[ Freud’s Cientific Begginings ]
Tradução | Marcus Vinicius Neto Silva
Nota introdutória
Siegfried Bernfeld nasceu em 7 de maio de 1892 na cidade de Lemberg, na Ucrânia. A família logo se muda para Viena, onde ele, sua mãe (com apenas 19 anos quando deu a luz ao primogênito Siegfried) e seu pai (que trabalhava na indústria têxtil) passam a viver. Seus pais tiveram ainda mais um filho e uma filha.
Em 1911 ingressa na Universidade de Viena, onde estuda inicialmente botânica. Ele próprio afirmava que abandonou a botânica porque não tinha destreza manual necessária para preparar o material no laboratório. Ao longo dos anos, seus interesses vão migrando para pedagogia e psicologia, obtendo o grau de doutor em Filosofia em junho de 1915, com a dissertação “Sobre o conceito de adolescência”.
Ao que parece, se interessou por psicanálise ainda muito cedo. Em 1907 leu “A interpretação dos sonhos” e em seguida devorou outras obras de Freud. Segundo ele, chegou a hipnotizar seu irmão mais novo nessa época. Analisava os próprios sonhos e ocasionalmente os sonhos de amigos. Em 1913 passa a frequentar a Sociedade Psicanalítica de Viena[1].
Paralelamente ao seu interesse em psicanálise, Bernfeld estava muito envolvido com movimentos políticos. Frequentava associações e colaborava com periódicos de esquerda, participava de organizações de jovens judeus e fundou o Comitê Acadêmico para a Reforma Escolar. Essa associação mantinha um periódico, Der Anfang, editado por ele. O comitê sobreviveu por apenas dois anos, entre 1912-1914, quando foi fechado pela polícia. A organização continuou funcionando secretamente por alguns meses antes de encerrar as atividades por causa da guerra.
Sua produção inicial em psicanálise carregava essa marca. Ele era um dos primeiros psicanalistas abertamente socialista. Com a eclosão da guerra, ele foi convocado para prestar serviço militar, mas escapou de se envolver mais diretamente no conflito por problemas de saúde.
Com o fim da guerra, surge a oportunidade de colocar em prática suas concepções sobre educação e psicanálise. Um grande número de crianças judias órfãs acolhidas em orfanatos e abrigos foi reunida em um único local, o Orfanato Baumgarten, conduzido por Bernfeld.
Em 1922, decidido a começar sua prática clínica, Bernfeld vai até Freud e pergunta sobre como proceder, já que em Berlim geralmente se fazia um período de análise didática antes de permitir ao candidato começar a atender. Ele questiona Freud se achava que ele deveria fazer isso e ouve a seguinte resposta: “Besteira. Vá em frente. Você vai ter dificuldades, é claro. Quando tiver problemas, veremos o que podemos fazer sobre isso”[2]. Mais tarde, em 1930, ele faz uma análise didática com Hanns Sachs.
Em 1925, com a fundação do Instituto de Psicanálise em Viena, Bernfeld ocupa o cargo de vice-diretor. No ano seguinte, muda-se para Berlim e passa a lecionar no Instituto de Psicanálise dessa cidade, além de clinicar. Em 1932, com a ascensão de Hitler, retorna a Viena, onde permanece por apenas dois anos. Com planos de migrar para os Estados Unidos, muda-se para a França, onde permanece por dois anos e meio. Viaja para a Inglaterra, onde reside por alguns meses antes de obter visto e permissão para trabalhar nos Estados Unidos, para onde se muda em definitivo em 1937.
Nessa fase de sua vida, contribuiu muito para a expansão da psicanálise em San Francisco. Continuou clinicando e lecionando. Entretanto, em 1942, as sociedades psicanalíticas norte-americanas passaram a exigir formação em medicina. Isso significava que Bernfeld não poderia mais clinicar, mas mantinha seu posto como membro honorário e podia ainda ensinar psicanálise aos analistas em treinamento. Também foi permitido a ele conduzir análises didáticas.
A partir dessa época, interessou-se profundamente pela vida de Freud. Pesquisou e escreveu diversos artigos explorando variados períodos da vida e da obra freudiana. Colaborou com Jones na escrita da biografia que viria a ser reconhecida como oficial[3]. No final da década de 1940, seu estado de saúde não era dos melhores. Ao longo dos últimos anos de vida, esteve internado várias vezes e foi operado em algumas ocasiões. Seu coração já dava sinais de que não resistiria muito tempo. Morreu em abril de 1953, antes de poder levar ao final seu projeto de escrever uma biografia de Freud. O texto traduzido a seguir faz parte desse projeto inacabado.
Os primórdios científicos de Freud
As fantasias da infância e os devaneios da adolescência de Freud, até onde sabemos, não predizem o futuro originador da psicanálise. Elas se adequam a um general, um reformador ou um homem de negócios e não a alguém que escuta pacientemente em tempo integral as queixas triviais, histórias enfadonhas e o relato de sofrimentos irracionais. Foi um longo caminho desde a criança que devorava a história de Thier sobre o poder de Napoleão; que se identificava com o marechal Massena, o duque de Tivoli e o príncipe de Essling, até o psicanalista que admite alegremente que ele tem, de fato, muito pouco controle até mesmo sobre aqueles sintomas e perturbações que ele aprendeu a entender tão bem. Aos doze anos de idade, ele ainda pensa em si mesmo como um candidato a ministro de Estado e, como adolescente, planeja se tornar advogado e entrar para a política. Então, aos dezessete, pouco tempo após a sua formatura do colégio, Freud subitamente recua em sua busca por poder sobre os homens. “O ímpeto para compreender algo importante sobre os mistérios do mundo e talvez contribuir com algo para sua solução se tornou irresistível”[4]. Ele se volta ao poder mais sublime sobre a natureza, através da ciência, e decide estudar “história natural” — biologia, nos dias de hoje. Poder, prestígio e riqueza deveriam chegar até ele apenas como contingência por se tornar um grande cientista.
Ele tinha que ser grandioso. “Eu temo a mediocridade”, diz ele em uma carta notável para um amigo, nos dias de seu exame final[5]. Esse amigo havia recentemente tentado consolá-lo: “Aquele que apenas teme a mediocridade é bastante seguro”. “Mas”, responde Freud, “à noite — 16 de junho de 1873… com uma filosofia algo sonolenta… seguro de quê, devo perguntar; certamente não seguro e certo de que não se é medíocre? O que importa se se teme algo ou não? Não é mais importante que aquilo que tememos seja verdadeiro? É bem verdade que até mesmo as mentes mais fortes são tomadas por dúvidas de si mesmas; é, portanto, qualquer um que duvida de seus próprios méritos uma mente forte? Ele pode ser uma pessoa fraca em intelecto, mas não obstante um homem honesto — devido à educação, hábito ou até mesmo auto-flagelo. Não quero pedir a você que disse que sem misericórdia suas reações sempre que se encontrar em uma situação duvidosa, mas se você o fizer, verá quão pouca certeza existe em você. A grandeza do mundo é fundada nessa multiplicidade de possibilidades, e assim, infelizmente não há uma base sólida para conhecermos a nós mesmos”.
No outono de 1873, com aspirações altas, planos e ideias vagas, ele se matriculou na Universidade de Viena. Escolheu o Departamento de Medicina (Medizinische Fakultät), que combinava o que chamamos aqui de currículo pré-médico e escola de medicina propriamente dita. Era o lugar de formação de médicos, bem como de futuros pesquisadores em biologia — o campo em que as esperanças de Freud se encontravam. Em franco contraste com a vida e estudos rigidamentes regimentados e supervisionados do ginásio, a universidade oferecia uma liberdade quase completa com relação a regras disciplinares. Estudantes que, como Freud, almejavam conhecimento, podiam saciar sua sede livremente, sem preocupação com notas ou créditos, em qualquer das muitas conferências, seminários e laboratórios. Poucos requerimentos eram exigidos, e entre a Matura (graduação do ginásio) e a primeira prova abrangente para o título de médico o aluno podia usufruir de vários anos de “liberdade de pensamento” absoluta, uma condição da qual Freud se aproveitou muito em seus primeiros três anos. Ele se entregou a estudos variados e caóticos, e como repetidamente confessou, acabou se tornando um triste fracasso, particularmente em química e zoologia. No seu terceiro ano, estabeleceu-se no Instituto de Fisiologia de Brücke e, com poucas interrupções, permaneceu lá por seis anos. Concluiu, em 1881, com grande atraso, mas na primeira tentativa, os exames para obtenção do diploma de doutor em medicina. Em 1882, quando tinha vinte sete anos, deixou o Instituto de Brücke por motivos econômicos e se preparou para a prática privada em neurologia. Durante esses nove anos na universidade, Freud pubicou cinco artigos científicos e a tradução- a partir do inglês — de um volume de ensaios.
Os primórdios científicos de Freud foram tratados resumidamente em algumas linhas em seus escritos autobiográficos. Brun[6] e Gray[7] listaram cuidadosamente seus trabalhos e Brun[8], Dorer[9] e Jeliffe[10] forneceram uma breve avaliação de alguns deles. Nas páginas seguintes, farei um relato mais completo deles, junto com informações que fui capaz de reunir sobre a situação em que foram planejados e escritos, e também sobre os professores de Freud e seus institutos[11]. Tentei avaliar os méritos dos artigos em seu tempo e seus lugares na evolução científica de Freud. Não me limitarei estritamente ao período de 1873 a 1882, mas incluirei nesse estudo quatro artigos que foram escritos e publicados durante os anos de 1883 e 1884, já que eles pertencem aos primórdios de Freud sejam como elaborações ou continuações. Discutirei em maiores detalhes seus esforços fisiológicos em 1878 e 1883 que não resultaram em publicações e são desconhecidos de Brun[12], Jeliffe[13], Gray[14] e Dorer[15].
I – Zoologia
Os primeiros esforços de Freud em Zoologia resultaram em um artigo sobre as glândulas reprodutoras das enguias[16]. Este primeiro estudo científico de Freud, embora sua segunda publicação, fornece a oportunidade de confrontar o julgamento reprovatório de Freud sobre si mesmo como zoólogo com uma opinião alcançada independentemente.
