A autoconservação e a pulsão de morte

[ Self-preservation and the death instinct ]

por Ernst Simmel

Tradução | Gabriel K. Saito

Reimpresso e traduzido da The Psychoanalytic Quarterly, vol. XIII, n. 2, abril de 1944. Escrito antes para a San Francisco Psychoanalytic Society, 17 de Abril, 1943. [1]

Há certa inquietação hoje entre os psicanalistas quanto aos fundamentos da teoria psicanalítica: as teorias da libido e da pulsão. Esta inquietude se originou quando Freud em Além do princípio do prazer desenvolveu uma teoria dualística da pulsão, na qual supôs que a vida em suas manifestações normais e atípicas era controlada por dinâmicas antagonistas: uma pulsão de vida construtiva, libidinal e outra pulsão de morte destrutiva, não libidinal. Deve-se lembrar que a teoria fundamental da pulsão de Freud desenvolveu-se sobre a base dos estudos clínicos das neuroses de transferência, que por sua vez também era dualística. Ela antevia o conflito entre o eu e as pulsões sexuais ou, como Freud formulou em seu tempo, um conflito entre as pulsões do eu e as pulsões sexuais.

Em suas Conferências introdutórias[2] Freud diz: “a Psicanálise jamais se esqueceu das pulsões não-sexuais, tampouco de sua existência; ela se tem construído sobre uma estrita distinção entre as pulsões sexuais e as pulsões do eu; e frente a toda oposição tem insistido não que elas surgem da sexualidade, mas que as neuroses devem suas origens ao conflito entre o eu e a sexualidade”.

As pulsões do eu eram pulsões de autoconservação. Certa vez Freud formulou o princípio da autoconservação inerente às pulsões do eu de maneira muito simples, quando ele disse “em todos os seus conflitos, o eu pode ter nenhum outro objetivo senão aquele de conservar a si mesmo”.

A teoria da pulsão com a qual Freud iniciou a sua pesquisa analítica teve assim um pensamento em comum com a teoria concluída por ele: o princípio do dualismo reflete a dinâmica entre duas energias pulsionais opostas.

Portanto, a formulação da primeira concepção foi autoconservação versus sexo, ou como Freud expressava em termos biológicos: “pelo seu aspecto de organismo individualizado e independente, o eu entrou em oposição a si mesmo, devido a sua outra característica de ser um membro de uma série de gerações”.[3]

Freud aprofundou-se no caminho da pesquisa psicanalítica até que, partindo de uma teoria dualística relativa ao conflito com o eu, ele finalmente chegou à concepção de um conflito pulsional dentro do eu: a luta de uma parte do eu cujo desejo de se manter vivo se contrapõe a parte cujo desejo é destruir a si mesmo. Ao longo desse percurso, ele repetidamente estabeleceu como necessário reexaminar seus conceitos básicos da libido e das pulsões e modificá-los ou, respectivamente, ampliá-los.

Este artigo é uma tentativa de avançar outra teoria relativa à teoria das pulsões, a qual se diferencia em certo grau da visão de Freud.[4] Sustenta-se que a visão de Freud sobre o conflito fundamental que vincula e rompe a vida extraindividual é também responsável por todos os transtornos intraindividuais. É o eterno conflito entre os princípios construtivos e destrutivos: o conflito ambivalente entre amor e ódio. Porém, desviamos de Freud ao passo que discutimos sobre a essência da libido, e sua função no conflito entre os dois supracitados princípios.

Antecipo-me: devo dizer que não considero as energias destrutivas manifestações de uma pulsão de morte, senão manifestações de pulsões de autoconservação. De acordo com o último conceito de libido de Freud, a necessidade da autoconservação deve ser considerada uma componente libidinal do eu. Se assim for aceito, então, desde o começo há uma aparente contradição na atribuição das tendências destrutivas à pulsão de autoconservação do eu. Dizer que somos agressivos e destrutivos quando confrontados na necessidade de nos defender de ameaças que podem extinguir nosso eu, pode soar como algo sensato ainda que banal. No entanto, sustentar que nós derivamos energias pulsionais destrutivas para tais emergências do reservatório da libido parece se tratar de um patente contrassenso teórico libidinal. E isso porque, de acordo com os últimos conceitos de Freud, a libido é precisamente a energia pulsional que vincularia as substâncias, não visando suas perturbações ou suas destruições.

Antes que alguém possa aceitar a asserção de que não há uma real contradição entre estes dois postulados, é preciso brevemente revisar o desenvolvimento das teorias da libido e da pulsão de Freud. O próprio Freud finalmente ampliou o conceito de libido para tal extensão que não temos dificuldades práticas ou teóricas em incluir energias destrutivas dentro da natureza libidinal da pulsão de autoconservação.

Vamos recapitular a formulação de Freud de pulsão e libido:

“Uma ‘pulsão’ se apresenta para nós como um conceito-limite entre o psíquico e o somático […]”.[5] “Uma pulsão pode ser descrita como tendo uma fonte, um objeto e uma meta. A fonte é um estado de excitação dentro do corpo e a sua meta é a remoção dessa excitação; neste percurso desde a fonte até a obtenção da meta, a pulsão se torna psiquicamente atuante.[6]

Ademais, Freud caracteriza a pulsão sexual como uma pulsão cuja meta específica é prover um prazer orgânico para determinadas zonas erógenas do corpo. As principais zonas erógenas da infância são a boca, o ânus e os genitais. A experiência das sensações aprazíveis nestas zonas, lograda no contato com o objeto, estabelece as relações de objeto da criança, apesar do caráter sexual destas zonas ser reconhecido como tal apenas mais tarde, quando as zonas erógenas forem organizadas sob a primazia da zona genital, dispostas a serviço da função da reprodução.[7]

Agora vamos retornar ao conceito original de libido. “Libido é o investimento de energia dirigido pelo eu em direção ao objeto de seu desejo sexual”[8]. Freud distinguiu três fases do desenvolvimento da libido: a oral, a anal e a fálica, a qual precede a organização genital da libido. Ele abandonou sua ideia original de que as zonas erógenas pré-genitais vão “predando separadamente” em busca do prazer do órgão. Ele descobriu que no estágio pré-genital já existia uma organização dos componentes de moções sexuais, a qual determina a escolha do objeto da criança; e que essa organização pré-genital da libido tem características destrutivas. Esta é a organização anal-sádica da libido.

Por outro lado, Freud empregou frequentemente o termo “estágio oral do desenvolvimento da libido” como sinônimo do “estágio canibalístico da libido”. Uma vez que o canibalismo possui um indubitável caráter destrutivo, nós vemos que destruição e libido não são opostos irreconciliáveis nas teorias originais de Freud. Mais tarde, ele assumiu que estas duas categorias de energia comumente aparecem de forma simultânea, e que todo estágio de desenvolvimento da pulsão sexual corresponde a um estágio específico do desenvolvimento da pulsão destrutiva.

