Tomando as vozes das mulheres: a política psicológica da feminização

[ Taking women’s voices: the psychological politics of feminisation ]

por Erica Burman

Tradução | Diego Amaral Penha e Paula Thaís Antunes Pereira

Introdução[1]

Este artigo explora o papel, a contribuição e relevância de recentes engajamentos entre abordagens feministas e discursivas. Ele inclui uma breve revisão de como e por que as feministas deveriam resistir ao apelo à feminização. Entretanto, as feministas não estão sós ao serem interpeladas para apoiar isso, e a história recente da análise de discurso tem a sua própria história do gênero, a qual se faz presente aqui. O artigo mantém então, em parte, um endereçamento específico para e sobre a psicologia, em termos de iluminar os tropos políticos contemporâneos estruturados ao redor de um modo atual fundamental de psicologização, que mobiliza discursos de feminização sob o neoliberalismo. A avaliação crítica e a análise discursiva de feminização necessitam rever debates feministas anteriores dentro e fora da psicologia. Essa análise é oferecida como um recurso em relação à urgente tarefa de criticar modos atuais de políticas psicológicas que figuram no interior de processos de imperialismo cultural e econômico, bem como a aceleração de acumulação de capital multinacional, em que, como argumentarei, representações de gênero figuram de maneira vital.

O argumento central aqui é de que o gênero — e, em particular, as representações de mulheres — opera no interior de discursos contemporâneos de guerra e paz para escamotear práticas de poder, obscurecendo sua presença e função. O que eu chamo aqui de “feminização” (para distanciar essas representações generizadas das mulheres de fato, com corpo, pensantes e atuantes) trabalha para domesticar e deixar cômodo, normal e natural o que são relações prevalentes de exploração, ocupação e opressão em uma escala sem precedentes. Uma tarefa importante para psicólogas/os feministas e críticas/os, como pessoas que possuem uma particular sintonia com as intersecções e efeitos de tais políticas psicológicas, é recusar a tentação de interpelar tais feminizações falaciosas e mostrar, por uma análise política e metodológica, como a feminização trabalha para obscurecer outras — talvez ainda mais sinistras — agendas políticas.

O título do artigo realça, portanto, como essa apropriação das vozes das mulheres deveria ser contestada. Se ele parece ser direcionado principalmente às feministas, e especialmente àquelas na psicologia, assim o é porque meus argumentos vão além da já tradicional pergunta colocada pela teoria feminista — sobre para “quais mulheres” está sendo “dada voz” —, problematizando tanto o estatuto quanto a função de tais representações generizadas. Consequentemente, a investigação conduz a análise das políticas de discurso a uma análise discursiva de gênero. Vai além das atividades e tendências dos corpos realmente sexuados e generizados, rumo aos tropos imaginados e imaginários que consolidam[2] frases politicamente malformadas[3].

O estado em que estamos

De seis anos para cá (2003-2009) vem sendo testemunhado um extraordinário período de guerra conduzido por ações e palavras (para além dos fatos sedimentados), em que inversões massivas de significados e práticas da linguagem corriqueira tonaram-se comuns: reivindicações por Democracia justificaram invasões neocoloniais e o slogan de uma “guerra contra o mal” ameaçou qualquer país que não obedecesse aos interesses econômicos militares dos EUA. O fundamentalismo — através de uma volúvel associação com a islamofobia — tornou-se mais uma propriedade de um estado secular, embora autoritário, do que de, digamos, cruzadas cristãs. Como previu o movimento feminista RAWA (Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão), desde o começo da invasão do Afeganistão e do Iraque, as convocatórias para a emancipação das mulheres foram cinicamente implantadas como táticas retóricas para mobilização de apoio, sendo esquecidas no momento em que o alvo político-militar se tornava outro[4]. O próprio terror tornou-se um termo volúvel, reproduzindo reflexivamente seus próprios efeitos, desconectando seus sujeitos ocidentais da discussão coletiva e ação; deste modo, tornando quase impossível uma análise causal das relações (tais como: quem são os terroristas, quem começou a guerra…, e da avaliação política e ação).

Sem subestimar a significância dos movimentos de resistência que emergiram em nível global, e o retorno do engajamento político dentre os novos eleitorados (tais como os estudantes), cuja apatia e desengajamento estamos acostumados a lamentar, a segunda Guerra do Golfo, a ocupação do Afeganistão, do Iraque e a crise no Oriente Médio (incluindo a segunda Intifada, o cerco e o bombardeio de Gaza) pegaram os feminismos em um momento introspectivo. Essa mudança do tempo para o espaço na teoria social[5] importou um localismo e uma especificidade que foi forte em relação à subjetividade, com correspondentes reivindicações de engajamento subjetivo, passional e situado. Mas ela era frágil na coletividade, com efeitos tanto bons quanto ruins: bons por levarem a algumas reflexões críticas sobre as posições divididas e os interesses das mulheres, e limitando as injustificáveis alegações de se estar agindo “em nome de” alguma concepção abstrata de mulher (veladamente heterossexual, americano-/eurocêntrica de classe média); ruins por oferecerem poucas estratégias tangíveis para renegociar coalizações e alianças entre os grupos mais e menos privilegiados, e assim ameaçando deixar as feministas politicamente isoladas em seus próprios guetos de interesse social (embora flexíveis e múltiplos) — que, no entanto, “deram” uma maior “voz” através de tropos metodológicos de reflexividade e autobiografia.

À luz desses problemas, as críticas negras, pós-coloniais e lésbicas ajudaram a quebrar o monólito do feminismo em movimentos feministas mais diversos, plurais e interconectados. De fato — e isso tem alguma importância para o meu enfoque no estado ontológico das representações da mulher discutidos a seguir —, juntamente com o feminismo, a categoria “mulher” e o seu associado repertório psicológico (inclusive noções de papel, identidade…) estiveram sujeitos a uma série de deslocamentos: de feminismo para feminismos; de identidade para performance; de mulher para gênero, com outra mudança instituída de gênero para sexualidade (inclusive, institucionalmente, o difundido movimento de estudos femininos para estudos de gênero/sexualidade). No geral, tais deslocamentos destacaram as formas múltiplas e interseccionais dos posicionamentos generizados produzidos pelas estruturas de classe, sexualidade e racialização. No entanto, parece haver um pequeno sinal de que, concomitantemente, a psicologia e o seu papel na regulação de gênero — entre outras diferenças significativas — foram deslocados. Certamente a relação historicamente complicada do(s) feminismo(s) com a psicologia institucional, na via do “pessoal como político”, colocou lenha na fogueira da despolitização da psicologia[6].

Neste momento reflexivo, uma política de aquiescência — às vezes na forma da ironia pós-moderna — ameaçou influenciar: o mote visionário do ciborgue[7] abriu caminho (em geral) para a política de consumo liberal do queer; e a mudança de foco metodológico do outro para o si-mesmo anunciou — juntamente com a legitimação do emocional como um recurso para análises político-metodológicas — o retorno de uma agenda terapêutica que sempre ameaçou muito sutilmente patologizar ou, pelo menos, moderar críticas políticas. Além disso, ao lado da substituição da profundidade (histórica) para as superfícies (múltiplas e distribuídas), a suposta mudança pós-moderna de grandes narrativas para pequenas histórias foi acompanhada por um tipo diferente de retrospecção. Processos memoriais, individuais e coletivos, preocupam a cena acadêmica mundial, junto com discussões especificamente feministas — pós-milênio, talvez — de “gerações”[8]. Assim como o mapeamento de cumplicidades, resistências e legados coloniais (especialmente em relação a um contexto pós-colonial britânico), em que o “dentro e fora de casa” amplia a política constitutiva de “si mesmo e outro”, o outro enfoque memorial diz respeito à conjunção da construção com a desordenação da memória social e individual através das noções de trauma, luto e reparação (político-econômica e psicanalítica). Aqui o construcionismo social (em suas múltiplas formas) compete com, e às vezes coexiste com, a psicanálise como modelo dominante. Realmente, em meio a todas as outras desconstruções de ortodoxias oficiais, inclusive da autoridade feminista, o estatuto privilegiado que a psicanálise continua a ter com os feminismos (e agora também, cada vez mais, na psicologia feminista) deveria nos trazer uma pausa para pensar — cf. em Belsey e Moore, conhecido texto de 1989, como a história da teoria feminista é tratada como equivalente da psicanálise teórica; cf. também os debates correntes sobre o estatuto da psicanálise na nascente disciplina dos “estudos psicossociais”[9]. No mínimo, ele indica como o retorno do corpo e das emoções, como um locus para investigação feminista e psicológica, é refletido e prefigurado por outros desenvolvimentos.