A vida sexual da enguia comum era um problema intrigante desde os dias de Aristóteles; em 1876 ainda parecia não solucionado. “Ninguém nunca encontrou uma enguia macho adulta — ninguém viu ainda as gônadas da enguia, apesar dos incontáveis esforços através dos séculos”[17]. Em 1874, Dr. Syrski anunciou a solução mais recente. Ele havia descoberto um pequeno órgão lobulado e o descreveu como sendo as glândulas sexuais das enguias. Carl Friedrich Claus, chefe do Instituto de Anatomia Comparativa em Viena, designou a seu aluno Freud a tarefa de checar as observações de Syrski. (Apesar de o interesse principal de Claus ser os coelenterata e crustáceos, o problema das enguias era diretamente ligado a seus próprios estudos iniciais sobre hermafroditismo em animais)[18]. Freud dissecou 400 enguias, encontrando o órgão de Syrski em muitas delas. Ao examiná-las no microscópio, descobriu que a estrutura histológica do órgão era tal que ela poderia ser uma forma imatura das glândulas sexuais, embora não tenha encontrado evidência definitiva de que esse era o caso[19].
Esse estudo é inconclusivo. Apesar de ser escrito em um estilo preciso e animado, sempre seguro de si — em certos trechos até mesmo pretensioso — seu conteúdo não é emocionante ou brilhante. Mesmo assim não é de modo algum uma prova da asserção de Freud de “que as peculiaridades e limitações de meus dons negaram-me todo o sucesso em várias das áreas da ciência as quais minha avidez da juventude me havia lançado. Assim aprendi a verdade no aviso de Mefistófeles: ‘É em vão que você salta de ciência a ciência; cada homem aprende apenas aquilo que pode aprender’. — Fausto, Parte I”[20].
Claus obviamente tinha consideração pelo jovem cientista. No outono de 1873, Claus tinha vindo de Göttingen a Viena com a intenção de modernizar o Departamento de Zoologia. Um de seus projetos favoritos era um laboratório marinho, e em 1875 ele conseguiu fundar a Estação Experimental Zoológica em Trieste, de acordo com History of Zoology and Botany[21] na Áustria, “uma das primeiras instituições de seu tipo no mundo”. Claus tinha fundos suficientes a sua disposição para enviar alguns alunos a Trieste para várias semanas de estudo e pesquisa duas vezes por ano. Nesse grupo inicial, em março de 1876, estava Freud. Tal viagem para a costa do mar Adriático, às custas do departamento, era certamente muito visada e a indicação era tomada como um prêmio ou distinção. De fato, Anna Freud Bernays se lembra, mais de meio século depois, que essa concessão foi um episódio importante na vida de seu irmão Sigmund[22].
Em setembro do mesmo ano, Claus renovou a indicação de Freud. Ele obteve para Freud as enguias necessárias de tamanho maior, que apareciam apenas na temporada de outubro a janeiro. Em 15 de março, Claus já havia apresentado o artigo de Freud para a Academia de Ciências e o havia publicado no número de abril do Boletim da Academia. É claro que ele teria apreciado poder anunciar que seu instituto tinha solucionado o problema da reprodução das enguias de modo definitivo. Mas ele sabia como o progresso na ciência avança lentamente em uma longa sucessão de pequenos artigos inconclusivos e não animadores. Nada mostra que ele estivesse desapontado com o trabalho de seu estudante.
Na verdade, a afirmação de Syrski logo foi confirmada. O órgão lobulado que ele havia descoberto era mesmo a glândula sexual das enguias. O artigo de Freud foi o primeiro de uma série que acumulou a evidência[23]. Mas isso não modificou a atitude hostil de Freud com relação a seu primeiro estudo científico. Vinte anos mais tarde, Freud imprimiu por conta própria a lista de seus trinta e oito escritos científicos com o objetivo de destacar seus méritos científicos na esperança de fazer avançar sua promoção a professor extraordinarius. Apesar dos resumos serem curtos, nunca exagerados, às vezes até atenuados, ele destacava os resultados, os achados e novos aspectos de cada item. Com relação ao primeiro artigo na lista, ele diz: “Dr. Syrski havia reconhecido um órgão lobulado como as glândulas sexuais das enguias que há muito se buscava. A partir da sugestão de professor Carl Claus, eu investiguei, na Estação Zoológica em Trieste, a ocorrência e a estrutura histológica desse órgão lobulado”[24].
Isso não era apenas uma afirmação atenuada por modéstia. Se isso fosse uma resenha feita por um colega, o autor estaria justificado em se queixar de uma falsificação maliciosa. Nesse ínterim, Freud tinha obviamente descoberto que o achado de Syrski havia sido reconhecido pelos zoologistas, devido a sua investigação, entre outras. Seu resumo, contudo, leva a crer que o reconhecimento de Syrski ocorreu antes do estudo de Freud; e, sob essa suposição, é claro, seu artigo parece totalmente fútil, sem propósito, pelo qual, como vingança, Claus carrega a responsabilidade. (Esse resumo, deve-se notar, é o único que menciona o professor que o sugeriu!)
Essa condenação de seus próprios esforços zoológicos, que Freud como estudante sentiu tão intensamente e mais velho nunca corrigiu, parece ainda mais estranha quando consideramos que em termos de métodos, metas científicas e espírito, os institutos de Claus e Brücke eram semelhantes. Os estudos em anatomia comparativa do sistema nervoso que Freud conduziu satisfatoriamente sob orientação de Brücke diferenciavam-se apenas com relação ao tema de sua pesquisa em zoologia.
Seria o tópico tão repulsivo a ele que o fazia se sentir destituído da habilidade para lidar com isso? O século de 1800 era puritano e hipócrita e os padrões morais da família de Freud eram estritamente vitorianos; Freud compartilhava dessa convicção. Em sua idade mais tardia, sua irmã ainda se queixava que ele não tinha permitido que ela lesse os escritores impróprios, Balzac e Dumas[25]. Ou é apenas uma daquelas estranhas coincidências que o descobridor do complexo de castração escreveu seu primeiro artigo sobre as glândulas sexuais ausentes da enguia e deixou quase vinte anos se passarem antes de dedicar à sexualidade outra investigação científica?
Ou era talvez o professor, ou a atmosfera do instituto de Claus a fonte de sua insatisfação? Do instituto de Brücke, Freud diz: “Aqui encontrei os professores que podia tomar como modelo”[26], sugerindo claramente que as condições para encontrar a si mesmo e seus talentos estavam ausentes nos anos precedentes. Claus era um cientista de grande reputação; “seu trabalho em zoologia… ocupa o primeiro lugar entre os manuais de zoologia dos dias atuais”, diz Adam Sedgwick na tradução inglesa do livro “Zoologia”, de Claus. Ele era um professor muito estimulante — ambicioso, aplicado e capaz de servir de exemplo a seus estudantes. Ele era, como Brücke, um darwinista, um trabalhador consciencioso e fisicalista ardoroso; de estatura científica menor que a de Brücke, mas de alguma estatura. É claro que os caminhos tomados pela admiração são misteriosos, ao menos quando não podemos contar com a cooperação do sujeito para uma investigação psicanalítica de suas preferências. Contudo, podemos supor que ao menos um fator nesse cenário complexo tenha peso, embora não possamos estimá-lo. Brücke era mais velho que Freud quarenta anos, enquanto Claus mantinha sua posição de destaque como um homem comparativamente jovem, apenas vinte anos mais velho que Freud. Brücke era contemporâneo do pai de Freud. Claus era da mesma idade que o meio-irmão de Freud. Esses são dados irrelevantes que não devem influenciar o sucesso ou fracasso de alguém em um determinado campo. Eles não devem — é bem verdade — mas eles o fazem, no estudante médio e também no talentoso. Da autoanálise de Freud sabemos que em sua infância precoce em Freiberg ele concentrou todo seu amor, admiração e confiança em seu pai, e que tinha direcionado sua desconfiança e atitudes hostis e de rebelião ao irmão, mesmo sem com isso deixar de amá-lo[27]. O jovem adulto aceitava orientação e crítica do velho Brücke — “a maior autoridade que conheci” — da mesma forma como ele tinha olhado com admiração e respeito para seu pai naqueles anos de infância em Freiberg. Com relação ao mais jovem Claus, ele pode ter sentido aquela mesma mistura de amor e hostilidade, de admiração e desconfiança, que tinha colorido sua relação com seu meio-irmão. Tentado à rebelião e competição, inibido pelo desejo de aprender e apreciação genuína das ideias e realizações de seu professor, ele vivia uma atmosfera irritante, cheia de frustrações, dúvidas e comparações. Isso contrastava marcadamente com a paz interior na qual podia aprender e crescer a auto-estima sob a autoridade que era incontestada e insuspeita. Como se afastar de tal autoridade em direção à independência completa em anos tardios se tornaria um problema que destruiu e distorceu vários talentos, mas não o de Freud. Em 1876, quando ele trocou a zoologia pela fisiologia, este teste estava ainda distante seis anos no futuro.
II – Histologia da célula nervosa
Era requerido do estudante de Medicina dos anos setenta que assistisse as aulas de Ernst Brücke sobre fisiologia e anatomia e se esperava que ele trabalhasse no mínimo um período no Instituto de Fisiologia de Brücke. Freud se preocupava pouco com este tipo de requerimento, mas em busca de um professor e um campo para suas ambições, se aproximou de Brücke e permaneceu no instituto por seis anos. “Eu estava preso lá”, como ele coloca. Nesse instituto, ele não apenas trabalhava de modo satisfatório para si e para Brücke, mas o que experimentou ali foi de tal importância que em seus comentários autobiográficos sobre esse período de sua vida, ele fala de forma irrestrita em termos superlativos como “os anos mais felizes”. Quais eram as razões para essa gratidão, nós não sabemos. Mas podemos dizer com certeza que foi durante esses seis anos que Freud adquiriu ou desenvolveu até a maturidade aquelas qualidades que se tornariam suas características como cientista.
Já se demonstrou que em termos fundamentais e também com relação a vários detalhes, os conceitos e teorias freudianos tem raízes no instituto de Brücke e que, em certo grau, eles são transformações das ideias e métodos que Freud aprendeu ali[28]. Isto justifica minha discussão detalhada nas páginas seguintes do contexto no qual Freud trabalhou durante esses anos, embora os artigos publicados nesse período possam, em si mesmos, não merecer tanto espaço.
O Instituto de Fisiologia era miseravelmente abrigado no segundo andar e no porão de uma antiga fábrica de armas[29] velha e fedorenta. Consistia de um grande auditório e duas salas — uma delas sendo o gabinete de Brücke — com duas janelas cada. Os microscópios dos alunos calouros ficavam no auditório. Além disso, havia alguns pequenos cubículos, alguns sem iluminação, servindo como laboratórios óticos, químicos e eletro-fisiológicos. Destes, alguns eram adjacentes ao auditório e ao gabinete de Brücke no segundo andar. Outros eram no porão. Os animais eram mantidos num abrigo no pátio. Não havia gás ou água. Todo o aquecimento tinha de ser feito por uma lâmpada de álcool e a água era trazida de uma fonte no pátio. Isso era tarefa do zelador que carregava um balde até o segundo andar toda manhã e o depositava na grande sala em que ele trabalhava também como mecânico e que era dividida com dois assistentes de Brücke, os professores Fleischl e Exner e sua famuli[30]. Mesmo assim, esse instituto era o orgulho da Escola de Medicina devido ao número e a distinção dos visitantes estrangeiros e estudantes.
