O que pode um passado em fragmentos contra a monumentalidade dos feixes do presente? A psicanálise, em especial, é um saber que depende da história não só nas curvas e decursos, perigos e percalços de seu tratamento, mas também na própria transmissão. A cada tentativa de avanço, Freud parece nos tragar novamente para sua boca, nos fazendo cúmplices, na obra, do gesto que galvanizou seu corpo em vida. Face ao pó que envolve a solidez da doutrina, nos restaria apenas passar pano, lustrá-la para o próximo lustro? Ou, ao contrário, estilhaçar — de preferência com riso dos memes — a mandíbula que não raras vezes proferiu violências? Talvez uma saída seja considerar Freud não exatamente como a boca de onde saem genialidades ou impropérios, mas como algo quotidiano, não tão delicioso assim, com o qual o dia pode começar, mas não o define. Na qualidade de revista, nossa aposta é, à moda de Paul Celan, mastigar este pão com dentes de escrita. ♦