Vozes, corpos e discursos

Metodologicamente falando (depois das análises foucaultianas sobre a profissão), psicólogas/os foram treinadas/os para pensar de forma técnica[10]. Então, mudanças ou desenvolvimentos mais amplos na teoria e na prática feministas tiveram alguns efeitos importantes. Primeiramente, o objetivo inicial de pesquisadoras/es qualitativas/os para “dar voz” e “empoderar” mulheres e outros grupos subordinados sofreu uma transformação grande na direção de uma apurada atenção às relações de poder estruturadas dentro de conhecimentos geracionais e práticas de interpretação. Longe de “vozes” ou “expenriências” autênticas e estáveis, pesquisadoras/es preocupam-se agora com causas provisórias e situacionalmente determinadas[11]. As “vozes” da experiência produzidas através de pesquisas foram reconhecidas como construções e, ao invés de assumirem seus estatutos, a tarefa das pesquisadoras/es foi interrogar sobre o que estávamos fazendo com elas, e por qual razão[12]. Para levar isso um pouco mais adiante, e antecipar o meu argumento que virá a seguir, talvez as feministas tenham ficado tão tímidas em suas reivindicações de fabricar ou conquistar as vozes das mulheres que o espaço foi deixado em aberto para outros grupos se apropriarem da posição retórica aberta pela “segunda onda” feminista (e desafiadas pela “terceira onda”) para outros fins. As recentes alegações de uma crise na representatividade não só problematizaram a autoridade das posições em que falam as/os pesquisadoras/es privilegiadas/os, mas também identificaram as insuficiências e as características excludentes de práticas institucionais prevalentes que fazem reivindicações de representatividade.

Na pesquisa feminista em psicologia, em termos de carreira, tem havido uma interessante reviravolta de acontecimentos. A pesquisa discursiva surgiu sustentando-se nos debates em teoria social. De fato, na Grã-Bretanha dos anos 1990, o discurso era um campo feminizado na psicologia[13]. Muito inutilmente, e talvez como um movimento de psicólogas/os para conter e manchar ambos, a pesquisa feminista era assumida como sendo discursiva, e vice-versa. Desde então tem havido uma separação dos caminhos — em parte assinalados pela ascensão das psicologias construtivistas críticas e sociais (que possuem uma grande dívida, geralmente não reconhecida, com o trabalho feminista). Mas duas outras características estão em jogo aqui: em primeiro lugar, a pesquisa narrativa pareceu flanquear o trabalho com discurso (tanto dentro como fora da psicologia) a partir da esquerda[14], proporcionando um novo léxico para discutir a — socialmente construída — característica de experiência vivida, mas ainda mantendo algumas ambiguidades em relação aos modelos de precisas relações de poder que regem a intersecção entre a narração individual e social. A narrativa parecia oferecer um caminho de volta à personificação, às emoções e às anedotas da história que a pós-modernidade vai admitir. O trabalho com discurso, ao contrário, provocou críticas entre feministas, mas não só[15], pela sua abstração da experiência subjetiva e pelo seu apelo anti-humanista a noções de agência, bem como pelas suas aparentes inclinações relativistas[16]. Mas em segundo lugar, independentemente da veracidade ou não dessas alegações (uma vez que tais debates continuam), e precisamente em virtude da sua popularidade — com a qual uma nova geração de psicólogas/os feministas tem contribuído[17] —, o trabalho com discurso tem sido integrado como uma tecnologia para a psicologia dominante.

Uma parte subsidiária do meu argumento aqui é dar ensejo a um reengajamento tático feminista no trabalho com discurso. Isso não porque o trabalho de discurso é particularmente digno de resgate de suas dotações tecnicistas, nem porque seja inerentemente superior a qualquer outra abordagem[18], mas sim porque as feministas e outras/os pesquisadora/es críticas/os na psicologia põem a perder um conjunto útil de ferramentas conceituais para a análise das práticas culturais dominantes, se deixarem que o trabalho com discurso em psicologia fique focado somente em tais características técnicas e dogmaticamente demarcadas, como as relações sintáticas ou de conversação elaboradas dentro de uma transcrição. Tais dispositivos são realmente úteis (eu mesmo já os utilizei)[19], mas eles só podem contar a sua história (apesar de, às vezes, negarem isso com veemência) subscrevendo os mesmos entendimentos discursivos e narrativos de poder e autoridade que, conforme alegam, encontram-se fora de seus textos excessivamente delimitados. Tal como acontece com a intervenção feminista, dilemas prático-políticos são colocados pela popularização[20]: o reconhecimento traz recursos e oportunidades de influência/intervenção — e o trabalho com discurso é agora uma metodologia interpretativa importante na psicologia. Mas também traz riscos de recuperação. Assim, a minha análise de texto, apresentada brevemente, deve ser vista como uma reivindicação performativa de reconhecer e restaurar a autoridade feminista dentro da análise de discurso, com base em um modelo de análise de discurso que não se limita a uma abordagem discursiva específica, mas funciona ligando os pequenos textos à suas narrativas mais poderosas[21]. De igual maneira, a minha subscrição ao trabalho discursivo aqui situa-se do lado de abordagens narrativas como análises estruturais necessárias e complementares para afastar quaisquer tendências incipientes no âmbito das abordagens narrativas em direção à recuperação de compreensões individualistas.

A política da feminização

Falar de individualismo conecta-se com o tema da feminização e com o papel da psicologia em ambas as noções. Este termo “feminização” talvez pareça deliberadamente estranho; uma substantivação, isto é, um substantivo referindo-se a um processo de fazer “feminino”, sem especificar por quem ou pelo que é feito[22]. Essas palavras com sentido de “processo” (como racialização e minorização), que surgiram como uma reflexão útil da atenção geral dada à performatividade, leva-nos de volta para as análises estruturais, enquanto participam da animada e instável interação das condições em que ocorrem. De fato, a “política psicológica da feminização” no meu título nomeia um conjunto de charadas: um “complexo discursivo” de vários tipos[23]. Quatro enigmas (no mínimo) cercam a “feminização”.

O primeiro diz respeito à relação entre o indivíduo e a coletividade, por feminização parecer designar uma tendência social, em vez de uma carreira ou intenção individual — por isso o seu sujeito parece coletivo. No entanto, a noção de feminização é tipicamente invocada como um efeito de algum outro conjunto de processos (como nas discussões sobre a feminização da psicologia, por exemplo)[24]. Independentemente do fato de que alguém poderia realmente querer reivindicar uma posição de sujeito feminizado (em vez de tê-la aplicada a si como um descritivo social), o próprio termo, através das associações culturais de “feminilidade” — que invocam o domínio primário e, assim, a divisão público/privado — produz um deslocamento do social para o pessoal, como o lugar da casa, do cuidado, do trabalho invisível, da intimidade e assim por diante. Paradoxalmente, então, mesmo que identifiquem um processo social, discussões de feminização ameaçam levar a subjetividade coletiva à individual. Esse é o primeiro estado das políticas psicológicas de feminização que necessita contestação.

Em segundo lugar, ao mesmo tempo em que a feminização nomeia um conjunto de processos econômicos e culturais (como na feminização do trabalho, ou na feminização da pobreza), o sujeito desses processos (no verdadeiro espírito pós-moderno) tem de se desacoplar de corpos efetivamente marcados pelo gênero feminino[25] para se referir a circunscrições posicionadas de maneiras estruturalmente mais amplas. Como a ascensão da indústria de “letramento emocional” indica, agora os homens que, assim como as mulheres, são empregados com salários baixos, contratos precários e horário flexível (à disposição), dizem estar sendo feminizados[26]. A crise das relações de trabalho em um período pós-industrial foi apresentada como prenúncio de uma feminização da força de trabalho. Como é discutido a seguir, novas tecnologias também podem produzir a feminização da guerra.

A terceira preocupação é que a noção de feminização, no próprio esforço de chamar a atenção para certos processos de exclusão e opressão, reinscreve engendramentos normalizados desses processos. E quanto às respostas novas, ou às subalternas de longa data, que transformam a prática de gênero dominante? É importante perguntar, portanto, quais feminizações são assim denominadas e o que elas indicam. Psicólogas/os feministas e críticas/os têm uma experiência considerável em detectar como formas de relação de gênero contingentes, porém presumíveis, tornam-se normalizadas e naturalizadas através de teorias cujo estatuto epistemológico é tão frágil como os testes em que se baseiam[27].