De fato, o instituto de Brücke era uma parte importante do movimento científico de larga escala conhecido como Escola de Medicina de Helmholtz. A história impressionante dessa escola científica havia iniciado no começo da década de quarenta com a amizade de Emil Du Bois-Reymond (1818-1896) e Ernst Brücke (1819-1892) logo seguidos por Hermann Helmholtz (1821-1894) e Carl Ludwig (1816-1895). Desde seu início esse grupo era estimulado por um espírito genuíno de empenho. Em 1842 Du Bois escreveu: “Brücke e eu fizemos um juramento solene de levar adiante essa verdade: ‘Nenhuma força além das físicas e químicas atuam no interior do organismo. Nos casos que não podemos explicar no momento pela atuação destas forças, temos de encontrar a forma específica de sua ação por meio de um método físico-matemático ou admitir a existência de novas forças iguais em dignidade às forças físicas e químicas inerentes à matéria, redutíveis à força de atração e repulsão”[31].
Estes homens formaram um pequeno clube privado que, em 1845, expandiram dando origem a Berliner Physikalische Gesellschaft[32]. A maioria de seus membros era de jovens alunos de Johannes Müller — físicos e fisiologistas, unidos para desruir, de uma vez por todas, o vitalismo, a crença fundamental de seu admirado mestre. Estranhamente, Johannes Müller não se importou. Em 23 de julho de 1847, no encontro dessa sociedade, Helmholtz leu um texto sobre o princípio de conservação de energia — com o propósito modesto de dar uma base sólida à nova fisiologia. Assim teve início, de modo casual, a carreira dos maiores físicos do século. Du Bois, Brücke, Helmholtz e Ludwig permaneceram amigos por toda a vida. Dentro de vinte e cinco ou trinta anos eles atingiram completo domínio do pensamento de professores de medicina e fisiologia, deram estímulo intensivo à ciência em todo lugar e resolveram alguns dos velhos quebra-cabeças de forma definitiva. Quanto ao vitalismo — eles viveram tempo suficiente para vê-lo entrar em ascensão novamente em 1890. Contudo, nos anos setenta, eles e sua fisiologia eram uma força ainda não desafiada seriamente.
Brücke, que era chamado em Berlim de “nosso embaixador no extremo leste”, se mantinha, em suas aulas em Viena, muito próximo de suas elaboradas anotações. Ele as publicou, em 1874, como Conferências sobre Fisiologia. As primeiras quarenta páginas contém as ideias gerais da fisiologia fisicalista que cativou o estudante Freud.
Muito resumidamente, elas são: Fisiologia é a ciência dos organismos como tais. Organismos se diferenciam dos materiais mortos em ação — máquinas — por possuírem a capacidade de assimilação, mas eles cobrem todos os fenômenos do mundo físico; sistemas de átomos, movidos por forças, de acordo com o princípio de conservação de energia formulado por Helmholtz; a soma das forças (motoras e potenciais) permanece constante em cada sistema isolado. As causas reais são simbolizadas na ciência pela palavra “força”. O quanto menos sabemos sobre elas, mais tipos diferentes de forças distinguiremos; mecânica, elétrica, magnética, luz, calor. O progresso no conhecimento as reduz a duas — atração e repulsão. Isso se aplica também ao organismo humano. Contrário a Descartes, não se pode acreditar que as mudanças perpétuas que experimentamos e que acontecem ao nosso ego não são efeito de causas externas. Brücke então se volta a uma apresentação elaborada em dois volumes do que era então conhecido sobre a transformação e interação de forças físicas no organismo vivo. Não sei como melhor descrever o espírito e conteúdo das conferências de Brücke do que com as palavras que Freud usou em 1929 para caracterizar a psicanálise do ponto de vista dinâmico: “As forças auxiliam ou inibem uma a outra, combinam-se entre si, formam compromissos entre si, etc.”
Ligada muito diretamente a esse aspecto dinâmico da fisiologia de Brücke estava sua orientação evolucionista. O organismo não é apenas parte do universo físico, mas o mundo organísmico é, ele próprio, uma família. Sua aparente diversidade é resultado de desenvolvimentos divergentes que começaram com os “organismos elementares” microscópicos unicelulares. Ela inclui plantas, animais inferiores e superiores, assim como o homem, das hordas dos antropoides ao pico da civilização ocidental contemporânea. Nessa evolução da vida, nenhum espírito, essência ou enteléquia, nenhum plano superior ou propósito último está em ação. Mas as energias físicas apenas causam efeitos — de algum modo. Darwin demonstrou que há esperança de alcançar num futuro próximo alguma compreensão concreta sobre esse “como” da evolução. Os entusiastas estavam convencidos que Darwin tinha demonstrado mais do que isso — na verdade ele já havia revelado a história completa. Enquanto os céticos e os entusiastas batalhavam, os pesquisadores ativos estavam ocupados e felizes por juntarem as árvores genealógicas de plantas e animais de acordo com relações genéticas, descobrindo séries de transformações, encontrando por trás das diversidades manifestas as identidades homólogas.
Essa fisiologia era parte da tendência geral da civilização ocidental. Lentamente, continuamente, havia surgido e crescido em todo lugar através dos duzentos ou trezentos anos precedentes, ganhando momento continuamente a partir do final do século dezoito e aumentando rapidamente em velocidade e expansão após 1830. Essa tendência, mais fraca na Alemanha do que na Inglaterra e França, foi interrompida ali por volta do período entre 1794 e 1830 (da grande para a pequena revolução francesa) pelo período da Naturphilosophie (filosofia da natureza)[33].
Naturphilosophie é o nome do monismo panteísta, próximo ao misticismo, que, professado por Schelling — repetido, desenvolvido e variado por uma hoste de escritores — era rapidamente aceita pelo homem educado médio e mulher literária. O Universo, a Natureza, é um organismo vasto, constituído de forças, de atividades, de criações, de emergências — todas estas — organizadas em conflitos básicos eternos, em polaridade; razão, vida consciente, mente, seriam apenas o reflexo, a emanação, desse turbilhão inconsciente. Essas ideias foram expressadas anteriormente e contém as sementes de algumas teorias científicas do século dezenove e de nosso tempo. Mas não são as ideias que são características do movimento, nem a disposição romântica que as envolviam. Essa era uma tendência geral europeia. O que caracteriza a Naturphilosophie alemã é a aspiração expressa no nome “física especulativa” (nome que o próprio Schelling deu a seus esforços) e o emocionalismo megalomaníaco e desbalanceado da fantasia e do estilo destes escritores. Fechner elogiava “a grande audácia” de Oken, um representante proeminente, enquanto um historiador inglês sóbrio coloca as coisas assim: “Eles exibem tendências que parecem estrangeiras ao curso do pensamento euopeu; eles recordam a vaga amplidão do leste e seu reflexo na Alexandria semi-oriental”.
Fisiologia fisicalista — embora não por si mesma — sobrepujou a filosofia e tomou seu lugar. Como havia ocorrido antes, o conquistador introjetou o emocionalismo de sua vítima. “Unidade da ciência”, “ciência”, “forças físicas” não eram meramente ideias guias ou hipóteses dos esforços científicos; elas se tornaram quase objetos de adoração. Elas eram mais que métodos de pesquisa — se tornaram uma Weltanschauung. A intensidade dessa disposição variava de cientista para cientista; de lugar a lugar. Em Berlim com Du Bois-Reymond estava em seu máximo, estranhamente misturada com nacionalismo prussiano. Na Áustria, Naturphilosophie nunca teve muito poder, portanto o fanatismo da fisiologia estava em seu mínimo em Viena e com Brücke. Mas ainda estava lá.
Os escritos de Brücke cobrem um longo intervalo de tempo e uma ampla variedade de temas. Eles começam em 1841 com a fisiologia do fenômeno estereoscópico e terminam em 1892 com um panfleto sobre como proteger a vida e saúde dos filhos. Entre eles há trabalhos clássicos de pesquisa sobre os movimentos da mimosa pudica, a mudança de cores dos camaleões, a estrutura do “organismo elementar”, a bioquímica da urina, enquanto a maior parte — bem mais de cento e vinte livros e artigos — eram apenas de importância mais ou menos transitória. Ele próprio costumava dizer: “Uma verdade científica dura cinco anos no máximo”. Entre esses artigos há muitos que, em termos de fisiologia fisicalista, lidam com problemas de psicologia e psicologia social: visão, audição, linguagem, poesia e arte. A seguinte lista de suas publicações durante os seis anos em questão dá apenas uma pálida impressão de sua variedade:
- As fontes da amônia na água destilada. (1876)
- Sugestões a respeito da melhoria da água potável através do aquecimento. (1876)
- O espectro de absorção do permanganato de potássio e seus usos na análise quantitativa. (1876)
- Uma contribuição à termo-dinâmica. (1877)
- Fragmentos de uma teoria das artes formativas. (1877)
- Movimentos voluntários e cãimbras. (1877)
- O schistoskop[34]. (1877)
- Algumas sensações pertencentes ao campo dos nervos óticos. (1878)
- A relação entre a formação de emulsões espontâneas de óleo e a assim chamada bainha de mielina (1879)
- Algumas consequências da teoria de Young-Helmholtz (1879)
- O aprendizado das línguas clássicas é necessário para médicos. (1879)
- A acentuação métrica em versos. (1879)
- Ácidos não-cristalizáveis contendo nitrogênio e sulfa obtidos por tratamento de proteína de frango com permanganato de potássio (1881)
- Ação na pintura e escultura (1887)
- A determinação da uréia com ácido oxálico (1881)
Brücke preferia que o estudante apresentasse seus próprios planos e projetos, mas se mostrava pronto para formular um problema para aqueles iniciantes que eram muito tímidos ou vagos em seus interesses. Freud pertencia ao último grupo quando entrou no Instituto como famulus (que é o equivalente a um pesquisador pós-graduado) em 1876 — provavelmente no outono, em seu segundo retorno a Trieste. Brücke o colocou atrás do microscópio em um trabalho referente à histologia das células nervosas. Esse tópico obviamente era parte do grande interesse de Brücke em “psicologia”.
