Caso clínico | A criança doadora ou o sublimador do gênero: uma transferência prematuramente interrompida

[ L’enfant donneur ou le sublimateur du genre : un transfert prématurément interrompu ]

por Nicolas Evzonas

Tradução | Paulo Sérgio de Souza Jr.

INTRODUÇÃO[1]

Nossa contribuição[2] inscreve-se no âmbito de uma pesquisa universitária que tem como objetivo a otimização das modalidades de tratamento dos sujeitos com identificações transgêneras. A contrapelo de vários clínicos analíticos[3], evitaremos apreendê-las como uma entidade clínica predefinida, para concebê-las como um grupo social movente e diversificado. A agressividade não elaborada que transparece nos estudos publicados sobre essa população vulnerabilizada pelas normas majoritárias[4], assim como a atitude consternante de certo(a)s profissionais de saúde mental relatada por nosso(a)s pacientes, incitou-nos ao engajamento nesta via, na esperança de contribuir para dissipar alguns mal-entendidos.

Nossa posição será a do clínico-pesquisador que conduz, em instituição, terapias individuais de adulto(a)s transgênero(a)s orientadas pela transferência analítica e regularmente supervisionadas por um supervisor externo. Mais concretamente, nós nos propomos, ao longo deste artigo, a restituir nossa experiência, nossas provações e nossas dúvidas oriundas do acompanhamento prematuramente interrompido de um paciente com problemáticas transidentitárias que recebemos no âmbito de entrevistas clínicas individuais frente a frente.

Uma precisão é necessária: nós concebemos esses encontros como um engajamento possível num trabalho psíquico suscetível de desembocar numa terapia, a exemplo das consultas terapêuticas praticadas por Winnicott[5] ou das sessões preliminares consideradas por Freud[6] como partes integrantes do tratamento analítico. Assinalemos, ademais, que o paciente em questão — que tem por volta de vinte anos de idade e que, doravante, chamaremos de “Pascal” — foi encaminhado a nós, pela psiquiatra da estrutura, para um acompanhamento psicológico em vista de uma transição FtM (Female to Male).

QUESTÕES INTRAFAMILIARES

O assujeitamento à fala dos “pais combinados”

De imediato impôs-se a nós, ao escutar Pascal, o lugar predominante de sua mãe nos seus dizeres. O paciente começou o relato contando suas experiências com os terapeutas que havia encontrado antes. Evocou, a esse respeito, o fato de que a sua genitora, quando ficou sabendo que a “filha” tinha consultado o psicólogo escolar, foi logo intervir; e de que, descontente por não ter sabido convencer esse último de divulgar o conteúdo da sessão, comunicou a Pascal que dali em diante ele estava proibido de ver um(a) “psi”, a menos que ela própria o/a escolhesse.

Quando da sessão seguinte, ele nos contou que a mãe não devia ficar sabendo que ele estava vindo nos ver, porque ela detestava os “psi”, “que prescrevem ansiolóticos à vontade e que inventam doenças que não exitem”; ela avalizava, no entanto, o tratamento psiquiátrico da irmã esquizofrênica — tia de Pascal. Isso nos levou a pensar que os preconceitos da Dona Mãe contra os profissionais de saúde mental eram, sem dúvida, seletivos — estando em jogo, antes mesmo, a sua dificuldade em aceitar a autonomia de sua “filha” e a possibilidade da existência de um terceiro desfusionador. Acaso a sua reação para com ao psicólogo escolar não revelava uma angústia desse tipo, dissimulada por trás da sua intrusividade? Contentamo-nos com frisar a importância, para Pascal, de se reservar um espaço próprio e de protegê-lo de toda e qualquer interferência.

No decorrer da terceira sessão, Pascal — retornando de um período fora, na casa da família — nos revelou que a mãe, que “sempre adivinha o que se passa na cabeça dele”, tinha conseguido fazer com que ele confessasse estar indo ver um terapeuta na França. Depois de Pascal ter relatado a ela o conteúdo das nossas sessões, a mãe reagiu da seguinte maneira: “Bem, está aí um psi que não sai comprando as mentiras que você conta sobre esse seu transsexualismo, e que faz passar por uma crítica. Na hora, ingenuamente, esses dizeres nos lisonjearam, apesar de a aprovação da Sra. Mãe constituir um mau agouro para a sequência das entrevistas.

Outros elementos emergiram no decorrer das sessões para indicar que o nosso paciente era totalmente invadido pela mãe e assujeitado à sua fala. A primeira sessão terminou, ao final de uma hora, com as lágrimas de Pascal evocando a sua dependência financeira em relação a ela — aspecto, sem dúvida, de uma dependência psicológica. Foi por isso que, no início da segunda sessão, ele nos precisou que trinta minutos eram mais do que suficientes para a “terapia”, acrescentando: “Não quero ocupar muito o tempo do senhor, porque com certeza tem gente com problemas mais graves que os meus”. Compreendemos que Pascal reproduzia transferencialmente o discurso de sua genitora, o qual ele nos havia relatado na sessão anterior: “A patacoada em torno do seu transsexualismo é o luxo de alguém que não tem preocupações e que tem tempo demais pra ficar pensando”. Nós apontamos esse vínculo, o que levou à confidência de que ele estava “submerso nos problemas com a mãe” — inundado pela Mãe, poderíamos ler aí —; e foi por isso que ele pediu para encurtar a sessão.

Além disso, nós o convidamos a desenvolver a sua própria versão sobre a sua transidentidade, que ele introduzia em todas as sessões; ora, era complicado para ele perceber-se de outra forma que não como o eco de sua genitora. Na verdade, ele nos propunha variações da seguinte resposta: “A minha mãe fez uma mistureba de várias coisas e afirma que a minha autopersuasão de ser um homem tem base numa doença; eu era precoce, fiz amizade com uma moça, era associal e deprimido — logo, não consegui encontrar o meu lugar dentro da sociedade”.

Quando nós o incitamos a desfazer esses entrelaçamentos e a nos comunicar aquilo que ele próprio pensava dessa “mistureba” feita pela mãe para interpretar o seu transgenerismo, ele nos citou exemplos de sua falta de habilidade social e reiterou a sua convicção de ser um homem. Noutra ocasião, evocando Deus — que lhe havia concedido, por engano, um corpo de mulher —, abordou a educação religiosa dispensada pela mãe, fundamentada no princípio da futilidade da vida terrestre, e que o havia levado à beira do suicídio na adolescência, como que para corroborar o discurso sacralizado da sua genitora. No decorrer de outra sessão, mencionou que a mãe repetia desde sempre que “entre homem e mulher não tem diferença nenhuma”, admitindo que ele havia tomado essa frase ao pé da letra quando pequeno. Por conseguinte, quando tomava banho com as irmãs, não enxergava a diferença no nível dos órgãos genitais, a qual mais lhe parecia “uma variação da mesma ordem que a cor dos cabelos.