Freud sempre destacou o ponto que no início da vida, as pulsões sexuais infantis “veiculam-se apoiadas pelas pulsões de autoconservação”[9]. É evidente que Freud considerou o estágio oral da libido, a tendência para a destruição canibalística e as manifestações das pulsões de autoconservação como idênticas ou, ao menos, coordenadas. Estes três termos estão postos lado a lado, como preparativo para uma nova teoria; para demonstrar que, na descoberta de um novo campo, nada mais foi feito além de atravessar a porta a qual Freud abriu sem tê-la cruzado.

Freud frequentemente enfatizou que as duas principais forças reinantes sobre o mundo são a fome e amor. Porém, enquanto se concentrou sobre o estudo da psicodinâmica das neuroses de transferência, não esperava que a comparação entre estas duas forças biológicas iria ajudá-lo de alguma forma. Ele nos disse que a investigação psicanalítica acerca das pulsões de autoconservação teria de esperar até que nós tivéssemos reunido mais conhecimento sobre o próprio eu, ou no tocante ao que acontece dentro do eu, quando, em obediência à realidade, ele tem que recolher suas demandas libidinosas e sexuais. Freud não nos deixou esperando por muito tempo. Ele estendeu sua pesquisa às derivações do eu nas neuroses narcísicas e psicoses, fornecendo-nos uma profunda compreensão do fato de que o eu “em todos os seus conflitos, não pode ter outra tendência além que manter a si mesmo”. Isto nada mais significa que o eu deve lutar para manter seu equilíbrio libido narcísico interior.

Seguindo a observação de que, nas psicoses, a libido retirada do objeto-mundo retorna ao eu e toma o próprio eu como um substituto do objeto, Freud se encontrou frente à necessidade de ampliar seu conceito original da libido. Esta poderia ainda ser definida como um “investimento de energia direcionado pelo eu a um objeto de seu desejo sexual”; mas o fato de que o eu poderia se tornar regressivamente seu próprio objeto provou que o reservatório da libido estava contido dentro do próprio eu, como uma energia psicobiológica, originalmente a libido era desprovida de objeto e poderia ser enviada ou retirada pelo eu, de acordo com suas necessidades. Esta (re)transformação de uma libido objetal em libido narcísica e o subsequente represamento da libido do eu foram então consideradas a causa dinâmica da deteriorização do eu, como são vistas na hipocondria e nas psicoses parafrênicas.

O pré-requisito qualitativo prévio para a libido sexual, a provisão do prazer orgânico, perdeu a sua significância e cedeu lugar ao ponto de vista da distribuição quantitativa da libido narcísica no interior do eu. O conceito original sobre a propensão ao princípio prazer-dor – de proporcionar prazer e evitar a dor — foi ampliado para o conceito de um princípio cuja tendência está em manter a tensão libidinal dentro do eu a certo nível além do qual a dor ou o desprazer [Unlust] são experimentados.

A angústia é um fenômeno específico dessas perturbações quantitativas do equilíbrio da libido narcísica. Ela funciona como um alerta para o eu, ora fazendo-lhe deslocar descargas pulsionais autônomas adequadas e descargas motoras externas, ora, em vez disso, ativando mecanismos necessários de defesa psíquicos.

A percepção da angústia constitui a situação de perigo para o eu. Em termos da teoria da pulsão, nós podemos dizer que o eu percebe a si mesmo em perigo, quando se encontra exposto e desamparado frente às energias mobilizadas pelas necessidades pulsionais necessárias ao id. O medo da aniquilação ou da morte resulta da percepção concomitante de que: ou há um objeto mais forte que o eu — o objeto hostil que se opõe ao relaxamento da tensão — ou de que não há um objeto amigável e acessível para conduzir à liberação da tensão, que veio a se tornar insuportável.

A formulação de Freud: “o eu, em todos os seus conflitos, não pode ter outra tendência do que se manter a si mesmo” pode ser interpretada, portanto, nos termos do princípio de prazer-dor. A angústia é o sinal para o eu que está prestes a sucumbir à frustração de uma necessidade pulsional vital. Angústia é uma manifestação da dirupção do equilíbrio do eu narcísico. O objetivo do eu de “manter-se a si mesmo” expressa então sua necessidade de preservar ou restaurar a normalidade do seu equilíbrio narcísico interno.

O critério de um eu normal é de que ele não é consciente sobre si mesmo enquanto funciona como agente de controle, de passagem ou como barragem de contenção das energias pulsionais do id. Esta inconsciência de si é uma expressão de seu perfeito balanço libidinal interno. Por outro lado, o eu normal permanece ciente do mundo objetal externo, porque as forças condutoras de suas fontes pulsionais o tornam dependente desse.

A maturidade do eu normal pode ser descrita com base no desempenho efetivo de seu supereu. O supereu é uma formação de compromisso. A realidade objetiva externa e a realidade psíquica pulsional interna pactuaram em estabelecer um representante comum interno do eu, pela proposta de uma arbitragem nos conflitos entre as demandas da realidade e as demandas das pulsões. O supereu auxilia o eu a avaliar a intensidade libidinal das necessidades pulsionais e as possibilidades de satisfação mediante os objetos. A efetividade do supereu determina a capacidade de um eu maduro em perceber uma situação de tensão, como um perigo e reagir a ele com o medo da morte. (O medo da morte é uma antecipação a uma final e irreparável dirupção do equilíbrio da libido narcísica.) Se a avaliação revela uma condição permanente e absoluta de desamparo, pois o objeto — “a coisa pela qual a pulsão atinge o seu objetivo” — está e permanecerá fora de alcance, então, ainda resta a possibilidade de evitar o medo da morte, por meio de uma nova distribuição da libido narcísica entre o eu e o seu próprio supereu. O supereu é capaz de tomar o lugar do objeto e se vincular a libido objetal frustrada, depois da transformação desta em libido narcísica[10]. Um supereu eficaz pode prover ao eu uma segurança pulsional temporária, como protótipo paterno, e então agir de forma preventiva contra o medo da morte. Parece ser este o significado da observação de Freud feita certa vez, na qual “o medo da morte diz respeito a uma interação entre o eu e o supereu”[11]. Assim, um homem maduro se torna capaz de morrer sem medo em virtude de um supereu em bom funcionamento[12].

Ulteriormente, a autoconservação é uma tentativa de preservar a coerência da unidade estrutural do eu, por meio de uma distribuição adequada da libido narcísica. A autoconservação indica a tendência do eu de se manter livre da angústia.

O ensino original de Freud foi que o conjunto que abrange os transtornos psiconeuróticos e psicóticos surge da luta do eu para se livrar da angústia. Os transtornos psiconeuróticos resultam da necessidade de mobilizar os mecanismos de defesa, porque a angústia, como uma expressão da tensão das necessidades pulsionais, carece de descargas somáticas adequadas. Preso em conflitos entre objetos-frustrantes e reivindicações libidinais, o eu está em risco de perder seu balanço econômico interno e, portanto, sua coerência estrutural.

Em retrospecto, nós podemos dizer que o conceito original dualístico de Freud sobre a autoconservação do eu versus as reivindicações pulsionais do id, fundamentalmente conservou a sua validez. Desde sua formulação nós chegamos a compreender a preservação do eu [self] como uma manifestação do princípio de prazer-dor. Então, foi lógico para Freud aceitar a natureza libidinal da “pulsão de autoconservação”.