Freud formulou, alguns anos depois, a situação geral em que encontrou esse campo nas seguintes palavras: “Logo após o reconhecimento das células nervosas e das fibras nervosas como partes fundamentais do sistema nervoso começaram os esforços para esclarecer a detalhada estrutura destes dois elementos, motivados pela esperança de usar o conhecimento de suas estruturas para a compreensão de sua função. Como é sabido, até então não se alcançou compreensão suficiente ou acordo em qualquer dessas direções. Um autor pensa na célula nervosa como granulada, o outro como fibrosa; um pensa a fibra nervosa como um feixe de fibras menores, mas outro como uma coluna líquida. Consequentemente, enquanto um eleva a célula nervosa ao lugar de fonte básica da atividade nervosa, outro a degrada como um mero núcleo das bainhas de Schwann”[35].
Juntamente ao problema da estrutura dos elementos nervosos, há a interessante questão de se o sistema nervoso dos animais superiores, ao menos dos vertebrados, é composto por elementos diferentes daqueles que compõem o sistema de animais inferiores; ou se os sistemas simples e os complexos são formados pelas mesmas unidades. Esse tópico era altamente controverso naquela época. As implicações filosóficas e religiosas pareciam ser muito perturbadoras. As diferenças na mente de animais superiores e inferiores são uma questão apenas de grau de complexidade? A mente humana se diferencia da de algum molusco — não em sua base, mas correlacionado ao número de células nervosas e a complexidade das respectivas fibras? Cientistas estavam procurando respostas a essas perguntas na esperança de conseguir decisões definitivas — de um jeito ou de outro — sobre a natureza do homem, a existência de Deus e o sentido da vida.
A esse campo vasto e excitante de pesquisa pertencia o problema muito modesto que Brücke colocou diante de Freud. Na medula espinhal do Amoecetes (Petromyzon), uma espécie de peixe pertencente ao primitivo Cyclostomatae, Reissner havia descoberto um tipo peculiar de célula grande. A natureza dessas células e sua conexão com o sistema espinhal provocaram uma série de investigações mal sucedidas. Brücke desejava ver a histologia dessas células esclarecida. Após algumas semanas, Freud surgiu com a descoberta inesperada de que as raízes dos nervos posteriores originavam-se em algumas destas células de Reissner. Apesar desse achado não explicar a natureza dessas células, prometia uma solução simples e eliminava várias hipóteses correntes na literatura. Brücke, ao que parece, achou que isso era bom o suficiente para um iniciante e pressionou para a publicação. Freud concordou, juntando apressadamente os dados em um relatório[36]. Seu descontentamento com o trabalho inacabado, contudo, é perceptível em vários trechos do artigo. Em estilo e organização, é bem inferior ao texto sobre as enguias e as publicações seguintes em seus anos como estudante. Brücke enviou o estudo para a Academia de Ciência no encontro de 4 de janeiro de 1877. Ele apareceu no boletim de janeiro da Academia.
Freud continuou sua investigação detalhada das células de Reissner e publicou um segundo relatório sobre o Petromyzon em julho do ano seguinte[37]. Nele, ele reuniu uma bibliografia incrivelmente completa — dezoito páginas de seu relatório lidavam com a literatura. Essa conscienciosidade não era exatamente favorável às ambições do jovem cientista: “Devo acusar-me de ter pensado equivocadamente que eu era o primeiro a descrever — baseado em observações diretas e precisas — a origem das raízes nervosas posteriores em certas células do petromyzon. Apenas após a publicação de meu artigo, encontrei nos resumos de Stieda da literatura russa um resumo de um artigo de Kutschin que contém informações importantes sobre a origem da raiz posterior. Graças à gentileza do professor Stieda em Dorpat, que me enviou o artigo russo, pude examinar as imagens de Kutschin e notar que Kutschin havia visto, em suas preparações já em 1863, prova convincente da origem das raízes posteriores nas células posteriores. Como forma de me desculpar, posso apenas dizer que as declarações de Kutschin — talvez porque suas imagens não estavam disponíveis aos histologistas alemães — eram geralmente ignoradas”. Então não estava Brücke errado, afinal, em insistir na publicação do artigo preliminar?
Auxiliado por uma melhora na técnica da preparação, Freud estabeleceu definitivamente que as células de Reissner “não são nada mais que gânglios espinhais que, nesses vertebrados inferiores, onde a migração do tubo neural embrionário para a periferia não está ainda completa, permanecem dentro da medula espinhal”[38]. “Essas células dispersas marcam o caminho que as células do gânglio espinhal percorreram através de sua evolução”[39]. Essa solução do problema destas células é um triunfo da observação precisa e interpretação genética — uma das milhares de pequenas conquistas que finalmente estabeleceram entre os cientistas a convicção da unidade evolutiva de todos os organismos.
Mas Freud fez outra descoberta ainda maior sobre o Petromyzon: “As células do gânglio espinhal do peixe eram tidas por um longo tempo como bipolares (possuindo dois processos) enquanto as dos vertebrados superiores são unipolares”. Esse intervalo entre animais inferiores e superiores foi eliminado por Freud. “As células nervosas do Petromyzon mostram todas as transições de uni para bipolaridade, incluindo bipolares com ramificação em T”. Esse artigo, em conteúdo, apresentação e implicações, é sem dúvida muito acima do nível de um iniciante. Brücke o submeteu à Academia em 18 de julho de 1878 e ele apareceu no seu Boletim, com oitenta e seis páginas, no mês seguinte.
O mesmo problema geral foi o alvo da investigação seguinte de Freud, que ele conduziu por escolha própria nos meses do verão de 1879 e 1881. Dessa vez, os objetos eram as células nervosas do lagostim. Aqui, ele examina os tecidos vivos microscopicamente — uma técnica que, na época, era ainda muito pouco usada, pouco desenvolvida e difícil — e ele chega à conclusão definitiva de que as fibras nervosas tem uma estrutura fibrilosa, sem exceção. Ele reconheceu que os gânglios consistiam de duas substâncias, das quais uma se assemelha a uma rede e é a origem dos processos nervosos. Esse estudo[40], que o próprio Freud submeteu à Academia de Ciências no encontro de 15 de dezembro de 1881 e que apareceu no Boletim da Academia em janeiro de 1882, se destaca em sua escolha do método, o cuidado exigente dado a seu desenvolvimento, a cautela mostrada em sua argumentação, a aproximação direta ao problema central, assim como seus resultados precisos, definidos e significativos.
Com esse artigo e os dois anteriores, Freud havia feito sua parte para pavimentar o caminho para a teoria do neurônio. Poderia-se seguramente até mesmo ir além e dizer que, assim como Brun[41] e Jeliffe[42], Freud havia reconhecido precocemente e claramente as células nervosas e as fibrilas como uma unidade morfológica e fisiológica — que posteriormente seriam chamadas de neurônios. Nestes artigos ele manteve-se confinado estritamente ao ponto de vista anatômico, embora deixe claro que suas investigações foram conduzidas com a esperança de alcançar uma compreensão sobre os mistérios da ação dos nervos. Apenas uma vez, em uma conferência sobre “a estrutura dos elementos do sistema nervoso”[43], que resume seu trabalho, ele se aventura nesse terreno além da histologia em um parágrafo: “Se assumirmos que as fibrilas da fibra nervosa tem a função de caminhos de condução isolados, então devemos presumir que os caminhos que são separados na fibra nervosa são confluentes na célula nervosa; portanto a célula nervosa se torna o início de todas aquelas fibras nervosas que são anatomicamente conectadas a ela. Eu ultrapassaria as limitações impostas nesse artigo se fosse reunir os fatos que falam em favor dessa hipótese; sei que o material existente não é suficiente para uma decisão nesse importante problema fisiológico; mesmo assim, se essa hipótese puder ser provada, daríamos um grande passo na fisiologia dos elementos do sistema nervoso. Poderíamos, então, considerar a possibilidade de que o nervo, como uma unidade, conduz a excitação”.
Freud proferiu essa conferência na sociedade psiquiátrica — um ano após ter deixado o Instituto de Brücke — em 1882 ou 1883. Ela foi publicada no Jahrbücher für Psychiatrie[44] no início de 1884. Aqui ele faz, para uma audiência ampla de médicos — não especialistas em histologia dos nervos — um relato da situação do problema geral em que sua investigação altamente especializada se originou. Ele detalha seus métodos e achados e em algumas sentenças indica as perspectivas de longo alcance abertas por seus resultados. Nós encontramos aqui a mesma cautela e ousadia, o mesmo estilo de argumentação que caracterizam os vários relatos de seus achados em psicanálise que Freud mais tarde apresentou a audiências não familiarizadas com as metas, métodos e experiências do especialista. A primeira conferência desse tipo compartilha com suas sucessoras a condensação de redes complexas de fatos e correntes de raciocínio complicadas em algumas poucas sentenças lúcidas e simples. Mas em contraste com elas, a conferência contém críticas afiadas a seus oponentes. Embora em uma linguagem controlada, elas parecem fora de sintonia com sua anterior (e posterior) indiferença característica.
Entre suas vítimas está Fleischl, seu amigo e professor no Instituto de Brücke. Ele disseca e rejeita um estudo de Fleischl sobre a estrutura das fibras, embora em palavras gentis, mas detalhadamente, recorrendo até ao método do uso combativo de interpretação psicológica; indicando quais podem ser os motivos psicológicos do observador, que o levam a uma base errada para seus achados. Imagina-se se a insatisfação ou frustração causada pela sua saída do instituto não rompeu sua atitude literária usualmente contida.
Seja isso verdade ou não — a polêmica contra Fleischl nos serve como lembrete de que a antecipação da teoria do neurônio com que creditamos Freud não estava implícita no ensino de Brücke e sua equipe. Embora essa teoria esteja no espírito de seu ensino, nem Brücke, nem Fleischl e nem provavelmente Exner e Paneth tinham naquele momento dirigido seus pensamentos nessa direção. Parece que essas hipóteses eram próprias de Freud. Apesar disso, merece ser destacado que Freud não tomou parte de fato no desenvolvimento da teoria do neurônio. Seus artigos histológicos foram notados e ocasionalmente citados por algum neuroanatomista. Eles certamente serviram para criar para ele a reputação de um jovem promissor, mas dificilmente tiveram alguma influência no curso da pesquisa e teoria. Suas ideias fisiológicas condensadas em um pequeno parágrafo escondido em uma conferência popular para psiquiatras certamente não foi sequer notada. Isso teria de esperar por um biógrafo amigável para ser descoberto.
