Partindo então de nosso caso de homossexualidade latente, assim como de outros casos análogos e oriundos da literatura, teríamos enfim as condições para comprovar [belegen] a existência de um grupo de uranianas [Urninden][99] caracterizado pela fixação da tendência à inversão [Fixierung der Inversionsneigung] e pela sua escolha primária de objeto amoroso, esta marcada pelo intenso recalque de uma forte fixação primária na mãe e pela identificação com ela estabelecida. Levando em conta a tendência narcísica (rejuvenescimento[100]), tal fixação resultaria na escolha de objetos sexuais que teriam a própria mãe como modelo, revelando assim exatamente o mesmo mecanismo reconhecido por Freud e por Sadger em um determinado grupo de homens invertidos[101]. No entanto, considerando seus sentimentos em um nível manifesto, nossa sonhadora é heterossexual. Isso demonstra que a cota de amor objetal destinada à mãe era bastante reduzida e que o intenso recalque dessa tendência atenuou sua influência no contexto de sua vida amorosa, impedindo assim que sua homossexualidade se tornasse manifesta. Ainda assim, como nos atesta claramente o sonho, o componente narcísico se mostra bastante presente, impondo-se também de forma interessante na vida amorosa normal da jovem. Ela diz não ser capaz de compreender o comportamento de outras moças que se mostram dispostas a amar um homem sem serem – ou sendo pouco – correspondidas. De um homem amado, ela exige um amor especialmente apaixonado[102], cheio de idolatria e veneração[103]. Ela afirma: “Eu só posso amá-lo se ele me ama, do contrário não poderia amá-lo” e, com isso, nos revela que ela só pode amar esse homem, escolhido indiretamente a partir de determinadas condições[104], através de sua própria pessoa: ela o ama porque ele a ama, de certa forma como uma recompensa por ele reconhecer sua beleza e seu valor. Ou, expresso matematicamente: ela enaltece a si própria e ele a ama, consequentemente, ela também o ama, mas, na verdade, ama nele apenas a si mesma.

O verdadeiro sentido do sonho, seu lugar e sua importância no interior da vida anímica desta jovem, torna-se agora facilmente compreensível. A partir de sua atual indecisão no que diz respeito ao casamento, de sua recusa à vida amorosa heterossexual, assim como – e em consequência disso – da indeterminação na escolha de um homem, a sonhadora se lança regressivamente ao estágio anterior do narcisismo, exprimindo assim um pensamento que poderia em poucas palavras ser formulado da seguinte forma: o melhor seria que eu ficasse comigo mesma, amando a mim mesma[105]. Esta paixão por si mesma sustenta também uma boa parte de seu intenso egoísmo. Ela teria preferido ficar com o retrato dado de presente a W. como lembrança, e gostaria muito de ainda agora tê-lo consigo. Logicamente, ela justifica este desejo egoísta e narcisista, o qual vem claramente simbolizar a substituição de sua pessoa (seus retratos) pelo homem (W.) e o retorno da libido sobre si mesma, argumentando ser ele um homem casado, razão pela qual tal retrato não teria mais qualquer valor (o sonho mostra o contrário: por ele ser casado, o retrato passa a ter ainda mais valor). Ele também não mereceria mais possuí-lo se não mais o olhasse diariamente, como ele teria outrora escrito. Ela quer saber se ele ainda o admira e quanto a isso o sonho também a tranquiliza. Ou seja, ela não concede a ele o seu retrato, assim como não lhe concede a posse dela mesma (não é possível que ele tenha uma mulher tão bela; volta então algumas páginas[106] para ver se quem sabe não seria ela a sua mulher, se ele não teria casado mesmo com ela, mas novamente constata que não). Ela tem por si mesma tanto mais amor do que um outro poderia vir a ter, caso ela o concedesse sua mão. Enfim, ela só poderia amar outra pessoa indiretamente, através do amor dirigido a si mesma[107]. Suas reflexões sobre o casamento encontram resistência em seu íntimo em dois sentidos: ela gosta demais de si mesma para isso[108] e ela prefere manter uma enorme parte de sua libido fixada em si mesma. É também por isso que a análise do sonho mostra a cota principal de afeto concentrada na própria imagem e não no pretendente, como poderia parecer em princípio[109], o que não vem servir senão como uma lâmina de projeção [Folie] cuja função seria a de permitir autoadmiração e enaltecimento próprio.

Enfim, uma última observação a respeito da estrutura e da técnica próprias a este sonho pode ainda ser feita, a partir da qual seremos capazes de completar a cadeia dos pensamentos diurnos responsáveis por dar contorno à imagem onírica. No início, quando ganha expressão o conflito entre os pensamentos e as exigências do meio ligadas à possibilidade ou não de casamento (entre W. e um outro homem e entre ir embora e ficar), W. e sua carta permanecem em primeiro plano. Na sequência, o sonho se desvia do casamento de W. para o núcleo da situação narcísica e, de uma hora para outra, termina novamente na questão de W., que nesse meio tempo esteve totalmente ausente. No desfecho do sonho, ela vê então o rosto de W. e fala com ele, o que pressupõe que ambos dividem um mesmo espaço. Ela parece com isso manifestar um tipo de compreensão sobre sua própria indecisão, quando mostra não saber no sonho se é ela que está lá ou se é ele que está aqui, junto dela, como em sua carta. Estaríamos, portanto, fazendo mais do que uma mera alusão quando falamos em sentido figurado sobre o conteúdo central do sonho, isto é, ao falar de um enquadramento [Rahmen] de reminiscências diurnas atuais e fantasias e de uma imagem inconsciente projetada desde o interior da própria constituição anímica e que encontra expressão na cena narcísica. Esta forma de entender as coisas deixa de parecer forçada se reconhecemos que, com frequência, as partes do conteúdo de um sonho vêm à tona de modo especialmente deformado em sua forma [Traumform][110], e também pelo fato desta técnica de enquadramento [Rahmentechnik] dentro do sonho em questão ter encontrado mais uma vez utilidade. O início e o fim do sonho, que estão intimamente conectados, são como que separados pela intervenção da cena narcisista dos retratos (em negrito). Da mesma forma, início e fim estão interligados na carta do sonho (em itálico) como desejo diurno e temor. É também introduzida aqui, nesse entremeio, uma alusão ao retrato (em itálico e negrito), a qual se distingue como citação textual do restante do conteúdo[111]. Soa quase estranho considerar esta técnica de enquadramento e figuração [Rahmen- und Bild-Technik] do sonho como expressão de seu conteúdo imagético essencial[112]. Em todo caso, tudo indica que tal relação corresponde bem à psicologia da sonhadora, habituada a observar todo seu entorno através de uma lâmina de projeção [Folie], como um quadro emoldurado [Rahmen] de seu amado e admirado eu.

Pós-escrito

Em reação à interpretação por nós apresentada, cujo material havia sido fornecido pela própria sonhadora, sonharia ela, alguns dias depois da leitura desta, um interessante e instrutivo sonho que veio não apenas confirmar [bestätigen] com facilidade a exatidão as relações por nós reveladas, mas também trazer a tona e complementar uma parte essencial do material reminiscente utilizado na construção do primeiro sonho[113].

Ela sonha que lhe fora entregue — pelo correio ou diretamente em mãos por um homem quando ela não estava em casa — uma grande e pesada carta. “Ela continha três fotografias minhas: uma sentada, uma de chapéu e uma em cores, um busto. Junto dela uma carta na qual M., pessoa que, acho eu, teria trazido o pacote, escreveu: ‘remeto-lhe de volta seus retratos, pois você não quer mais saber de mim e eu sempre me lembrarei de você enquanto os tiver. Por esta razão, gostaria de me desfazer deles. Portanto, não fique brava comigo, por eu enviá-los a você’. — Eu olhei os retratos, primeiro o colorido, e então pensei: Deus, como eu pareço velha neste. Olhei se o outro retrato também estava assim e acabei concluindo que sim, a situação era a mesma. Parecia tão velha… e então pensei comigo, como posso ter chegado a este ponto! deveria ser exatamente o contrário, no passado eu deveria parecer mais jovem do que no presente, e não velha desse jeito. Se eu tirasse uma fotografia agora, poderia parecer um pouco mais velha do que antes, é verdade, em todo caso, eu não estaria assim tão velha, mesmo que pudesse parecer um pouco mais velha que antes. Então pensei, será que os retratos envelheceram? Seria bom se eles ficassem velhos e eu jovem. — Aí pensei, se ele me devolvesse meus retratos, eu também não precisaria mais dos dele (suas cartas eu já tinha até mesmo queimado). Mas então pensei novamente, já que ele não os pediu de volta, eu posso ficar com eles. Aí fiquei olhando meus retratos e continuei olhando e não podia mais me separar do colorido, ainda que já estivesse meio desbotado (como acabam ficando os velhos retratos). Então, enquanto ainda os olhava, acordei”.