Como caberia a suposição tardia de Freud sobre a agressividade destrutiva não-libidinal da pulsão de morte neste esquema? Como pode a tese da pulsão destrutiva se encaixar na teoria das neuroses e psicoses?

O conflito ambivalente do amor e ódio que subjaz todos os transtornos psíquicos surge em uma nova luz, quando admite as energias da pulsão dotadas apenas de qualidades destrutivas. Como nós podemos aplicar a teoria da pulsão de morte não-libidinal para as teorias geralmente aceitas da neurose e psicose? Esta suposição não implicaria uma revisão da metapsicologia dos transtornos psíquicos? O próprio Freud não empreendeu a tarefa de revisar a teoria das neuroses sob a sua nova perspectiva dualística. E, aparentemente, as tentativas feitas por outros psicanalistas nesta direção não produziram resultados satisfatórios.

É aqui que a suposição de uma pulsão de autoconservação com energias destrutivas de objeto preencheria a lacuna em nossa compreensão do papel do ódio e da destruição na gênese da psiconeurose.

Podemos nos perguntar se a necessidade de autoconservação não é, por si mesma, suficientemente inteligível como uma manifestação da libido em seu sentido mais amplo. Seria necessário estabelecer uma pulsão isolada para os fins da autoconservação, a qual teria uma tarefa psicobiológica de fornecer gratificações específicas, que simultaneamente auxiliam em manter a integridade do eu?

Freud obviamente achou essa hipótese desnecessária. Ele considerou a luta pela autoconservação explicável nas bases de energias libidinais da pulsão sexual, que agora se tornou Eros. As complicações encontradas nesta luta, Freud as ponderou devido ao funcionamento antagonístico de uma pulsão isolada para a autodestruição.

Freud descreveu uma pulsão de autodestruição, porque a autodestruição obedece à tendência última de todas as pulsões: remover excitações orgânicas e restabelecer a condição primeva do repouso da pulsão. A completa autodestruição remove a excitação de todas as fontes orgânicas, e reintegra a condição inorgânica da substância que é a morte.

Muitos psicanalistas se mostram bem dispostos a aceitar a suposição de Freud da autodestruição como um princípio fundamental da natureza. No entanto, eles têm hesitado em aceitar esta definição do princípio como uma pulsão, porque a pulsão de morte apresenta apenas uma das três características da pulsão, a saber, a meta de eliminar a excitação. Mas não há nem uma fonte orgânica específica, nem um objeto que poderia ser considerado característico de uma pulsão de morte.

Na realidade, a pulsão específica de autoconservação cumpre todos os requisitos da definição prévia e completa de Freud sobre uma pulsão. Examinemos a pulsão de autoconservação seguindo o método utilizado por Freud para estudar a pulsão sexual. Todas as manifestações da vida amorosa foram reduzidas para uma pulsão sexual fundamental. A pulsão de autoconservação tem abundância de manifestações, variedades e derivações, e em todas também se pode remeter às demandas de uma zona orgânica única. Ademais, a pulsão de autoconservação tem uma significação particular para o estabelecimento de um perfeito equilíbrio da libido narcísica, resultante em um repouso completo da pulsão.

Qual é a origem do princípio de autoconservação? Quais são suas três características: fonte orgânica, meta e objeto?

A origem é a pulsão de devorar. Sua fonte orgânica é o trato gastrointestinal[13]. Sua meta é remover o estímulo oriundo do trato gastrointestinal e seu objeto é o alimento. A finalidade ulterior, representada apenas em nosso inconsciente mais profundo como um tipo de conhecimento pulsional inconsciente, é a meta de autoconservação e autodesenvolvimento. Isto pode ser contrastado com a meta final da pulsão sexual, que é a reprodução. No último conceito de libido, Freud abandonou sua ideia original da não existência de uma meta final da pulsão sexual. Quando ele definiu libido como “a energia manifesta da pulsão de Eros, que luta pela “síntese de substância vivas em entidades de maior tamanho”, ele certamente incluiu a reprodução.

Se nós aceitarmos a definição de Freud da libido como uma energia direcionada à “síntese de substâncias vivas”, teremos uma surpresa de ajustarmos a energia destrutiva da pulsão de autoconservação, como definida acima, dentro da categoria de energia libidinal. A pulsão de autoconservação intenta, como a pulsão sexual, uma “síntese da substância viva”. A pulsão de autoconservação procura alcançar sua meta dentro do indivíduo, enquanto a pulsão sexual se estende além da fronteira do individual. A gratificação da pulsão sexual elimina a excitação das fontes orgânicas e preserva o objeto, por sua vez a gratificação da pulsão de autoconservação remove a excitação gastrointestinal e destrói o objeto.

A definição abrangente de Freud sobre a libido permite reconhecer a minha tese sobre a destruição como uma manifestação da autoconservação do eu, com seu ponto de vista de que as pulsões do eu são de natureza libidinal.

Há razões válidas para supor que todas as variações da agressão e das tendências destrutivas que podem se desenvolver no curso da vida derivam de exigências primitivas da zona gastrointestinal.

Para tornar compreensível que a pulsão do eu, direcionada ao restabelecimento do equilíbrio da libido narcísica, procura primitivamente um repouso completo da pulsão, é necessário recapitular as afirmações de Freud concernentes ao desenvolvimento da libido do eu.

Libido é, em primeiro lugar e sobretudo, libido narcísica. Deste seu reservatório, a libido pode ser enviada e trazida de volta. Ela adquire o caráter de libido objetal apenas mediante uma mudança de vínculo.

Freud distinguiu três estágios do desenvolvimento da libido narcísica. Em sequência, a qual é o inverso de seu desenvolvimento cronológico, eles estão dispostos da seguinte maneira: no conflito edípico, a criança responde à frustração de seu objeto libidinal com o estágio do narcisismo secundário. Ela toma seu eu como um substituto do objeto frustrante. Isto é possível, porque o eu infantil estava previamente no estado de narcisismo primário. O narcisismo primário é a condição pela qual o eu infantil descobriu a si mesmo, por causa da síntese de seu esforço autoerótico, derivado de todas as suas zonas erógenas parciais. Este estágio do narcisismo primário desenvolve aquilo que pode ser chamado de condição do “narcisismo primordial”. Este narcisismo primordial existe antes do nascimento, no útero. Este é o estágio vegetativo do pré-eu, idêntico ao id. Neste estágio, há um repouso completo da pulsão. Durante a existência pré-natal, a libido narcísica não precisa deixar o seu reservatório para se ligar a um objeto. Não são necessárias recompensas gratificantes de prazer para induzir o feto [infant] a procurar por um objeto, porque não há estimulação de fonte orgânica. O objeto maternal, “a coisa pela qual” a pulsão de autoconservação “alcança sua meta”, funciona automaticamente. Da mesma forma, não há necessidade de perceber o desejo do objeto. O repouso completo da pulsão é idêntico ao perfeito equilíbrio narcísico e se reflete psiquicamente em uma condição de inconsciência, que é rompida no ato do nascimento.

