Resenha | Freud no kibutz (Liebermann, 2023)

por Betty Fuks

LIEBERMANN, Guido (2014) Freud no kibutz. Trad. P. S. de Souza Jr. São Paulo: Ed. Blucher, 2023 (“pequena biblioteca invulgar”).

Psicanálise e educação no kibutz

Alguns anos atrás, tive o prazer de escrever o posfácio da primeira obra de Guido Liebermann traduzida para o português, A psicanálise em Israel: sobre as origens do movimento freudiano na Palestina britânica [1918-1948] (Annablume, 2019; 2023, 2a. ed.). Uma vez que identifico uma continuidade entre esse livro e o novo lançado recentemente no Brasil, inicio esta resenha mapeando três planos distintos de acontecimentos para melhor comentar a riqueza dessa experiência única e singular que o autor nos apresenta em Freud no kibutz.

No primeiro plano, localizo a história da psicanálise na Palestina otomana, na Palestina britânica e, mais tarde, em Israel; no segundo, a história do ódio ao judeu — desde o final do século XIX, na Rússia, à ascensão do nazismo no século XX; e no terceiro, o da implementação do projeto de retorno a Sion, impulsionado pelas primeiras associações sionistas. Cada um desses três planos se entrecruzam pela ação da aposta inconteste de alguns médicos, pedagogos, psicólogos e assistentes sociais, e até mesmo dirigentes sionistas, na causa analítica e nos ideais revolucionários de justiça social. Nesse sentido, os dois livros de Guido são extremamente importantes para aqueles que se interessam em pensar o binômio psicanálise e justiça social.

A continuidade de ordem histórica entre os dois livros, somada ao fato da disposição dos judeus que chegavam à Palestina de reinventar a história do povo judeu, não é apenas uma ferramenta de leitura importante para acompanhar o processo político-social de implementação das coletividades agrícolas socialistas judaicas de onde surgiram os kibutzim (plural de kibutz). Ela também abre uma janela importante à apreensão do devir-judeu dos pioneiros, que, tendo abandonado a religião de seus ancestrais, construíam suas judeidades quebrando modelos antigos e as resistências da comunidade tradicionalista à novidade que Freud trouxe à civilização.

Na história que Guido nos conta em Freud no kibutz, há um tema que interessa particularmente aos psicanalistas, pois toca os fundamentos da formulação freudiana de um campo que reúne os ofícios de psicanalisar, educar e governar — o campo do impossível[1]. Tema que tensiona a pesquisa do autor e levanta questões que impulsionam o leitor a se indagar sobre as conexões possíveis entre os três ofícios, principalmente aquelas que apontam para um possível diálogo entre psicanálise e educação, na atualidade.

A instalação da psicanálise na Palestina otomana esteve a cargo da instituição “Ezrat-Nashim” — expressão em hebraico que podemos traduzir por “ajuda oferecida pelas mulheres”. Essas mulheres judias tiveram a iniciativa de fundar um manicômio e nele acolher os loucos, judeus e os não judeus que perambulavam pelas ruas de Jerusalém. Nessa casa, pela primeira vez, o termo “psicanálise” foi pronunciado e não deixa de ser curioso o fato de terem sido mulheres aquelas a abrir um espaço à experiência de liberação da dor psíquica por meio da palavra. Lembremos do início da história da psicanálise quando uma mulher, Anna O., designou de talking cure o método clínico psicanalítico — uma experiência de linguagem promotora de alívio à dor psíquica.

A onda de imigração de judeus chegada à Palestina britânica depois da Primeira Guerra Mundial traz a marca dos psicanalistas e educadores que tiveram a experiencia prática de executar empreendimentos no campo médico-social e na área de educação, a partir do desejo de Freud em oferecer à população carente o mesmo direito social ao tratamento de saúde mental que aos cuidados médicos e cirúrgicos. Um desejo transformado em projeto que começou a ser desenvolvido por psicanalistas da primeira geração, segundo a pesquisa Elizabeth Danto[2], em Viena Vermelha — uma experiência democrática que teve grande participação popular, em especial das massas operárias organizadas pelo Partido Social-Democrata austríaco. Os programas políticos da Viena Vermelha privilegiaram, além da construção de conjuntos habitacionais para a população carente, a instalação de inúmeras clínicas públicas para as quais a psicanálise foi levada sob a aquiescência e o entusiasmo de Freud. O terceiro pilar do socialismo emergente em Viena foi o sistema escolar, que tinha como princípio dar a toda a população o acesso à educação.