Parece supérfluo destacar extensa e detalhadamente a concordância em pormenores com o primeiro sonho. Tomaremos, primeiramente, apenas alguns fragmentos de memórias reais, as quais servem de base também para o primeiro sonho. M., que lhe enviou de volta seus retratos – ou os entregou pessoalmente em casa – fora de fato seu noivo. Naquela época ela desfez o noivado e, ao saber que ele estaria novamente noivo, exigiu por escrito que devolvesse seus retratos (o com o chapéu e o colorido), pois ele não mais precisaria deles, uma vez que já tinha outra pessoa. M. não teria reagido ao pedido e, em um segundo momento, quando ela refez pessoalmente a exigência, M. pediu permissão para ficar com os retratos como lembrança, mostrando a ela que ainda os carregava sempre consigo, no bolso da camisa. Aqui, a sonhadora ressalta com clareza que essas palavras ditas por M. expressam justamente o contrário daquelas que ele teria escrito em seu sonho, e não devemos deixar de acrescentar que essa devolução voluntária dos retratos após o casamento se contrapõe novamente ao comportamento de W. no primeiro sonho. Nessa ocasião, M. também teria mostrado a ela um retrato seu, onde ele aparecia fotografado junto de sua noiva, diante do qual ela então reagiria dizendo: “Ela é tão feia, como você pôde escolher uma mulher assim! Bom, ela pelo menos tem dinheiro, foi por isso você a escolheu?” — O que ele, todavia, negou.

Se no sonho M. envia de volta seus retratos, podemos concluir que não apenas os seus antigos desejos ligados à privação do ex-noivo se realizam, como também se realiza sua semelhante e ambiciosa exigência de possuir o maior número possível de fotografias de si mesma em diferentes épocas, as quais serviriam a ela para fins de autocontemplação. Trata-se aqui de um tipo de reação impulsiva [Regung] de caráter evidentemente narcisista e que se revela de maneira explícita quando, no sonho, M. devolve a ela três retratos, enquanto que, na realidade, ele não tinha mais do que dois (o de chapéu e o colorido). O terceiro, “sentada”, ela deseja ter em breve e já teria pensado nele deitada na cama, antes de dormir, em quão belo seria. Assim também se explica porque o retrato no primeiro sonho apresenta uma imagem dela na posição [Stellung] sentada[114]. Em contraposição à realidade visual de possuí-lo de verdade, a mínima clareza alucinatória do tão desejado retrato “sentada” se denuncia no sonho, sendo que, dali em diante, apenas se fala dos dois retratos reais, o que, neste sentido, é ressaltado pela própria sonhadora. Por outro lado, porém, parece que o desejo de ser fotografada sentada encontra correspondência em uma corrente contrária por meio da qual a jovem se prepara, como que preventivamente, para o fato de que agora ela já estaria velha e que seus retratos não iriam mais sair tão belos como os de antigamente (“se eu tirasse uma fotografia agora, poderia parecer um pouco mais velha do que antes, é verdade; em todo caso, eu não estaria assim tão velha, mesmo que pudesse parecer um pouco mais velha que antes”). — Igualmente clara é também a alusão ao fato de que a fotografia em que ela parece velha, a qual fora enviada de volta por M., traz na verdade sua atual esposa, que já naquela época aparentava para ela ser “bem feia” (feia e velha equiparam-se aqui em termos infantis). Afinal, também no primeiro sonho, W. envia a ela o retrato de sua mulher, que é mais velha e menos bela. Considerando a sua atitude narcísica, é então aqui que a oposição entre ela e sua concorrente, assim como da tão significativa relação com a mãe, vem a ser representada em primeiro plano; tal como ocorre no desejo de Dorian Gray de permanecer sempre jovem, belo e encantador e, ao mesmo tempo, de atribuir a idade e a feiura às concorrentes (aos retratos)[115]. Que tais concorrentes tenham como modelo sua mãe, mais velha e menos bela, isso se denuncia independentemente de toda a atitude psíquica da jovem no dado objetivo de que as fotografias do sonho pareciam ter cerca de 40 anos, “mais ou menos a idade da mãe”, e que ela as tinha apenas reconhecido como um retrato seu em função dos seus olhos[116] e da parte superior da testa.

Conhecendo-se as bases reais do sonho, torna-se então claro que a mesma experiência de disfarce está presente no primeiro sonho. Também neste sonho ela recebe retratos de um admirador de outrora, dos quais: um vem a ser o dela mesma, o outro vem trazer a mulher do remetente, mais velha e mais feia, onde novamente a mulher velha e feia e a mulher nova e bela aparecem como duas pessoas diferentes. Enquanto isso, no segundo sonho, por identificação à mãe – que embora mais velha, a ela se assemelha – a sonhadora teria conseguido reunir em sua própria pessoa a “jovem” e a “velha”. Posto isso, levantamos então a seguinte questão: por que razão ela atribui falsamente a M. no sonho ulterior as experiências relativa a W. que tiveram lugar no primeiro sonho? Pois quem entende a linguagem dos sonhos, facilmente compreenderá que, com a ajuda dos meios de figuração [Darstellungsmittel], é possível alcançar uma equivalência, uma identidade [Identifizierung][117] entre duas pessoas. Conhecendo um pouco de seu caráter e de sua atual situação, podemos decifrar sem dificuldade isso que ela quer dizer ao estabelecer um paralelo entre seus dois admiradores. Os sentimentos de W., em parte discretos, em parte exageradamente apaixonados, sempre foram vistos por ela como algo bastante positivo, e ela lamentava com frequência o fato deste relacionamento ter sido logo interrompido após um breve contato. Por isso, não seria de se admirar que em meio a seus pensamentos e indecisões sobre o casamento, a imagem de W. tenha por vezes reaparecido. A este propósito, sabemos através dos antecedentes do primeiro sonho que ela quis viajar com o objetivo de estar mais próxima dele, e o teria mesmo feito se não temesse encontrá-lo já casado. O sonho diz então a ela, na forma de realização de desejo, de seu anseio de permanecer eternamente jovem: eu também não serei jovem para sempre, eu já estou bem mais velha, está claro para mim que eu tenho que casar. Eu prefiro W., mas precisaria saber se ele não fez o mesmo que M. (identificação), que também ficou com meu retrato mas que no entanto se casou com uma mulher mais velha, mais feia e que nem dinheiro tinha. Os homens não valem nada mesmo, não são dignos nem de me possuir, nem de possuir meus retratos. Eu não devo me dedicar a nenhum deles, prefiro amar a mim mesma. Ou, como Dorian Gray[118] expressou em forma de desejo defensivo: “eu desejaria ser capaz de amar. Mas parece que perdi a paixão e esqueci o desejo. Estou concentrado demais em mim mesmo. Minha própria personalidade se tornou um peso para mim”.

Com a interpretação do primeiro sonho, já fora possível apontar para o fato de que a intensa reanimação do desejo narcísico tem como pré-requisito uma decepção ligada a altíssimas exigências amorosas. Mais uma vez, neste segundo sonho, os mesmo pensamentos inconscientes entram em cena, de que os homens seriam incapazes de amar e que o melhor a fazer, dado a incompreensão deles em relação à beleza e ao valor de uma mulher, seria justamente retornar a sua antiga orientação narcísica e, independentemente de qualquer homem, amar a si mesmo. Que uma decepção amorosa deste tipo seja capaz de efetivamente provocar uma regressão da libido para as vias do amor próprio narcísico, um sonho posterior e igualmente narcísico poderá nos atestar de modo convincente. Abordaremos agora o texto e a interpretação deste sonho de forma não exaustiva. Nosso objetivo não será outro senão o de evidenciar a partir dele aquilo que nos interessa.