O trauma do nascimento, como Freud formulou, consiste em uma ruptura total com o equilíbrio narcísico pré-natal infantil. É através do ato de alimentação, após o nascimento, que o bebê retoma seu equilíbrio narcísico e se torna inconsciente novamente, isto é, ao cair no sono. Esta é a satisfação da zona gastrointestinal — a representante da pulsão de autoconservação — o que gera este repouso pulsional completo. Então a preservação do eu [self], desde o tenro início da vida, associa-se em nossa mente com a tendência a preservar ou recuperar o repouso completo da pulsão.

Minha tese fundamental é que o estágio mais primitivo do desenvolvimento da libido não é o oral, mas a organização da libido gastrointestinal, porque apenas por meio da saciação das demandas de todo o trato gastrointestinal é que o bebê é capaz de recuperar o repouso geral da pulsão. Boca e ânus devem ser considerados apenas como as partes terminais desta zona orgânica, a qual estabelece seu contato com o mundo objetal. Sensações prazerosas nestas zonas terminais são essencialmente mecanismos prévios de prazer — introduzindo o prazer final da digestão. O funcionamento de toda a zona gastrointestinal é necessária para levar o processo de alimentação à qualidade de ato canibalístico. Pois somente assim a sucção do leite da mãe tornar-se a incorporação do objeto materno, ao mesmo tempo se restabelece uma união psicológica que existia entre o bebê e o objeto materno antes do nascimento.

Nos termos da teoria da libido, nós podemos dizer: durante o processo de alimentação no pós-natal, a libido narcísica deixa o seu reservatório e retorna a ele sem ser submetida a nenhuma alteração de qualidade. De fato, ela alcançou um objeto, mas a satisfação que este objeto provê serve apenas à necessidade de restaurar o equilíbrio narcísico da libido. É justamente esta constelação psicológica resultante do ato de nutrição pós-natal que sustenta a afirmação de Freud que, no começo da vida, as qualidades da libido narcísica e da libido objetal são indistinguíveis.

O ato da alimentação é receptivo, porém, não simplesmente passivo. Um conjunto [syndrome] de músculos estriados deve entrar em jogo para fazer o bebê encontrar o seio materno e segurá-lo, até que a satisfação intestinal completa seja alcançada e a inconsciência restabelecida.

O mundo circundante desaparece da percepção consciente mediante a saciação da zona da pulsão gastrointestinal. Traços inextinguíveis de memória dessa experiência primordial pós-natal subsistem indubitavelmente ao longo da vida e há evidências clínicas suficientes, que não podem ser apresentadas aqui, para provar que estas mesmas experiências primevas são o protótipo de certas defesas reativas posteriores do indivíduo — tão físicas quão psíquicas — que ocorrem no eu, frente ao objeto insuportável de frustração, quando necessita retomar o repouso da pulsão.

Em outras ocasiões,[14] foi demonstrado que não apenas o mecanismo de defesa da introjeção, mas também o de repressão é um derivado psíquico do ato de devorar, cujos efeitos fazem desaparecer o objeto na percepção consciente. Aqui é suficiente a referência ao afeto da raiva e sua descarga somática através de adequadas inervações motoras exteriores.

A raiva [rage] deve ser considerada uma manifestação emocional de um transtorno do equilíbrio narcísico, causado pela frustração de necessidades pulsionais. É a condição afetiva primordial, reflexo da sensação física da fome da criança. Pelo ato da alimentação (incorporação), a criança retoma seu equilíbrio narcísico e supera sua fome.

O desejo reativo de matar o indivíduo frustrante, expressado mais tarde no conflito ambivalente, é fundamentalmente nada mais que o desejo de repetir a experiência primitiva de devorar, a fim de se libertar da tensão insuportável que toma a forma da raiva. Despertadas pela reação ao objeto frustrante, individualmente aos órgãos de execução (boca, dentes, mãos, ou até armas), as tendências agressivas do indivíduo são derivados inconscientes de demandas da zona gastrointestinal.

Da mesma forma, o ódio é também uma expressão emocional de exigências da zona gastrointestinal, tal como o amor é a expressão emocional da zona genital. Para dar suporte a esta tese, é preciso investigar detalhadamente as reações afetivas do trauma do nascimento na criança, e particularmente a relação entre a primitiva angústia e a raiva primitiva. Para ser breve: como a excitação sexual, primitivamente, a raiva não tem um objeto. Ambos afetos chegam a se relacionar com o objeto por meio de suas expressões emocionais. Nós odiamos objetos porque eles despertam nossa fome de objeto, negando suas gratificações.

A língua é amiúde um monumento para os significados esquecidos das ideias originais, concretas e subjacentes das palavras. A palavra alemã para ódio [hatred] é Hass.[15] Hass é derivado de hatzen; hatzen significa caçar [hunting], e caçar é perseguir um animal com o propósito de matá-lo e devorá-lo. Assim, o objetivo final do ódio é a incorporação do objeto. O ato de devorar e o processo de digestão podem também ser considerados a descarga adequada da raiva em suas inervações motoras externas, tal como em sua motilidade interna; pois o ódio é o equivalente emocional do afeto da raiva.

Os três termos de Freud que foram considerados as primeiras fases do desenvolvimento da libido foram citados acima. Ele nomeou a “fase oral”, a “fase canibalística”, mas também sugeriu que nesta fase as pulsões sexuais da libido infantil repousam sobre as pulsões de autoconservação. Agora se supõe que estas três características na realidade descrevem um fato psicobiológico, isto é, a operação da pulsão destrutiva libidinal da autoconservação, manifestando as exigências do trato gastrointestinal.

Qual é a relação entre esta pulsão de autoconservação e o conceito de Freud de pulsão de morte? Ambos os conceitos têm o estado inconsciente como uma meta comum. Como vimos, a primeira gratificação da pulsão de autoconservação depois do nascimento resulta na inconsciência, como uma expressão de completo repouso pulsional. Esta condição inconsciente absoluta pode ser considerada o equivalente psíquico da morte física. Freud acreditava que o esforço imanente de nosso sistema psíquico pela liberação da tensão era característica do funcionamento da pulsão de morte. “Nosso reconhecimento que a tendência dominante da vida psíquica […] é a luta por reduzir, manter em nível constante ou eliminar os estímulos internos de tensão (o princípio de Nirvana, como o chamou Barbara Low) — uma luta que vem a se expressar no princípio do prazer — de fato, é um dos nossos motivos mais fortes para acreditar na existência da pulsão de morte”.[16]

Com razão, Freud pôs ênfase particular na eficácia do princípio de Nirvana em nossa vida psíquica. No entanto, na relação entre o princípio de Nirvana e nossas energias pulsionais destrutivas, não parece haver uma tendência de autodestruição como há pela destruição do objeto; pois a destruição do objeto serve ao propósito de autoconservação, isto é, à preservação ou restabelecimento do equilíbrio narcísico do eu.