Além do mais, abordando a lista dos nomes masculinos que considerava escolher para realizar sua transição, citou o nome anglo-saxão que seria o seu se tivesse nascido menino. É significativo que Pascal tenha tido acesso a essa informação quando sua mãe estava grávida da sua irmã mais nova, e que ela expressava o seu lamento por não poder batizá-la assim. Acaso não se poderia imaginar que essa mulher estivesse expressando assim o seu desejo de esperar um filho, e não uma filha, e que Pascal, considerando esse nome para o seu segundo batismo — e, mais globalmente, escolhendo “transicionar” para homem —, estivesse realizando o desejo materno? Ou para exprimir de outro modo: sua transidentidade não poderia revestir o sentido de uma incorporação da fala materna que, aliás, desmistificava “as dessemelhanças dos sexos”?[7]

É importante assinalar aqui que o significante “pai” emergiu pela primeira vez no decorrer da quarta sessão, alternando com sintagmas indiferenciados tais como “meus pais disseram”, “meus pais vão pensar”. Se, até então, tínhamos a impressão de que o pai de Pascal havia morrido ou fosse ausente, descobrimos que ele vivia sob o teto conjugal, mas que, discursivamente falando, confundia-se com a esposa. Com frequência tentamos diferenciá-los convidando Pascal a individualizar os dizeres deles, mas essa figura dos “pais combinados” mostrou-se recalcitrante. De igual maneira, quando evocou sua tia doente, perguntamos a ele de que tia se tratava, para receber esta réplica seca: “Quando falo pro senhor dos meus pais, é sempre do lado materno, porque do lado do meu pai eu não tenho relações. Um imperialismo materno parecia absorver as referências do paterno; e quando esse último dava as caras, era para glorificar a onipotência da Sra. Mãe: “tem que escutar a sua mãe; “a sua mãe tem sempre razão”; “vou ver com a sua mãe, que conhece melhor o assunto.

Em posse deste “meus pais dizem” indiferenciado, pudemos frisar que o pai de Pascal avalizava os dizeres da esposa sem questionar nem, portanto, desempenhar seu esperado papel de terceiro — o que suscitava no nosso paciente uma confusão. Este reagiu admitindo que o seu genitor sempre esteve ausente, mesmo quando se encontrava fisicamente presente, “deixando-o sozinho na boca do lobo”, entregue a um “a-portas-fechadas infernal” com uma mãe — da qual ele tinha medo, visceralemente, desde a infância. A fantasia kleiniana da mãe devoradora não teria podido ser mais explicitamente enunciada. Além disso, Pascal relatou que, quando de férias com a família, passou por uma dura provação: compartilhar um quarto com a mãe, pois ela “se afeiço[ava] com a cumplicidade entre mãe e ‘filha’”, entre “‘mulheres’ compartilhando os segredos dos seus corpos nus”, dando a entender que o pai dele não tinha nenhum lugar nesse corpo-a-corpo homoerótico carregado de angústia. Não obstante essa exclusão, a figura paterna esboçada nos dizeres de Pascal — insossa, inconsistente e exilada do quarto — parecia ser totalmente aspirada pela mãe, até mesmo incorporada nela[8]. Em termos kleinianos, falaríamos de uma negação do coito parental por compressão dos dois pais numa figura ainda mais monstruosa porque depositária de projeções agressivas.

A fantasia do nascimento monstruoso

Vamos nos delongar sobre um mote que atravessou várias entrevistas e que se mostrou a pedra angular da organização fantasística de Pascal. No decorrer da primeira sessão, o paciente mencionou que, quando a mãe comentava a sua transidentidade, ela não parava de repetir que ele queria se tornar um monstro — o que nos pareceu um chavão iatrogênico[9] e meiogênico[10] da androginia de origens antigas[11]. Uma variação interessante emergiu quando da quarta sessão: “Os meus pais me dizem que eu sou perturbado mental e que eu sou um monstro. Nosso paciente emendou: “eles querem dizer que vou virar um monstro se fizer a cirurgia”. Isso que nos levou à hipótese (que não comunicamos a Pascal) de uma “pré-concepção” de um rebento monstruoso, recoberta por uma monstruosidade secundária imputada à transgenitalização. Noutros termos, tratar-se-ia de uma fantasia de concepção hedionda transmitida ao nosso paciente pelos seus “pais combinados”. A sessão terminou com uma associação sobre o “casamento igualitário”, vivamente criticado pela Sra. Mãe. Convidado a comentar esse parecer, Pascal explicou: “O que me intriga é a adoção reivindicada pelos gays, porque ter filho é pesado.

É interessante que Pascal tenha aberto a sessão seguinte contando-nos o último encontro com sua psiquiatra, que, antes de lhe dar sinal verde para a transformação corporal (hormonoterapia, mastectomia e histerectomia), havia lhe aconselhado refletir sobre a oportunidade de passar por uma extração de óvulos. O ressurgimento do significante “ter filhos” incitou Pascal a evocar a lembrança de uma adaptação teatral de Frankenstein e a reforçar “a fabricação de bebês-monstros que escapam do controle do criador e não correspondem às suas expectativas”. Nós fizemos com que ele observasse que a forma como ele descrevia a peça resumia as suas próprias problemáticas concernentes à transidentidade e a sua inquietude quanto ao fato de decepcionar os pais por recorrer às transformações médicas. A fim de evitar uma referência demasiado pessoal — suscetível de colidir brutalmente com as suas defesas —, generalizamos a nossa interpretação, afirmando que “toda criança aspira se tornar autônoma e se livrar do controle dos pais” — fazendo alusão ao seu desejo de se tornar homem para se desfusionar do seu mãe-pai. Ele associou isso imediatamente à esposa do Dr. Frankenstein repreendendo a fabricação anormal das suas criaturas e lembrando o marido de que as crianças sempre deveriam sair de um útero. Se as duas figuras parentais eram citadas, a reprodução assexuada ecoava os “quartos separados”[12] dos pais de Pascal e a fantasia de uma instância genitora “combinada” monstruosamente potente.

A lembrança da obra teatral remetia, de uma forma que não se podia mais clara, à problemática das origens. Lembremos o deslize linguístico “meus pais dizem que eu sou um monstro”, que denuncia o tipo de olhar que os genitores dirigem para ele. Não seria um olhar de abominação o que Frankenstein lançou sobre a sua criatura hedionda tão logo a “colocou no mundo”? Esses elementos deixam delinear-se em filigrana, por trás dos dizeres de Pascal, uma cena primitiva original, a exemplo daquelas descritas por Le Poulichet[13], e a sugestão de uma concepção para-humana e de sua percepção teratológica, originariamente instilada por seus pais: uma criatura abjeta, fabricada a partir de carnes mortas, tal como relatado pelo mito de Frankenstein.

A sessão seguinte ofereceu um apoio suplementar à nossa hipótese. Retomando a lista de nomes para o seu futuro estatuto de menino, Pascal citou o nome “Caliban” para logo rejeitá-lo. É ulteriormente à sessão que pensamos no sub-homem epônimo de A tempestade, ser disforme oriundo do feto abortado de uma feiticeira onipotente. Nesse caso, o projeto transidentitário surgia entrelaçado com a fantasia do nascimento monstruoso e a identificação com a morte.

Quando da sessão seguinte, retornando ao tema da sua transformação cirúrgica, Pascal trouxe um material rico do qual retranscrevemos um excerto significativo:

No espelho eu vejo um corpo de homem com defeitos. Um espelho disformado (sic).

Deformado ou disformado? Penso no Caliban de A tempestade, que você evocou vez passada, que é um personagem disforme.

E assexuado, na apresentação que eu assisti. Entendi também que “Caliban” é anagrama de “canibal”.

Canibal: isso te faz pensar em quê?

Hannibal Lecter.