Ambos desenvolvem esse último ponto, mas por meio de contraste. Há também uma quarta leitura da feminização, que destaca o caráter generizado do processo, mas interroga o concomitante estatuto desvalorizado que ele supostamente adquire. Assim, supostamente nomeia-se feminização da educação a atual vantagem ou sucesso das garotas dentro da cena escolar britânica educacional. Bem se sabe que o atual suposto sucesso educativo das meninas custa mais emocional e pessoalmente do que esse debate admitiria[28], e — aqui, usando o dispositivo metodológico de deslocamento de gênero — que “raça” e privilégios de classe (em vez de gênero) contam para o sucesso educativo de algumas meninas brancas de classe média[29], mas isso afeta pouco a percepção cultural mais ampla da mudança da feminização como uma categoria de vitimização para uma categoria de beneficiárias, se não vencedoras.

Assim, com base em algumas dessas vertentes, e agora aplicando-as mais diretamente ao tema das mulheres e da guerra, parece que parte do que está em questão, através da noção de feminização, é reivindicar o estatuto de vítima, como a representação de uma estrutura da subjetividade que garante indulgência ou desobrigação. Enquanto a posição de vítima é, por definição, individualizada, as suas insuficiências políticas têm sido bastante criticadas por feministas em vários âmbitos[30]. No entanto, a associação cultural entre a passividade e a feminilidade está em jogo aqui, enquanto a individualização incipiente que isso inaugura reforça discursos generalizados de “risco” que já não se encontram dentro das relações sociais e alocações de recursos, mas agora atribuem a corpos específicos (e categorias específicas de corpos) que são então investidos como local de perigo[31].

Isso é o que Susannah Radstone[32] e Amal Treacher[33] identificaram como parte da cultura de vitimização pós “9/11” que se espraiou pelos EUA e, por meio do discurso do “terror”, por todo o mundo “aliado”. De fato, como Sara Ahmed[34] destacou em sua análise explicitamente antipsicológica das economias emocionais contemporâneas, a estratégia de enfrentamento para afastar a individualização/vitimização traumática solicitada pelo governo Bush era não só uma identificação com o Estado-Nação (como a ligação de volta ao social), mas também com o consumo. O processo democrático igualou os negócios, como de costume; o mercado continua e, apesar dos “credit-crunch[35]” e de Obama no poder, esse modelo ainda prevalece. Esse é o lugar em que “feminismo de livre mercado” (no sentido da implantação discricionária e tática dos discursos de emancipação das mulheres no âmbito dos projetos neocoloniais nacionais e transnacionais de desenvolvimento)[36] atende às feminizações forjadas por agências políticas duvidosas, mobilizadas pela participação dos consumidores. As políticas psicológicas da feminização consequentemente nomeiam um terreno disputado e politicamente acusado por análises feministas antirracismo e anticapitalistas.

Voltando ao texto: Nagging Nora

Na linha das provocações feministas para explicar o processo de produção de uma análise e de sua localização histórico-cultural, incluindo na conta a posição do analista, gostaria de começar narrando o meu primeiro encontro com esse texto. Em uma viagem para Londres realizada em janeiro de 2003[37], em um trajeto no metrô, reparei na imagem e no texto a seguir[38].

QUEM PROVÊ COMPANHIA FEMININA PARA OS PILOTOS DE CAÇA?

“ALVO AO ALCANÇE”, “MÍSSIL DETECTADO”, “SUBIR, SUBIR”, NAG. NAG. NAG. NAG. NAG. FONES LOCALIZADOS NO CAPACETE DO PILOTO DE CAÇA DÃO CONSELHOS E INFORMAÇÕES DE MANEIRA CALMA, EM UMA VOZ FEMININA AUTORITÁRIA. OS PILOTOS APELIDARAM O PROGRAMA DE “NAGGING NORA[39]”. SÓ MAIS UMA DAS IDEIAS INOVADORAS DA BAE SYSTEMS QUE AJUDAM A FAZER DO MUNDO UM LUGAR MAIS SEGURO.

O texto (todo em maiúsculas) ocupava apenas uma partezinha de uma página; o restante estava envolto em escuridão, com a única figura representada: a perfil grande, porém fraco, do rosto de uma mulher com fones de ouvido. A única cor brilhante na imagem era o batom vermelho, ecoando também na cor das letras na parte inferior: “BAE SYSTEMS”, e mais abaixo “INOVANDO POR UM MUNDO MELHOR”.

Primeiras impressões

Minha primeira resposta foram os sentimentos ultraje e ofensa, misturados com fascinação. No momento em que os meios de comunicação norte-americanos estavam longe na “contagem regressiva” para a guerra no Iraque, essa representação de tecnologia militar estava “ajudando a tornar o mundo um lugar mais seguro”. Parecia consistente com a propaganda pró-guerra que essa era uma guerra justa, e que fazer a guerra “nos” deixa mais seguros. Mas isso convidava para outra questão sobre como essa representação da feminilidade estava funcionando — especialmente no âmbito da constituição de partes polarizadas de “nós” contra “eles”. Em termos de substituições, esse anúncio foi um dentre uma série que vi em outras caminhadas, feitas nessa mesma viagem usando cores e formas semelhantes, que principalmente justapunham imagens da natureza com outras de tecnologia militar (um pássaro com um sistema de satélite, uma baleia com um submarino); e todos com a mesma assinatura: “Apenas uma das ideias inovadoras da BAE systems que ajudam a tornar o mundo um lugar mais seguro”. Mas por que os usuários dos metrôs de Londres são tratados como possíveis compradores de uma peça de hardware militar cujo custo unitário girava em torno de algo que passageiros regulares mal poderiam pagar, mesmo se quisessem[40]?

Antes de mudar para uma análise mais detalhada, é importante recordar um ponto-chave que corre (significativamente) o risco de passar batido. A “Nagging Noranão era uma mulher. Nem era, de forma alguma, “natural”. “Ela” era um “comando de voz eletrônico”[41]. Essa “mulher” não existe (como Lacan disse algumas vezes). Igual à voz sedutora que anuncia os cancelamentos de um trem na estação, e a voz do computador em todas as quatro séries de Star Trek, “ela” é uma peça de tecnologia. Então, o que isso nos diz sobre o futuro da feminização e sobre a nossa participação nesse processo?

Depois de pesquisar um pouco

A análise apresentada a seguir discute primeiramente a semiótica do texto, ou seja, os significados mobilizados pelas suas formas textuais, estrutura e relações, incluindo as ressonâncias entre imagem e palavras; e, em seguida, passa para a apresentação de algumas análises suplementares, situando-as dentro de um comentário mais relevante e incluindo algumas percepções (culturalmente privilegiadas) de leitura, juntamente com descrições disponíveis com intencionalidade autoral.

Semiótica no texto

O texto pode ser caracterizado como tendo aspectos visuais, bem como lexicais; enquanto no escrito predomina o texto, não há variação no tipo e disposição que marque o desenvolvimento da estrutura da “mensagem”. Com todo o respeito à análise de conversação, há de fato alguma semelhança com tomada de turnos, com um ritmo de “chamada e resposta” marcando a resolução da pergunta feita no topo (“Quem fornece companhia feminina para os pilotos de caça”). O texto está estruturado de forma didática, fazendo uma pergunta para a qual ele fornece a resposta e, em seguida, reforçando com uma conclusão ou “moral” (“Apenas uma das ideias inovadoras de…”). Um conjunto de convenções narrativas que lembra um documentário (com uma locução autoritária) tem um endereçamento direto para “nós”, o Leitor/Espectador, mas isso então muda para uma cena de filme de ação pela qual “nós” somos posicionados como observadores. No entanto (através da ausência de atribuição do discurso direto) uma mudança identificatória do papel do terceiro (observador) para o estatuto de orador do “discurso direto” é mobilizada. Se quem é exatamente o orador ainda está, nesse ponto, por ser determinado, a coisa toda gira, de modo geral, em torno do “piloto de caça”.