III – Novos métodos
O sucesso de Freud na histologia da célula nervosa foi facilitado enormemente, ou talvez até tornado possível, por um aperfeiçoamento na técnica que ele promoveu em 1877, logo após entrar no Instituto de Fisiologia. Ele escreve em uma breve “Nota sobre um método para a preparação anatômica do sistema nervoso central”, datada de 26 de maio de 1879[45]: “Eu uso a mistura de Reichert, que modifiquei para o propósito de preparar de forma fácil e segura o sistema nervoso central e periférico dos vertebrados superiores (ratos, coelhos, gado) … Testei o método com os nervos cerebrais de crianças — Professor Dr. E. Zukerkandl participou gentilmente. Descobrimos que isso facilita consideravelmente a preparação dos nervos situados nos canais dos ossos e a preparação e desembaraçamento de anastomoses e redes de nervos. … Além disso, o utilizei com sucesso para a preparação de muco e glândulas sudoríparas, corpúsculos de pacini, raízaes de cabelo, etc.
Isso é evidência do escopo dos estudos de Freud, que ultrapassaram o problema em que, por sugestão de Brücke, ele trabalhava na época. A nova técnica, além disso, o ajudou em seus dias como “demonstrador” no Instituto de Fisiologia. O equivalente a um assistente de professor, esse cargo requeria que ele preparasse os especimens anatômicos e slides histológicos para as aulas de Brücke e seus assistentes.
A modificação de Freud da fórmula de Reichert prescreve a mistura de uma parte de ácido nítrico concentrado, três partes de água e uma parte de glicerina concentrada. Parece que ninguém fora do instituto deu qualquer atenção a essa invenção. De fato, chama-la de invenção — embora logicamente correto — pode soar como idolatria, uma fraqueza bem comum entre biógrafos de grandes homens. Contudo, para Freud essa modesta conquista era a primeira realização de sua grande ambição. Seis anos mais tarde, ele retorna com um segundo esforço nesse campo.
“Incontáveis métodos foram inventados por histologistas que se mostraram úteis apenas nas mãos de seus inventores — essa é a razão pela qual decidi publicar até mesmo as mais insignificantes instruções” de um “novo método histológico para o estudo dos tratos nervosos no cérebro e na medula espinhal”[46]. Esse método, Freud havia desenvolvido no outono de 1883. Na época ele havia deixado o Instituto de Brücke, se preparado para a prática privada de medicina e realizado pesquisas no Instituto de Anatomia Cerebral de Meynert.
Freud estava convencido da utilidade desse seu novo método. Ele elogia a “imagem maravilhosamente clara e precisa” que se consegue quando se segue cuidadosamente sua forma de tingir a preparação do cérebro com cloreto de ouro. Os resultados alcaçados eram bem superiores a qualquer outra técnica de tingimento conhecida na época e ele estava satisfeito com sua completa confiabilidade. Ele não mais falava modestamente que foi um “golpe de sorte”. Esse método havia sido laboriosamente desenvolvido com sucesso em muitos experimentos após uma indicação publicada por Flechsig em 1876, mas que ele próprio não havia levado adiante.
Dessa vez, ao que parece, Freud estava determinado a ser bem sucedido. Ele publicou um pequeno esboço[47], como histologistas geralmente fazem, mas para escapar do “destino de outros inventores”, como ele havia dito em um de seus primeiros testes seis anos antes — como se pode supor — ele deu seguimento a essa publicação com a apresentação detalhada em sete páginas[48], que contém as linhas citadas acima. Não satisfeito com isso, ele escreve uma terceira versão — dessa vez em inglês — e a publica em “Brain”[49]. Esses esforços lhe trouxeram algum sucesso. Essa invenção não foi completamente ignorada. Alguns estudantes a utlizaram e pelo menos um deles, em um periódico americano, ainda lembrava do método em 1888[50]. Contudo, não foi a preparação com cloreto de ouro que ficou conhecida como método freudiano.
Estes dois novos métodos e seus destinos não seriam de importância alguma a não ser por completarem a imagem do jovem cientista Freud. É uma imagem que tem uma semelhança impressionante à do inventor do método psicanalítico. Para Freud, como ele enfatizou diversas vezes, a psicanálise é, em primeiro lugar, uma nova técnica através da qual todo um mundo de fatos, antes inacessíveis, podem ser trazidos à luz. É um novo instrumento de observação, uma nova ferramenta de pesquisa. Em segundo lugar é um novo corpo de conhecimento alcançado pelo uso do novo instrumento. As descobertas freudianas são os resultados quase acidentais da invenção freudiana. A partir destes primeiros momentos como cientista, sua aspiração central era, assim parece, fazer mais do que coletar e ordenar fatos já conhecidos; mais do que acrescentar algumas unidades ao exército contra a escuridão e o desconhecido. Ele ansiava por provê-lo com um novo tipo de arma — uma conquista que, com um golpe mágico, poderia multiplicar seu poder de luta.
Se essas metáforas, que tentam estabelecer alguma continuidade entre os devaneios iniciais de Freud e o trabalho de sua vida, tem alguma validade ou se são apenas uma questão de estilo não sei dizer. Mesmo assim, quero salientar enfaticamente que o interesse persistente de Freud na invenção de métodos, embora devido a uma tendência individual de sua mente, coincide com as ideias básicas do Instituto de Brücke e com a estrutura lógica da ciência. O progresso científico vai de um novo instrumento a um novo conjunto de fatos. A invenção do microscópio, por exemplo, precedeu a histologia. E na história de qualquer campo científico apenas novos instrumentos e técnicas podem, no longo prazo, trazer novos fatos. A partir daí a ciência avança para uma nova teoria: organização do novo e do velho conhecimento em um conjunto de fatos; e da teoria ela finalmente avança para a “especulação” — isto é, tentativas de resposta a questões além dos meios existentes de observação. É muito raro quando um mesmo homem é produtivo em diversas dessas fases, e quase nunca acontece de ele ser igualmente eficiente em todas. A psicanálise é um exemplo desse caso mais raro: Freud inventou o instrumento, usou para um grande número de descobertas, produziu uma teoria organizadora e a especulação além do conhecido. O fato notável é que ele já tinha alcançado tal conquista enciclopédica na sua segunda década de vida. Sua conferência sobre “A Estrutura dos Elementos do Sistema Nervoso”[51], proferida na Sociedade Psiquiátrica em 1882, apresenta a nova técnica, os novos achados devidos a ela, a teoria adequada a eles e alguns vislumbres além. Todo o essencial freudiano está lá — em seu núcleo — mas já definido claramente.
IV – Fisiologia
Comentando sobre sua educação profissional, Freud assinalou que a fisiologia de seus anos como estudante “era excessivamente preocupada com histologia”[52]. Essa leve censura se destaca claramente do pano de fundo de louvor superlativo com o qual Freud geralmente falava de Brücke e sua escola. Ademais, entre todas as objeções possíveis ao ensino de Brücke, esta é a menos justificada. É verdade que no Instituto de Brücke as abordagens microscópicas e experimentais ainda não eram separadas nos anos setenta. A experimentação fisiológica, incluindo a biofísica e bioquímica de hoje, se tornou, naquela época, cada vez mais a via régia, e alguns fisiologistas desprezavam os microscopistas. Brücke nem tanto. Ele continuou a anunciar suas aulas no dialeto da Universidade de Viena como “Fisiologia e Anatomia Superior”. Para ele o conhecimento da estrutura espacial do organismo parecia tão necessário quanto o conhecimento das forças atuando nesse aparato, alterando-o ou reproduzindo-o. A estrutura pode ser revelada apenas pelo microscópio. Na mente de Brücke não havia oposição entre anatomia e fisiologia; entre microscópio e experimento. Essa era a atitude que já tinha tornado famoso seu primeiro grande trabalho em 1847. Ainda na época de Freud o trabalho feito por Brücke e seus assistentes Fleischl e Exner era, de fato, quase completamente fisiológico, no sentido estrito da palavra, lidando com a função do organismo e usando experimentação animal como um, embora não o único, método. Havia alguns poucos institutos na Europa onde se podia aprender fisiologia tão bem.
Não temos indicação de que Freud fez uso dessa oportunidade. Considerando a total liberdade que existia no Instituto de Brücke, é muito improvável que qualquer tipo de pressão externa o tenha mantido atrás do microscópio, depois que terminou sua primeira tarefa histológica sobre a célula de Reissner em 1878. Em 1883, pouco depois de Freud deixar o instituto para preparar-se para a prática da medicina, ele novamente se dedicou a pesquisa. Mesmo então — apesar de sem dúvida ser livre para escolher o tópico e o método — ele retornou às investigações anatômicas. Apenas quando a neurologia clínica tomou mais e mais de suas horas livres cada vez mais raras, ele interrompeu todas as pesquisas anátomo-histológicas. Freud não considerava seu trabalho em neurologia como sendo pesquisa científica, apesar da impressionante quantidade e do reconhecimento unânime que recebeu. Apenas na metade dos anos noventa, quando, como um psicanalista catártico ele novamente se encontrou atrás de um objeto de observação, estudando a estrutura da mente, esperando por uma compreensão do funcionamento do cérebro, ele sentiu que tinha retornado à ciência e apreciou esse fato “como o triunfo de sua vida”. Desse modo, pode-se concluir simplesmente que seu coração estava na histologia e que fisiologia não o atraía. Contudo, ele destacava muito frequentemente e seriamente o caráter subordinado do estudo das formas para a compreensão da função — adivinhar a trama pela montagem do cenário, poderia-se dizer. Desde início de sua carreira científica, o conhecimento das forças atuantes era certamente um objetivo estimado, mas por muitos anos, como Moisés, ele ficou diante da terra prometida proibida com apenas uma suposição de como ela poderia se parecer.
Um fato não mencionado na autobiografia de Freud e negligenciado por seus biógrafos coloca esse conflito em relevo acentuado. Freud fez diversos esforços no campo da fisiologia durante seus anos como estudante, mas não no Instituto de Brücke. Naquela época, boa parte da pesquisa fisiológica era conduzida sob a liderança de Stricker. Solomon Stricker, um contemporâneo de Claus (nascido em 1834), treinado por Brücke, era Professor Ordinarius[53] e chefe do Insituto de Patologia desde 1873[54]. Sua reputação era derivada de estudos embriológicos. Seu trabalho posterior se ocupava de fisiologia do sistema vascular e teoria da consciência, fala e pensamento. Ele é creditado com a transformação da patologia de uma disciplina anatômica em uma disciplina fisiológica experimental. Em seu instituto, um grande número de bons trabalhos foi realizado em vários campos da fisiologia. Seus assistentes eram homens bons, mas muito poucos talentos foram desenvolvidos nessa escola. Sua vaidade, postura briguenta, honradez e algumas excentricidades científicas eram responsáveis por isso — esse era o boato que corria em Viena na época. Freud trabalhou no instituto ao menos duas vezes; uma em 1878 e novamente de 1883 a 1884.