Está se referindo ao filme O silêncio dos inocentes, em que uma transgênero MtF confecciona para si roupas a partir da pele de mulheres assassinadas?

Pensei mais no psiquiatra Hannibal Lecter da série de TV. Pronto? Já ticou mais um campo da psicologia com “canibal”?

De imediato não suspeitamos que o psiquiatra canibal pudesse constituir uma alusão a mim mesmo, que provavelmente o “canibalizava” com as minhas perguntas e a minha curiosidade — excessiva ou prematura, sem dúvida — a fim de confirmar minha hipótese sobre o vínculo entre a sua transidentidade, a fantasia do seu nascimento monstruoso e a sua identificação com a morte. Seja lá qual pudesse ter sido a minha falta de jeito, ainda penso que o fio associativo das sessões estava levando inexoravelmente à percepção de Pascal enquanto criatura disforme e oriunda, de maneira assexuada, de uma figura quimérica aterrorizante (os pais combinados, a feiticeira matriarcal de A tempestade [mãe de Caliban] e, talvez, a transgênera assassina de O silêncio dos inocentes). É essa imagem de si que Pascal desejava reparar por meio da cirurgia. Para recuperar seus próprios termos: “Tem uma discordância entre o que os outros veem e o que eu sou. Tem que alinhar isso. Acaso esse descompasso entre a sensação de ser e o olhar do outro não estaria ecoando uma experiência especular antiga?

Convocarei, aqui, algumas teorias analíticas suscetíveis de aclarar as hipóteses que acabei de enunciar. Propondo uma releitura da especularidade desenvolvida por Lacan[14] — que ressaltou a diferença entre corpo orgânico e corpo percebido no espelho ou no olhar do outro —, Winnicott[15] postulou a existência de um espelho primário, encarnado pelo rosto materno, capaz de refletir os estados internos do bebê e de forjar a sua sensação de existir. Em caso de não reconhecimento nesse espelho, o infans experimenta uma ameaça de caos. Coube a Le Poulichet teorizar essas “experiências de desfiguração” no adulto e ligá-las às angústias infantis da perda da forma próprio, chamadas de “terrores do informe”:

Paralelamente aos distúrbios do reconhecimento da imagem por um Outro primordial, são justamente as figuras da morte, da queda ou da decomposição de um outro parental que se revelam decisivas na clínica do informe. […] No cerne desse terror, a criança identifica-se inconscientemente com essa parte mortificada ou decomposta do outro parental.[16]

Indo mais longe, Linhares concebeu as “cirurgias transexuais” como estratégias que visam lutar contra essas ameaças de eclipse especular e de identificação ao nada delimitando um contorno para o informe:

Nessas circunstâncias, é frequentemente uma parte do corpo que aparece como feia ou estranha a si. Tudo se passa como se a própria experiência da disformidade viesse, num momento intermediário, proteger o sujeito do desfalecimento total da forma, circunscrevê-lo de alguma maneira[17].

Segundo Linhares, a figuração da castração, posta em cena por alguns percursos transidentitários, “remete mais a uma experiência de desfiguração do que a angústias de castração relativas à diferença sexual. Nesse caso, tratar-se-ia de um deslocamento de cima para baixo”[18]. Linhares insiste, ainda, na oposição vivo/inanimado — que prevalece em certos discursos transgêneros —, que é substituída, secundariamente, pela polaridade masculino/feminino[19].

À luz desses postulados metapsicológicos, podemos sustentar que a imagem do self vacilante de Pascal no espelho resultaria da interiorização do olhar mortificante que seus “pais combinados” dirigiram a ele, como revela a condenação “você é um monstro”, dissimulada por trás da crítica de seu transgenerismo (“você vai virar um monstro”) — que hoje podemos conceber como uma lembrança encobridora. Pode-se também aventar que a violência atual da fala parental mascara a sua violência arcaica, que, ademais, vem se somar a esta e criar o efeito de um trauma cumulativo. Se, além disso, levamos em consideração a ambivalência da mãe de Pascal com relação ao sexo das “filhas mulheres” — lembremos o nome masculino que a “obsedava” durante as gravidezes e sua decepção em ter de renunciar a ele toda vez que paria uma menina —, podemos pensar que o olhar monstruoso originariamente lançado sobre Pascal estivesse ligado precisamente ao seu sexo. O aspecto assexuado do disforme Caliban retido pelo paciente confirma, ao que nos parece, essa conexão entre (a)sexuação e má-formação.

Caso sigamos essa lógica até o fim, as transformações cirúrgicas vislumbradas por Pascal seriam subjazidas pelo desejo inconsciente de retificar essa monstruosidade especularmente absorvida e impregnada de morte; ou, se preferirmos, o de fazer com que desapareça uma forma (seios, aparelho reprodutor) para não desaparecer no terror do informe (a identificação com o nada veiculada pelo olhar parental). Ao mesmo tempo, ele tentaria escapar da influência de uma instância genitora — mãe-pai — esmagadora, ao mesmo tempo em que se conformando, paradoxalmente, às expectativas inconscientes dela: mudar de sexo, “doar órgãos” — em conformidade com a fantasia da “criança doadora”, dedicada ao sacrifício de partes de seu corpo a fim de fazer com que os pais existam[20].

QUESTÕES SOCIOCULTURAIS

Do desejo a-gênero ao ideal do Homem

Antes de descobrir o vocábulo transgender, Pascal definia-se como a-gênero. Essa neutralidade de gênero traduzia o seu “desconforto [com] a lógica maniqueísta do ‘ou um ou outro’ sexo imposta pela sociedade. A denúncia desse binarismo sexual deslizou rapidamente para uma crítica da heterossexualidade e para uma percepção negacionista de seu sexo genético:

Antes de querer ser um homem, eu tinha a sensação de que não era uma mulher. Não me via como uma mulher. E quando era pequeno e via os casais, eram sempre os meninos que andavam com as meninas e as meninas com os meninos, e eu não via dois meninos ou duas meninas juntos.

Essa sequência fez com que pensássemos que Pascal não podia se conceber como mulher porque se sentia desviante em relação a seus pares heterossexualmente “regulados” em seus desejos, e que a sua transidentidade camuflava uma homossexualidade não assumida. Compreendemos, em seguida, que essa pista havia sido dada insidiosamente pelo rebatimento do transgenerismo em direção à homossexualidade recalcada que prevaleceu numa certa literatura psicanalítica dogmaticamente atrelada à abordagem freudiana do caso Schreber[21].

Uma vez desembaraçado desse “saber pré-contratransferencial”[22], pude escutar a sincera indagação de Pascal em torno da sua orientação sexual, que não tinha nada de defensiva: “Pensei na homossexualidade também, mas eu não conseguia me ver menina com uma menina; do mesmo jeito com a heterossexualidade: eu não conseguia me imaginar menina com um menino. Era sempre o meu lugar de menina que era problemático”.

Daí, a rejeição da sua “femeidade” voltou com força: “Meu alicerce identificatório inabalável é que eu não sou uma mulher”. Quando da sessão seguinte, emergiu uma lembrança: “Eu tinha doze anos e estava na fila de espera da cantina da escola e disse aos meus colegas que Deus tinha criado uma alma de menino, mas tinham acabado os corpos de menino; daí, depois desse erro de administração, ele me deu um corpo de menina até tê-los de novo.