A ausência de aspas em “NAG.NAG.NAG.NAG.NAG” convida imediatamente a uma facticidade em torno dessa atribuição (a “nag” de uma pessoa é uma advertência ou sugestão advinda de outrem…)[42]: o fato de que “ela” é “apelidada” invoca a convenção de uma resposta coletiva de um grupo subordinado a uma autoridade impopular ou contestada. Com efeito, “NAGGING NORA” contrapõe-se aos “pilotos de caça” não nomeados. Mas agora as características das relações de gênero mudaram. Contrariamente à atração/conforto/atenção (héteros)sexual de uma “acompanhante feminina”, “nagging” designa uma comunicação inoportuna e indesejada decorrente e/ou geradora de relutância — em aquiescer a ou em comprometer-se com — da parte do destinatário; de forma estereotipada, é a tática utilizada por namoradas, esposas e mães para conseguirem que seus homens façam algo que elas desejam. O que está em causa é o estado do imperativo moral; pois, da parte da “nagger” [irritadora], o seu “nagging” [ato de irritar] surge de um senso de compromisso ou de urgência. Na verdade, a legitimidade do “nag” [aviso] é confirmada pela narrativa autoritária (em oposição a “subjetiva”) não dita que se segue: FONES LOCALIZADOS NO CAPACETE DO PILOTO DE CAÇA DÃO CONSELHOS E INFORMAÇÕES DE MANEIRA CALMA, EM UMA VOZ FEMININA AUTORITÁRIA. Então, aquilo que é “nagging” para o piloto é processado como algo que “realmente” “dá conselhos e informação”[43]. Está em jogo aqui o discurso sobre a assertividade feminina, ou ainda a superioridade feminina. “Nagging Nora” diz aos pilotos de caça o que eles precisam saber, mas não necessariamente o que querem ouvir. A “voz” dela é “calma” e “autoritária”; ela tem a moral superior, habilidades de manejo e precisão técnica para identificar más notícias e transmiti-las sem engendramento de pânico. Longe de apenas ser a tradicional parceira passiva e compreensiva, “ela” é a nova mulher, aquela carinhosa e poderosa. Assim, discursos sobre ética feminina e sensibilidade moral, intuição feminina e emancipação da mulher são restabelecidos em tecnologia militar tática.

Mas, ao lado disso, outro conjunto de efeitos é produzido através do discurso sobre “nagging”. Toda a aura trágica e grandiosa da Segunda Guerra Mundial presente no gênero heroico melodramático dos cenários de combate aéreo (“ALVO AO ALCANÇE”, “MÍSSIL DETECTADO”, “SUBIR, SUBIR”) é abruptamente deslocada pela sua justaposição e denominação implícita como “NAG. NAG. NAG. NAG. NAG.”. Os perigos e ansiedades do combate tornaram-se tão rotineiros e mundanos como aquelas tarefas cansativas que demanda que alguém nos “irrite” até cedermos em realizá-las. Em contraste com o gênero de filmes de desastres dos anos 1970, nestes tempos pós-modernos tais cenários evocam mais o ridículo do que o pânico ou o perigo, com as narrativas heroico-sacrificiais masculinas dando uma pontada de ceticismo (do tipo “corta essa!”) no estômago[44]. A partir da banalização do estatuto de quem fala, a inclusão de “conselhos e informações” na designação afetiva e de gênero de “nagging” mina a credibilidade de sua urgência e importância.

De fato, o que está em jogo aí é a domesticação da guerra de modo que a principal relação se torna a ironização de jogos de poder de gênero do “nosso” lado da guerra, em vez de um sério envolvimento antagônico[45]. Assim, os efeitos das ações do piloto são deslocados, focando-se nas relações que irritam/de gênero dentro das quais elas foram produzidas. Isso marca um movimento importante, pois o relacionamento central retratado não é mais entre guerreiros antagonistas (aqueles que constituem alvos) — e nós deveríamos notar que não há no anúncio nenhuma menção à ordens de soltar mísseis (já que os mísseis estão vindo em “nossa direção”), assim mantendo a moral superior presente na ideia de “operações defensivas”. Por outro lado, a guerra sendo travada transformou-se na “longa guerra” de homens contra mulheres (um lugar de conflito que, desse modo, também é banalizado), de tal modo que o inimigo externo praticamente se tornou um pretexto para uma disputa de gênero mais íntima e diária.

Assim, as imagens feminizadas funcionam de várias maneiras: conectando o pessoal e o político, mas também subvertendo, assim, o foco no político. Os termos “companhia”, “calma”, “mais seguro” (utilizado duas vezes em relação ao BAE), juntamente com noções implícitas de cuidado e natureza, acabam em relações contrastantes com a linguagem mais familiar de guerra e de combate: isolamento, brutalidade, caos, terror, perigo (talvez, criado pelo homem). Sua afirmação nesse contexto compensa[46] a mobilização de seus opostos.

O piloto tem “companhia”, que “o” deixa (ou então eu interpelo a posição de gênero do piloto[47]) “seguro”[48]. A companhia feminina não só tranquiliza, mas também impede a imprudência (masculina estereotipada) e o perigo. (Há tons de ironia aqui, nas associações de gênero e proteção do ambiente — “BAE… para um mundo mais seguro”). Juntamente com todas as óbvias imagens sexualizadas[49], um efeito-chave da heterossexualização desse sistema relacional piloto/comando é que a guerra é (literalmente) familiarizada, normalizada e apresentada como trabalho. Aqui estão mobilizadas as relações tradicionais de gênero de homens e de mulheres no trabalho, e mulheres no local de trabalho, bem como das mulheres em casa apoiando seus homens no trabalho[50]. No entanto, através de tal engendramento, o piloto ocupa a posição infantilizada do homem dominado pela mulher, que se encaixa bem com os discursos contemporâneos de masculinidade vulnerável (em vez de hegemônica); e essa “partilha de poder” traz as mulheres para (o que poderíamos chamar de) o jogo guerra/trabalho como parceiras mais ativas e iguais. Ao invés de ser de oposição, a posição tradicional das mulheres como protetoras e pacificadoras[51] agora está mesclada com a de protagonista na guerra. Paralelamente a isso, ou talvez contrariamente, não há associação entre docilidade e juventude com o perfil sombrio nos fones “NORA”, pois não se trata de uma secretária recebendo informações e ordens; é “ela” quem manda. Isso sugere que as mulheres “atingiram a maioridade” com papeis iguais na guerra? No mínimo, isso não permite uma divisão fácil entre vítimas e perpetradores. Missões e mísseis não são apenas culturalmente masculinos. Em uma inversão do tipo Matrix, a figura feminina nos fones são a reminiscência de uma assistente de televendas ou de uma heroína noir de filmes dos anos 1940, que oferece mais do que serviços recreativos ou bancário (ou sexuais). A feminização da cultura terapêutica sustentada por tal “tecnologia de comunicação”, com a sua ética do “falar é bom”[52], desloca a sua finalidade militar.

Assim, a guerra se tornou trabalho; e, como de costume, negócios são o caminho para a substituição da relação central de inimigo externo mortal para piadinhas “afetuosas”/“inocentes” com uma parceira menosprezada. (Isso talvez se reflita no novo gênero de filmes “buddy”, emergindo entre homem e máquina feminizada[53]). Essa análise estende-se tanto em direções materiais quanto conceituais. A figura do ciborgue presente em Haraway[54] abordou explicitamente a androginia adaptativa iniciada com a guerra contemporânea (ironicamente, para combater a tecnofobia feminista).

Além disso, como notam Alexander e Mohanty: “novos tipos de reconfigurações raciais e sexuais ocorrem nessa época de desmilitarização e política da Guerra Fria, quando a masculinidade branca já não pode configurar-se em torno de determinadas definições de soldado”[55]. Assim, a racialização das desigualdades de classe não só trouxe mais pessoas negras para a polícia e para as forças armadas, mas também os debates do início dos anos 2000 nos EUA sobre “gays” no serviço militar momentaneamente revelaram (antes de serem silenciados) que a heteromasculinidade no exército poderia ser articulada como questão.

Tais leituras em torno da necessidade de garantir ambiguidades de gênero e sexualidade, mobilizadas pelas novas tecnologias militares, são sustentadas pela imagética textual, em que a intimidade da cena (escuro, segredo = interior, noite?), também personaliza os relacionamentos. O foco suave e a forma sedutora da face jovem — mas definitivamente feminina — que usa os fones-de-ouvido oferece a única ligação (para nós / o piloto) através da oposição com o espaço vazio e escuro (que demarca o avião/painel), com contraste luz/escuridão também introduzindo temas de racialização. Para desenvolver a metáfora espacial um pouco mais, o não lugar[56] de trânsito e de missão na cabine é preenchido como se fosse um espaço de relacionamento e conexão crítica, enquanto — correlativamente — a relação “de fora” (de combatentes) se desvanece em insignificância[57].