No encontro da Sociedade de Medicina de Viena em 17 de outubro de 1879, Stricker introduziu seu artigo sobre “Glândulas Acinosas” com a afirmação de que seu estudante Freud tinha, a partir de sua sugestão, conduzido experimentos nesse tópico por um período de seis meses, mas não concluiu nada. Após o fracasso de Freud, Stricker colaborou com Spina e obteve resultados interessantes[55]. Admitindo o período de seis meses para esses novos experimentos, os esforços de Freud devem ter tido início na segunda metade de ’78, no máximo.
Portanto, Freud fez sua tentativa com fisiologia experimental pouco depois de ter completado a histologia das células de Reissner no Petromyzon. Ele fracassou. Imediatamente depois, ele retornou, por sua própria vontade, ao Instituto Fisiológico de Brücke. Ali, ele não se dedicou a fisiologia, mas voltou ao microscópio e começou a trabalhar em “Células Nervosas do Lagostim”, usando o método de tecido vivo, do qual Stricker, e não Brücke, era o protagonista em Viena.
Em 1883, depois de ter deixado Brücke, o encontramos novamente no Instituto de Stricker[56]. Ali ele participou, junto com Wagner-Jauregg, Gaertner, Spina e Roller, em experimentos com animais, como parte de um projeto de pesquisa sobre a função das glândulas e do sistema circulatório. Novamente, Freud não conclui nada. Simultaneamente, ele havia iniciado uma pesquisa em anatomia cerebral e trabalhava em sua segunda invenção — o método do cloreto de ouro. O recomeço da pesquisa fisiológica, ao que parece, era hesitante, mas indica que seu ímpeto de se dedicar à fisiologia ainda estava vivo. Diferente de Moisés, ele tentou penetrar na terra prometida, mas foi forçado a recuar em cada tentativa. Nem a falta de instalações, de oportunidades, de professores ou estímulo o frustravam. E certamente não havia falta de interesse. Ao contrário, a habilidade para o trabalho fisiológico estava ausente. Isso pode ser dito graças à evidência negativa de que não permaneceram quaisquer de suas conquistas fisiológicas. Há até mesmo uma pista positiva: Freud publicou, em 1885, um único fragmento de trabalho experimental — o efeito da cocaína, medido com um dinamômetro[57]. É um esforço muito precário. É simplificado demais em conceito e técnica, incerto e acrítico — o trabalho de um iniciante não muito promissor; bem diferente das qualidades de seu trabalho histológico inicial. Fisiologia, e não zoologia, como ele mesmo declarou, era realmente o campo em que “as peculiaridades e limitações de seus dons negavam-lhe todo o sucesso”.
Graças a Freud, tais “dons” deixam de ser as fontes definitivas para uma compreensão psicológica. Além deles, existem os determinantes das “peculiaridades e limitações”. Como no caso do dito fracasso de Freud em zoologia, podemos imaginar uma ou outra razão para seu fracasso suprimido em fisiologia. Stricker era, ainda menos do que Claus, um professor que Freud “podia respeitar”. Pode-se ver muito bem porque ele não foi bem sucedido com Stricker. Mas por que ele não agarrou as oportunidades no Instituto de Brücke? Por que ele aceitou Brücke como autoridade e modelo apenas na investigação do cenário e não da trama? Brücke o havia iniciado na dissecação de cadáveres. Teria Freud inconscientemente tomado seu conselho como significando que Brücke o havia exilado para o estudo preliminar da estrutura e reservado para si mesmo e os membros mais antigos do instituto a sabedoria superior sobre o funcionamento do organismo vivo? Teria ele dessa forma reafirmado a censura raivosa do pai de Freud “quando ele, movido por uma curiosidade sexual precoce, invadiu o quarto dos pais”?[58] E teria ele, portanto, transformado a fisiologia em tabu? Talvez.
Pode-se sentir em solo mais firme ao indicar um fator mais superficial, mas provavelmente concomitante. O experimento com animais é um exercício muito mais brutal de poder sobre os direitos e a vida da criatura do que a investigação do cadáver. E as células vivas do lagostim? — mas não são elas “mortas” quando comparadas com os porcos da índia, coelhos e cães? Quando adolescente, Freud recuou do desejo de exercer poder sobre os homens em direção à ciência da natureza. O mesmo desígnio reaparecerá quando Freud, com seus trinta e poucos anos, desistir da hipnose em busca de um método “que interfira de maneira menos grosseira”. Estes foram os dois pontos de virada na relação de Freud com a ciência; no primeiro ele se tornou um cientista; no segundo, inventou a psicanálise. E entre essas duas marcas ele se manteve afastado da atividade fisiológica experimental ou, após excursões breves, retornou ao exercício do poder mais sutil, ao papel de observador da estrutura.
V – Traduções
Pertence aos anos de universidade de Freud o único trabalho que ele publicou que não tem conexão com seus interesses científicos ou terapêuticos. Em 1879, Freud fez uma tradução para o alemão de alguns ensaios de John Stuart Mill. O editor dos escritos reunidos de Mill era Theodore Gomperz, um filósofo e historiador de renome na universidade e na sociedade de Viena. Freud substituiu Eduard Wessel, o jovem tradutor que havia morrido subitamente durante a preparação do décimo segundo volume. Ele iniciou o trabalho no outono de 1879 e o completou em dezembro daquele ano.
Não se sabe porque Freud aceitou essa incumbência. Ele estava, nessa época, de licença involuntária da ciência, servindo seu período de um ano no exército, que era obrigatório para todos os estudantes fisicamente capazes. Parece que ele não era um soldado modelo; ele se lembra alegremente como passou seu aniversário de vinte e um anos[59], em 6 de maio de 1880, detido. Posso imaginar que ele agarrou a oportunidade de matar o tédio do quartel e esquecer o desconforto da vida na guarnição, através de um esforço mental — uma espécie de relaxamento, que tem um tom de bravata, considerando o desgaste físico, psicológico e moral do serviço. Além disso, até mesmo o pagamento modesto de um tradutor deve ter sido bem-vindo, naquele ano especialmente.
Contudo, a tarefa pode ter interessado Freud além de tais motivações secundárias. Quando ele decidiu tomar seu lugar entre os cientistas e não entre os políticos, ele não tinha de modo algum abandonado seu interesse e curiosidade por questões sociais. Três dos quatro ensaios de Mill que ele traduziu lidam com a questão do trabalho, a emancipação das mulheres e socialismo. Freud, em seus anos mais tardios, abominava filosofia e não é muito provável que ele tenha tido qualquer interesse nessa disciplina. Mas o trabalho filosófico de Mill está em contraste claro com os sistemas metafísicos que eram especificamente chamados de “filosofia”. O trabalho de Mill era muito próximo do espírito empírico fisicalista do Instituto de Brücke. É bem possível que Freud tenha sido atraído pelos tópicos dos ensaios e pelo escritor. É certo que ele gostava de traduzir. Freud amava idiomas e escrever. Ele lia grego e latim por prazer nos anos de colégio. Ele dominou muito cedo o inglês e francês e mais tarde escreveu diversos artigos nessas línguas. Ele traduziu uma boa quantidade de textos durante sua vida — dois volumes de Bernheim e dois de Charcot, embora nessas ocasiões, mais do que com Mill, determinações secundárias existiam. Freud como tradutor era tão cuidadoso, tão brilhante e tão ligeiro que traduzir deve tê-lo atraído como um passatempo desafiador.
Quando o filho de Theodore Gomperz, Heinrich, ele próprio um filósofo e historiador, preparava a biografia de seu pai, ele perguntou a Freud como ele se tornou o tradutor do décimo segundo volume. Freud respondeu, em uma carta datada de 9 de junho de 1932 (traduzida): “Eu sei que fui recomendado ao seu pai por Franz Brentano. Seu pai, em uma festa … mencionou que estava procurando por um tradutor e Brentano, de quem eu era ou tinha sido aluno pouco tempo antes, citou meu nome”[60]. Que ele tivesse conhecido pessoalmente Brentano; que ele tenha sido seu aluno e que Brentano se lembrasse dele parece estranho. Franz Brentano não publicou muita coisa, e seus ensinamentos em filosofia e psicologia não causaram muita sensação durante sua vida[61]. Mas a fenomenologia de Husserl e várias formas de lógica e psicologia (“Gegenstands-theorie”) de Meinong, Marty e outros, traçam suas origens a ele. Diversas novas tendências em psicologia, como as escolas de Stumpf e mais recentemente da psicologia da Gestalt o reconhecem como um de seus distintos precursores. De fato, ele havia, em 1870, se afastado da metafísica e fisicalismo fisiológico e desenvolvido a psicologia como uma ciência baseada na observação empírica do que é “dado” conscientemente. Poderia-se inclinar a pensar que Brentano e Freud são quase diametralmente opostos.
Heinrich Gomperz comenta sobre a relação entre Freud e Brentano, que ele sente que “não é tão insignificante: podemos nos lembrar que Freud sempre se opôs a medicina mais ou menos materialista de seu tempo, destacando a relativa independência do ‘aparelho psíquico’ do físico, e conectado a isso, afirmava que é possível influenciar doenças psíquicas psiquicamente. Podemos falar, talvez de certas consequências da influência de um psicólogo, que, mais do que qualquer outro, distinguia entre fenômenos ‘físicos’ e ‘psíquicos’ e erigiu toda sua doutrina com base nessa distinção?”
Que Gomperz interpreta a posição de Freud equivocadamente fica claro, se havia alguma dúvida, a partir dos capítulos precedentes do presente artigo.