É interessante detectar, nas sequências que citamos, o deslizamento da indiferenciação sexual para a rejeição da feminilidade, e então a convicção de possuir a psique de um menino. Faltava dar um passo antes de conceber o projeto de retificar a inadvertência do Demiurgo em conceder o seu corpo à sua alma, tornando-se homem.

Quando ele estava abordando os seus projetos de transformação médica, Pascal evocou o ideal que esperava atingir pela ablação dos seios e do útero. Fazendo associações a respeito da sua imagem, que ele esperava reconfigurar por meio da cirurgia, insistiu novamente quanto ao seu desejo feminicida: “Tenho vontade de me afastar o máximo possível de onde estou, do meu ponto de partida”. Podemos ligar essa repulsa por sua femeidade com a seguinte lembrança, que emergiu no decorrer da terceira sessão: “Quando tinha doze anos, me achava feio; então tentei me desligar da aparência externa, já que, de toda forma, eu nunca teria como ser uma mulher de verdade”. Acaso não poderíamos imaginar que, na falta de poder incarnar com perfeição o protótipo de uma determinada norma ideal — construída a partir das projeções parentais e de uma prática discursiva que domina um espaço e um tempo —, Pascal tenha escolhido desconstruir esse modelo por excesso de idealidade, levado, aliás, ao paroxismo pela emergência da puberdade?[23] Lembremos que ele também tinha doze anos quando se deu conta de que Deus lhe havia atribuído um corpo feminino defeituoso e uma alma masculina. Acaso a coincidência temporal dessas duas lembranças — sustentada, aliás, na contiguidade das sessões — não sugere que é angústia de não poder se tornar uma mulher de verdade, “A Mulher”, que o levou ao polo oposto, a saber, “O Homem”?

Ressaltaremos com interesse que essa busca de idealidade transparecia por trás de alguns nomes masculinos que ele considerava para a sua nova identidade. Pascal esclareceu, assim, que o fato de seu professor de inglês ter utilizado o modelo do amor cortês como grade de leitura de Romeu e Julieta havia feito com que ele repudiasse o nome “Romeu”. Não é interessante que essa referência implícita ao culto da “Dama” tenha emergido apenas para logo ser negativado? Pascal pensou igualmente em se rebatizar “Allen”, indicando que, “por coincidência, é o nome de Allen Ginsberg, o fundador do movimento hippie”. Bem sabemos o que é que o atraiu nessa figura poética da contracultura americana, de cujo nome, no final das contas, ele acabou não escolhendo se apropriar. Referiu-se, por fim, à imagem do gentleman britânico para descreditá-la na sequência, assinalando que ele havia lido nalgum lugar que “um gentleman tinha disso coisas sexistas no século XIX”, e assim seu ideal se desfez. Essa série de personagens sublimados que Pascal introduziu para, sub-repticiamente, atacar confirma a sua lógica idealista e o seu avesso sadomasoquista.

Antes de apresentar as hipóteses concernentes às minhas observações, citarei um excerto dos trabalhos de Linhares:

Alguns percursos transexuais dão mais a entender uma sensação de indeterminação sexual do que uma variação em torno da diferença sexual. Tudo se passando como se algumas experiências confrontassem o sujeito não simplesmente à questão da bissexualidade, mas mais radicalmente a um informe sexual. Essas travessias deixariam, assim, vislumbrar a diferença sexual como uma organização secundária do sexual.[24]

E, com efeito, foi a aspiração de Pascal por um informe sexual e por um a-generismo que se impôs à minha escuta, conforme ele o confessou ao definir-se como a-gênero e conforme corroboram seus desenhos. Retranscrevamos as suas palavras: “As figuras que eu desenho não representam nem homens nem mulheres, o que incomoda muito o meu professor de desenho. Os personagens usam roupas longas e casacos que escondem as formas. Nunca dá pra saber o sexo”.

É bastante evidente que Pascal dotava os seus rascunhos com esse “informe sexual” que ele não podia expressar em sua vida social, já que seus pais o obrigavam a “ostentar roupas que frisavam [seus] atributos femininos e valorizavam as suas formas”. Impedido de adotar o look a-gênero desejado, ele era então compelido a se “disfarçar de cisgênero”[25].

Acaso esse informe sexual, rebelde às intervenções superegoicas (chamado à ordem dos seus genitores, do seu professor de desenho, dos seus professores na escola), não poderia ser aproximado daquilo que Freud definiu como a característica primeira da sexualidade humana: sua potencialidade polimorfa? Nesse caso, parece que as aspirações de a-generismo que moviam Pascal — recaídas de um sexual infantil “regulado pelo diverso”[26] — foram comprometidas pelo ideal cruel da “mulher de verdade” que ele pensava nunca poder atingir; daí o seu ataque virulento contra esse modelo. Resultado: a ereção de um novo modelo, O Homem, favorecido por um binarismo sexual socialmente predominante e marcado pela violência, a exemplo de todo pensamento polarizado que finca suas raízes no estágio mais arcaico do humano, como mostrado por Klein em sua vívida descrição do mundo clivado dos seios[27]. Citaremos, a esse respeito, um excerto dos dizeres do transgênero FtM Califia, que sugere a tentação de idealidade hiperbólica nos seus pares:

A maioria das pessoas atribui seus sentimentos de inadequação em relação à sua aparência, às suas experiências sexuais ou aos seus relacionamentos íntimos a um fracasso pessoal para atingir, entre outros, os ideais masculino ou feminino. Um fracasso nesses domínios é suscetível de ser vivido mais como uma necessidade — a necessidade de ser mais que um homem masculino ou que uma mulher feminina — do que como um mal-estar com o papel ou o sexo biológico.[28]

Acrescentamos, para terminar, que nosso paciente comunicou uma pequena má-formação de seus órgãos genitais. Isso incitou seu ginecologista a “insistir pesado” na retificação cirúrgica dessa “excrecência desagradável e inaceitável para uma mulher” (!), enquanto que Pascal não tinha manifestamente nenhuma vontade de realizar um procedimento como esse. O gênero tendo de ser confirmado de forma singular e normativa pela anatomia: estamos tão longe assim da obstinação terapêutica de que fora vítima o intersexuado Herculine Barbin no século XIX, com o nobre objetivo de desvendar seu “verdadeiro sexo” e conformá-lo ao ideal da norma?[29] Ou das violências médicas exercidas, até os dias de hoje, com as crianças cujos aparelhos genitais apresentam variações do desenvolvimento, com o objetivo de alinhá-las ao cânone sexual ou, antes mesmo, ao cânone social? — afinal, deixemos Lacan nos lembrar, “há normas sociais, na falta de toda e qualquer norma sexual[30].

Da idealização à sublimação

Pascal alegrava-se ao falar de arte e, mais particularmente, quando evocava o seu amor por Shakespeare. No decorrer de uma sessão, eu o lembrei de que, no teatro elisabetano, companhias masculinas interpretavam papeis femininos. Pascal reagiu com entusiasmo, precisando que, “além do mais, eram homens jovens que interpretavam as mulheres”, e me fez compreender que ele se identificava com esses atores “da sua idade” que ecoavam a sua própria comédia de gênero. Aliás, ele havia denunciado diversas vezes as engrenagens do travestismo social pelas quais ele se sentiu fisgado antes de ousar desvelar o seu transgenerismo.