É importante sublinhar que, a partir da Primeira Guerra, a intervenção da psicanálise na esfera pública se estendeu a outras cidades da Europa; e a pesquisa de Liebermann mostra claramente como se deu a continuação desse mesmo projeto na Ásia. Psicanalistas e educadores marxistas e sionista, bem como aqueles assombrados pelo antissemitismo latente, chegavam à Palestina convictos de que o instrumental psicanalítico, criado para investigar a razão inconsciente do sofrimento individual, deveria de ser estendido à dimensão social da dor psíquica. Por exemplo, David Eder, que atendera crianças órfãs de guerra, ainda em Londres, transportou para Israel o modelo de atendimento que hoje, em pleno século XXI, conhecemos como uma clínica constituída pela escuta dos sujeitos situados precariamente no campo social. Os profissionais imigrantes, na esteira do legado de Freud e muitos anos antes das contribuições teóricas de Lacan acerca do que ele chamou de psicanálise em extensão, souberam investir na experiencia e no saber psicanalítico ouvindo os que estavam à margem da sociedade, na tentativa de articular o singular do sujeito no laço social.

É no campo da educação coletiva, levada a cabo nos kibutzim, principalmente naqueles edificados pelo movimento de esquerda Ha-Shomer Ha-Tza’ir, que a disciplina freudiana teve um papel central, ainda que esse encontro tenha sido paradoxal e controverso. O tema do papel da sexualidade e do erotismo não estava ausente dos debates ideológicos desse movimento, para o qual o ato de educar compreendia oferecer à criança as armas cabíveis à sua formação intelectual e afetiva, bem como ao investimento numa sociedade mais justa.

Desde Freud, a conceituação da psicanálise tem no estudo da infância um de seus pilares. Em função disso, dois pontos fundamentais podem ser reconhecidos na criação do espaço interdisciplinar Psicanálise e Educação. De um lado, a teoria da sexualidade infantil acompanhada do conceito de pulsão, da qual é preciso renunciar a uma parcela para que a vida em sociedade se torne digna de ser vivida. Uma renúncia que requer, em grande parte, a incidência da pedagogia e da educação para que seja efetivada. De outro lado, a introdução das práticas psicanalíticas em âmbitos que ultrapassam o paciente individual, como, por exemplo, nas escolas e nas instituições de cuidados de crianças e jovens em situação de abandono do que se chamava então de delinquência.

O fato de Freud ter sido chamado a prefaciar a obra Juventude abandonada, de August Aichhorn, aponta e confirma a observação de que entre as articulações que a psicanálise estabelece, conforme suas palavras, “nenhuma parece ter suscitado tanto interesse, sustentado tantas esperanças e atraído, em consequência, tantos pesquisadores competentes, quanto a aplicação à teoria e à prática da educação”[3].

Aichhorn, assim como outros educadores e psicanalistas, realizou, ainda em Viena, trabalhos e ações com crianças de rua abandonadas, em abrigos, e com jovens e adolescentes negligenciados. Anna Freud, Sándor Ferenczi, Melanie Klein, entre outros, mostravam-se preocupados não apenas com questões teóricas, mas igualmente com questões práticas relacionadas à educação. Um novo cenário, no entanto, parece se instalar quando Aichhorn e Anna Freud, encontraram o jovem educador Siegfried Bernfeld. Fascinado pela psicanálise e inteiramente convencido de que a repressão sexual obstaculiza o pleno desenvolvimento da criança, Bernfeld — um revolucionário, dirigente sionista, freudiano e socialista —, fundou o Lar da Criança Desamparada (Kinderheim), instituição na qual implantou a primeira experiência de educação coletiva na história da psicanálise.

Em Freud e o kibutz navegamos pelos caminhos dessa experiencia transplantada à Palestina e incorporada à sociedade kibutziana, fundada sobre a abolição da ideia de propriedade privada e com modelos de funcionamento econômico, social e educativo inteiramente opostos à sociedade capitalista. Em tese, o kibutz era responsável por “forjar” um novo judeu segundo os ideais de criação de outros laços sociais que não apenas o da família nuclear.