Crucialmente, as relações generizadas e (heteros)sexuadas prevalentes tornam-se finalmente asseguradas apenas através da reiteração de uma narrativa nacionalista/paternalista[58]. Os únicos toques de cor conectam os lábios da mulher com o logotipo da BAE. O batom — especificamente, um batom vermelho-brilhante —significa claramente sexualidade, uma sexualidade feminina consciente (lasciva?) e racializada que confirma a liberdade e a emancipação das mulheres brancas[59]. Aqui o lugar íntimo da “casa” está em relação com um “fora”, com uma “outra” forma da vida contra a qual a guerra é (assim, justamente) travada. O discurso da emancipação das mulheres como um tema-chave imperialista de longa data é aqui mobilizado: as “nossas” mulheres são livres; as “deles” são oprimidas. O tropo do véu articula tanto o fascínio do orientalismo quanto a indignação e a incompreensão horrivelmente justas da islamofobia[60]. As mulheres na guerra estão no mesmo lugar que as mulheres na paz: no lugar delas. As imagens dos rostos descobertos e cabelos curtos das soldadas curdas lutando para recuperar o norte do Iraque, que figuraram brevemente na mídia ocidental durante 2003-04, perturbaram esse binário imaginário. Mulheres africanas, asiáticas e latino-americanas sempre desempenharam um papel de combate ativo, como feministas do Terceiro Mundo têm notado[61]. Mas ao passo que a participação das mulheres nas lutas de libertação nacional colapsou a oposição tradicional/moderno (e, de fato, público/privado), esta, no entanto, restabeleceu o foco na identidade nacional. Por outro lado, no Ocidente o imaginário da guerra em si tornou-se tão distanciado de uma cena de engajamento ativo[62] que se torna possível transformar uma invasão, uma ocupação ou uma devastação em uma atividade comercial relacionada ao consumo, tão familiar (nos dois sentidos) quanto uma operação de televendas[63].

Contextualizando o Texto

Um pouco de histórico de pesquisa oferece algumas outras informações relevantes para a avaliação do estado desse “produto”, no seu nicho, bem como sua recepção oficial.

Metonímia ou Avaliação da Condição de Sócio (como Pesquisa de Mercado).

Um artigo mercantil bastante assustador no site da revista National Defense, de novembro de 2002, discute o estado problemático do programa Eurofighter fornecendo novas perspectivas, tal como segue:

  1. Nagging Nora é um produto do programa Eurofighter, composto por um consórcio entre parceiros britânicos, alemães, italianos e espanhóis, dos quais o parceiro britânico é a BAE Systems, e cujo maior cliente é a Força Aérea Real (RAF) britânica.
  2. Esse programa foi objeto de dificuldades em razão dos altos custos que ameaçaram sua viabilidade financeira, precipitando o “enxugamento” de ordens, mesmo com o Ministério da Defesa retendo parte dos seus pagamentos com base nesses problemas.
  3. As vendas dependem de “incentivos econômicos, ou créditos, para os países que compram”. Como Erwin Obermeier, vice-presidente, teria dito à National Defense: “Tudo isso faz parte da negociação”. “O que realmente quer o país para o qual vendemos o Eurofighter?”. Além da velha ladainha de que a tecnologia militar cria empregos, o que pode ser novidade para aqueles de nós que estão menos em sintonia com a política militar nos dias de hoje é que os “créditos” vão muito além das explícitas formas militares de apoiar as instituições nacionais econômicas e intelectuais. Assim continua o artigo: “Os países ocidentais procuram normalmente encontrar um equilíbrio entre o alargamento da sua base tecnológica e dar para pequenas e médias empresas e universidades a oportunidade de expandir suas habilidades, ele explicou. Créditos associados com vendas de defesa nem sempre envolvem tecnologia aeroespacial”, observou Obermeier. “Pode ser automotiva, até mesmo florestal”.

(Notem como esse discurso de “crédito” precede a sua utilização em alterações climáticas e discussões de emissões de carbono, o que talvez ofereça uma perspectiva preocupante sobre as relações entre guerra e conservação do meio-ambiente). Além disso, duas outras características chaves emergem a partir desse artigo:

  1. Nagging Nora tem nacionalidade (e também, por implicação, uma classe social), tanto quanto gênero: “Ela tem um sotaque de inglês britânico bem forte, o que é muito bom”, e
  2. Nagging Nora tem uma contrapartida do sexo masculino (sem nome), que desempenha um papel mais mundano: “Há também uma voz masculina para coisas mais fáceis como aspectos não críticos de segurança do voo, mas a Nagging Nora entra em ação quando há algo realmente importante”.[64]

Em resumo: as vendas de defesa não são militares, mas estimulam o crescimento econômico em benefício de toda a sociedade civil. Consórcios internacionais sobrepõem, mas não são coincidentes com militarismo nacional, e operam dentro do discurso do mercado. Finalmente, Nagging Nora é o sistema de comando de voz reservada para funções “muito importantes”.

Intenção autoral, recepção do leitor e alguma produção histórica.

Além disso, em termos de questões de intenção autoral, recepção do leitor e detalhes da história da produção material[65], é relevante notar que a Advertising Standards Authority[66] (Reino Unido) recebeu sete denúncias sobre “Nagging Nora”, que em janeiro de 2003, denunciavam o seguinte:

Os queixosos alegaram que o anúncio foi ofensivo, porque implicava que o único papel das mulheres no campo era to nag [irritar], e que todos os pilotos eram homens.

Embora essa queixa fosse um pouco diferente de como seria a minha, o seu tratamento é instrutivo em revelar como os argumentos feministas são rebatidos. Pois foi lançado dentro de um quadro de igualdade de direitos que protesta por dizer que as habilidades das mulheres “no campo” são como as dos homens, em que o padrão de competência e profissionalismo é definido pelos homens e pelos termos desse trabalho de campo. É muito mais difícil contestar a forma e a função desse “campo” dentro dos discursos prevalentes do Direito (como bastião fundamental do individualismo liberal) — portanto, é fácil entender por que a denúncia foi colocada desta maneira. Na verdade, a denúncia reflete isso[67], bem como a maneira usual que os discursos de neutralidade de gênero tipicamente reinscrevem as relações dominantes de gênero — ao lado da velha piada sobre feministas sem humor:

Os anunciantes disseram que o anúncio foi baseado em um produto de reconhecimento de voz sofisticado que interage com os pilotos para fornecer aconselhamento e informação quando em situação de voo. Eles explicaram que uma voz de mulher foi selecionada para o produto porque em testes, por uma seção cruzada de pilotos, uma voz de mulher provou ser o mais eficaz para ganhar a atenção dos pilotos. Os anunciantes… sustentaram que tinham tomado o cuidado de não fazerem qualquer referência ao gênero do piloto. Os anunciantes apontaram que o anúncio não afirmou que todos os pilotos eram homens. Alegaram que o título poderia aplicar-se igualmente a pilotos do sexo feminino. Os anunciantes disseram acreditar que o anúncio não era sexista. Eles explicaram que o batom vermelho foi usado porque era cor corporativa dos anunciantes…
As Autoridades consideraram que o anúncio representou apenas uma referência leve à percepção dos usuários sobre o produto anunciado. As Autoridades concluíram que era improvável que o anúncio causasse ofensa grave ou generalizada.[68]

Não obstante, nessa decisão fica evidente que a ausência de especificação explícita de gênero não significa que isso não esteja implícito para o leitor. Pilotos de caça do sexo feminino podem, teoricamente, fornecer a sua própria companhia “feminina”, de tal forma que seria redundante especificar a ideia de “companhia” em relação a um gênero. Na verdade, o texto funciona exatamente da maneira oposta: a especificação de gênero da “Nagging Nora” como “companhia feminina” funciona mais para garantir o posicionamento masculino dos pilotos, constituído, por meio da inscrição nessa alcunha, como heteronormativamente lascivos e “na pista”.

No entanto, finalizar a análise nesse ponto seria encerrá-la de forma prematura, pois estaríamos caindo no equívoco de fundir representação e realidade, que é precisamente o que está sendo questionado aqui. A questão não é se as mulheres são “irritantes” ou não, nem — dentro de um discurso de neutralidade de gênero ou igualdade de gênero — se mulheres “irritam” outras mulheres, assim como os homens; mas o fato de que um sistema de comando de voz — na verdade, até mesmo menos do que essa designação implica, um produto de reconhecimento de voz[69], isto é, algo que não é uma mulher — foi atribuído com a qualidade de “irritante”. Tais identificações de gênero literais podem não apenas ser recusadas, mas, além disso, o seu caráter construído e fictício pode ser destacado. Esse jeito de “tomar” a “voz” das mulheres é uma invenção que pode ser exposta como tal, em vez de meramente contestar-se a forma de sua feminilidade.