Cumpre introduzir aqui o tema da mascarada inaugurado na psicanálise por Rivière[31], que postulou, a partir de um caso clínico, que a feminilidade prossegue sempre mascarada, pois ela constitui um arranjo complicado da mulher com a sua própria falicidade originária — a qual perdura em sua dissimulada inveja do pênis. Por uma via diferente, a da história antropológica, Loraux[32] desvelou os “enclaves femininos” que é possível detectar nos heróis mais paradigmaticamente viris da Antiguidade grega, fornecendo a Schneider[33] o solo epistemológico fértil para uma rigorosa exegese do corpus freudiano que desvela o seu “criptofeminismo” e propõe um novo paradigma do masculino mascarado. Coube a Lacan[34] extrapolar a teoria de Rivière, advogando a favor de uma comédia generalizada dos gêneros em que cada “lado” brinca de “fazer-homem” ou de “fazer-mulher”. É um jogo de papeis que tem como efeito a projeção das “manifestações ideais ou típicas do comportamento de cada um dos sexos, até o limite do ato da copulação, na comédia”[35] Além da dimensão do “parecer” e do “semblante” nesse desfile de sedução[36], convém reter a noção do ideal, que adquire “vigor pela demanda […] de amor”, segundo Lacan[37], “ideal regulador” que é do foro de uma norma social e historicamente circunscrita; logo, de uma “construção” e de uma “ficcão” disfarçada de ontologia, tal como destacado por Butler[38]. A mascarada de gênero parece, dessa nova perspectiva, consubstancial a uma idealidade normativa “incorporada”. Nessa ótica, o teatro queer emblematizado pelo drag show — que imita o ideal d’A Mulher e/ou d’O Homem, recorrendo à hipérbole — seria, segundo Butler, do foro da verdade interior do gênero, desmascarando, através da máscara, a sua natureza performativa.

Retomando esses elementos no âmbito das vivências transidentitárias de Pascal, sustentarei que, de tanto querer “performar” A Mulher (“a mulher de verdade”) para se adequar ao ideal incorporado da norma, a angústia do fracasso o impeliu a se voltar contra essa feminilidade inacessível, atacando-a ferozmente, conforme a lógica sadomasoquista que subjaz toda ficção idealizante. Preso nas tramas da polarização social dos sexos, ele basculou para o polo oposto, O Homem (Romeu, Allen Ginsberg, o gentleman britânico), para se ver novamente confrontado à crueldade da busca por “performance”[39]. Diante desse impasse, resultante de uma apropriação paroxística da comédia ordinária dos gêneros, Pascal recorreu à arte: a dissolução das formas, o colapso dos binarismos, a multiplicidade das máscaras. “O teatro é a diversidade, é a não escolha, é a inexistência dos gêneros. É por isso que tenho o sonho de me tornar diretor” — confessou, num tom exaltado. A idealização dava lugar à sublimação, que, diferentemente da primeira, apresenta a vantagem de oferecer ao sujeito tanto a satisfação pulsional quanto a “autoestima” (Selbstachtung), sem a qual essa realização é vivida como alienante[40].

Pude desvelar muito claramente o processo sublimatório em funcionamento na sessão no decorrer da qual Pascal evocou seu projeto de passar por uma histerectomia e renunciar à coleta dos óvulos. A repreensão da parentalidade, a agressividade contra os seus genitores, o ódio em relação aos seus órgãos “fêmeas” e o pesadelo das suas origens dominaram a primeira parte da sessão. Progressivamente, essas problemáticas foram sendo suplantadas pela exaltação da arte e sua intenção de tornar-se diretor para poder fabricar um mundo aberto à multiplicidade. Constatei que o rebentamento pulsional inicial, sem dúvida graças às virtudes metabolizantes do laço transferencial, ia dando lugar ao prazer de pensar e à satisfação voltada para as perspectivas de criação, forma sublime da procriação — tal como Platão (O banquete, 208e-209e), o primeiro na literatura ocidental, o destacou.

QUESTÕES CONTRATRANSFERENCIAIS

Da “insuportabilidade terapêutica” à solução da máscara

Pascal evocou, no decorrer da quinta sessão, o seu encontro com a psiquiatra da instituição, que se dizia pronta para assinar o laudo autorizando a sua histerectomia. Foi a partir desse momento que me surpreendi pensando que talvez ele não devesse realizar a transição. Imaginei que ele queria se tornar homem para desfusionar da mãe, e fiquei incomodado: continuar com as entrevistas permitiria que ele construísse progressivamente o espaço psíquico próprio que lhe estaria faltando tão cruelmente, bem como cortar o cordão umbilical que o sufocava, sem “entrar na faca”. Irritado com essa irrupção “ilegítima” de algo da ordem médica no nosso trabalho, coloquei-me a criticar a intervenção da psiquiatra, bem como o funcionamento da estrutura em geral. Eu me recusava a ser cúmplice dessa “violência” e concebi o projeto de “salvar” o paciente de um erro do qual iria se arrepender. Para tanto, tentei indicar-lhe as contradições de alguns dos seus dizeres e procurei comunicar a ele que o seu projeto de tornar-se homem não era autêntico, mas se assimilava a uma solução “padrão” — porque era socialmente complicado, para ele, permanecer a-gênero como ele desejava.

Aproveitando a ocasião da inquietude que ele havia expressado quanto ao êxito médico da sua transição, me ouvi proferindo: “Se você vivesse num mundo ideal, livre das normas sociais e do binarismo homem/mulher, teria optado por ser o quê?”. Pascal respondeu, na verve de Bornstein[41], que teria “criado um mundo que não se basearia no gênero, um mundo livre da escolha entre homem ou mulher”. Fiquei contente em ver, por fim, a verdade fulgurando — sem pensar que a minha pergunta havia, sem dúvida, orientado a resposta. Estava encorajando a fala livre ou impondo subrepticiamente ao paciente as minhas expectativas, infringindo o preceito freudiano de “[recusar-se] a conformar seu destino, impor-lhe nossos ideais e, com a soberba de um Criador, modelá-lo à nossa imagem”[42]

Foi só mais tarde que compreendi que uma determinada parte das minhas reservas encontrava a sua fonte na minha própria recusa em administrar substâncias estranhas no meu organismo e em aceitar gestos médicos invasivos. Em suma, eram os meus próprios limites que interrogavam tão fortemente a minha “suportabilidade terapêutica”, para tomar emprestado o léxico de Porchat[43] — que frisa, com razão, que “aquilo que suportamos ou não deve-se às nossas histórias psíquicas próprias”. Para precaver-se das interferências pessoais, essa psicanalista convoca a figura mitológica de Hermes, para quem “nenhuma estrangeiridade é estranha” e preconiza o recurso a uma máscara neutra, inspirada por uma técnica teatral que visa à intensidade interna dos movimentos, ao autoconhecimento e ao reforço da disponibilidade psíquica: “As normas procedem do rosto; o analista sem normas, usando uma máscara, parece menos suscetível de se enganar ou de enganar os seus pacientes”.[44]

Eu também convoquei Hermes, que também é deus dos caminhos e das passagens, e “calcei” a máscara teatral para desempenhar o controle dos meus movimentos internos. Assim que identifiquei o que me angustiava e pude trabalhá-lo, soube relançar minha atenção flutuante sem me fixar nos detalhes “desviantes” suscetíveis de desvelar uma determinada verdade do paciente que iríamos interpretar com arrogância, mostrando-lhe que sabíamos mais que ele sobre o que era bom para ele. Consenti, então, com erigi-lo “na posição de especialista” — segundo a bela preconização de Sironi[45] — e, consequentemente, deixá-lo enunciar que a sua transidentidade não traduzia um mal-estar originário — como a mãe dele costumava repetir, ao encontro, sem saber, do topos da literatura psicanalítica sobre o transgenerismo —, mas constituía, antes mesmo, a fonte originária do seu mal-estar[46]. De forma similar, pude me desfazer do velho chavão metapsicológico que concebe a transidentidade como defesa contra a homossexualidade e me confrontar com a hipótese inversa da homossexualidade como defesa contra a transidentidade. Minha conclusão inexorável: o trabalho insidioso das normas não se situa unicamente no social ou no cultural, ele também opera no interior de uma disciplina.

