Prefácio à edição francesa de “O caso Schreber”

por Jacques André

Tradução | Paulo Sérgio de Souza Jr.

Tradução de ANDRÉ, Jacques (2004) Préface In: FREUD, Sigmund (1911) Le Président Schreber: remarques psychanalytiques sur un cas de paranoïa (dementia paranoides) décrit sous forme autobiographique. Paris: PUF, 2004.

Em 14 de abril de 1911, no sanatório de Leipzig-Dösen, morria Daniel-Paul Schreber. No primeiro número do Jahrbuch [Anuário] daquele mesmo ano, era publicado o estudo de Freud, o seu Caso Schreber. A proximidade no tempo entre os dois acontecimentos só torna mais sensível uma das características dessa obra freudiana: ter sido concebida somente a partir da análise das Memórias[1] do ex-presidente de seção da Corte de Apelação de Dresden, sem que o psicanalista tivesse chegado a conhecer o seu “doente dos nervos”. Schreber assume, assim, na opinião de Freud, a sequência imediata de Leonardo da Vinci[2] — estando os ensaios consagrados a ambos vinculados de muitas formas —, que, também ele, acabara de posar in absentia “a fim de que o psicanalise um pouco”[3].

A ideia de contactar aquele “maravilhoso Schreber” ocorre a Freud, mas para ser simultaneamente descartada: “Como o homem ainda está vivo, poderia pedir-lhe algumas explicações (p. ex., quando se casou) e a autorização para trabalhar sobre a história dele. Mas creio que isso seja arriscado”[4]. O projeto de entrar em contato concerne a um levantamento histórico, não à terapia. Sobre esse ponto, Freud se havia resignado há tempos: rico em ensinamentos para o progresso da teoria psicanalítica, o paranoico está, em contrapartida, fechado às virtudes do tratamento.

Aquilo que Freud renuncia aprender por seus próprios meios, ele esperará de Stegman, um psiquiatra de Dresden que lhe comunicará alguns dados — principalmente a respeito do pai do doente. A escassez das informações de que dispunha teria podido conduzir Freud ao erro. Não apenas no caso, mas também quando ele corre o risco da conjectura: a propósito da idade do irmão, por exemplo. A única afirmação fragilizada pela ignorância do contexto é aquela em que Freud evoca a “tentativa de cura” de Schreber, depois de sua saída do sanatório de Sonnenstein, em 1902. A remissão bem parece ter sido totalmente relativa[5] e não impediu uma última internação de novembro de 1907 até a sua morte.

O levantamento histórico é uma das principais vias que a crítica e o comentário pós-freudianos do caso Schreber tomarão emprestado; um levantamento fortemente orientado pela própria tese de Freud e o lugar central que ela atribui ao complexo paterno. Para além do trabalho de interpretação que desvela a figura do pai por detrás das suas diferentes aparições (Flechsig, Deus, o sol), Freud evoca sucintamente a própria pessoa do pai, aquele que ele nomeia “Daniel Gottlieb (saboroso lapso: Gottlieb, segundo a etimologia, “nascido do corpo de Deus, filho de Deus”, em vez de Gottlob) Moritz Schreber”, médico, educador, fundador da ginástica terapêutica — resumindo: um apaixonado pela alma, pelo corpo, e por colocá-los em forma.