Traços de memória da experiência primitiva de alcançar a inconsciência pelo ato de devorar associam o impulso de destruir um objeto com a perda da consciência.[17] Em sua busca pelo estado de inconsciência e repouso pulsional, o eu retira sua libido do mundo externo e a direciona ao seu reservatório da libido. No entanto, posto que a libido tenha adotado as qualidades gastrointestinais devoradoras, esta retirada pode ter consequências destrutivas aos sistemas psíquicos e somáticos. O equilíbrio egoico do indivíduo maduro não se expressa em completa inconsciência, como no caso infantil. O eu maduro e saudável não é consciente de si mesmo quando funciona de acordo com as demandas da realidade objetiva. Sob condições patológicas, a pulsão de “autoconservação”, com toda a sua força pulsional liberada e sem restrições da pulsão sexual, obrigaria o indivíduo a matar a totalidade do mundo ao seu redor, por conta de seu próprio repouso completo pulsional. Tal parece ser a condição emocional para o assassino esquizofrênico em massa,[18] que está ligada ao meio social apenas por exigências gastrointestinais.

Para resumir: a primazia genital de nossa organização libidinal é precedida por uma primazia pré-genital gastrointestinal. Operando como agente primitivo de nossa libido do eu, a primazia gastrointestinal nunca cessa de exercer seu poder pulsional. Um conflito contínuo entre as duas primazias pulsionais persiste por toda a vida. A primazia intestinal se torna subordinada da primazia genital no processo de amadurecimento do indivíduo: na ascensão da relação primitiva de objeto, governada pelo ódio, até uma relação de objeto civilizada, governada pelo amor. O conflito da ambivalência reflete o conflito entre estas duas primazias pulsionais.[19] Está subjacente a todos os fenômenos normais e anormais da vida psíquica, tanto na profundeza psíquica quanto nas relações interpessoais.

Esta teoria pode nos fornecer uma compreensão mais abrangente da teoria da neurose, no que concerne ao conflito da ambivalência. Grosso modo, a teoria das psiconeuroses e psicoses estaria: em todas as experiências traumáticas, baseadas na frustração do objeto de amor, o eu tende a abandonar a primazia da libido genital em uma troca pela primazia da libido gastrointestinal. O trauma fundamental da castração nada perde em sua significância, já que coloca em perigo justamente a zona do órgão que, sob a primazia genital, estabelece o contato com o objeto.

A tendência pela regressão da primazia genital à primazia gastrointestinal como uma reação a frustração ao objeto de amor implica que o eu sempre pende a restabelecer a condição do completo repouso pulsional, tal como certa vez experimentado em sequência do ato de alimentação pós-natal.

O Nirvana, isto é, a condição do repouso completo da pulsão, é a atração basal de  todas as tendências regressivas que constituem o transtorno psíquico. Rank não estava equivocado em sua visão do significado sobre o trauma do nascimento como a gênese da neurose, mas ele falhou em suas interpretações. Nós não queremos repetir o trauma do nascimento. O que nós tendemos a repetir é o ato alimentar gastrointestinal agressivo, pelo qual podemos anular o trauma do nascimento, isto é, restabelecer uma condição livre de todas as tensões.

Nas neuroses narcísicas e psicoses, o eu finalmente abandona a primazia genital e cede à primazia gastrointestinal, a garantia do repouso pulsional total.

Nas neuroses de transferência, o eu é retido no caminho de sua última meta: de regressão pelos pontos de fixação do objeto libidinal, onde já existira uma fusão da libido sexual imatura com a libido gastrointestinal. Estas são as fases fálica e anal.

Nosso espaço não permite a apresentação detalhada de evidências clínicas, do quanto à significância desta teoria estaria ampliando o entendimento da teoria das neuroses e psicoses. No entanto, algumas provas deveriam ser oferecidas para que realmente a teoria justificasse sua pretensão de validade, cujo critério serviria a seu uso como hipótese de trabalho em pesquisas posteriores no campo dos transtornos psíquicos. Vista por meio de uma perspectiva teórica, é evidente que as manifestações das neuroses e psicoses refletem essencialmente uma defesa do eu contra as perigosas consequências de sua desperta destrutividade regressiva, ou seja, a tendência a devorar. O conflito básico do eu, no qual ele luta para “manter-se a si mesmo”, consiste no dilema de ser apanhado entre duas alternativas: de preservar o objeto frustrante ou de preservar a si mesmo, isto é, seu equilíbrio narcísico. O caminho de regressão pelo qual o eu atravessa na neurose de transferência, via a neurose narcísica, até a psicose demonstra a escolha do eu entre as duas alternativas. Na neurose de transferência, o eu decide a favor do objeto, de cuja existência depende para a realização de suas demandas de amor e segurança. Na psicose, ele tende a sacrificar o objeto no interesse de alcançar o repouso completo da pulsão ou do restabelecimento da condição primitiva do narcisismo.

Como nós sabemos, o histérico é capaz de amar seu objeto apenas sob a condição de  excluir de seu amor os órgãos genitais. O que isto significa? Significa que ele restringe as suas intenções inconscientes de devorar para o órgão genital de seu objeto, o foco de seu ódio. Ele logrou localizar seu ódio para uma parte do objeto ambivalente, e pode então preservar seu amor pelo objeto como um todo. O histérico dessexualiza sua relação com o objeto: seja pela fantasia inconsciente de ter destruído introjetivamente as genitais de seu objeto, seja defendendo-se contra este desejo. O globus hystericus indica que o falo odiado foi interrompido em seu caminho até o trato gastrointestinal. A anestesia vaginal da mulher frígida é um meio de defesa contra a tendência devoradora da vagina, cujas demandas inconscientemente se fundem com as demandas da boca.

O neurótico compulsivo odeia seu objeto em sua plenitude e tende a devorá-lo totalmente. Como uma defesa contra isto, suas mãos estão atadas, elas assumiram a significância simbólica da boca. Devido à meta de devorar, o agir em geral está inibido e substituído por seu pensamento, “a forma experimental do agir”. Então, confinado em sua ruminação sem fim, o neurótico compulsivo é capaz de preservar o seu objeto, por descargas do seu ódio em seu processo de pensar.

Nas neuroses narcísicas, o eu é retido em sua fase narcísica secundária, enquanto se retira para a condição de “narcisismo primário”. A libido é afastada do objeto e colocada sobre o eu, que substitui o objeto. No entanto, uma vez que a transformação regressiva da libido genital na libido gastrointestinal ocorre simultaneamente, a tendência do eu melancólico é de devorar a si mesmo, ao invés do objeto. Partindo de poucas observações clínicas, pode-se deduzir que as tentativas de suicídios dos melancólicos simbolizam na verdade seu desejo de devorar a si mesmos. Nas autotorturantes acusações do melancólico há uma “intestinalização”, por meio de um processo similar ao pensar ruminante do neurótico compulsivo. Porém, o neurótico compulsivo usa a “a forma experimental do agir” como uma defesa contra a devoração do objeto, enquanto o melancólico introduz o processo de pensamento autoflagelador como uma defesa contra a destruição de si mesmo.

Por “intestinalização” do processo de pensar, entende-se na realidade uma intestinalização da relação entre eu e superego. Nós aprendemos com Freud que a severidade do superego resulta das agressões suprimidas do eu, que tão logo se “formaram como” superego. Nos termos da gastrointestinalização, nós podemos dizer que o superego assumiu as tendências devoradoras do eu e as voltou contra os objetos introjetados psiquicamente dentro do eu. O eu é então torturado pela Gewissensbisse, “o remoer da consciência”, ou remorso. A palavra remorso é derivado da palavra do latim re-mordeo, que significa “morder novamente”.[20] Morder é o ato inicial da devoração.