Do canibalismo do clínico à escolha sublimatória do paciente

Pascal me surpreendeu quando se apresentou na sua décima sessão apenas para anunciar que não viria mais. O que mais chamava a atenção era o fato de que ele havia tomado essa decisão quando, na véspera, atravessou uma crise de angústia depois de uma discussão com os pais, que se opunham ferrenhamente à sua transição e o haviam chamado de doente mental. Foi só depois que compreendi a dinâmica que teria podido participar do abandono das sessões. Lembro-me de que Pascal havia me confessado: “De acordo com a minha educação, ver um psi não é algo neutro”. Levando em conta esse preconceito e o fato de que a mãe havia sido rude com ele — considerando-o alguém que sofre de uma desordem psiquiátrica —, romper conosco marcava, provavelmente, a sua recusa em ser assimilado a um doente mental. Noutros termos, a patologização da sua condição o teria levado defensivamente à interrupção do tratamento.

Coincidentemente, Pascal relatou o seu primeiro sonho durante os quinze últimos minutos dessa última sessão: “Eu me vejo criança, com os cabelos verdes, tentando fugir da minha mãe num espaço que nem labirinto com uma Torre Eiffel. A minha mãe estava fugindo porque era uma ladra, criminosa; não me lembro direito, ela tentava entrar em tudo o que era lugar”.

Interpretei esse fragmento onírico como o desejo de Pascal de escapar da intrusão da mãe, que tentava se meter na vida dele, na sua cabeça e na sua terapia, mas evitei comunicar uma outra ideia que me veio à mente: ele estava se esforçando para se emancipar da “mesmidade” que compartilhava com a mãe (os dois personagens estão fugindo), imaginando-se (ou transformando-se em) menino. Naquele momento, deixei de perceber a dimensão fálica da Torre Eiffel e o sentido plausível da perseguição por uma mãe-com-pênis arcaica, acusada de arrombamento, de roubo (da vida do sonhador?) e de assassinato (“criminosa”).

Pascal apontou que se tratava de um sonho repetitivo da sua infância, o qual, aliás, ele havia contado à psicóloga com quem tinha se consultado aos oito anos de idade, no decorrer da sessão devolutiva de um teste. Foi ao tomar notas depois da sessão que suspeitei da dimensão transferencial desse sonho: eu representava essa mãe arrombadora de que Pascal se esforçava para fugir — temendo, sem dúvida, as minhas tentativas de captar o sentido do seu transgenerismo. É preciso lembrar que a mãe dele havia avalizado o fato de que eu não engolia “as mentiras que ele conta” sobre o seu desejo de se tornar homem. Posso, certamente, evocar em minha defesa o fato de que ele também já havia narrado seu sonho à psicóloga-avaliadora antes de deixá-la (sessão devolutiva), o que sugere uma angústia perene de sofrer intrusão. Lothstein[47] sustenta que esse receio é um topos nos transgêneros FtM. Porém, o medo de ser penetrado(a) — ou até canibalizado(a) — pelo(a) terapeuta é comum em várias configurações clínicas: é esse o postulado de Devereux[48], para quem as resistências seriam manifestações normais de proteção da identidade real dos(as) analisantes. É por isso que, segundo ele, “o objetivo não é compreender o paciente, pois, uma vez que o psicanalista compreende, ele se sente vulnerável; trata-se, antes, de permitir a ele que se exprime sem que tenha de temer uma intrusão explicativa e redutora”. Para fazê-lo, seria preciso um tempo prolongado de acompanhamento, e eu me recrimino por ter sido, sem dúvida, impaciente demais com Pascal; e por ter buscado desvelar prematuramente o seu funcionamento psíquico — o que me valeu uma assimilação ao psiquiatra canibal Hannibal Lecter.

Por fim, minha dificuldade em “sentir a perda” de Pascal, para retomar a terminologia de Searls[49] — acaso não me tornei essa mãe invasora que recusava largar o filho? —, impediu-me de escutar o que ele me precisou antes de ir embora: “Tenho vontade de fazer outras coisas ao invés de vir aqui”. Teria podido estabelecer o vínculo com o projeto, que ele me havia anunciado quinze dias antes, de começar a encenar os seus próprios roteiros com uma companhia de jovens atores — atividade cujos horários corriam o risco de coincidir com os dos nossos encontros. Também é significativo que a única vez que ele se viu forçado a cancelar uma sessão tenha sido por causa de uma entrevista para um estágio num teatro. Em suma, a arte e a criação estavam destinadas a assumir dali em diante. Caso adiramos à definição da sublimação proposta por Guillaumin enquanto feliz “combinação de narcisismo, autoerotismo e objetalização”, acaso não deveríamos conceber essa via como a escolha mais apropriada para Pascal? Seu receio de ser canibalizado pelo outro, seu sofrimento nascido da sua identidade de gênero atípica e seu desejo de autogênese poderiam encontrar ali uma ótima saída.

À GUISA DE CONCLUSÃO

Impõe-se a nós, clínicos(as), compreender a violência das normas que participam não somente do mal-estar dos nossos pacientes, mas da subjetivação de todos. Como precisa Ayouch[50], e com razão, numa verve butleriana, “o gênero aparece como uma prática de improvisação que se desfralda no interior de uma cena de constrição”. A consideração dessas forças constritoras sociogênicas pode ampliar nossa escuta frequentemente fixada nas problemáticas intrafamiliares, as quais aclaram, mas não esgotam de modo algum, a complexidade dos desejos transgêneros. A surdez dos terapeutas em relação ao mal-estar induzido pela incorporação das idealidades normativas está precisamente na origem do mal-entendido que assimila as transidentidades a distúrbios patológicos por uma formidável inversão entre a causa e o efeito. Se localizamos frequentemente nos sujeitos transidentitários uma violência fundamental exercida pelo ambiente familiar, como foi o caso para Pascal, só se pode abordá-la numa perspectiva interacionista que leve em consideração a crueldade das injunções de gênero e os múltiplos outros parâmetros idiossincráticos, bem como acontecimentos extrínsecos.

Compreende-se facilmente, com o que precede, que o(a) terapeuta convidado(a) a aceitar o desafio do tratamento de transgêneros deve situar-se numa perspectiva plurirreferencial ou, para falar como Allouch[51], “regular-se pelo diverso”, tanto no plano psíquico quanto no plano disciplinar; em suma, mestiçar-se a exemplo desses pacientes de gêneros, culturas e desejos mestiços. Minha experiência convenceu-me da necessidade de uma luta constante contra o assujeitamento aos binarismos, aos dualismos e aos monolitismos, assim como contra uma “vontade de saber” que casa subrepticiamente com a busca determinista das lógicas transidentitárias.