Freud teria podido ler Ärztliche Zimmergymnastik [Ginástica médica caseira], que ele cita, mas não parece que se tenha dado o trabalho. Outros depois dele se encarregaram disso: o mérito de ter sido o primeiro nessa via é de W. G. Niederland[6]. O resultado de suas investigações é completamente impressionante e converge para uma mesma questão: do pai e do filho, quem é mais louco? Considerar, através de testemunhos psiquiátricos, que o pai sofria de obsessões e tendências homicidas ainda é pouco, tendo em vista o que a leitura de suas obras revela. Há por toda parte a questão da arte e da maneira “de se fazer mestre da criança para todo o sempre”. A severidade beira o sadismo a cada página, visando o corpo e o espírito num mesmo movimento. Esse pai — que deveria saber, à sua maneira, que desejar é fazer — ensina que convém punir mais a intenção do que a ação. A finalidade é fazer com que a criança atinja “a impossibilidade moral de desejar” e que ela estenda a mão àquele que a puniu a fim de se fazer perdoar… Na “língua fundamental” do filho, que maneja as palavras tal como o processo primário o faz, “castigo” diz-se “recompensa”. A leitura das obras do pai embasa, em contrapartida, a verdade das Memórias — a verdade consoante ao inconsciente, como se elas manifestassem aos olhos de todos o que o pai faz e diz sob o pretexto da educação e da ginástica. Quando o filho padece de um “assassinato de alma”, assim nomeia muito exatamente o empreendimento paterno, verdadeiro esforço para enlouquecer o outro, ao mesmo tempo que designa o mal causado: contra o espírito, para-noia. Poderiam multiplicar-se as referências ao que se encontra, mais ou menos deformado, dos ensinamentos do pai à defesa pro domo do filho. Vamos nos ater a dois exemplos: um “baixo”, outro “elevado”. A tonalidade masoquista, anal, feminina das Memórias “responde” a uma verdadeira apologia, feita pelo pai, dos clisteres: “Eles encontram na pediatria a mais extensa aplicação […] O meio laxativo mais sutil, também são bem-vindos e excelentes no início de uma terapia tranquilizante, antiespasmódica, antiestimulante, nutritiva”[7]. Penetrar uma criança, penetrá-la de amor… a proposta reaparece frequentemente nas palavras de um pai que sabia conjugar severidade e benevolência e, sem dúvida alguma, que não deixava outra escolha à criança, a não ser a veneração ou o ódio. Impõe, sobretudo ao filho homem, a homossexualidade. As três filhas do Dr. Schreber parecem ter escapado por pouco; o outro rapaz, Daniel Gustav — irmão mais velho de Daniel Paul —, suicidou-se um ano antes do casamento do irmão.

O exemplo “elevado” fala de religião. O pai escreve:

Sempre se deve lembrar com doçura à criança de ela própria se colocar na presença de Deus, ao fim do dia, a fim de observar seu eu interior nos puros raios do conceito divino (do Pai que ama o universo), e a fim de ser recompensada por uma vontade renovada […]; o espírito da palavra “religião” deve penetrar e casar-se com o espírito. A revelação interna e a revelação externa (a razão em seu mais pleno desenvolvimento) são dois raios que se aproximam tanto um do outro até que, por fim, se encontram num ponto: o ponto da fusão completa.[8]

Strahlen, raios. As palavras do pai são as palavras-coisas do filho, tão penetrantes quanto um clister[9].

Muito embora seja principalmente pós-freudiana, a pista que remonta a loucura do filho à patologia do pai encontra os seus primeiros indícios em Freud. Em 1937, ele insistirá na parte de verdade histórica contida na loucura, explicando que “a crença compulsiva, que se apega ao delírio, tira sua força justamente dessa fonte infantil”[10]. Nas cartas trocadas com Ferenczi, ao longo de seu trabalho sobre Schreber, Freud dá um exemplo do que teria podido ser essa ascensão causalista rumo à origem: “O que acha disto: o velho doutor Schreber teria feito ‘milagres’ enquanto médico; mas, fora isso, era um tirano doméstico que urrava com os filhos e os compreendia tão pouco quanto o ‘deus inferior’ compreendia o nosso paranoico?” Ao que Ferenczi responde: “Sua explicação do ‘milagre do urro’ me parece bastante plausível.”[11]

*

O prefaciador do texto de Freud sofre com o embaraço da escolha. O que frisar: a confrontação da psicanálise com a psicose, a concepção de recalque, a teoria das pulsões, a articulação problemática entre projeção e rejeição, a introdução ao narcisismo, a fantasística feminina? Com relação a todas essas questões, O caso Schreber é um texto-chave, antecipador das modificações metapsicológicas de 1914-15. Uma outra via seria discutir a interpretação que Freud propõe das Memórias. De Melanie Klein a Lacan, passando por Ida Macalpine, muitos foram aqueles que se devotaram ao exercício, procurando, um depois do outro, validar as suas próprias construções metapsicológicas. Não há dúvida de que as Memórias do “doente mais citado na história da psiquiatria” estariam suscetíveis de aceitar uma leitura suplementar. Seguiremos uma outra pista que, na maioria das vezes, comentários e críticas têm desdenhado ou deixado de lado — para não dizer “largado mão” — e que, entretanto, constitui, segundo Freud, “o cerne do conflito na paranoia” (p. 83): a questão da homossexualidade. Em primeiro lugar, para restituir seu contexto. A importância atribuída por Freud ao retorno do recalcado homossexual é indissociável daquilo que se passa e se discute entre ele e seus colaboradores mais próximos na época, Jung e Ferenczi, mas também Adler — com a sombra de Fliess contra o pano de fundo.

Em seguida, para recentrar o que está em jogo: para além dela mesma, a homossexualidade é um fio de Ariadne que conduz ao narcisismo e às ulteriores reviravoltas do edifício teórico.