Assim, a teoria freudiana foi convocada a participar da formação de professores, encarregados de uma “Educação Nova”. No cômputo geral, isso determinou uma série de experiencias inéditas. Por exemplo: a relação mãe bebê foi posta sob vigilância, como medida de erradicação da neurose, e a institucionalização da educação sexual e de dispositivos que foram inventados para minorar os efeitos da repressão sexual — desculpabilização da masturbação e incremento do encontro sexual entre jovens adolescentes — são algumas das consequências do encontro entre psicanálise, educação e política — termo este entendido como a arte ou ciência de organizar e governar determinados grupos, nações e Estados.

Parece-me que nesse primeiro momento apenas as teses do texto freudiano “Moral sexual ‘civilizada’ e nervosismo moderno” foram tomadas como referência, o que significou a sustentação da promessa de que a psicanálise estava trazendo ao mundo a solução do mal-estar da repressão sexual. O sentido e o alcance da presença da pulsão de morte na obra freudiana, assim como os seus desdobramentos — pulsão de violência, de crueldade e de destruição como parte constitutiva do social —, foram praticamente elididos pela aspiração política reinante no kibutz de solução de conflitos e bem-estar.

Entretanto, isso não durou para sempre: o próprio Berenfeld passou a questionar os limites da educação e acabou se afastando de alguns pedagogos do movimento Ha-Shomer Ha-Tza’ir, denunciando a crença de que uma educação particular seria capaz de fazer advir um ser novo, o judeu ideal. Com esse ato, Berenfeld estava trazendo de volta à cena dos estudos pedagógicos realizados no kibutz a ideia de Freud sobre a precariedade inevitável de todo o ato educativo e do incerto caminho do sujeito ao longo de sua educação.

A verdade é que, mesmo assim, a Weltachauung pedagógica, a visão de mundo pedagógica, tomou conta de alguns ideólogos do movimento que passaram a alimentar, mais ainda, uma suposta educação ideal — ou seja, idealizada. E sabemos que, em contraposição a qualquer Weltachauung, o psicanalista deve estar empenhado em mostrar os limites intrínsecos ao saber psicanalítico, sempre passíveis de serem tomados como insuficientes por aqueles que dele esperam uma resposta totalizante para minorar o desamparo humano.

Nesse ponto, Guido imerge-nos no esforço de alguns intelectuais israelenses em demonstrar a compatibilidade das teorias de Marx com as de Freud, e de colocar esses autores em pé de igualdade. Não que estivessem de todo errados, penso eu, pois tanto a psicanálise quanto o marxismo, duas grandes revoluções iconoclastas do Ocidente, são “filhas legítimas” da antiga luta de anti-idolatria dos hebreus e dos profetas. Basta ver que Marx e Freud denunciaram os efeitos fetichistas e perversos de um mundo gerado pela idolatria moderna do eu e do dinheiro. Mas Guido, freudiano convicto, lembra ao leitor a Conferência XXXV, “Em torno da Weltachauung[4], e mostra o quanto esse trabalho abalou os pedagogos e psicanalistas socialistas do kibutz, já que nele o ideário marxista é considerado uma visão de mundo totalizadora, parecido ao status que ele próprio critica — o sistema religioso. Expondo com clareza os remanejamentos da teoria da pulsões, Freud insiste, nessa mesma conferência, em que a psicanálise, por manter uma relação com o real — isto é, com aquilo que existe fora de nós e independente de nós —, algo que nos afeta sem que saibamos de onde vem (algo unheimlich), deve caminhar na contracorrente de toda e qualquer cosmovisão.

É com um cuidado especial que Guido trava sua batalha final no capítulo “Psicanálise freudiana e a psicologia do ego”. Se a Psicanálise reconhece no inconsciente a presença de tudo aquilo que recebemos de nossos ancestrais, o que exige do sujeito o empenho de conquistar para fazê-lo seu, a psicologia do ego, privilegiando a consciência do eu em detrimento do isso e do eu inconsciente, aposta justamente na construção de identidades fixas e imutáveis, em detrimento das identificações inconscientes. Não são poucas as evidências, ao final do livro, de que a ideologia de fortalecimento do ego tomou conta de grande parte do projeto de educação coletiva. Dissolvia-se, assim, a ideia freudiana de mal-estar e da cisão do eu inerente ao aparelho psíquico destinado a proporcionar prazer. A promessa americana de felicidade apregoada pelo progresso da ciência e pela técnica e embutida na psicologia do ego tomou de assalto os kibutzim. De Nova York, a megacidade do capitalismo mundial, ao lendário e mítico ideário do Ha-Shomer Ha-Tza’ir, o imperativo freudiano Onde isso era o eu advirá foi recalcado em nome de sua majestade o ego não dividido, senhor de sua própria casa, adaptado à cultura dominante.