Meu maior deslocamento foi a renúncia a toda e qualquer perspectiva etiológica em prol de uma “sensificação”[52] das transformações corporais desejadas pelos meus pacientes. É escusado dizer que essa nova visada requere o controle da impaciência e a exigência de dar o tempo necessário aos/às pacientes para se abrirem. Só a ele(a) cabe decidir se deseja abordar o seu transgenerismo para integrá-lo a uma reconstituição arqueológica de si ou se prefere ser acompanhado(a) para melhor enfrentar as vicissitudes do caminho transformacional. Se estabeleci conexões entre a relação com os pais, a dinâmica das normas e a emergência dos desejos transgêneros, hoje compartilho da vigilância de Sironi, que indica que “uma correlação não é um vínculo de causalidade”[53]. Por conseguinte, o meu percurso clínico inscreve-se, de agora em diante, numa busca por “correlações suscetíveis de constituir um alavanca terapêutica”[54] e por engajar verdadeiros devires, no sentido deleuziano do termo.

A condição sine qua non para orientar-se nessa direção é o descentramento do paciente em relação ao seu “sinthoma” acompanhado do descentramento do clínico em relação aos seus “sintomas” ideológicos, étnicos, raciais, disciplinares, nosográficos, e assim por diante. Para fazê-lo, cumpre ao terapeuta entregar-se a um trabalho constante para se desterritorializar em relação aos discursos majoritários e se precaver contra a “normose”, para empregar o vocábulo de Vignes[55] — que preconiza um “descolamento” da cultura nativa e uma abertura ecumênica. A análise sistemática da contratrasnferência é o pré-requisito primordial, visto que aprendemos que a visada consciente de neutralidade e de abstenção não se realiza magicamente tão logo enunciada. Esse trabalho deve incluir a elaboração das fantasias e a perlaboração das resistências não somente com relação a problemáticas dos pacientes, mas também com relação ao meta-âmbito institucional. Se o meta-âmbito funcionar, graças a uma análise rigorosa das práticas clínicas e da contratransferência da equipe cuidadora, o âmbito das entrevistas individuais será otimizado. 

REFERÊNCIAS

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* Nicolas Evzonas é membro do Centro de Pesquisas em Psicanálise e Medicina – CRPMS do Departamento de Estudos Psicanalíticos (Université Paris-Diderot, Université Sorbonne Paris Cité)


** Paulo Sérgio de Souza Jr. é psicanalista, tradutor e linguista. Com pós-doutoramento pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, é doutor e bacharel em linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.



[1] Agradecimentos: todo o meu reconhecimento à Prof. Sylvie Le Poulichet, que me encorajou e apoiou ao longo da minha formação em psicopatologia psicanalítica e cujas obras constituem, a meu ver, um modelo de escrita clínica. Por essa razão, dedido a ela este artigo.

[2] Texto originalmente publicado em Revue Belge de Psychanalyse, n. 72 (2018).

[3] STOLLER, Robert (1968), Recherches sur l’identité sexuelle. Paris: Gallimard, 1978; LOTHSTEIN, Leslie Martin (1983) Female-to-Male Transsexualism. Boston: Routledge; MERCADER, Patricia (1994) L’Illusion transsexuelle. Paris: L’Harmattan; CZERMAK, Marcel; FRIGNET, Henry [orgs.] (1996) Sur l’identité sexuelle. Paris: AFI; CASTEL, Pierre-Henri (2003) L’Impensable Métamorphose. Paris: Gallimard; CHILAND, Colette (2011) Changer de sexe. Paris: Odile Jacob.

[4] Acerca do que convém chamar de “contratransferência teórica violenta”, extensão de uma contratransferência clínca não — ou não sucifientemente — analisada, cf. AYOUCH, Thamy (2005) “Psychanalyse et transidentités”, L’Évolution psychiatrique, n. 80; PERETTI, Marie-Laure (2009) Le Transsexualisme, une manière d’être au monde. Paris: L’Harmattan; ESPINEIRA, Karine (2015) Transidentités: ordre et panique de genre. Paris: L’Harmattan.

[5] WINNICOTT, Donald Woods (1971) Therapeutic Consultations in Child Psychiatry. New York: Basic Books, Inc.

[6] FREUD, Sigmund (1913) “O início do tratamento”. In: Obras completas, vol. 10: “Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (O caso Schreber); Artigos sobre técnica e outros textos”. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010; pp. 163-192

[7]  PROKHORIS, Sabine (2000) Le sexe prescrit. Paris: Aubier.

[8] Nossas observações clínicas nos situam nas antípodas da interpretação stolleriana do “transsexualismo feminino” enquanto “presença demasiadamente grande do pai e grande ausência da mãe”. (STOLLER, Robert [1968], Recherches sur l’identité sexuelle. Paris: Gallimard, 1978; p. 240).

[9] CHILAND, Colette (2011) Changer de sexe. Paris: Odile Jacob.

[10] ESPINEIRA, K. (2015) Transidentités: Ordre et Panique de genre. Paris: L’Harmattan.

[11] FOUCAULT, Michel ([1974-75]1999) Os anormais. Trad. E. Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

[12] Lembremos que o tema dos pais que dormem em quartos separados é considerado por Chiland como uma invariante da história subjetiva dos transexuais FtM, assemelhando-se a um fato real (CHILAND, Colette [2011] Changer de sexe. Paris: Odile Jacob). Para nós, trata-se de uma fantasia cuja eventual ancoragem na realidade externa nos é indiferente.

[13] As experiências clínicas de Le Poulichet incitaram-na a abrir o conceito de “cena originária” à sua dimensão plural. Assim, ao lado da cena primitiva clássica (heterossexual e relativa ao coito), ela recompõe, nos tratamentos que conduz, em parceria com seus/suas analisantes, cenas originárias homossexuais, orais, uretrais, anais, partogenéticas, de fecundação pré-natal etc. Cf. LE POULICHET, Sylvie (2010) Les chimères du corps. Paris: Éd. Aubier.

[14] LACAN, Jacques (1949) “O estádio do espelho como formador da função do Eu”. In: Escritos. Trad. V. Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1988; pp. 93-106.

[15] WINNICOTT, Donald Woods (1967) “Mirror-role of the mother and family in child development”. In: LOMAS, Peter (org.) The Predicament of the Family: A Psycho-Analytical Symposium. London: Hogarth; pp. 26-33.

[16] LE POULICHET, Sylvie (2003) Psychanalyse de l’informe. Paris: Flammarion; p. 36.

[17] LINHARES, Andréa (2004) “Quand le sexe fait visage”, Champs psychosomatiques, vol. 34, n. 2; p. 73.

[18] LINHARES, Andréa (2004) “Quand le sexe fait visage”, Champs psychosomatiques, vol. 34, n. 2; p. 80.

[19] LINHARES, Andréa (2005) “Le sexe de l’informe”, Recherches en psychanalyse, vol. 3; p. 47.