Poucas afirmações podem ser feitas sobre o conflito de ambivalência nas psicoses esquizofrênicas, quando visto por meio da perspectiva do funcionamento da primitiva pulsão gastrointestinal. Teoricamente, o estado maníaco da neurose narcísica pode ser considerado uma transição para a psicose esquizofrênica. Esta conclusão é alcançada pela aplicação da teoria desenvolvida acima ao fato bem conhecido que o estado maníaco representa a fusão do eu e do supereu. Esta fusão é o resultado das tendências devoradoras do eu, dirigidas contra o supereu. Num processo esquizofrênico, o supereu divide a tendência de regressão com o eu e eventualmente assume a significância do objeto maternal primitivo. No estágio final da regressão, o eu tende a encontrar o repouso pulsional pela devoração do supereu, que lhe serve como uma mãe substituta. Neste sentido, livra-se de seu próprio remorso, ou seja, de ser atacado pelo seu próprio supereu. No entanto, ele também perdeu o mediador entre si mesmo e a realidade objetiva. Assim, o eu torna a se transformar no id, para o qual todo objeto externo é um objeto materno. O fato de que em suas relações em direção ao mundo objetal o esquizofrênico toma todas as coisas como substitutas do objetivo maternal primitivo, determina em grande parte sua inabilidade final em testar a realidade. Ele sente a si mesmo ligado ao mundo a sua volta apenas através de reviver a fase mágica, alucinatória de onipotência.[21] A agressividade do indivíduo esquizofrênico indica a tendência a incorporar o objeto externo a fim de retornar a condição do narcisismo primitivo, isto é, para o repouso pulsional completo.

A “ruptura da realidade” do psicótico surge da necessidade de retirar suas demandas devoradoras gastrointestinais do mundo objetivo, com a meta de enfim recuperar o equilíbrio narcísico completo, expressado na condição inconsciente. O esquizofrênico alcança essa meta na condição de estupor. Uma condição similar é causada, por um atalho, pelo coma da moderna terapia de choque induzido por insulina, metrazol, ou corrente elétrica. Portanto, torna-se supérflua a necessidade de destruir o objeto de ambivalência para alcançar este fim, ao menos temporariamente. Por outro lado, as inervações dos músculos estriados, induzindo convulsões, parecem ser um repetição dos movimentos descoordenados do bebê, nos quais descarrega sua raiva primitiva sem objeto.

Retrospectivamente, podemos nos permitir estabelecer que o processo de desfusão de energias construtivas e destrutivas, que foi exposto por Freud, corresponde à tendência inerente ao próprio processo de regressão. É uma mudança gradual de ênfase do amor ao objeto genital até o ódio ao objeto intestinal.

Talvez as dúvidas sobre a validade da teoria de psiconeuroses e psicoses nesta perspectiva podem ser dissipadas pelo estudo do grande trauma infantil, responsável por todas as regressões — o trauma pela frustração do objeto, precipitado pelo conflito edípico.

Este trauma é o segundo grande trauma no desenvolvimento psíquico da criança. O primeiro foi o trauma do nascimento, que rompeu o equilíbrio do narcisismo primitivo. Essa disrupção ocorre quando a criança está prestes a vincular sua libido genital despertada, mas ainda imatura, aos seus objetos parentais. O eu infantil tende a restaurar seu equilíbrio narcísico, interrompido pelo segundo trauma, seguindo o modelo de restauro do primeiro trauma. Esta tendência significa ceder às demandas pulsionais gastrointestinais e retornar para o estágio primário da vida, quando havia apenas um objeto, cuja incorporação provoca o repouso completo da pulsão.

Assim, o processo descrito não é nada mais que a solução final do conflito do Édipo por meio da identificação. Citando Freud: “quando o complexo de Édipo é deixado para trás, a criança deve renunciar o investimento objetal que se formou em direção a seus pais, e — para compensar esta perda de objeto — suas identificações com os seus pais, que provavelmente há muito tempo estão presentes, tornam-se ainda mais intensificadas”.[22] “Essa identificação tem sido comparada, não inapropriadamente, com a incorporação oral canibalística da outra pessoa”.[23]

Vemos que a tendência à regressão temporária da primazia da pulsão genital para a primazia gastrointestinal, em respostas às privações de objeto, é um pré-requisito para solução normal do complexo de Édipo. É esta regressão que introduz o período da latência, caracterizado pela dessexualização do objeto parental, que é a elevação da barreira do incesto. A renúncia pulsional ao nível genital é compensada por uma gratificação da pulsão ao nível gastrointestinal. No entanto, o real ato somático de incorporação é afastado pelo ato psíquico de introjeção. Há evidências para indicar que a formação do supereu aparece como um substituto e, ao mesmo tempo, como uma reação contrária à gratificação real da pulsão de devorar. Uma identificação bem-sucedida destitui o ódio entre os pais e a criança e permite um restabelecimento da relação de amor. O fracasso em alcançar a identificação na ocasião do primeiro conflito de objetos da vida resulta na continuidade das exigências da pulsão de devorar, mantendo-a viva no inconsciente. Esta constelação estabelece o conflito da ambivalência como um fator determinante na gênese e sintomatologia do transtorno psíquico.

É importante entender como a mais alta realização da psique humana — sua consciência — surge sobre o desejo animalesco de devorar nossas criaturas irmãs. Para tentar tal entendimento nós teríamos que estender nossas investigações psicanalíticas do desenvolvimento ontogenético do supereu e do complexo da culpa até as considerações filogenéticas e especulações concernentes à ascensão do supereu além do culto totêmico. Em Totem e Tabu, Freud nos deu uma pista da evolução do conceito ontogenético da culpa, tal como se desenvolveu a partir da filogênese. A ontogênese do problema merece algumas observações em relação às duas faces do conflito de Édipo da criança, que se finda no processo de identificação.

Apanhada pela situação edípica, a criança é atravessada pela necessidade de escolher entre dois objetos. No entanto, a criança tem uma reação emocional comum às duas relações com seus pais: ela odeia a ambos. Por sua vez, o menino odeia seu pai como um rival, mas também odeia sua mãe, pois ela se nega a ele. Seu ódio é a expressão emocional de sua tendência regressiva de retornar à primazia gastrointestinal, que governa sua existência pós-natal. Ele resolve o problema com um ódio duplo, numa condensação de ambas as figuras parentais em um objeto, como existiam antes do nascimento. A fantasia desejosa por uma mãe fálica parece ser o resultado deste processo de condensação, do pai mais a mãe.

O complexo de castração não perde nenhum significado nesta suposição. Somente a tese muito contestada da inveja do pênis ganha um novo aspecto. O falo da mãe representa ao inconsciente da criança a redescoberta do seio materno, expressado nos termos das demandas da primazia genital que, por conta da frustração do conflito do Édipo, produz a primazia gastrointestinal.