 “sonhei que estava em um gramado, próxima a um córrego onde eu queria me banhar. Mal entrei na água, nua, e uma amiga veio me importunar forçando-me a sair, o que para mim foi bem desagradável. Nós então atravessamos juntas a rua até um outro gramado[119], onde havia belas flores e onde, de repente, vejo que estamos em três, duas outras meninas e eu. Nós estamos deitadas totalmente nuas no gramado, eu estou no meio; nossos pés estavam juntos e os corpos separados, de modo a formar um lindo leque, mas eu não podia ver a cena toda. Aí, vimos de longe um carro vindo, eu logo falei: levantem! E então as duas meninas sumiram.

Eu mesma encontrei-me de repente em um elegante quarto e logo percebi, para meu espanto, que em um dos cantos encontrava-se, apoiado na parede, um magnífico retrato em uma moldura [Rahmen] dourada. Ele trazia a imagem de uma bela moça em tamanho natural. Ela estava nua e tinha um cinto turco com um laço em torno da cintura. Ela tinha longos e negros cabelos ondulados que pendiam soltos e dos quais gostei muito. Profundos olhos negros, face rosada, mãos cruzadas para trás, seios belos e bem formados, assim como os meus. Também suas pernas estavam nuas. Ela olhava para o chão. A pintura em óleo era tão bela como eu jamais havia visto qualquer outra. Eu não podia parar de olhar esse retrato. Ele me pareceu tão conhecido. Continuei então a estudá-lo, com quem ele se pareceria? Eu disse a mim mesma: se P. pudesse vê-lo, certamente iria agradá-lo.

O retrato sumiu e eu estava em um grande salão onde o público se encontrava sentado. Fiquei envergonhada e fui lá pra frente. Enquanto permanecia lá parada, veio uma moça com um vestido branco de princesa, com cabelos soltos que tinham a mesma cor dos do retrato. Ela olhava para o chão e tinha uma expressão triste. Então, um cavaleiro se aproximou portando um uniforme de cor púrpura, um cinto com um sabre e um grande chapéu “espanhol” com uma pena de avestruz rosa. Ele estava com a barba feita. Eles representavam os malvados. Ele cutucou o ombro dela pelas costas, ela virou-se um pouco para o lado, atirou-lhe um olhar um tanto maldoso, porém sorridente. Ele então partiu. Aí eu fiquei mais à vontade e pude observar a sala como um todo. Nesse meio tempo, eu disse a mim mesma que era eu a responsável pela apresentação. Eu me reconheci, com um certo entusiasmo, em minhas azuladas olheiras de nascença, logo abaixo dos olhos, e tive certeza de que aquela era eu mesma. Ao mesmo tempo, porém, espantei-me com o fato de estar ali, assistindo e atuando, me perguntando como seria isso possível. Eu fiquei o tempo todo em pé ao lado dela. Tudo que eu fazia, ela também fazia, como se fosse um tipo de boneca (ou como a minha sombra). Eu ria na cena representada ao fazer uma cara melancólica e uma boca pontuda (um “bico”), como costumo fazer, entre o choro e o riso. Vejo então que o jovem cavaleiro retornou, voltando ao seu lugar anterior. Senti que neste momento eu deveria atuar [Schauspiel geben]. Ele queria fazer a moça ficar bem novamente [Er wollte das Mädchen wieder gut machen][120], ela virou-se, jogou-lhe um olhar amistoso e correu para longe dele. Nisso a apresentação acabou, as pessoas saíram e eu acordei.”

Sem a intenção de entrar nos detalhes da interpretação deste rico sonho, destaco de maneira breve apenas que, mais uma vez, a autoadmiração dirigida à própria pessoa se mostra no mesmo sentido por nós já conhecido. Na primeira cena do sonho, ela compara suas belas formas com as de outras duas meninas, também nuas, e no meio das quais ela se encontra deitada. Em um comentário adicional sobre esta cena, ela menciona expressamente que comparou alternadamente seu próprio corpo com o das duas meninas para ver qual delas era a mais bela. Ela também se achou a maior e a mais imponente, o que talvez se justificasse, uma vez que ela estava deitada bem no centro.

Esta estranha representação imagética surge na análise em tom chistoso, amparado na ambiguidade do pensamento envolvido no acesso de ciúmes que ela havia tido na noite anterior: eu posso me comparar tranquilamente com qualquer mulher. O material utilizado nesta figuração pode ser claramente identificado como infantil. Se nos recordamos, eles refletem bem a típica mania que as crianças têm de medir a altura umas das outras e de ordenarem-se entre si de modo a seguir o processo também descrito pela sonhadora, com o propósito de evitar qualquer tipo de desonestidade (pés bem juntos, corpos lado a lado). Que, neste sentido, nossa sonhadora não tivesse procedido de todo corretamente, ela já havia indicado ao afirmar parecer maior apenas por estar deitada reta e no centro; é também sabido que o antigo desejo (infantil) de ser realmente maior também tem parte no processo onírico de figuração, ainda que aqui o “medir-se” e o “sobressair-se” mantenham relação com outras qualidades físicas.

Na segunda cena, ela mais uma vez admira a própria imagem sem nela se reconhecer, como em um espelho, e por ela se apaixona, sendo que, apenas na última cena, acaba reconhecendo-se com enorme surpresa na imagem da atriz[121]. Essa última cena também inclui os restos diurnos que provocaram a regressão da libido sobre a própria pessoa e com isso o sonho. A própria sonhadora acrescenta à interpretação do texto do sonho que, na noite anterior, teria feito acusações ciumentas ao jovem P. (um admirador), chegando até mesmo a brigar com ele. Antes de dormir, como consolo, ela teria então pensado em W., aquele que, como já sabemos, ocupa um lugar de destaque em sua memória afetiva. “Fiquei pensando se ele ainda tinha o meu retrato e então disse a mim mesma: é claro que sim! Ele me amava tanto, ele deve tê-lo pendurado na parede e deve ainda pensar em mim com frequência”. Este infeliz sentimento experimentado pela jovem na noite anterior é então transformado em imagem na última cena do sonho, na cena da moça idêntica à sonhadora e do jovem rapaz, que é uma condensação da pessoa de P. (o uniforme) e de W. (barba bem feita). Havia um bom motivo que justifica o fato desta cena não ter sido simplesmente relatada, lembrada ou colocada em ação, e sim representada em forma de produção teatral. Naquela noite, a sonhadora havia tido a clara e nítida impressão, chegando mesmo a expressá-la verbalmente, de que P., como é tão comum entre os apaixonados, não estivesse de fato aborrecido, e sim apenas “representando uma comédia”, algo que se apresenta no sonho de forma evidente[122]. Na verdade, dada a sua consciência de culpa em torno de um ciúme infundado, o que a jovem queria era apenas fazer as pazes, enquanto que no sonho é a ela que o pedido de perdão vem a ser feito. Por um lado, tal inversão vem atender à tendência de realização de desejo de modo satisfatório, por outro, vem se referir menos a P. do que a W., aquele de quem ela de fato esperava uma nova tentativa de aproximação. O sonho é então uma reação direta à decepção amorosa vivida na noite anterior que ela tenta conscientemente apagar antes de dormir através da renovação da lembrança carinhosa de W. Assim ela então busca consolo, dizendo: W. era tão mais carinhoso e querido, ele não teria me tratado assim. Em função da ligação entre W. e a imagem que ele tem da sonhadora, que por sua vez ainda duvida de seu amor (referência ao pensamento que surge antes de dormir, se ele ainda tinha ou não o seu retrato), o sonho conduz a sonhadora ao seu amor próprio narcísico (paixão pela sua própria imagem, seu retrato).