[20] A representação fantasística da “criança doadora” (termo inspirado pela concepção de crianças por meio de seleção genética in vitro com vistas a doar células-tronco a um irmão mais velho acometido de uma doença genética — em inglês, savior sibling [irmão salvador]) foi conceitualizada por Le Poulichet (cf. LE POULICHET, Sylvie [2010] Les chimères du corps. Paris: Éd. Aubier). Ela considerou essa fantasia como “a ameaça do vivo” que define a angústia que compele os pais a tentarem reduzir a criança a um objeto controlável, que não teria como desenvolver a sua própria vida e o seu próprio desejo. Essa angústia leva-as a não reconhecer totalmente a expressão do vivo numa criança separada deles, como se isso os colocasse inconscientemente em perigo. Por conseguinte, a criança doadora — a fim de reparar ou ressarcir o ou os pais e de fazer frente a essa ameaça do vivo — é compelida a continuar parcialmente no inanimado, a manter múltiplas zonas de inibição, a ocupar somente uma parte do seu próprio corpo e a só existir para realizar a “doação de órgãos”.

[21] CASTEL, Pierre-Henri (2003) L’Impensable Métamorphose. Paris: Gallimard; CHILAND, Colette (2011) Changer de sexe. Paris: Odile Jacob.

[22] ROUCHON, Jeanne-Flore et al. (2009) “L’utilisation de la notion de contre-transfert culturel en Clinique”, L’Autre, vol. 10, n. 1; pp. 80-89.

[23] GUTTON, Philippe (1993) “Essai sur le fantasme d’immortalité à la puberté”, Cliniques méditerranéennes, vol. 39/40; pp. 141-154.

[24] LINHARES, Andréa (2005) “Le sexe de l’informe”, Recherches en psychanalyse, vol. 3; p. 43

[25] “Cisgênero” — vocábulo construído por oposição a “transgênero” — descreve um tipo de identidade em que o gênero com o qual uma pessoa se identifica corresponde ao gênero que lhe foi atribuído no nascimento.

[26] ALLOUCH, Jean (2014) “Fragilités de l’analyse”, Critique, vol. 800-801, n. 1; pp. 19-31.

[27] KLEIN, Melanie (1946) “Notas sobre alguns mecanismos esquizoides”. In: Obras completas, vol. 3: “Inveja e gratidão, e outros trabalhos”. Trad. E. M. Rocha et al. Rio de Janeiro: Imago, 1991; pp. 17-43

[28] CALIFIA, Pat (1997) Le mouvement transgenre. Paris: Epel, 2003; p. 354.

[29] (Foucauld, 1980)

[30] LACAN, Jacques (1973) “Declaration à France-Culture à propos du 28e Congres international de psychanalyse”, p. 6. Disponível em: <ecole-lacanienne.net/wp-content/uploads/2016/04/Declaration_a_france_culture_1973.pdf>.

[31] RIVIÈRE, Joan (1929) “A feminilidade como máscara”. Trad. A. C. Carvalho;  E. Carvalho. Psyche (Sao Paulo) [online], 2005, vol. 9, n. 16; pp. 13-24.

[32] LORAUX, Nicole (1989) Les expériences de Tirésias. Paris: Gallimard.

[33] SCHNEIDER, Monique (2000) Généalogie du masculin. Paris: Flammarion, 2006.

[34] LACAN, Jacques (1958) “A significação do falo”. In: Escritos. Trad. V. Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1988; pp. 692-703; LACAN, Jacques (1971) O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse do semblante. Trad. V. Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009.

[35] LACAN, Jacques (1958) “A significação do falo”. In: Escritos. Trad. V. Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1988; p. 701.

[36] LACAN, Jacques (1971) O seminário, livro 18: De um discurso que não fosse do semblante. Trad. V. Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2009.

[37] LACAN, Jacques (1958) “A significação do falo”. In: Escritos. Trad. V. Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 1988; p. 701.

[38] BUTLER, Judith (1990) Problemas de gênero. Trad. R. Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2003.

[39] Berger precisa que o vocábulo “performance”, utilizado por Butler, “diz também da tensão rumo à perfeição, rumo ao perfazimento de um ‘fazer’ [como se]” (BERGER, Anne-Emmanuelle [2013] Le grand théâtre du genre. Paris: Belin 2003, p. 44).

[40] FREUD, Sigmund (1914) “Introdução ao narcisismo”. In: Obras completas, vol. 10: “Introdução ao narcisismo: ensaios de metapsicologia e outros textos”. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010; pp. 13-50.

[41] BORNSTEIN, Kate (1994) Gender outlaw. New York: Routledge.

[42] FREUD, Sigmund (1919) “Caminhos da terapia psicanalítica”. In: Obras completas, vol. 14: “História de uma neurose infantil (O homem dos lobos); Além do princípio do prazer e outros textos. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010; p. 288.

[43] PORCHAT, Patrícia (2017) “Que sont les normes pour les psychanalystes?”, Cliniques méditerranéennes, vol. 95, n. 1; p. 148.

[44] PORCHAT, Patrícia (2017) “Que sont les normes pour les psychanalystes?”, Cliniques méditerranéennes, vol. 95, n. 1; p. 148.

[45] SIRONI, Françoise (2011) Psychologie(s) des transsexuels et des transgenres. Paris: Odile Jacob.

[46] Delcourt é um dos raros psicanalistas a falar de “um distúrbio psíquico, não enquanto fator que participa da flutuação identitárias, mas como uma consequência do trans que se tornou dis” (DELCOURT, Thierry [2016] “Trans, dys, switch”, Insistance, vol. 12; p. 90). Precisemos, aqui, que a estigmatização atual da transidentidade, pela assimilação dessa última a um distúrbio psíquico preexistente, repete a história da homossexualidade. Esse preconceito foi denunciado, na sua época, por Roughton (ROUGHTON, Ralph [1999] “Psychanalyste et homosexual?”, Revue française de psychanalyse, vol. 63, n. 4, pp. 1.281-1.299).

[47] LOTHSTEIN, Leslie Martin (1983) Female-to-Male Transsexualism. Boston: Routledge.

[48] DEVEREUX, Georges (1967) La renonciation à l’identité. Paris: Payot & Rivages, 2009; p. 17.

[49] Searles analisa de forma bastante fina a sua confusão quando da mudança de uma de suas pacientes e escreve notadamente o seguinte: “Toda esperança realista não fundamentada na renegação deve apoiar-se numa capacidade de experimentar a perda” (SEARLES, Harold [1979] Le contre-transfert. Trad. B. Bost. Paris: Gallimard, 1981; pp. 225-249).

[50] AYOUCH, Thamy (2005) “Psychanalyse et transidentités”, L’Évolution psychiatrique, 80, pp. 303-316, p. 310.

[51] ALLOUCH, Jean (2014) “Fragilités de l’analyse”, Critique, vol. 800-801, n. 1; pp. 19-31.

[52] AULAGNIER, Piera (2001) Un interprète en quête de sens. Paris: Payot, p. 238.

[53] SIRONI, Françoise (2011) Psychologie(s) des transsexuels et des transgenres. Paris: Odile Jacob.

[54] SIRONI, Françoise (2011) Psychologie(s) des transsexuels et des transgenres. Paris: Odile Jacob, p. 180

[55] VIGNES, Jacques (1993) Éléments de psychologie spirituelle. Paris: Albin Michel.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | EVZONAS, Nicolas  (2018) A criança doadora ou o sublimador do gênero: uma transferência prematuramente interrompida. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -6, p. 5, 2018. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2018/11/22/n06-05/>.