O objeto parental unificado retorna psiquicamente como superego, como “o herdeiro do complexo de Édipo”. Citando mais uma vez Freud: “A renúncia […] dá origem à consciência […]”.[24] “A frustração da gratificação erótica provoca um acesso de agressividade contra a pessoa que interfere com esta gratificação, e logo esta tendência de agressão tem, por sua vez, de ser reprimida. De maneira que, depois de tudo, é apenas a agressão que foi transformada em culpa ao ser reprimida e reestruturada em supereu”.[25] Também: “a relação entre supereu e eu é uma reprodução, distorcida pelo desejo, da relação real entre o eu, antes de ser subdividido, e um objeto externo […] A diferença essencial é, no entanto, que a severidade original do supereu não representa — ou não em grande medida — a severidade que foi experimentada ou antecipada pelo objeto, mas expressa a própria agressividade da criança. Se isto é correto, alguém poderia afirmar seguramente que a consciência é formada no começo da repressão de um impulso agressivo e é fortalecida, paulatinamente, a cada nova repressão deste mesmo tipo”.[26] E, concluindo, Freud diz: “Estou convencido de que muitos processos admitirão exposição mais simples e clara se restringirmos as descobertas da psicanálise sobre a origem do sentimento de culpa às pulsões agressivas”.[27]

Se nós concordamos com a definição do termo “pulsões agressivas” em consonância com as minhas suposições, como energias pulsionais destrutivas-devoradoras e como os derivados da primazia da pulsão gastrointestinal, então não haveria contradição entre a teoria de Freud e a minha. O supereu surgiu por meio do processo de identificação, uma tese que é complementada pela afirmação que a identificação substitui e exclui a incorporação, a qual é o resultado da regressão do eu para sua primazia da pulsão gastrointestinal.

Estas teorias são o produto de vinte anos de observação clínica, este artigo é apenas um resumo abreviado. Sua intenção é apresentar que há uma pulsão de devorar no homem, estreitamente associada com sua necessidade de autopreservação. O processo de identificação, ao por fim no complexo de Édipo, é o caminho normal para a liquidação desta herança animalesca. Fracassos nesse processo precipitam mórbidas psicopatologias, que convertem a autoconservação em autodestruição, submetendo o eu ao poder de atração do princípio de Nirvana.

Antes de concluir, quero enfatizar que este artigo se preocupou apenas com a investigação das energias pulsionais destrutivas até onde pudemos detectá-las na psique do indivíduo, afetando seus conflitos intrapessoais e interpessoais. Intencionalmente omiti toda especulação que se estende sobre o campo da biologia.

Considerada como uma contribuição a ciência psicanalítica, meu trabalho segue um rumo de investigação aberto por Freud. Ele mesmo não seguiu este caminho até o fim, porque durante seus últimos anos de vida não esteve muito preocupado com problemas clínicos. As perspectivas que seu gênio se esforçava para observar não eram microscópicas, mas macroscópicas. Lutou por uma compreensão do cataclismo mundial de ódio, que ameaçava engolir nossa civilização. Ele aplicou seu conceito de morte e agressão ao fenômeno da psicologia de massas e ao fenômeno sociológico da civilização, antes de ter exaurido a essência de suas descobertas com a investigação da psique individual.

No entanto, se a morte não tivesse chegado até ele, eu acredito que Freud teria chegado as minhas conclusões, mais cedo ou mais tarde. Pois ele resumiu a essência do conflito da ambivalência da seguinte forma: “O eu não está à vontade consigo mesmo — tendo que sujeitar seu próprio ser às tendências destrutivas, as quais muitas agressões ele gostaria de empregar contra os outros. É como um deslocamento ao campo psíquico do dilema que rege o mundo orgânico: ‘Devorar ou ser Devorado’”.[28] 

REFERÊNCIAS

FERENCZI, Sándor, “Stages in the Development of the Sense of Reality”. In: Contribuitions to Psychoanalysis. London: Hogarth Press, 1916.

_____. (1915) Instincts and Their Vicissitudes. Coll. Papers, IV.

_____. (1916-17) Introductory Lectures on Psycho-Analysis. London: Allen & Unwin, 1933.

_____. (1920) Beyond the Pleasure Principle. London: Int. Psa, Press, 1922.

_____. (1923) The Ego and the Id. London: The Horgarth Press, 1927.

_____. (1933) Neue Folge der Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse. Viena. Int. Psa. Verlag.

_____. (1933) New Introductory Lectures on Psychoanalysis: Anxiety and Instinctual Life. London: Hogarth Press, 1933.

_____. (1930) Civilization and Its Discontents. New York: Jonathan Cape and Harrison Smith, 1930.

KLUGE, Friedrich (1910) Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache. Strassburg: Verlag Von Karl I. Trubner.


* Ernest Simmel era psicanalista e neurologista. De origem judaica, aproximou-se do movimento psicanalítico durante a Primeira Guerra Mundial, ao transpor a metodologia de tratamento freudiano da histeria para as neuroses de guerra. Junto com Abraham e Max Eitington, ajudou a estabelecer o Instituto Psicanalítico de Berlim em 1920. Foi presidente da Sociedade Psicanalítica de Berlim de 1926 a 1930; fundou e serviu como médico-chefe do sanatório Schloss Tegel, em 1927. O sanatório inovou ao propor tratamentos segundo princípios psicanalíticos, porém faliu e fechou em 1931. Também participou da fundação da Sociedade dos Médicos Socialistas, atuando como presidente de 1924 a 1933, quando entrou em conflito com as autoridades nazistas, logo após Hitler chegar ao poder em 1933. Exilou-se nos Estados Unidos em 1934.


** Gabriel K. Saito é psicólogo pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Escolar do Desenvolvimento Humano (IP-USP). Pesquisador no Laboratório dos Estudos do Preconceito (LaEP- IPUSP). Também é psicanalista e participa do grupo de discussão clínica do Laboratório de Pesquisa e Intervenções Psicanalíticas (PsiA-IPUSP).



[1] Apresento os créditos e a permissão de publicação  sem fins comerciais ao New Center for Psychoanalysis de Los Angeles (NCP-LA), ao Arquivo online, à Direção e ao Comitê Histórico desta instituição. Os arquivos podem ser encontrados no endereço <www.n-c-p.org/Archival_Collections.html>. Agradeço especialmente ao Dr. V. Melamed pelo apoio e mediação com o NCP-LA. Agradeço a revisão cuidadosa de Letícia Neumann.

[2] FREUD, Sigmund (1933) Introductory Lectures on Psycho-Analysis. London: Allen & Unwin, p. 294 (XXII, 354 igo2006).

[3] FREUD, Sigmund, Introductory Lectures on Psycho-Analysis. London: Allen & Unwin, 1933, pp. 345-346 (XXVI). O que aparenta que Freud esteve inclinado a assumir que o conflito entre duas categorias de pulsões apontava para um último conflito entre autoconservação do indivíduo, por um lado, e a reprodução como preservação da espécie, por outro. No entanto, ele enfatizava que este antagonismo biológico lhe parecia sem importância, já que não era aplicável ao estudo das neuroses de transferência.