É impossível que Freud, naquela época ou em qualquer outra, tenha sido um seguidor de Brentano. Poderia-se até mesmo questionar se ele teria se interessado em compreender os pontos mais refinados de seus argumentos. Isso não exclui a possibilidade de que Freud tenha se impressionado com algumas polêmicas e afirmações de Brentano, de que ele as tenha preservado em seu pré-consciente e que elas influenciaram seu pensamento vinte anos mais tarde quando ele, desapontado com as teorias psicológicas existentes, se aventurou nesse campo amplo por conta própria. A classificação de Brentano dos fenômenos mentais (percepção, juízo e amor-ódio); suas ideias a respeito dos gênios; seu determinismo, e — de um modo complexo — sua ênfase no fato de que todos os fenômenos psicológicos se referem a um objeto (intencionalismo) — colocando de forma grosseira — todos esses pensamentos poderiam ter uma influência atrasada sobre Freud nos anos noventa. Também poderia ter influência, como T. H. Merlan indica, a apresentação histórica detalhada de Brentano e a mais séria consideração da doutrina “do inconsciente”, apesar da rejeição de Brentano do conceito de atividade psíquica inconsciente. Tudo isso poderia — se Freud tivesse sido aluno de Brentano. Em sua carta a Gomperz, Freud declara que ele tinha sido um “Hörer” de Brentano, o que significa que ele tinha “assistido suas conferências”; literalmente que ele era um dos “ouvintes” de Brentano, em vez de um de seus pupilos. Brentano era uma personalidade muito famosa na academia vienense de seu tempo e suas conferências eram lotadas não apenas por seus alunos, mas por visitantes e notáveis da academia. Mesmo assim, apenas alguns de seus “Hörer” chegaram a estudar filosofia e psicologia.
Brentano prendeu a atenção de toda Viena desde o momento que chegou de Würzburg como professor de filosofia em 1874. Seu nome o tornava interessante. Sobrinho do famoso poeta romântico Clemence Brentano, neto de Sophie La Roche, a amiga de juventude de Goethe, sobrinho de Bettina, a famosa destinatária da “Correspondência com uma criança” de Goethe — ele foi acolhido nos círculos literários e salões. Mas mais interessante do que a história de sua família era a sua própria história. Um doutor em filosofia aos vinte e quatro anos de idade, decidiu estudar teologia e foi ordenado dois anos depois como padre católico. Aos trinta e dois, ele corajosamente liderou a luta contra a intenção do papa de estabelecer o dogma da infalibilidade. Falhando em seus esforços, ele se excomungou e se demitiu do cargo de professor em Würzburg. Os cientistas liberais vienenses aclamaram sua indicação e logo descobriram que sua personalidade, sinceridade, coragem e charme, igualavam seu pedigree e suas ações espetaculares. Exatamente na época em que Gomperz procurava por um tradutor, Brentano ofereceu a Viena outro espetáculo emocionante. Ele pretendia se casar com Ida Lieben, “uma das mais nobres filhas de Viena”, mas a interpretação reacionária de uma velha lei austríaca tornava tal casamento ilegal para um antigo padre. Brentano abandonou seu cargo, adquiriu cidadania saxônica e finalmente se casou em Leipzig em 16 de setembro de 1880. Ele retornou a Viena para retomar suas conferências na universidade — dessa vez como um simples conferencista (Privatdozent).
Que Freud se interessava por Brentano e o respeitava como homem e lutador não há qualquer dúvida. Contudo, não tenho qualquer pista para compreender o interesse de Brentano em Freud. Entretanto, a recomendação de um jovem estudante como tradutor para alguns ensaios não filosóficos de Mill não necessariamente indica uma alta estima por ele. A tarefa certamente não requeria aderência aos ensinamentos de Brentano. Era mais importante encontrar alguém que sabia inglês. É possível que Freud tenha se destacado nos seminários de Brentano com seu conhecimento linguístico. Mas é igualmente possível que Brentano não tenha se impressionado com Freud de modo algum — poderia nem mesmo lembrar dele pessoalmente — mas estivesse seguindo a sugestão de um de seus amigos mútuos. Fleischl, Exner, e o amigo próximo de Freud, Paneth, todos eram pessoalmente e através de suas famílias, conhecidos de Brentano; Joseph Breuer era médico de sua família. De qualquer forma, já que não sabemos quão próximo Freud conhecia Breuer e Paneth em 1879, a reconstrução apresentada é hipotética.
Horace Gray, em sua lista de 65 escritos pré-analíticos de Freud, faz um comentário subjetivo em apenas um, a tradução de Stuart Mill. “Em uma nota de rodapé à versão alemã, o editor Gomperz nos conta[62] que o autor inseriu na reimpressão do ensaio um prefácio curto, em que ele explica que de longe a maior parte dele é trabalho de sua esposa, morta em 1858, altamente valorizada por ele por suas qualidades notáveis da mente e caráter, e[63] que ele não publica outra tradução do trabalho posterior relacionado, A Sujeição das Mulheres, 1869, que foi traduzido como Die Hoerigkeit der Frauen. Os fatos acima são interessantes em conexão com o comentário posterior de Freud: ‘Aquela amargura hostil mostrada por mulheres contra homens, nunca inteiramente ausente na relação entre os sexos, cujas indicações mais claras são encontradas nos escritos e ambições de mulheres emancipadas’. — De passagem notamos a alta qualidade da tradução alemã de emancipação em sua proximidade ao original sem sacrificar sua suavidade. Um ponto curioso é a grafia do nome do tradutor como Siegmund, tanto na página do título como no epílogo do editor”.[64]
A influência da filosofia inglesa, literatura e pensamento político sobre Freud é um tópico interessante que merece um estudo separado. Como todos que mencionam a tradução de Freud se sentem provocados a comentá-la, também eu gostaria de fazer uma observação. Em uma conversa sobre Platão, Freud admitiu, em 1933, que seu conhecimento da filosofia de Platão era muito fragmentário, mas que ele tinha sido bastante impressionado por sua teoria da anamnese e que ele tinha, em determinada época, pensado muito a respeito[65]. Entre esses ensaios do décimo segundo volume, o artigo de Stuart Mill sobre “A Caverna de Platão” tem um lugar conspícuo. A apresentação de Mill trata a teoria da reminiscência com simpatia e em geral é uma intensa contestação das visões da filosofia de Platão que os professores de colégio se acostumaram a pregar naquela época. O senso comum de Mill deve ter apelado muito a Freud e esse ensaio pode muito bem ser a fonte principal do “conhecimento fragmentário” de Freud. ♦
* Siegfried Bernfeld foi um psicólogo e educador austríaco natural de Lemberg. Em 1915 ele completou seu Ph.D. em filosofia na Universidade de Viena, onde também estudou psicanálise, sociologia, educação e biologia.
** Marcus Vinicius Neto Silva é psicólogo, mestre e doutor em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Autor dos livros “Pré-história da pulsão freudiana” (2010) e “A construção da pulsão de morte freudiana” (2015). Colabora como revisor e consultor científico da coleção Obras Incompletas de Sigmund Freud, integrando também o conselho editorial. É militante da Unidade Popular pelo Socialismo. e-mail: marcusviniciusnsilva@gmail.com
[1] UTTLEY, P. L. (1975). Siegfried Bernfeld – Left wing youth leader, psychoanalyst, and zionist. Tese de doutorado. Madison: University of Wisconsin.
[2] EKSTEIN, R. (1981). Siegfried Bernfeld – Sísifo ou as fronteiras da educação. Em F. Alexander, S. Eisenstein, & M. Grotjahn, A história da psicanálise através de seus pioneiros. Rio de Janeiro: Imago, pp. 463-479.
[3] Uma coletânea da correspondência Bernfeld-Jones está sendo preparada pelo tradutor.
[4] FREUD, Concluding Remarks on the Question of Lay-analysis. Int. J. Psycho-Anal., vol. 8, 1927, pp. 392-398.
[5] Ein Jugendbrief von Sigm. Freud. Intern. Zeitschr. f. Psychoanalyse u. Imago Vol. 26, 1941, pp. 5-8.
[6] BRUN, R. Sigmund Freud’s Leistungen auf dem Gebiete der organischen Neurologie. Schw. Arch. f. Neurologie u. Psychiatrie. Vol. 37. 1936, pp. 200- 207.
[7] GRAY, Horace, M.D. Bibliography of Freud’s Pre-analytic Period. Psychoanal. Rev. Vol. 35. 1948, pp. 403-410.
[8] BRUN, R. Sigmund Freud’s Leistungen auf dem Gebiete der organischen Neurologie. Schw. Arch. f. Neurologie u. Psychiatrie. Vol. 37. 1936, pp. 200- 207.
[9] DORER, Dr. M. Historische Grundlagen der Psychoanalyse. Felix Meiner, Leipzig, 1932.
[10] JELIFFE, S. E. Sigmund Freud as a Neurologist. Some Notes on His Earlier Neuro-biological and Clinical Studies. J. Nerv. and Ment. Dis. Vol. 85, 1937, pp. 696-711.
[11] Informação sobre os professores de Freud pode ser encontrada em Dorer (ver nota 7) e em Bernfeld, S. Freud’s Earliest Theories and The School of Helmholtz. Psychoanal. Q. Vol. 13. 1944, pp. 341-362.
[12] BRUN, R. Sigmund Freud’s Leistungen auf dem Gebiete der organischen Neurologie. Schw. Arch. f. Neurologie u. Psychiatrie. Vol. 37. 1936, pp. 200- 207.
[13] JELIFFE, S. E. Sigmund Freud as a Neurologist. Some Notes on His Earlier Neuro-biological and Clinical Studies. J. Nerv. and Ment. Dis. Vol. 85, 1937, pp. 696-711.
[14] GRAY, Horace, M.D. Bibliography of Freud’s Pre-analytic Period. Psychoanal. Rev. Vol. 35. 1948, pp. 403-410.
[15] DORER, Dr. M. Historische Grundlagen der Psychoanalyse. Felix Meiner, Leipzig, 1932.
[16] Beobachtungen ueber Gestaltung und feineren Bau der als Hoden beschriebenen Lappenorgane des Aals. Von Sigmund Freud, stud. med. (Mit. 1 Tafel.) Arbeiten aus dem zoologisch-vergleichendanatomischen Institute der Universitaet Wien. Sitzungsberichte der k. Adademie der Wissenschaften Wien. Abth I. Bd. 75. April-Heft 1877, pp. 419-431. Tafel: “Gez. v. Verf.”
[17] Beobachtungen ueber Gestaltung und feineren Bau der als Hoden beschriebenen Lappenorgane des Aals. Von Sigmund Freud, stud. med. (Mit. 1 Tafel.) Arbeiten aus dem zoologisch-vergleichendanatomischen Institute der Universitaet Wien. Sitzungsberichte der k. Adademie der Wissenschaften Wien. Abth I. Bd. 75. April-Heft 1877, pp. 419-431. Tafel: “Gez. v. Verf.”
[18] Informação sobre Claus em “Botanik u. Zoologie in Österreich in den Jahren 1850 bis 1900”, Wien. 1901., Eisenberg, L. Das Geistige Wien, 1893; e em seus escritos.