Houve mais um truque aqui, pois (para além “das Autoridades” [Advertising Standards]) as partes mencionadas nesse julgamento são “os anunciantes” e “os produtores” — ambos descritores que se referem à agência de marketing que elaborou a campanha publicitária (Marten Gibbon Associates, com sede em Londres). A empresa e o produto em questão conseguiram, de alguma forma, escapar da avaliação, ou seja, a BAE, de modo que a denúncia teve de assumir uma formulação que pressupõe uma parte entre significante (Nagging Nora e Eurofighter) e significado (publicidade para isto) que as abordagens performativas (incluindo as discursivas) colocam em questão[70]. Como mais um giro nessa instabilidade de pontos de origem e de responsabilidade, quando entrei em contato com a Marten Gibbon Associates buscando a permissão para reproduzir esse texto, eles amigavelmente disseram que teriam de pedir permissão à BAE. Assim, apesar de os “anunciantes” terem sido constituídos como objetos da denúncia, os “produtores” (como os encarregados pelos anúncios?), no entanto, foram citados como os guardiões para sua exibição — uma jogada interessante que adia a responsabilidade através de permissões em outro lugar.

O termo “usuários” gera um deslize vital na discussão do julgamento de seu significado cotidiano (de consumidor ou usuário de serviço), pois os “usuários” aqui são pilotos de caça ou — já que nesse momento esse era um programa ainda em desenvolvimento — “pilotos de teste”. E não pessoas que escolhem, compradores exigentes, “independentes”. Eles eram funcionários da empresa, ou participantes situados dentro do mercado (ou seja, de dentro da máquina de guerra). Daí a falsidade da frase “em por uma seção cruzada de pilotos” (Julgamento ASA). O discurso do “usuário como consumidor” utilizado no âmbito do marketing é tão enganoso ou ambíguo aqui, com as reais agências envolvidas, quanto dentro das discussões contemporâneas do National Health Service [Serviço Nacional de Saúde] (para dar mais um exemplo particularmente significativo): somos nós o mercado para o produto, os usuários do produto, ou (como os cidadãos e os documentos fiscais) os proprietários do mesmo?

Da mesma forma, exceto nos estágios iniciais do “desenvolvimento do produto”, parece pouco provável que os pilotos teriam um papel moldando ou “escolhendo” a tecnologia que utilizam. Na verdade, embora digam que o nome “Nagging Nora” originou-se (“afetuosamente”) a partir de “homens e mulheres pilotos de caça”, essa convergência de — se não transposição do — posicionamento subjetivo é o que conecta os pilotos/espectadores (como público-alvo), cujo trabalho lubrifica desde as pequeninas engrenagens dentro da máquina do Estado-nação até seu projeto mais amplo. Assim, essas campanhas funcionam através da força de um discurso da democracia participativa, que se baseia no envolvimento pessoal nas características específicas da tecnologia (de defesa) pela qual pagamos (e que pagaríamos de qualquer forma).

De fato, nessa última guerra, talvez mais do que qualquer outra antes, a ficção tem mais verdade do que fatos “pré-fabricados em casa”[71]. No final de fevereiro de 2003, o jornal britânico de grande circulação, The Guardian, observou que os contribuintes britânicos pagaram para ajudar a armar o Iraque antes da última Guerra do Golfo com o montante de mais de 1 bilhão de libras porque Thatcher forneceu garantias do governo para as empresas de armamento[72]. Alguns meses mais tarde, relatórios do lançamento do programa Eurofighter (que curiosamente não faziam menção ao “Nagging Nora”) já estavam anunciando-o como obsoleto no que se refere a design e lógica, não sendo confiável, e como tendo custado mais do que custariam outros cinco Eurotúneis (“The Russians aren’t coming”, G2 Leader, 22/7/03).

Parece que nesse aconchegante mundo Ocidental heteroprofissionalizante de horas flexíveis de trabalho, o novo modo de propriedade pública é realmente o consumo (ao lado dos meios de “transparência”, “conversação” e “inclusão social” que substituem a prestação de contas) e fazer a guerra torna-se a regeneração do mercado. De fato, no Reino Unido sob o mantado de Tony Blair, e agora Gordon Brown, as investigações de negociações e funcionamento obscuros da BAE continuar a ser suprimida, indicando um envolvimento significativo do governo nos acordos.

Além do consumo da apropriação das vozes das mulheres?

Este capítulo fez um longo percurso desde a discussão das abordagens discursivas e suas relações com a teoria feminista e práticas psicológicas. No entanto, o foco na política psicológica da feminização forneceu a linha de continuidade política e metodológica. Através desse enfoque em um texto (“Nagging Nora”) reconhecidamente um tanto extremo (embora “ínfimo” em certos sentidos), espero ter demonstrado como as abordagens discursivas podem iluminar os problemas em atribuir a feminização como uma identificação, e, além disso, como e por que as reivindicações e afirmações a respeito da feminilidade, do gênero e das relações de gênero são sempre também muito mais do que isso (envolvendo relações nacionais e transnacionais).

O argumento bastante circular de que as mulheres estão tendo sucesso em profissões feminizadas, e que o seu sucesso individual corresponde à, ou decorre da, desvalorização de algum estatuto mais coletivo, não impede que os homens e as mulheres que estão em posições estruturalmente inferiores às poucas mulheres privilegiadas vejam estas como “femocratas”. Seria bizarramente determinista (e notoriamente inadequado) sugerir que as mulheres em posições de poder tenham chegado lá como resultado da — ou, até mesmo, de que a sua presença incita — feminização.

Portanto, a tarefa não é simplesmente definir e então recusar, mas também explorar como essas representações de gênero necessariamente envolvem outras análises (do patriarcado, do capitalismo, da heteronormatividade, da racialização etc.). Está claro que algumas mulheres ocupam posições de poder de maneira que reforçam, em vez de desafiarem, as relações de poder prevalecentes, mas novamente o foco no gênero pode ser menos relevante do que interesses de classe (por exemplo). É igualmente importante analisar como as mulheres exercem, e deveriam exercer, o poder.

Como Foucault, Butler[73] e outros indicam, o poder é tanto uma condição prévia quanto uma restrição para a subjetividade[74]. Amparada pela análise do discurso, uma política da psicologia que seja feminista e crítica recusa o tentador impulso de abstração e homogeneização da feminização como uma variante particular de psicologização. Esse repúdio não só enfatiza análises críticas específicas do papel da psicologia dentro da política contemporânea das feminizações espúrias, mas também desestabiliza o privilégio de posições profissionalizadas para produzir uma crítica antipsicológica que pode ser desenvolvida por todas/os.

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* Erica Burman é professora de educação no Manchester Institute of Education, School of Environment, Education and Development, University of Manchester no Reino Unido, Professora visitante no Centre for the Study of Migration and Society na University of Witwatersrand na África do Sul, Professora visitante no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo no Brasil, Professora visitante em Cibersomosaguas, Facultad de Ciencias Políticas y Sociología, Universidad Complutense de Madrid na Espanha; e professor adjunta no Institute of Social Work and Child Welfare em Oslo e Akershus University College na Noruega. Ela co-fundou o Discourse Unit <http://www.discourseunit.com>, uma rede transinstitucional e transdisciplinar de pesquisa sobre reprodução e transformação da linguagem e subjetividade. Erica trabalha com psicologia crítica e educacional, teorias feministas, estudos sobre infância, e modelos de saúde mental em relação à violência. Seus trabalhos interrogam as relações que articulam indivíduo, desenvolvimento nacional e internacional, especialmente através do tropo da criança.

** Diego Amaral Penha é psicanalista. Doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP), com bolsa CAPES. Mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com bolsa CNPq. Possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Membro do Grupo de pesquisa CNPq Sujeito, sociedade e política em psicanálise (USP), do Laboratório Psicanálise Política e Sociedade (PSOPOL- USP) e da Rede Interamericana de Pesquisa em Psicanálise e Política (REDPOL). Autor dos livros: “Psicanálise e Cinema: Filmes Curam?” (2018) e “Teorias de Freud: Descobrindo o Inconsciente” (2013). Organizador do livro “Ensaios Sobre Mortos-Vivos: The Walking Dead e Outras Metáforas” (2018). Editor da revista digital Lacuna: uma revista de psicanálise (lacunarevista.com). Colunista de cinema e quadrinhos para o site Mob Ground (mobground.net). Atualmente pesquisa as relações entre Psicanálise, Política, Arte e Horror.