Correspondências

As Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia terminam com uma reivindicação de propriedade intelectual tão curiosa quanto elíptica: eu, Freud, é que sou justamente o autor da teoria da paranoia que acabei de expor, e não… Schreber. Se é permitida a dúvida, é porque entre o delírio e a teoria — entre os “raios divinos” e os “investimentos libidinais” — a distância não ultrapassa sequer a que separa uma abstração de uma de suas representações concretas. A psicanálise e o paranoico partilham, sob o risco de se confundirem, uma mesma capacidade de percepção endopsíquica dos processos em ação.

Em apoio à sua reivindicação de prioridade, Freud aventa um argumento que não é desprovido de certa ingenuidade: “posso invocar o testemunho de um colega especialista, de que desenvolvi a teoria da paranoia antes de conhecer o teor do livro de Schreber”. Pergunte a Jung (o amigo é ele), e ele confirmará… Por que não fazer as coisas de um jeito mais simples e restituir ao leitor o que verdadeiramente provocou a teoria da paranoia? A resposta está na correspondência: “Posso lhe contar um segredo”, escreve Freud a Jung em 17 de fevereiro de 1908… na paranoia,

sistematicamente me deparo com um desprendimento de libido a partir de um componente homossexual que até então fora normal e moderadamente investido. […] Meu ex-amigo Fliess desenvolveu uma paranoia horrível depois de se livrar da afeição por mim, que era sem dúvida considerável. Devo essa ideia a ele, isto é, ao comportamento dele. Com toda e qualquer experiência devemos tentar aprender algo.[12]

Esse segredo, Freud o partilhará ulteriormente com Ferenczi, depois com Abraham. A distância meramente metafórica que separa o delírio de Schreber da teoria de Freud ameaça a originalidade deste. Mas o “segredo Fliess” a ameaça de outra maneira, a das possíveis interferências com o inconsciente de seu autor: “Sou incapaz de o julgar objetivamente, ao contrário do que se deu com trabalhos anteriores, uma vez que ao escrevê-lo tive de lutar com complexos que me perturbavam o íntimo (Fliess)”[13].

A inquietude de Freud é tão legítima que as relações de amizade e de trabalho do período em que o Schreber é escrito revelam-se particularmente ricas desses mesmos ingredientes que alimentaram o episódio Fliess. Em cena estão principalmente três personagens: Freud, Jung e Ferenczi. A viagem de agosto de 1909 para a América — onde Freud iria ministrar uma série de conferências — havia reunido e aproximado os três homens, a ponto de conduzi-los à análise mútua de seus sonhos, um jeito de tornar a travessia do oceano mais agradável. Dá para ter ideia das efusões transferenciais engendradas por um exercício como esse. Se o essencial do que se trama e se transmite dá-se entre Freud e Jung, por um lado, e Freud e Ferenczi, por outro, o que circula entre Jung e Ferenczi tampouco é negligenciável — ao menos do ponto de vista de Ferenczi. Ele não ignora nem um pouco o seu próprio “desejo infantil” de ser “o primeiro e único junto ao ‘pai’”, e o consequente ciúme nascido de seu “complexo fraterno”.[14]

A ruptura entre Freud e Jung só vai se efetivar em 1912-13. Em 1910, a esperança que Freud tinha de ter encontrado em Jung um príncipe herdeiro ainda está bem das pernas. Entretanto, os primeiros sinais da acidez já são perceptíveis. Tanto um quanto o outro estão atentos, desde o início, aos elementos conflitantes que poderiam vir a turvar sua colaboração e mostram-se preocupados em localizar as suas respectivas fontes inconscientes. Em outubro de 1907, Jung havia feito a Freud a confissão (difícil, precedida de rasuras) do caráter homossexual de sua admiração:

Na verdade — e é preciso um grande esforço para confessar isso — tenho pelo senhor uma admiração ilimitada, quer como homem, quer como estudioso, e não lhe voto o menor rancor consciente […]; a maneira como o venero tem algo do caráter de um embevecimento “religioso”. Se bem que a coisa realmente não me aflija, ainda a considero repulsiva e ridícula devido a seu inegável fundo erótico. Esse sentimento abominável provém do fato de eu ter sido vítima, quando garoto, de um assalto sexual praticado por um homem a quem adorara antes.[15]

Negação, denegação, o tom da perseguição: tudo sobre um fundo de abuso e veneração… se isso não é “Schreber”, parece.