Volto, antes de terminar, à questão da transmissão da psicanálise evocada por Freud na última sessão da Sociedade Psicanalítica de Viena; ocasião em que propôs aos analistas presentes proceder como os antigos hebreus por ocasião da destruição do Templo de Jerusalém, quando, sob o comando de Rabbi Yochanan ben Zakai, os judeus dedicados à leitura infinita do Antigo testamento decidiram por pedir permissão para abrir uma escola de estudos dos textos sagrados em Yavneh. Com essa fala, Freud acionava o compromisso de todos os presentes para com a transmissão de sua descoberta no exílio. Palavras ditas às vésperas de sua saída de Viena a Londres que me levaram a extrair dos brancos e das margens do texto de Liebermann a ideia de que a analogia freudiana entre a condição de exílio e transmissão do judaísmo e transmissão da psicanálise deixa em nós uma esperança: independentemente da nacionalidade do analista de sua etnia e do lugar em que a psicanálise se institucionalize, o psicanalista deve mantê-la viva e operante de geração em geração. E, para tanto, sua transmissão será garantida apenas por letras, eternas migrantes do desejo.

A teoria é letra morta, só recuperável num encontro com o outro — momento em que nos implicamos vivamente — em direção ao futuro. Essa é a política de transmissão proposta por Freud e igualmente por Lacan, que não deixou de recomendar ao analista manter a psicanálise como um saber voltado ao real e estar sempre atento à subjetividade de sua época. E nisso temos de reconhecer, ao final da leitura do livro de Liebermann, que nos kibutzim — enfrentando todas as contradições e paradoxos, no empenho de implantar a psicanálise enquanto prática e teoria do não idêntico — muitos psicanalistas em diálogo permanente com outros saberes deixaram o testemunho de uma experiência exemplar, vigorosa e contundente à história da psicanálise.

REFERÊNCIAS

DANTO, Elisabeth Ann (2005) As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social. Trad. M. Goldsztajn. São Paulo: Perspectiva, 2019.

FREUD, Sigmund (1925) “Prólogo al libro Juventud descarriada de August Aichhorn. In: Obras Completas. vol. XIX. Buenos Aires: Amorrortu, 1976.

_____. (1933) “En torno de una cosmovisión”. In: Obras Completas. vol. XXII. Buenos Aires: Amorrortu, 1976.

LIEBERMANN, Guido (2012) A psicanálise em Israel: sobre as origens do movimento freudiano na Palestina britânica (1918-1948). Trad. P. S. de Souza Jr. São Paulo: Annablume, 2019.

VOLTOLINI, Rinaldo. “A psicanálise na pesquisa sobre a formação de professores: sujeito e saber”. In: VOLTOLINI, Ricardo; GURSKI, Rose (2020) Retratos da pesquisa em psicanálise e educação. São Paulo: Contracorrente; pp. 100-126.


* Betty Fuks é psicanalista e doutora em comunicação e cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora da pós-graduação em Psicanálise, Saúde e Sociedade na Universidade Veiga de Almeida (RJ), é autora de Freud e a judeidade: a vocação do exílio (2000) e Freud e a cultura (2007).



[1] VOLTOLINI, Rinaldo. “A psicanálise na pesquisa sobre a formação de professores: sujeito e saber”. In: VOLTOLINI, Ricardo; GURSKI, Rose (2020) Retratos da pesquisa em psicanálise e educação. São Paulo: Contracorrente; pp. 100-126.
[2] DANTO, Elisabeth Ann (2005) As clínicas públicas de Freud: psicanálise e justiça social. Trad. M. Goldsztajn. São Paulo: Perspectiva, 2019.
[3] FREUD, Sigmund (1925) “Prólogo al libro Juventud descarriada de August Aichhorn. In: Obras Completas. vol. XIX. Buenos Aires: Amorrortu, 1976; p. 296.
[4] FREUD, Sigmund  (1933) “En torno de una cosmovisión”. In: Obras Completas. vol. XXII. Buenos Aires: Amorrortu, 1976.




COMO CITAR ESTA RESENHA | FUKS, Betty (2023) Freud no kibutz. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -15, p. 10, 2023. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2023/12/22/n-15-10/&gt;.