Revelamos até agora apenas uma pequena parte da estrutura do sonho em questão, claramente dividido em três cenas, o que nos permitiu compreender a transição de uma cena à outra. Na noite do sonho, a nossa jovem havia feito acusações a P., afirmando que ele teria preferido outras mulheres, um tipo de acusação que, considerando o conteúdo latente do primeiro sonho, ela já teria levantado contra W. (W. teria se casado com outra, como M. de fato fizera). Na primeira cena, ela faz valer então a preferência por seu próprio corpo frente ao de outra jovem (mais tarde até mesmo de duas outras moças), o que naturalmente só é possível em razão de sua autoadmiração narcísica que toma conta da segunda cena. Depois de se certificar de sua beleza a comparando com a de outras mulheres, passa então a demonstrar, na segunda cena, um forte sentimento de autoadmiração. O carro que passa, provocando a mudança na cena, sem dúvida faz alusão à partida de W. anos atrás, o que desvia seus pensamentos novamente para sua imagem. De forma semelhante, consuma-se a transição da cena do quadro para a cena do teatro. Ela admira sua imagem e diz a si mesma em sonho: se P. o visse, iria certamente agradá-lo, ele iria se apaixonar por mim. Assim, ela prossegue com o pensamento da noite anterior e, na sequência, com o da primeira cena do sonho, que sua beleza não pode ser superada pela de outras mulheres e que qualquer um que a olhasse diretamente necessariamente se apaixonaria, dando assim a ela o devido valor. Vê-se aqui de forma clara que a lembrança aparentemente pura e superficial de P. (ao fim da segunda cena) evoca diretamente toda a cena de conflito vivenciada na noite anterior. Também não parece ser por acaso que, tal como na primeira cena, quando vimos duas moças frente a frente e, na segunda cena, quando a sonhadora aparece diante de sua própria imagem, a cena final estaria evidenciando uma certa cisão da personalidade, quando o jovem homem parece cortejar uma outra, e que esta outra é a própria sonhadora.

O sonho então simplesmente diz o seguinte: eu posso me medir com qualquer mulher, sim, eu supero inclusive aquelas que estão mais próximas a mim (em beleza). Os homens (P., W., M.) são apenas incapazes de o apreciar, enquanto que as mulheres são invejosas demais para o reconhecer. Eu tinha razão em relação a P., e ele deveria me pedir perdão. Mas é melhor não confiar mesmo neles, nem me deixar envolver por eles. Eu sou bela e boa demais para isso. Eu poderia realmente me apaixonar por mim mesma, caso visse diante de mim a imagem de minha própria beleza. 

REFERÊNCIAS

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Wilde, Oscar. (1908). Das Bildnis des Dorian Gray. Reclams: Leipzig, 262 p.


* Otto Rank é…Otto Rank.

otto-rank


** Caio Padovan é psicanalista, mestre em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorando em Psicanálise e Psicopatologia na Universidade Paris 7, Paris Diderot. Presidente da Associação de pesquisadores e estudantes brasileiros na France (APEB-Fr).


*** Norma Müller é tradutora, bacharel em Letras Português-Alemão com ênfase em Estudos da Tradução pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora de alemão e interculturalista.



[1] O tema desta comunicação teria sido ainda objeto de dois outros encontros, nos dias 17 e 24 de outubro de 1906. Um resumo da discussão que teve lugar nestas sessões de trabalho na Sociedade Psicológicas das Quartas-Feiras encontra-se publicado em Nunberg, H. Federn, E. Les premiers psychanalystes. Minutes de la Société Psychanalytique de Vienne, vol. I 1906-1908. Gallimard: Paris, 428 p., pp. 33-56. Este primeiro volume das atas desta Sociedade foram recentemente traduzidas para o português por Marcella Marino pela editora Scriptorium.

[2] Rank, O. (1912). Das Inzest-Motiv in Dichtung und Sage: Grundzüge einer Psychologie des dichterischen Schaffens. Franz Deuticke: Leipzig und Wien, 685 p.

[3] Rank, O. (1907). Der Kunstler. Franz Deuticke: Leipzig und Wien, 56 p.

[4] Rank, O. (1909). Der Mythus von der Geburt des Helden. Kraus-Thomson: Nendeln/Liechtenstein, 1970, 93 p.

[5] Libermann, J.E. (1985). La volonté en acte. La vie et l’œuvre d’Otto Rank, trad. Aline Weil. Paris: PUF, 1991, 535 p., p. 175.

[6] Encontramos um Prospecto desta coleção em Freud, S. (1907) “Prospecto para Schriften zur Angewandten Seelenkunde”. In S. Freud, Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, trad. M.A.M. Rego, Vol. 9, Rio de Janeiro: Imago, pp. 227-227.

[7] Ver carta de Freud a Ferenczi enviada em 7 de novembro de 1912.

[8] Libermann, J.E. (2013). “Rank (Rosenfeld), Otto”. In: Mijolla, A. (dir.). Dictionnaire international de la psychanalyse, vol. 2. Fayard: Paris, pp. 1455-1457.

[9] A respeito do desenvolvimento desta primeira noção de psicanálise aplicada, ver Padovan, C. Darriba, V. (2016). “A noção de psicanálise aplicada nos primeiros anos do movimento psicanalítico”, Psicologia USP, 27(1), 104-114.

[10] Freud, S. (1912). “Über einige Übereinstimmungen im Seelenleben der Wilden und der Neurotiker”, Imago, 1(1), pp. 17-33; 1(3), pp. 213-227; 1(4), pp. 301-333; Freud, S. (1913). “Über einige Übereinstimmungen im Seelenleben der Wilden und der Neurotiker”. Imago, 2(1), pp. 1-21; 2(4), pp. 357-408. Uma parte inicial da introdução que tem início na página 17 do primeiro número do primeiro volume não foi incluída na versão final publicada. Estes primeiros parágrafos seriam reeditados muitos anos mais tarde, em 1987, em um volume adicional às obras completas de Freud em alemão.

[11] Abraham, K. (1912). “Psychoanalytische Beiträge zum Verständnis seiner Persönlichkeit und des monotheistischen Aton-Kultes”, Imago, 1(4), pp. 334-360.

[12] Rank, O. (1914). “Der Doppelgänger”, Imago, 3(2), pp. 97-164; Rank, O. (1922). “Die Don Juan-Gestalt”, Imago, 8(2), pp. 142-196.

[13] Tradicionalmente entendido como uma invenção freudiana nascida entre os anos 1910, com a nota de rodapé à segunda edição dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e com os comentários feitos em seu ensaio sobre Leonardo da Vinci, e 1914, com o célebre artigo Sobre o Narcisismo: uma introdução.

[14] Alguns historiadores atribuem ao psicólogo francês Alfred Binet (1857-1911) a paternidade do conceito. É verdade que Binet faria uso do termo muito antes de Ellis e Näcke, ainda em 1887, porém sem a pretensão de dar a ele um estatuto nosológico, tal como fariam seus sucessores.

[15] Ellis, H. (1898). “Auto-erotism: A Psychological Study”, Alienist and Neurologist, 19, pp. 260-299.

[16] Näcke, P. (1899a). “Die sexuellen Perversitäten in der Irrenanstalt”, Psychiatrische en Neurologische Bladen, 3, pp. 122-149, p. 146; Näcke, P. (1899b). “Kritisches zum Kapitel der normalen und pathologischen Sexualität”, Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankheiten, 32 (2), pp. 356–386, p. 375.

[17] A respeito desta primeira história do conceito de narcisismo no interior do contexto médico psiquiátrico, ver: Padovan, C. (no prelo). “As origens médico-psiquiátricas do conceito psicanalítico de Narcisismo”, Revista Ágora.

[18] Maeder, A. (1909). “Sexualität und Epilepsie”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische

Forschung, 1(1), pp. 119-154.

[19] Sadger, J. (1910). “Ein Fall von multipler Perversion mit hysterischen Absenzen”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 2(1), pp. 59-133.

[20] Rank, O. (1910). “Ein Traum, der sich selbst deutet”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 2(2), pp. 465-540.

[21] Ellis, H. (1910). “Auto-erotism: A Study of the Spontaneous Manifestations of the Sexual Impulse”, in: Studies in the Psychology of Sex, Philadelphia: F.A. Davis Company, Publishers, pp. 161-208, p. 207

[22] Näcke, p. (1906). “Einige Psychiatrische Erfahrungen als Stütze für die Lehre von der Bisexuellen Anlage des Menschen”, Jahrbuch für Sexuelle Zwischenstufen, 8, pp. 583-603, p. 603

[23] Ellis, H. (1907). “Autoerotismus”, in: Geschlechtstrieb und Schamgefühl, 3ª edição, trad. J.E. Kötscher. A. Sturbers Verlag (Curt Kabitzsch): Würzburg, pp. 225-283, p. 282.