*** Paula Thaís Antunes Pereira é psicanalista. Mestre em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP), desenvolvendo seus estudos dentro do Laboratório Psicanálise Política e Sociedade (PSOPOL- USP) e como participante do Grupo Veredas – Migração e Cultura. Possui graduação em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). Atualmente, participante e analista praticante do Instituto Vox de Pesquisa em Psicanálise.



[1] Agradecemos a Profa. Dra. Ilana Mountian pela indicação e revisão deste artigo para tradução e publicação, bem como pelo agenciamento dela com a autora. Este artigo é uma versão atualizada de um trabalho, de mesmo título, apresentado anteriormente como conferência na Psychology of Women Section Conference da Psychological Society em 2003, subsequentemente publicado na Psychology of Women Section Review, 2004, vol. 6, n. 1; pp. 3-21. (N. dos T.).

[2] E isso de inúmeras maneiras. Cf. SHEPHERD, Laura. Gender, violence and security, 2008.

[3] Butler (1997) discute e desenvolve uma análise da noção de “tropos” destacando o seu estatuto de ponto de virada paradoxal, que repete, mas também institui, as condições para transformação, o que reflete precisamente o argumento dela sobre relações entre poder, subjetividade e agenciamento (cf. especialmente a sua “Introdução”, bem como a nota 1, pp. 201-2).

[4] cf. THOBANI, Sunera. ‘White wars: western feminisms and the “War on Terror”’, 2007; BHATTACHARYYA, Gargi. Dangerous Brown Men, 2008.

[5] BONDI, Liz. ‘Locating identity politics’, 1993; HARAWAY, Donna. ‘Situated knowledges: the science question in feminism and the privilege of partial perspective’, 1988.

[6] BONDI, Liz; BURMAN, Erica. ‘Women and mental health: a feminist review’, 2001; BURMAN, Erica. ‘Challenging Women’, 1995; BURMAN, Erica. ‘Deconstructing feminist psychology’, 1998; BURMAN, Erica. ‘Engendering authority in the group’, 2001; BURMAN, Erica. ‘Gender, sexuality and power in groups’, 2002.

[7] HARAWAY, Donna. ‘A manifesto for cyborgs: science, technology and socialist feminism in the 1980s’, 1985.

[8] HAAKEN, Jan; REAVEY, Paula. (Eds) Memory Matters, 2009.

[9] FROSH, Stephen; BARAITSER, Lisa. ‘Psychoanalysis and psychosocial studies’, 2009.

[10] INGLEBY, David. ‘Professionals as socialisers: the “psy complex”’, 1985; ROSE, Nikolas. The Psychological Complex, 1985.

[11] ALLDRED, Pam; BURMAN, Erica. ‘Hearing and interpreting children’s voices: discourse analytic contributions’, 2005; YOUNGBLOOD JACKSON, Alicia; MAZZEI, Lisa. (Eds) Voice in qualitative inquiry: challenging conventional, interpretive, and critical conceptions, 2008.

[12] KITZINGER, Celia; WILKINSON, Sue. ‘Theorising representing the other’, 1996.

[13] Assim como mencionado (Burman, 1998), no workshop de “Discurso e Gênero” de 1990, ocorrido na UCL, Londres, a equiparação entre feminismo e investigação discursiva foi um tópico explícito da discussão.

[14] por exemplo, ANDREWS, Molly; SCLATER, Shelley Day; SQUIRE, Corinne; e TREACHER, Amal. Lines of Narrative, 2000.

[15] por exemplo, NIGHTINGALE, David J.; CROMBIE, John. (eds) Social Constructionist Psychology, 1998.

[16] GILL, Rosalind. ‘Relativism, reflexivity and politics: interrogating discourse analysis form a feminist perspective’, 1995.

[17] por exemplo, WILKINSON, Sue; KITZINGER, Celia. (Eds) Feminism and Discourse, 1995.

[18] cf. BURMAN, Erica. ‘What discourse is not’, 1991.

[19] cf. BURMAN, Erica. ‘Feminism and discourse in developmental psychology: power, subjectivity and interpretation’, 1992.

[20] ver por exemplo, CORNWALL, Andrea; HARRISON, Elizabeth; e WHITEHEAD, Ann. (Eds.) Feminisms in Development: contradictions, contestations and challenges, 2007.

[21] BUTLER, Judith. The Psychic Life of Power: theories in subjection, 1997; PARKER, Ian. Revolution in psychology: alienation to emancipation, 2007; SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Outside in the teaching machine, 1993.

[22] Curiosamente, apesar da sua grande circulação, fui incapaz de encontrar entradas recentes de “feminização” em dicionários feministas, enciclopédias ou antologias — exceto em termos de discussões sobre a feminização da pobreza (ver, por exemplo, CODE, Lorraine. (ed.) Encyclopaedia of Feminist Theory, 2000).

[23] PARKER, Ian. Critical Discursive Psychology, 2002.

[24] Por exemplo, implica articulações através de uma gama de organizações psicológicas nacionais em que a preponderância das mulheres nos escalões inferiores da disciplina desvaloriza seu status (até recentemente).

[25] Trata-se da tradução da expressão “actually female gendered bodies” (N. dos T.).

[26] BURMAN, Erica. ‘Beyond emotional literacy in feminist and educational research’, 2009; BURMAN, Erica. ‘Emotions, reflexivity and feminised action research’, 2006.

[27] Em um nível mais material, Cameron e Gibson-Graham (2003) têm oferecido algumas reflexões úteis sobre as retóricas da feminização dentro dos discursos da economia.

[28] ver, por exemplo, WALKERDINE, Valerie; LUCEY, Hellen; MELODY, June. Growing up Girl, 2002.

[29] DILLABOUGH, Jo-Anne. ‘Gender theory and research in education: modernist traditions and emerging contemporary themes’, 2001.

[30] cf. HAAKEN, Jan. Pillar of Salt, 1998; REAVEY, Paula; WARNER, Sam. (eds) New Feminist Stories of Child Sexual Abuse: Sexual Scripts and Dangerous Dialogues, 2003.

[31] Butler nivela uma carga similar de argumentos que desenvolvo aqui contra a política de identidade, explicitando suas ligações com estruturas estatais: “o que chamamos de política de identidade é produzido por um Estado que só pode alocar reconhecimento e direitos a indivíduos totalizados pela particularidade que constitui o seu estatuto demandante”. (BUTLER, Judith. The Psychic Life of Power: theories in subjection, 1997, p100).

[32] RADSTONE, Susannah. ‘Victim culture as a consequence of unmet emotional needs’, 2002.

[33] TREACHER, Amal. ‘War on Terror: anxiety and domination’, 2002.

[34] AHMED, Sara. The Cultural Politics of Emotion, 2004.

[35] Os “credits crunchs” são geralmente considerados uma extensão das recessões. Eles tornam quase impossível para as empresas fazerem empréstimos, porque os credores têm medo de falências ou omissões, o que resulta em taxas mais elevadas. (N. dos T.)

[36] ALEXANDER, M. Jacqui; MOHANTY, Chandra Talpade. ‘Introduction: Geneologies, Legacies, Movements’, 1997.

[37] Em conversa telefônica com os anunciantes, a Marten Gibbon Associates (MGA) indicou que essa foi a segunda vez que essa série de anúncios tinha sido publicada; a primeira havia sido em setembro/outubro de 2002, e a segunda durou de dezembro a janeiro de 2003. A campanha foi encomendada na primavera de 2002 (Comunicação pessoal, 5/8/2003).

[38] Reproduzo este texto com a permissão da BAE Systems, garantidos através de Doug Ayers da Marten Gibbon Associates (agência de publicidade responsável pela campanha específica). Sou muito grata a Doug Ayers por sua ajuda neste processo.

[39] O termo “nagging” é uma gíria originária da língua norte-americana que pode ser traduzida pela ideia de “irritante” ou “inconveniente”. A tradução direta de “Nagging Nora” seria “Nora Irritante”, mas para não perdermos o sentido da derivação do código aeronáutico “NAG”, optamos por manter o termo original. (N. dos T.)

[40] Cada um custa em torno de 45-50 milhões de dólares. Cf. National Defense.