[4] Eu apresentei minhas teorias em vários encontros da German Psychoanalytic Society e na International Psychoanalytic Association, já em 1921. Resumi-as no encontro em Innsbruck, enviei um artigo sobre o tema a Repressão Primária (Urverdrängung) e a Libido Intestinal, e mais tarde em Wiesbaden em 1932, sob o cabeçalho Primazia Pulsional Pré-genital e a Organização da Libido. Estes estudos tratados com a vicissitude da libido do eu, precisamente o problema cujo Freud tinha reiteradamente chamado a atenção aos psicanalistas, requisitando-lhes seu estudo. Isto porque o campo da psicologia do eu ainda estava largamente inexplorado, e prometia oferecer resultados importantes para um entendimento profundo da psicopatologia de certos transtornos de personalidade.

Quando eu considerei a conveniência de apresentar minhas teorias em forma de livro, eu decidi postergar pela razão seguinte: encontrei-me naquele momento incapaz de assentar a minha teoria ao conceito freudiano de um teoria dualística da pulsão do eros libidinal versus a pulsão de morte não libidinal. Minhas teorias tinham sido desenvolvidas de forma independente e, em parte, antes da publicação de Freud sobre este tema. Comecei a trabalhar num artigo que levava o título: Sobre a Ubiquidade da Destruição Introjetiva. Enquanto isso, desde que Freud tinha publicado o Além do princípio do prazer, foi apenas natural para eu suspeitar que minhas próprias teorias poderiam estar todas erradas e que eu precisaria aguardar por mais publicações de Freud, testando entrementes minhas hipóteses mediante observações clínicas. Hoje estou convencido que minhas suposições originais eram corretas, e podem ser usadas como hipóteses de trabalho para lançar uma nova luz não apenas sobre a gênese e as dinâmicas das neuroses de transferência, mas também sobre as neuroses narcísicas, psicoses e problemas da medicina psicossomática.

[5] FREUD, Sigmund, Instincts and Their Vicissitudes. Coll. Papers, IV, p. 64.

[6] FREUD, Sigmund, New Introductory Lectures on Psychoanalysis: Anxiety and Instinctual Life. London: Hogarth Press, 1933 (XXXIII).

[7] Cf. FREUD, Sigmund, Instincts and Their Vicissitudes. Coll. Papers, IV, pp. 68-69.

[8] FREUD, Sigmund, Introductory Lectures on Psycho-Analysis. London: Allen & Unwin, 1933, p. 346. (XXVI 415)

[9] FREUD, Sigmund, Instincts and Their Vicissitudes. Coll. Papers, IV. P. 69.

[10] Freud nos ensinou a compreender que o aumento da auto-estima resulta da renúncia de uma pulsão.

[11] FREUD, Sigmund, The Ego and the Id. London: The Horgarth Press, 1927, p. 86.

[12] No entanto, morrer sem medo é também a capacidade de pessoas idosas, porque, em virtude de sua idade, suas fontes pulsionais deixaram de produzir exigências e, portanto, elas estão menos aptas a serem expostas irremediavelmente às necessidades pulsionais, e consequentemente menos expostas às perturbações de seu equilíbrio libidinal narcísico.

[13] Em um artigo, Repression, Regression, and Organic Disease, eu chamei uma vez de “o animal dentro de nós”. Num animal, morder e devorar não apenas servem ao propósito de alimentar, mas também constituem meios únicos de agressão, se a fuga é impossível. Nós temos a inerente tendência a devorar de nossos ancestrais animais, não de nossos antepassados humanos canibais, aqueles que apenas nos transmitiram tal tendência.

[14] SIMMEL, Ernst, Repression, Regression and Organic Disease (apresentado no encontro semi-anual de Analistas da California, São Franciso, 1940) e Die Psycho-physische Bedeutsamkeit des Intestinalorgans für die Urverdrängung (A significância psicossomática do trato intestinal para a repressão primária, lido no 8º Congresso Internacional Psicanalítico, Salzburgo, 1924; resumo publicado Int. Ztschr. F. Psa., 1924, X, p. 217-223).

[15] Cf. KLUGE, Friedrich, Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache. Strassburg: Verlag Von Karl I. Trubner, 1910.

[16] FREUD, Sigmund, Beyond the Pleasure Principle. London: Int. Psa, Press, 1922, p. 71.

[17] Talvez por isso na vida tardia o inconsciente inversamente poderia funcionar como uma defesa contra os impulsos agressivo-destrutivos. Fenômenos como desmaios, narcolepsia, etc., encontram assim uma possível explicação como fenômeno regressivo.

[18] O termo serial killer (assassino em série) foi criado apenas em 1974 — guarda algumas semelhanças ao assassino em massa citado por Simmel. (N. de T.)

[19] Este conflito surge cedo na vida infantil, primeiro sobre uma base biológica, como Lipschütz descobriu (Lipschütz, Alexander: Die Pubertätsdrüse und ihre Wirkungen. Berne: Bircher, 1919, citado Freud: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade). “A porção intersticial da glândula sexual, os fatores que determinam o impulso biológico específico, desenvolvem-se cedo na infância — denominada como ‘fase intermediária da puberdade’”. Isto ocorre no momento em que a primazia gastrointestinal está ainda em plena floração. Neste período, a libido genital é de importância secundária e permanece assim até a maturidade das gônadas, estas vêm a dotar o órgão genital como guia do eu na busca do contato com o objeto, afastando as zonas terminas do trato gastrointestinal — o ânus e a boca”.

[20] Em português, temos o “remoer”, que possui a mesma origem latina. (N. de T.)

[21] FERENCZI, Sándor, “Stages in the Development of the Sense of Reality”. In: Contribuitions to Psychoanalysis. London: Hogarth Press, 1916.

[22] FREUD, Sigmund, New Introductory Lectures on Psycho-Analysis. New York: W. W. Norton & Co., 1933, p. 87 (XXXI).

[23] FREUD, Sigmund, New Introductory Lectures on Psycho-Analysis. New York: W. W. Norton & Co., 1933, p. 86; grifos meus.

[24] FREUD, Sigmund, Civilization and Its Discontents. New York: Jonathan Cape and Harrison Smith, 1930, p. 114.

[25] FREUD, Sigmund, Civilization and Its Discontents. New York: Jonathan Cape and Harrison Smith, 1930, p. 131; grifos meus.

[26] FREUD, Sigmund, Civilization and Its Discontents. New York: Jonathan Cape and Harrison Smith, 1930, pp. 115-116; grifos meus.

[27] FREUD, Sigmund, Civilization and Its Discontents. New York: Jonathan Cape and Harrison Smith, 1930, pp. 131. (Itálicos meus).

[28] FREUD, Sigmund, Neue Folge der Vorlesungen zur Einführung in die Psychoanalyse. Viena. Int. Psa. Verlag, 1933, p. 153. (Trans. New Introductory Lectures on Psychoanalysis, loc. cit.)




COMO CITAR ESTE ARTIGO | SIMMEL, Ernst (1944)A autoconservação e a pulsão de morte [Trad. Gabriel K. Saito]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -11, p. 2, 2021. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2021/08/15/n-11-02/>.