[24] Rubin, G. (2002). Le roman familial de Freud. Payot: Paris, 198 p.

[25] Foresti, G. (2003). “Sigmund/Sig IS mund: un’ipotesi”, Rivista di Psicoanalisi, 49, pp. 149-175

[26] Freud, S. (1909). “Bemerkungen über einen Fall von Zwangsneurose”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 1(2), pp. 357-421.

[27] Freud, S. (1909). “Analyse der Phobie eines 5jährigen Knaben”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 1(1), pp. 1-109.

[28] Binswanger, L. (1909). “Versuch einer Hysterieanalyse”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 1(1); 1(2), pp. 174-318; 319-356.

[29] Riklin, F. (1910). “Aus der Analyse einer Zwangsneurose”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 2(1), pp. 246-311.

[30] Jung, C.G. (1909). “Vorbemerkung der Redaktion”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 1.

[31] Redaktion und Verlag. (1913). Internationale Zeitschrift für Ärztliche Psychoanalyse, 1.

[32] O médico alemão Iwan Bloch foi um dos primeiros a fazer uso do termo “ciência sexual” [Sexualwissenschaft] no prefácio de seu Das Sexualleben unserer Zeit in seinen Beziehungen zur modernen Kultur [A vida sexual em nosso tempo em suas relações com a cultura moderna], publicado em sua primeira edição em 1906. Tal noção, no entanto, já vinha sendo discutida pelo autor alguns anos antes, em seu ensaio sobre o Marques de Sade, Der Marquis de Sade und seine Zeit [O Marquês de Sade e seu tempo], publicado em 1900 sob o pseudônimo de Eugen Dühren e reeditado diversas vezes.

[33] Sadger, I. (1910). Ibid., p. 112. O processo de elaboração deste enunciado pode ser rastreado nos encontros da Sociedade Psicanalítica de Viena que tiveram lugar um ano antes, a partir de um caso trazido por Sadger.

[34] A este propósito, ver Padovan, C. (no prelo). Ibid.

[35] Ver a distinção entre Narcisismo “primário” e “secundário” em Freud, S. (1914).

[36] Freud, S. (1910). “Beiträge zur Psychologie des Liebeslebens”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 2(2), pp. 389-397.

[37] Freud, S. (1910). Ibid., p. 389.

[38] Sadger, J. (1911). “Beiträge zur Sexaalfrage”, Zentralblatt für Psychoanalyse, 1(12), pp. 589-591

[39] Em relação à atualização sob transferência de condições para o amor não satisfeitas, ver o artigo de Sadger, I. (1913). “Über den sado-masochistischen Komplex”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 5(1), pp. 157-232, onde o psicanalista dá o exemplo de pacientes que, tendo estabelecido uma relação especialmente problemática com os pais, chegam a insultar o psicanalista evocando em forma de lapso o nome de uma das autoridades parentais quando uma determinada “condição para o amor” se vê frustrada (p. 196).

[40] A título de curiosidade, ver entre outros os retratos que Rubens fez de sua mulher, Isabella Brant.

[41] Do ponto de vista histórico, uma resposta a esta questão sobre o estatuto da sexualidade feminina só poderia ser dada de maneira responsável através de uma pesquisa cuidadosa que tivesse como objeto os sucedâneos diretos deste debate.

[42] É provável que o termo em questão tenha sido utilizado com o objetivo estigmatizar a sonhadora, posto se tratar aqui de um caso de “homossexualidade latente”. Em nota à tradução, comentamos de maneira bastante sucinta a origem do termo e o uso dele feito desde então.

[43] Sobretudo se contabilizarmos aí a análise feita em Rank, O. (1910). Ibid. A este propósito, cabe aqui lembrar que, em função de sua participação em algumas de suas reedições, Rank aparecerá como coautor da Traumdeutung de Freud a partir de 1914.

[44] Freud, S. (1910). Ibid., p. 389.

[45] Ellis, H. (1898). “Auto-erotism: A Psychological Study”, Alienist and Neurologist, 19, pp. 260-299. [No original, vemos a data de 1908 sendo atribuída ao texto em questão].

[46] Ver: Ellis, H. (1907). “Autoerotismus”, in: Geschlechtstrieb und Schamgefühl, 3ª edição, trad. J.E. Kötscher. Würzburg: A. Sturbers Verlag (Curt Kabitzsch), pp. 225-283, p. 282. [Em Näcke, P. (1899a). “Die sexuellen Perversitäten in der Irrenanstalt”. Psychiatrische en Neurologische Bladen, 3, pp. 122-149, p. 146 – artigo citado por Ellis e retomado por Rank – e em Näcke, P. (1899b). “Kritisches zum Kapitel der normalen und pathologischen Sexualität”. Archiv für Psychiatrie und Nervenkrankheiten, 32 (2), pp. 356–386, p. 375, o psiquiatra alemão Paul Näcke utiliza, na realidade, o termo Narcismus, que seria mantido no original por Ellis desde a terceira versão de seu artigo sobre o autoerotismo, publicada como um capítulo de Studies in the Psychologt of Sex (Ellis, H. (1910). “Auto-erotism: A Study of the Spontaneous Manifestations of the Sexual Impulse”, in: Studies in the Psychology of Sex, Philadelphia: F.A. Davis Company, Publishers, pp. 161-208, p. 207). Na tradução alemã de Kötscher, no entanto, datada de 1907, o termo utilizado é Narzissmus, ligeiramente diferente do Narzismus que teria sido usado por Näcke em um artigo publicado um ano antes: Näcke, p. (1906). “Einige Psychiatrische Erfahrungen als Stütze für die Lehre von der Bisexuellen Anlage des Menschen”. Jahrbuch für Sexuelle Zwischenstufen, 8, pp. 583-603, p. 603].

[47] Cf. Ellis, H. (1907). Ibid, p. 282.

[48] Cf. Bloch, I. (1902). Beiträge zur Aetiologie der Psychopathia sexualis, vol. 1 (1902), p. 201.

[49] Cf. Ellis, H. (1907). Ibid, p. 280.

[50] [Aqui o autor usa o adjetivo de origem alemã “gleichgeschlechtlich” para designar o caráter homossexual da tendência [Neigungen] em questão. Mais adiante será empregado o termo de origem latina “homosexuell”, cujo sentido é o mesmo. Traduziremos ambos os vocábulos por “homossexual”.]

[51] Cf. Freud, S. (1910). Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie, 2ª edição. Franz Deuticke: Viena und Leipzig, 86 p., p. 11n [tradução nossa]; Sadger, I. (1910). “Ein Fall von multipler Perversion mit hysterischen Absenzen”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, 2, pp. 59-133, p. 112.

[52] Freud, S. (1910). Ibid., p. 11n. [Curiosamente, na nota de rodapé presente na segunda edição dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade citada por Rank, Freud já utilizava o termo Narzißmus, o qual seria proposto pelo mesmo autor em 1911, como alternativa à grafia Narzissismus].

[53] Cf. Rank, O. (1910). “Ein Traum, der sich selbst deutet”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, 2(2), pp. 465-540.

[54] A segunda imagem, a da mulher dele, também mostra um corpo nu em posição semelhante, apenas um pouco mais sentada. As pernas pendendo e não cruzadas, cabelo desarrumado, rosto comum, estatura média, e meio atrevida.

[55] [Referência a Peter Paul Rubens (1577-1640), pintor flamengo, autor de diversos retratos e lembrado pelo tom particularmente caloroso e sensual de suas telas].

[56] Ver nota 70.

[57] O avesso desse tema [Motiv], isto é, a resistência desesperada da mãe (madrasta), encontra-se em contos de fadas como “Branca de Neve”, em que a rainha é retratada com orgulho e altivez, “não podendo suportar que sua beleza fosse superada pela de outras mulheres”. Sua autocontemplação vaidosa é satisfeita quando, ao olhar-se em um espelho mágico, se assegura de ser a mais bela de todo o reino, até que sua enteada, a Branca de Neve, a sobrepuja em beleza – evidentemente, o espelho manifesta somente seu juízo pretensioso.