[41] Isso é diferente (pelo menos no apelo) da mulher, dona de um enorme par de seios, do anúncio da Easijet, em circulação pela Grã-Bretanha durante junho e julho de 2003, acompanhada do slogan “Armas de distração em massa”.

[42] Ao discutir esse texto em diferentes contextos nacionais, descobri também que “nagging” é um termo inglês particularmente complicado de traduzir adequadamente — não parece haver nenhum equivalente no espanhol ou no grego. Isso diz sobre a clareza das configurações especificamente britânicas de relações de gênero como uma questão que merece uma análise mais aprofundada.

[43] Aparentemente existe uma versão norte-americana conhecida como “Bitching Betty”.

[44] A banda de rock progressivo dos anos 1980, Queen, antecipou meus argumentos aqui em Flash Gordon, retratando o heroico projeto melodramático constituído e confirmado pela heteronormatividade, como em “Flash, Flash I love you! But we only have fourteen hours to save the Earth” [Flash, Flash, eu te amo! Mas só temos quatorze horas para salvar a Terra] — e é interessante também o fato de ser interpelado pela voz da “mulher”.

[45] Reparem nas referências sobre a “afetuosidade” na adjudicação da ASA que é discutida mais tarde.

[46] Ver mais a frente sobre o discurso de compensação.

[47] Ver a seguir.

[48] Talvez esteja em jogo aqui algumas sombras do discurso do “sexo seguro” — acompanhando a interpretação sexual grosseira da conversa alvo/míssil como ereção/ejaculação. Assim como na equação óbvia entre “companhia feminina” e prostituição no contexto da guerra, que vem de uma longa história sobre tentar proteger os soldados “da casa” de doenças venéreas (atualmente, do HIV), que posiciona a mulher “estrangeira” como portadora de doenças, e não os soldados — ver, por exemplo, WARE, Vron. Beyond the Pale, 1993.

[49] Curiosamente, a discussão sobre a comunicação na conferência POWS, em que este artigo foi apresentado pela primeira vez, que focalizou e estendeu consideravelmente o meu apreço por esse tema, também reiterou, sem querer, o foco principal do meu argumento aqui — a respeito de como o imaginário da feminização (com associadas relações generizadas e presumidamente heterossexuais) funciona como uma distração para outras importantes relações político-materiais em jogo.

[50] A análise weberiana sobre as secretárias da Pringle’s aplica-se aqui.

[51] ENLOE, Cynthia. Does Khaki Become You? The Militarisation of Women’s Lives, 1988; ENLOE, Cynthia. From where we stand: war, women’s activism and feminist analysis, 2007.

[52] Não é de se subestimar o papel atual da British Telecom (BT) na estratégica de defesa militar — cf., por exemplo, o video da BT em “The Secret Bunker” [O bunker secreto]: as comunicações secretas e o centro administrativo, agora abertos ao público, que foi preparado ao longo da “guerra fria” para a guerra nuclear em Hack Green, Cheshire, no norte da Inglaterra.

[53] Assim com nos filmes: Assassinos Cibernéticos (Screamers), Guerra nas Estrelas (Star Wars), Jornada nas Estrelas (Star Trek), O Guia do Mochileiro das Galáxias (Hitchhiker’s Guide to the Galaxy) e Blade Runner (Versão do diretor).

[54] HARAWAY, Donna. ‘A manifesto for cyborgs: science, technology and socialist feminism in the 1980s’, 1985.

[55] ALEXANDER, M. Jacqui; MOHANTY, Chandra Talpade. ‘Introduction: Geneologies, Legacies, Movements’, 1997, p. xxvi.

[56] AUGÉ, Marc. Non-places: introduction to an anthropology of supermodernity, 1995.

[57] Afiliações com as subjetividades dos espectadores que supostamente servem à efetividade do anúncio poderiam ser desenvolvidas aqui.

[58] Desenvolvendo ainda mais os argumentos de Butler (e colapsando o seja-lá-o-que-for social-individual!), podemos até ver a guerra encoberta sendo retratada como uma porta de saída para a agressão produzida através do encerramento melancólico do desejo homossexual: “a irresolução da melancolia é precisamente o encaminhamento da agressão contra o ego, em direção ao outro, que é proibida de ser diretamente expressa”. (BUTLER, Judith. The Psychic Life of Power: theories in subjection, 1997, p. 161).

[59] Uma associação ainda mais subterrânea que pude recuperar é um livreto da Kotex [marca de absorventes] que, ao introduzir a menstruação e a “higiene feminina” (uso de lenços higiênicos), inclui o rosto sombrio de mulheres com batom vermelho contra um fundo escuro — se não me falha a memória. Tudo isso, nesse contexto, dá mais um giro no ditado feminista dos anos 1970: “a guerra é a inveja da menstruação”.

[60] DONNELL, Alison. ‘Visibility, violence and voice? Attitudes to veiling post-11 September’, 2003.

[61] LAZREG, Marnia. ‘Decolonizing feminism’, 2001.

[62] Baudrillard comenta que a guerra do Golfo não aconteceu… (BAUDRILLARD, Jean. The Gulf War Did Not Take Place, 1995)

[63] Não se deve romantizar a cultura e as relações de “call center”. Na verdade, o próprio fato de a “terceirização” atual de tantas operadoras de televendas vir acompanhado por um treinamento cultural intensivo para permitir que os trabalhadores, cada vez menos remunerados fora dos países euro- americanos, temperem as suas conversas com referências a programas meteorológicos e de TV dos EUA (e, assim, supostamente, tornem-se culturalmente proficientes) reitera muito precisamente o meu argumento sobre a fabricação do espaço do “lar”.

[64]Eurofighter Battling for Foreign Sales”, novembro de 2002, <www.nationaldefensemagazine.org/article.cfm?Id=953>.

[65] A chave metodológica organiza essa análise cultural, tal como apontou Barker (1993).

[66] Agência reguladora de publicidade. (N. dos T.)

[67] Que provavelmente é o motivo de BAE e Marten Gibbon terem ficado ansiosas para que eu lesse isso; na verdade, chegaram até a me enviar por fax uma cópia (que eu já tinha visto, de todo modo).

[68] Disponível em: <www.asa.org.uk/adjudications/show_adjudication.asp?adjudication_id=35167&dat> (grifo meu).

[69] cf. Descrição feita pelos anunciantes à adjudicação da ASA.

[70] Curiosamente, a cobertura local desta história (publicada pela primeira vez em 9/1/2003) em Lancashire, onde a BAE desenvolve esse sistema) não conservou essa distinção: “Nagging/irritantes dúvidas dissipadas. Os líderes da AEROSPACE foram acusados de discriminação sexual por causa de um anúncio que descreve os seus pilotos de caça como sendo nagged/atormentados por uma mulher […] Os líderes da BAE estão contentes, já que Nora está livre das acusações… A empresa explicou […] que a BAE está convencida de que o anúncio não era sexista e explicou que o batom vermelho havia sido escolhido por representar as cores da empresa” (<www.thisislancashire.co.uk/Lancashire/archive/2003/01/09/LETBUS10ZM.html>)

[71] Originalmente, este texto foi elaborado antes das revelações (9/5/2003) de que Donald Rumsfeld fora diretor-executivo da empresa que vendeu a capacidade nuclear para a Coreia do Norte em 2000.

[72] Racal, Thorn-EMI e Marconi secretamente forneceram ao Exército do presidente Saddam Hussein equipamentos para controle de artilharia, radares anti-motor e sistemas de rádio seguros, muitos dos quais se acredita ainda existirem. As empresas agora são subsidiárias das gigantes de defesa BAE e Thales. (“UK taxpayers forced to pay millions for Iraq arms”, David Leigh and Rob Evans, Guardian 28/02/03)

[73] BUTLER, Judith. The Psychic Life of Power: theories in subjection, 1997.

[74] De fato, Butler enquadra alguns de seus argumentos na análise de Foucault a respeito das conexões entre a individualização e o Estado: “Talvez o objetivo não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Nós temos que imaginar e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos desta “faca de dois gumes” política, que é a individualização e a totalização simultânea de estrutura de poder modernas” (BUTLER, Judith. The Psychic Life of Power: theories in subjection, 1997, p. 101).




COMO CITAR ESTE ARTIGO | BURMAN, Erica (2020) Tomando as vozes das mulheres: a política psicológica da feminização [Trad. D. A. Penha & P. T. A. Pereira]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -9, p. 9, 2020. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2021/07/01/n-9-09/>.