[19] Beobachtungen ueber Gestaltung und feineren Bau der als Hoden beschriebenen Lappenorgane des Aals. Von Sigmund Freud, stud. med. (Mit. 1 Tafel.) Arbeiten aus dem zoologisch-vergleichendanatomischen Institute der Universitaet Wien. Sitzungsberichte der k. Adademie der Wissenschaften Wien. Abth I. Bd. 75. April-Heft 1877, pp. 419-431. Tafel: “Gez. v. Verf.”
[20] FREUD, S. An Autobiographical Study. Int. Psychoanalytical Library No. 26. 1936, p. 15.
[21] História da Zoologia e Botânica.
[22] Anna Freud Bernays, “My Brother Sigmund”. Am. Mercury. Nov. 1940.
[23] Dean’s Bibliography of Fishes, Vol. 3. p. 639. 1923. Comunicação pessoal da Sra. Earl S. Herald, curadora da Academia de Ciências da Califórnia.
[24] Inhaltsangabe der wissenschaftlichen Arbeiten des Privatdocenten Dr. Sigmund Freud (1877-1897). Wien, 1897. Intern. Zeitschrift. f. Psychoanalyse u. vol. 25. 1940, pp. 68-100.
[25] Anna Freud Bernays, “My Brother Sigmund”. Am. Mercury. Nov. 1940.
[26] FREUD, S. An Autobiographical Study. Int. Psychoanalytical Library No. 26. 1936, p. 15.
[27] BERNFELD, Siegfried and Bernfeld, Suzanne C. Freud’s Early Childhood. Bull, of the Menninger Clinic, vol. 8. 1944, pp. 107-115.
[28] Bernfeld, S. Psychoanal. Q., 1944. (ver nota 9).
[29] Informação sobre Brücke e o Instituto de Fisiologia podem ser encontradas nos escritos de Brücke e nas fontes listadas em Bernfeld, S. Psychoanal. Q., 1944. (ver nota 9).
[30] Como Bernfeld esclarece adiante, a posição de famulus é equivalente a um pesquisador pós-graduado. (N. do T.)
[31] Esse parágrafo e os dois seguintes são reimpressões — com ligeiras mudanças — de Bernfeld, Psychoanal. Q., 1944, pp. 348-350. (ver nota 9)
[32] Sociedade de Física de Berlim.
[33] Esse parágrafo e os dois seguintes são reimpressões — com ligeiras mudanças — de from Bernfeld, Psychoanal. Q., 1944, pp. 353-354.
[34] O schistoskop é um aparelho inventado por Brücke que ajuda a identificar a coloração de minerais, tarefa que era difícil com o uso de um microscópio. (N. do T.)
[35] FREUD, S. Struktur der Elemente d. Nervensystems. 1884. p. 221. (ver nota 41)
[36] Ueber den Ursprung der hinteren Nervenwurzeln im Rueckenmark von Ammocoetes (Petromyzon Planeri) von Sigmund Freud, stud. med. Aus dem physiologischen Institute der Wiener Universität. Mit 1 Tafel. (Tafel: Freud del.) Sitzungsber. Kais. Akademie d. Wiss. Wien. III. Abt. 75. Band. Wien 1877, pp. 15-27.
[37] Ueber Spinalganglion und Rueckenmark des Petromyzon von stud. med. Sigm. Freud Aus dem physiologischen Institute der Wiener Universitaet. Mit 4 Tafeln und 2 Holzschnitten. (Tafeln: Gez. v. Verf.) Sitzber. Kais. Akademie d. Wiss. Wien. III. Abth. 78. Band. Wien, 1878, pp. 81-167.
[38] Ueber Spinalganglion und Rueckenmark des Petromyzon von stud. med. Sigm. Freud Aus dem physiologischen Institute der Wiener Universitaet. Mit 4 Tafeln und 2 Holzschnitten. (Tafeln: Gez. v. Verf.) Sitzber. Kais. Akademie d. Wiss. Wien. III. Abth. 78. Band. Wien, 1878, pp. 81-167.
[39] Inhaltsangabe der wissenschaftlichen Arbeiten des Privatdocenten Dr. Sigmund Freud (1877-1897). Wien, 1897. Intern. Zeitschrift. f. Psychoanalyse u. vol. 25. 1940, pp. 68-100.
[40] Ueber den Bau der Nervenfasern und Nervenzellen beim Flusskrebs. Von. Dr. Sigm. Freud. Mit. 1 Tafel. Sitzber. d. Kais. Akademie d. Wiss. Wien. III. Abth. 85. Band. Wien. 1882, pp. 9-46.
[41] BRUN, R. Sigmund Freud’s Leistungen auf dem Gebiete der organischen Neurologie. Schw. Arch. f. Neurologie u. Psychiatrie. Vol. 37. 1936, pp. 200- 207.
[42] JELIFFE, S. E. Sigmund Freud as a Neurologist. Some Notes on His Earlier Neuro-biological and Clinical Studies. J. Nerv. and Ment. Dis. Vol. 85, 1937, pp. 696-711.
[43] Die Struktur der Elemente des Nervensystems. Von Dr. Sigm. Freud, Sekundararzt im allgemeinen Krankenhause. Nach einem im psychiatrischen Vereine gehaltenen Vortrag. Jahrbücher f. Psychiatrie. V. Band. Nr. 3. Wien. 1884, pp. 221-229.—Freud, in Verzeichnis, p. 73 (ver nota 37) não lista essa publicação, mas fornece o título com o acréscimo: “(Vortrag im psychiatrischen Verein. 1882).” Brun (ver nota 4) fornece: “Wiener akad. Sitzb. Bd. 85. 1882”. Não fui capaz de encontrar o periódico com esse título. Ele não está em Sitzber. der Kais. Akad. Wiss.—Gray (ver nota 5) lista erroneamente: “Jahrbücher … 1885.”
[44] Anuários de Psiquiatria.
[45] Notiz über eine Methode zur anatomischen Praeparation des Nervensystems. Von Drd. med. Sigm. Freud in Centralbl. f. d. Med. Wiss. 17. Jahrg. No. 28. Berlin. 1879, pp. 468-69.
[46] Eine neue Methode zum Studium des Faserverlaufs im Centralnervensystem. Von Dr. Sigm. Freud. Sekundararzt i. Wiener Allg. Krankenh. Archiv f. Anat. u. Physiol. Anatomisehe Abth. Leipzig, 1884, pp. 453-460.
[47] Eine neue Methode zum Studium des Faserverlaufs im Central- Nervensystem. Von Dr. Sigm. Freud, Sekundararzt im Wiener Allg. Krankenh. Centralbl. f. d. med. Wiss. 22. Jahrg. No. 11. Berlin, 1884. pp. 161-163.
[48] Eine neue Methode zum Studium des Faserverlaufs im Centralnervensystem. Von Dr. Sigm. Freud. Sekundararzt i. Wiener Allg. Krankenh. Archiv f. Anat. u. Physiol. Anatomisehe Abth. Leipzig, 1884. pp. 453-460.
[49] A new histological method for the study of nerve-tracts in the brain and spinal chord. By Dr. Sigm. Freud, Assistant physician to the Vienna General Hospital. Brain. Vol. 7. London, 1884, pp. 86-89.
[50] UPSON, H. S. On Gold as a Staining Agent for Nerve Tissues. Journ. of Nerv. and Ment. Dis. Vol. 13, 1888, p. 685.
[51] Die Struktur der Elemente des Nervensystems. Von Dr. Sigm. Freud, Sekundararzt im allgemeinen Krankenhause. Nach einem im psychiatrischen Vereine gehaltenen Vortrag. Jahrbücher f. Psychiatrie. V. Band. Nr. 3. Wien. 1884, pp. 221-229.—Freud, in Verzeichnis, p. 73 (ver nota 37 ) não lista essa publicação, mas fornece o título com o acréscimo: “(Vortrag im psychiatrischen Verein. 1882).” Brun (ver nota 4) fornece: “Wiener akad. Sitzb. Bd. 85. 1882”. Não fui capaz de encontrar o periódico com esse título. Ele não está em Sitzber. der Kais. Akad. Wiss.—Gray (ver nota 5 ) lista erroneamente: “Jahrbücher … 1885.”
[52] Freud, Concluding Remarks on the Question of Lay-analysis. Int. J. Psycho-Anal., vol. 8, 1927, pp. 392-398.
[53] Um professor universitário na Áustria da época iniciaria sua carreira como Privatdozent, sendo em seguida promovido para Professor Extraordinarius e finalmente Professor Ordinarius.
54] Informação sobre Stricker: EISENBERG, L. Das geistige Wien, 1893; 30 Jahre experimentelle Pathologie, Wien, 1898; and from Stricker’s writings.
[55] Wiener Medizinische Presse. Nr. 44. 2. Nov. 1879, pp. 1403-1406.
[56] KOLLER, Carl. Wiener Medizinische Wochenschr. 1935, pp. 7-8.
[57] FREUD, S. Beitrag zur Kenntnis der Cocawirkung. Wiener Md. Wo. 35. No. 5. 1885, pp. 129-133 — relatório sobre experimentos realizados em 1884.
[58] BERNFELD, S. Psychoanal. Q., 1944. (ver nota 9).
[59] Bernfeld parece ter cometido um engano com a data, já que Freud faria, em 1880, vinte e quatro anos. (N. do T.)
[60] Philip Merlan. Brentano and Freud. Journ. f. History of Ideas. Vol. VI. No. 3, 1945, pp. 375-377.
[61] Informação sobre Brentano a partir de seus escritos; e de Oskar Kraus, Franz Brentano (1838-1917). Neue Öster. Biographie. I. Abt. 3. Band. 1926; Kraus, Stumpf, Husserl, Franz Brentano. Zur Kenntnis seines Lebens u. seiner Lehre, München, 1919.
[62] FREUD, Concluding Remarks on the Question of Lay-analysis. Int. J. Psycho-Anal., vol. 8, 1927, pp. 392-398.
[63] Ein Jugendbrief von Sigm. Freud. Intern. Zeitschr. f. Psychoanalyse u. Imago Vol. 26, 1941, pp. 5-8.
[64] GRAY, Horace, M.D. Bibliography of Freud’s Pre-analytic Period. Psychoanal. Rev. Vol. 35. 1948, pp. 403-410.
[65] Comunicação pessoal de Suzanne Bernfeld.
COMO CITAR ESTE ARTIGO | NETO SILVA, Marcus Vinícius (2023) Os primórdios científicos de Freud. [Freud´s cientific begginings] Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -14, p. 1, 2023. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2023/06/06/5451/>.