[58] Assim declarou uma paciente de Sadger: “Se ninguém gosta de mim, eu tenho que gostar de mim mesma. Em todo caso, dizer isso pode ser, e provavelmente o é, apenas uma desculpa para o que eu faço”, em: Sadger, I. (1908). “Psychiatrisch-Neurologisches in psychoanalytischer Beleuchtung”, Zentralblatt für das Gesamtgebiet der Medizin und ihrer Hilfswissenschaften, 7; 8.

[59] Esse deslocamento para a pessoa de W. nos demonstra algo que já sabemos, que todos os pensamentos atribuídos a W. no sonho fazem parte da fantasia da própria sonhadora. Mais adiante, isso será diretamente comprovado. Neste sentido, a então inscrição: “Em sonho”, é por um lado um consolo, que vem dizer: ele pode não ser casado, etc., isso é apenas um sonho (Cf. Stekel, W. “Der Traum im Traume”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen, 1(2) pp. 459-466 [O artigo de Stekel referido aqui por Rank, “Traum im Traume”, é na realidade apenas um tópico do artigo “Beiträge zur Traumdeutung”, publicado no correspondente número do Jahrbuch]), e por outro um dado que, não tendo sido suficientemente bem recalcado, parece penetrar na instância consciente, o que deveria levá-la a reconhecer sua própria imagem no sonho. Ao invés disso, no entanto, quer dizer, ao invés dela dizer no sonho: esta sou eu – o que naturalmente frustraria a satisfação buscada – um tal juízo acaba se expressando em outra passagem, na qual ela diz: isto é apenas um sonho.

[60] Metamorfoses, livro III, 402-510. [No terceiro livro da obra em questão, composto por 733 versos, a parte dedicada à narrativa de Narciso e Eco vai do verso 399 ao verso 510].

[61] Wieseler, F. (1856). Narkissos: eine kunstmythologische Abhandlung ; nebst einem Anhang über die Narcissen und ihre Beziehung zum Leben, Mythos und Cultus der Griechen. Göttingen: Verlag der Dieterichschen Buchhandlung, 145 p.

[62] Um elemento estrangeiro à lenda original de Narciso é o igualmente trágico destino de Eco (Ovídio, Metamorfoses, livro III, 342), marcado pela personificação do, por assim dizer, espelhamento acústico de si mesmo [akustischen Selbstbespiegelung]. A ele Eco se lança em função da aparente inaptidão de Narciso para toda e qualquer forma de amor objetal. Ela se apaixona por ele, mas ele não lhe dá ouvidos, o que a faz experimentar um enorme desgosto; No fim, ela se desfalece de tal forma que: vox tantum atque ossa supersunt. – Uma relação com a masturbação parece poder se dar aqui como uma espécie de contrapartida desta lenda: de acordo com Dio Crisóstomo, Pan era apaixonado por Eco, mas, por não poder tê-la, vagava dia e noite nas montanhas. Enfim Hermes, compreendendo as necessidades de seu filho, ensinou-o a se masturbar, enquanto Pan era considerado pelos gregos como o inventor da masturbação (Roscher)- [Rank faz referência aqui ao Ausführliches Lexikon der griechischen und römischen Mythologie de Wilhelm Heinrich Roscher (1845-1923), publicado em seis volumes e cujo primeiro data de 1884. A longa entrada Nakissos encontra-se no volume três (p. 10-21), publicado em 1909]

[63] Ver o dicionário de mitologia greco-romana de Roscher [supracitado].

[64] Calderon [Pedro Calderón de la Barca], o poeta espanhol, articulou a fábula de Narciso no interior de sua obra, trazendo o tema da paixão por si mesmo no décimo cântico de seu poema épico “El laurel de Apolo” (Cf. Grillparzer, F. Studien zum spanischen Theater). — O drama de grande sucesso de Brachvogel. A.E. (1909). Narziß. Ein Trauerspiel in fünf Aufzügen, cuja matéria foi retirada do diálogo de Denis Diderot, Rameaus Neffe (traduzido para o alemão por Goethe, e publicado pela Reclam, Nr. 1229), faz apenas alusões ao nosso tema através da fala de Narciso [Narziß]: “Aber ich habe mich doch so lieb, mein Gott! — so lieb!” [Mas eu me amo tanto, meu Deus!  — Tanto!], (p. 29).

[65] Plutarco. Obras morais, Questões conviviais, livro V, questão 7, seção 4 [Rank aponta erroneamente para a seção 3 em seu artigo].

[66] [Em latim, no original. Não encontramos para estes versos uma tradução portuguesa].

[67] Também Ellis, H. (1907). Ibid, p. 281, achou o Narcisismo “mais claramente manifesto naquelas mulheres capazes de exercer uma força de atração sobre outras pessoas”.

[68] Assim como em Ellis, H. (1907). Ibid, p. 281-282 [no original, vemos uma referência imprecisa à página 182], onde encontramos o caso da bela e formosa senhora de 28 anos que não sente especial atração por pessoas do sexo oposto e que possui por si mesma uma profunda admiração, em particular em relação aos seus membros inferiores.

[69] [Referência ao pintor flamengo Rembrandt van Rijn (1606-1669). Segundo Guérin, M. (2011). La peinture effarée: Rembrandt et l’autoportrait. Chatou: Ed de la transparence, Rembrandt teria pintado perto de uma centena de autorretratos, algo que pode ser considerado único na história da arte].

[70] [Como Rank cita no próprio corpo do texto, a edição alemã do romance de Oscar Wilde utilizada pelo autor como referência foi publicada em 1908 pela coleção “Universal-Bibliothek”, da editora Reclams. A primeira edição deste romance, publicado originalmente em inglês por Oscar Wilde, data de 1891].

[71] Wilde, O. (1908). Das Bildnis des Dorian Gray. Reclams: Leipzig, p. 38. [Para a tradução das citações de Wilde, nos basearemos – ainda que não ponto a ponto – na versão de Paulo Schiller, publicada pela Companhia das Letras em 2012. A paginação da versão utilizada por Rank será, no entanto, mantida].

[72] Wilde, O. (1908). Ibid., p. 16.

[73] É certo que a nudez mobilizada no sonho em forma de imagem não é motivada pelos seus próprios interesses narcísicos, mesmo que W. tivesse de fato gostado de vê-la nua, o que vem revelar seu próprio prazer ligado à autocontemplação. Em total conformidade com isso, está seu desejo de possuir uma fotografia de seu corpo nu, até agora ainda não realizado. O rosto do sonho vem de uma de suas melhores fotografias, em que a jovem, em um ato de vaidade extrema, chegou a criticar seu penteado que, segundo ela, teria estragado a foto. Na imagem do sonho, de acordo com a narrativa da sonhadora, esse defeito é retocado, não se manifestando. Esse trabalho de correção revela uma manifestação particular e recente de sua vaidade que vem estimular o trabalho do sonho como um dos seus agentes: na época, seu rosto estava deformado em função de um abcesso, um tipo de cicatriz temporária que a incomodava profundamente e cuja evolução ela não era capaz acompanhar no espelho com a devida frequência. O sonho também mostra seu rosto livre desta marca.

[74] [No contexto das artes em geral, a expressão alemã Bild im Bild pode ser considerada como um sinônimo da expressão francesa Mise en Abyme, normalmente utilizada – e como será mais adiante utilizada pelo próprio Rank – no contexto da literatura, mas também empregada no estudo das artes plásticas].

[75] Ver: Rank, O. (1910). Ibid.

[76] [Bloch, I. (1902). Ibid., p. 201].

[77] [Moll, A. (1898). Libido Sexualis, vol. 1. Berlin: Fuscher’s Medicin. Buchhandlung, H. Kronfeld, p. 824].

[78] [“Genitália masculina”. Expressão latina no original].

[79] [Ellis, H. (1907). Ibid, p. 281].

[80] [Juan Valera (1824-1905), escritor e diplomata espanhol].

[81] [Varela, J. (1897). Genio y Figura. Obras completas, tomo X. Madrid: Imprenta Alemana, 271 p., p. 217. Traduzimos aqui a citação de Rank em alemão e dispomos a versão original em espanhol: “Imito á Narciso; y sobre el haz fría del espejo aplico los labios y beso mi imagen”].

[82] [Näcke, P. (1906). Der Kuß bei Geisteskranken. Allgemaine Zeitschrift für Psychiatrie, 63. pp. 106-127, p. 127].

[83] [Böhme, M. (1905). Tagebuche einer Verlorenen. Berlin: F. Fontane & Co., p. 114. A ausência de aspas aqui vem apontar para uma citação não literal do seguinte trecho: “Ich bin hübsch. Es macht mir Vergnügen, vor dem Spiegel ein Stück meiner Kleidung nach dem anderen abzuwerfen und tannenschlank, und das Haar lang und weich, wie ein Mantel aus schwarzer Seide“. O romance em questão, publicado pela escritora alemã Margarete Böhme (1867-1939), foi considerado na época uma espécie de Bestseller, o que talvez explique a referência aproximada e incompleta de Rank. Em 1929, dirigido por Georg Wilhelm Pabst, o mesmo diretor de Geheimnisse einer Seele, a obra ganharia uma versão para o cinema conservando o mesmo título.]

[84] Livro VI: confissões de uma bela alma. [Usamos aqui a tradução de Nicolino Simone Neto em: Goethe, J.W. (2006). Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister, São Paulo: Editora 34, p. 357.].

[85] Em espantosa consonância com isso, uma paciente de Sadger, I. (1908). Ibid., diria: “Em geral não me interesso nada por mulheres, gosto de conversar apenas com homens, mas gosto de olhar mulheres bonitas, belos rostos e belas imagens de nus”.

[86] Cf. Rank, O. (1910). Ibid.

[87] [A incomum construção “erstgeliebte Mutter”, de difícil tradução para o português, expressa a ideia de uma mãe que fora pela primeira vez tomada por alguém como objeto de amor. Tal noção já havia sido utilizada dois anos antes pelo psicanalista vienense Isidor Sadger, com o objetivo de chamar para os efeitos deste tipo de relação precoce para a futura escolha de objeto sexual. A este propósito ver: Sadger, I. (1909). Aus dem Liebesleben Nicolaus Lenaus. Leipzig e Viena: Franz Deuticke, 98 p., p. 8.

[88] De acordo com a análise de Sadger, a própria tendência narcísica também remontaria diretamente à mãe. Considerando o trabalho de análise já avançado de alguns dos seus pacientes (Sadger, I. (1908). Ibid., p. 11-12), a base do narcisismo deve encontrar o seu fundamento na admiração dirigida pelas crianças à mãe, admiração esta que pela via da identificação passa a se dirigir à própria pessoa. O narcisismo seria então, pela ação da mãe, um admirar-se a si mesmo como criança, representando e unindo em um só corpo [Leibe] mãe e criança.

[89] Wilde, O. (1908). Ibid., p. 178

[90] Wilde, O. (1908). Ibid., p. 391; p. 111.

[91] Wilde, O. (1908). Ibid., p. 13

[92] Ficará claro para qualquer leitor do romance e conhecedor do triste destino do poeta que tais pecados se referem principalmente à também criminalmente condenada homossexualidade. A origem da história do romance psicológico de Wilde está se tornando mais clara a cada dia, sobretudo após a recente morte do jovem de 19 anos Lionel Foster (na primavera de 1911), ocorrida no manicômio, rapaz que na flor de sua juventude fora muito próximo ao poeta, como um amigo apaixonado, servindo de modelo para o seu Dorian Gray. Nesta passagem (p. 169), Dorian decide cobrir e esconder o misterioso quadro, pois se alguém o visse “o mundo certamente saberia de seu segredo”. Além disso, seria preciso ainda considerar que toda fantasia ligada à repugnante imagem (no espelho) remonta à rejeição da masturbação. A propósito, a íntima ligação, digna de nota, entre narcisismo e masturbação, não poderia de modo algum ser negligenciada.

[93] Wilde, O. (1908). Ibid., p. 152.

[94] Wilde, O. (1908). Ibid., p. 147.

[95] Wilde, O. (1908). Ibid., p. 172.

[96] Pausanias. Descrição da Grécia, livro IX – Beócia, capítulo 31, seção 7-9 [Rank aponta erroneamente para a seção 6 em seu artigo].

[97] Neste contexto, uma interessante comprovação para a íntima ligação entre narcisismo e homossexualidade nos é oferecida por Krafft-Ebing, R. v. (1894). Psychopathia Sexualis, 9ª edição, p. 411), que apresenta alguns dados ligados aos ditos “casais sáficos” (homossexuais femininas) que adoram se vestir iguais, embelezarem-se, etc., denominando-se como “petites sœurs[“irmãzinhas”, em francês no original].

[98] O poeta espanhol Calderón aborda esta fábula em uma de suas numerosas peças mitológicas, homônima à narrativa de Dionísio Periegeta [poeta e geógrafo de origem grega que vivera provavelmente entre os séculos II e III d.C.].

[99] [Termo alemão criado por Karl Heinrich Ulrichs e utilizado pela primeira vez em 1868 na obra Forschungen über das Räthsel der mannmännlichen Liebe [Pesquisas sobre o enigma do amor entre homens] para designar mulheres de orientação homossexual]. No final do século XIX ele seria retomado com o objetivo de fixar uma nomenclatura que não estigmatizasse o sujeito homossexual].

[100] Semelhantes fantasias de rejuvenescimento desempenham um papel enorme na escolha dos temas ligados às diferentes formações [Motivgestaltungen] do Complexo de incesto. A este propósito, ver também a “jovem” mãe (madrasta) em Branca de Neve.

[101] Outra condição, neste caso não formal, mas por assim dizer, dinâmica, para o objeto dos invertidos é, pois, de acordo com a própria posição, a reivindicação de atividade ou passividade (ou ambas) em todo seu comportamento, assim como durante o ato sexual.

[102] [Referência no corpo do texto à “carta poeticamente escrita ‘em sonho’” – ver página 3].

[103] W. era realmente muito amoroso e carinhoso com ela e, em sonho, ela se mostra contente com o fato de ele, mesmo em sua ausência (referência feita ao seu retrato), adorá-la e prezar tanto por ela.

[104] Fica bastante claro aqui que W. seguia o modelo [Typus] do jovem pai falecido, caracterizado por uma certa feminilidade no comportamento e nos hábitos. W. era bastante reservado, tímido, e não possuía barba.

[105] Em outro sonho datado do mesmo período, marcado por um estranho e oscilante sentimento, a libido regride ainda mais até a primeira infância e procura solucionar seu conflito através do casamento com o pai. O sonho apresenta uma fantasia de adultério da mãe com um pretendente da jovem. O pai, quando o descobre, considera então casar com a filha, consumando assim uma união cuja legitimidade deveria ser afirmada através da negação da relação de parentesco consanguínea entre ambos, o que se justificaria em função da fantasia de adultério da mãe. Aqui a condição para o amor [Liebesbedingung] ligada à vitória sobre a concorrente demonstra claramente sua origem na antiga posição por ela ocupada em relação aos pais. Este sonho fica especialmente interessante se levarmos em conta um recente achado, segundo o qual os sonhos não podem ser produzidos ou explicados experimentalmente se consideramos apenas a presença de estímulos somáticos, mas sim que eles também dependem, por assim dizer, de “estímulos psíquicos”. O sonho é sonhado justamente na noite de São Tomás e, antes de ir dormir, seguindo uma antiga superstição, a jovem havia colocado embaixo do travesseiro três papeizinhos, cada um carregando o nome de um dos três pretendentes que ela tinha em vista. Ao acordar, aquele que fosse pego ao acaso deveria indicar seu futuro marido. É nesta noite que o sonho em questão vem a ser sonhado. Sabe-se que dele a jovem adormecida foi subitamente acordada, no meio da manhã. Ela o estava sonhando imediatamente antes de acordar. Uma vez acordada, a jovem logo procura pegar um dos papeizinhos, mas, para o seu pesar, acaba pegando dois, o que acaba colocando em questão o valor da prova, ainda que ela tenha tentado na sequência corrigir seu erro. Gostaríamos de poder compreender a origem deste ato sintomático considerando que também no sonho aparecem dois pretendentes (um mais jovem, que sua mãe lhe toma, e a personificação do pai, que passa em uma carruagem) como expressão da indecisão que também não foi resolvida através da prova da noite de São Tomás. Também se o sonho não tivesse sido talvez sonhado entre as repetidas batidas que a acordaram e o momento do despertar propriamente dito, é praticamente certo que ela tenha evocado de pronto, antes de estar na iminência de escolher o papelzinho, seu ideal infantil e com isso, então, evitado conceder a prerrogativa a qualquer um dos três pretendentes, e não tão somente àquele que poderia satisfazer esta condição para o amor [Liebesbedingung] que lhe é própria.

[106] Este repetido folhear para frente e para trás é uma forma refinada de expressar a comparação por ela feita com frequência entre a sua pessoa e a mencionada rival. O tema desta relação, ligada à comparação, será bastante explorado pela jovem.

[107] O professor Freud foi benevolente ao me chamar a atenção para o fato de que esta posição narcísica na mulher desempenha um papel importante, podendo vir a esclarecer um certo enigma na vida amorosa dos seres humanos.

[108] A nossa maneira, podemos dizer que quando “alguém se ama muito”, está na verdade querendo ou negar para si um desejo, ou tomar para si algo em particular, trabalhando assim a partir do Complexo do eu [Ichkomplex] e da tendência ao egoísmo.

[109] Ela declara que a imagem do sonho não teria saído de sua cabeça, mas sim que ela a teria visto de modo extremamente claro e plástico o dia todo. Com isso ela se transfere no sonho novamente para o lugar de W., que continuamente olha para a sua foto e que a possui, como ela bem gostaria.

[110] Cf. Freud, S. (1911). Die Traumdeutung, 3ª edição. Leipzig e Viena: Franz Deuticke, 418 p., p. 241. Desde a sua publicação, ousada mesmo para mim, esta concepção perdeu muito em artificialidade e ganhou muito em verossimilhança através das interessantes pesquisas de Herbert Silberer (ver: Silberer, H. (1909). “Bericht über eine Methode, gewisse symbolische Halluzinations-Erscheinungen hervorzurufen und zu beobachten”. Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 1(2), pp. 513-525, e Silberer, H. (1910). “Phantasie und Mythos”. Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 2(2), pp. 541-622).

[111] Assim como na totalidade do sonho e também na primeira carta, o conteúdo do envelope compõe-se de três partes. Três são também as vezes que ela folheia de volta para sua imagem. A partir destes indícios, eu não consideraria improvável que estes três atos do sonho também possam estar relacionados, e que ela hesita na escolha entre os três pretendentes (três cartas), escolha submetida à prova dos três papeizinhos na noite de São Tomas.

[112] Ver nota 66.

[113] Estes sonhos ditos de confirmação [Bestätigung], que mediante a interpretação de um sonho precedente mobilizam o conteúdo dos complexos nele envolvidos permitindo assim aos profissionais da interpretação apreciar toda a sua intensidade performativa, tem seu modelo – como nos informa o professor Freud – em um certo aspecto da cura psicanalítica, e podem ser considerados como os meios de confirmação mais comprobatórios das teorias freudianas ligadas à interpretação dos sonhos [Freudschen Traumdeutungslehre]. Neste sentido, poderíamos considera-los como equivalentes dos chamados “sonhos indesejados” [Gegenwunschträumen] [termo tradicionalmente traduzido para o português através expressão “sonhos com o oposto do desejo” e mais recentemente “sonhos de contra-desejo”] (Freud, S. (1911). Ibid., pp. 104—114), sonhos que a nossa teoria dos sonhos busca entender considerando sua aparente tendência a negar o desejo como uma estratégia peculiar de realização de desejo. — Para os leitores do Anuário [Jahrbuch] que ainda se recordam do artigo “Ein Traum, der sich selbst deutet[Rank, O. (1910). Ibid.], discutido no volume II desta revista, eu gostaria de trazer aqui de forma abreviada, não fazendo dele uma interpretação exaustiva, o sonho que a sonhadora sonhou uma noite após a leitura do trabalho impresso. Primeiramente, seria o caso de dizer que ela acompanhou as anotações feitas sobre este sonho de reação dizendo estar em total e absoluto acordo com a interpretação fornecida, observando apenas que, entre outras coisas, o fato dela ter sido retratada como uma mulher anormal a teria incomodado, o que nos leva a acrescentar que o sonho de reação tenta também recusar isso que ela considerou como um exagero. Conteúdo do sonho: de uma grande montanha, descem de trenó damas e cavalheiros por sobre belas sacas de cereais, o que a sonhadora entende como sendo um pecado. Ela é então forçada a se deslocar para um campo logo ao lado, onde ela quase teria caído em uma valeta. Aí vem um jovem rapaz (o intérprete do sonho) e diz: Senhorita, não é permitido andar aí, isto é apenas para mulheres viris [Mannweiber]. Ela não sabia dizer de pronto o que isso poderia significar, mas logo se deu conta do que se tratava e resolveu voltar. (Ela então pensou, ainda no sonho: agora estou mais uma vez no campo, entre as espigas de trigo [Ähren], como no “beijo entre as espigas de trigo” [Kuss in Ähren] [para compreender essa passagem é necessário conhecer o provérbio alemão: “Einen Kuss in Ehren kann niemand verwehren”, “um beijo honrado nunca pode ser negado”, assim como a homofonia entre os termos “Ähren”, espigas (em geral de trigo), e “Ehren”, honra.]). Ela então vai para casa e coloca um vestido todo branco (pureza: recusa do pecado). Na conclusão do sonho ela vê gatos em um jardim; primeiro o macho corre atrás da fêmea, mas então o macho deita de costas e a fêmea deita por cima. — Este sonho apresenta uma semelhança extraordinária com sonhos marcados por poluções [Pollutioncharakter] e mostra claramente na última cena a “virilidade feminina” que fora negada na primeira cena.

[114] O fato da suposta esposa de W. no primeiro sonho, apresentada em posição [Stellung] semelhante – mas sem o característico cruzar de pernas – estar também mais magra, vem simbolizar de maneira majestosa a identificação, assim como os pensamentos de que esta outra mulher poderia agora tomar seu “lugar” [“Stellung”], ainda que não o pudesse fazê-lo completamente, afinal ela nunca poderia substituí-la.

[115] Com essa mulher de idade ela pune e, ao mesmo tempo, se vinga de M.

[116] Os olhos são a única coisa que ela admite de bom grado ter em comum com a mãe.

[117] Embora o termo aqui seja o mesmo que posteriormente ganhará um importante valor conceitual na teoria psicanalítica, Rank parece por vezes utiliza-lo em seu sentido comum, de identidade, e não em seu sentido psicodinâmico.

[118] Wilde, O. (1908). Ibid., p. 240.

[119] Adendo: no caminho eu percebi que tinha perdido minha presilha e que queria voltar ao córrego para busca-lo, podendo assim fazer um penteado mais bonito. Minha amiga diz, no entanto, que eu fiquei bonita desse jeito também e então a gente continua andando.

[120] Há uma rasura em suas notas antes dessa parte: “ele queria me fazer ficar bem de novo” [“Er wollte mich wieder gut machen”], o que revela claramente sua identificação com a moça que atuava.

[121] Vemos aqui novamente o deslocamento da sua tomada de consciência, da cena do retrato para um outro elemento do sonho (ver nota 15).

[122] O fato de a sonhadora ter ido, pouco tempo antes, a um teatro de marionetes com P. – onde fora encenada uma peça que incluía uma cena de amor semelhante – não pode ser tomado como um evento sem influência sobre a maneira específica como esse espetáculo irá se desenrolar no sonho. Também no teatro de marionetes, é a figura do boneco que se movimenta enquanto o verdadeiro locutor se situa atrás da cena.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | RANK, Otto (2016) Uma contribuição sobre o narcisismo [Trad. C. Padovan; N. Müller]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -2, p. 2, 2016. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2016/12/06/n2-02/>.