A confidência de fevereiro de 1908, em que Freud revela a Jung o papel da amizade conflituosa com Fliess em sua compreensão da paranoia, é inseparável de um pequeno acontecimento sobrevindo em sua relação epistolar. Entre 25 de janeiro e 15 de fevereiro do mesmo ano, Jung permanece silencioso. Nem uma carta — ele invocará, em seguida, uma gripe como desculpa; Freud sofre, então, do mesmo mal! Diante desse silêncio, Freud se inquieta e, como explicará mais tarde, é aí que as coisas (um silêncio de Jung) se repetirão: “Evidentemente ainda tenho uma hiperestesia traumática no que se refere ao declínio de correspondência. Lembro-me bem de onde ela surge (Fliess) e não gostaria de repetir a experiência sem esperar por isto”[16].

Se Jung dá o devido valor à confiança que lhe tem Freud ao evocar o que aconteceu com Fliess, também percebe tudo o que essa aproximação possui de perigosa:

A referência a Fliess — decerto não acidental — e seu relacionamento com ele impelem-me a solicitar que me permita desfrutar de sua amizade noutros termos, não como se fosse uma amizade entre iguais, mas sim entre pai e filho. Essa distância me parece adequada e natural. E já por si a meu ver ela confere um cunho que haveria de prevenir mal-entendidos e capacitar duas pessoas teimosas a existir lado a lado num relacionamento fácil e livre de tensões.[17]

Prevenção que ele recorda num segundo alerta: “Suas palavras amáveis me aliviam, me consolam. Agora e no futuro pode o senhor estar certo de que nunca há de acontecer nada na mesma linha de Fliess. Já experimentei de perto esse tipo de coisa; e com isso aprendi a sempre fazer o contrário”. Proposta tranquilizadora (?), imediatamente recolocada em questão pela frase sibilina que vem em seguida: “Excetuando-se alguns momentos de paixão, minha afeição é constante e digna de confiança”[18].

Encarando as coisas assim, entre homossexualidade e primeiros indícios de um sentimento de perseguição, Adler não está longe de intervir nesse cenário no papel de bode expiatório: o paranoico, o duplo de Fliess, é ele! “Um pequeno Fliess ressuscitado”, escreverá Freud a Ferenczi. “É bom saber”, escreve Freud a Jung, “que o senhor vê Adler como eu. A coisa só me intranquiliza por reabrir as feridas do problema com Fliess”[19]. E é bem “naturalmente” a Adler, quando a ruptura com Jung se definir, que Freud então comparará o zuriquense[20]. A virulência da carta de 18 de dezembro de 1912 endereçada por Jung a Freud é do tamanho daquilo que está inconscientemente em jogo:

Sou objetivo o bastante para perceber o seu pequeno truque. O senhor anda por aí farejando todas as ações sintomáticas que ocorrem na sua vizinhança, reduzindo, assim, cada um ao nível de filhos e filhas, que admitem envergonhados a existência de seus erros. Enquanto isso o senhor permanece no alto, como o pai, em situação privilegiada.[21]

É preciso dizer que a sensação de perseguição particularmente viva que agita Jung nessa carta não é desprovida de fundamento: ela é o eco direto de uma interpretação misturada à ironia, tão selvagem quanto pertinente, contida na carta anterior de Freud[22]. Também nesse aspecto algo parece justamente se repetir desde a história de Fliess. Numa carta a Ferenczi de 10 de janeiro de 1910, Freud associa a reação patológica de Fliess a um “fragmento de análise, contrário a seu desejo”, que ele lhe havia então proposto — reduzindo sua obsessão pelo nariz ao anseio de salvar seu pai e sua teoria das datas predestinadas à morte de sua irmã[23]. Sentimento de perseguição de um lado, interpretação perseguidora (selvagem) do outro. Era bem possível, como pensou Ferenczi, que o paranoico apreendesse “verdadeiramente algumas coisas com a ajuda da intuição”[24].

Entre Freud e Ferenczi, agora. A homossexualidade está, também aqui, em questão, conscientemente percebida pelos dois protagonistas, mas de outro modo. A história é conhecida; ela gira principalmente em torno da viagem para a Sicília que os dois empreendem em setembro de 1910 — com “Schreber” em suas bagagens. É a Jung que Freud confia suas primeiras impressões:

Meu companheiro de viagem é uma criatura excelente, embora se mostre um sonhador incômodo e adote em relação a mim uma atitude infantil. Não se cansa de me admirar, o que me desagrada, e é provável que me critique com dureza no inconsciente, quando eu me deixo comover. Passivo e receptivo demais, permite que se faça tudo por ele, como uma mulher, e minha homossexualidade não vai tão longe para que o aceite como tal. Em viagens como esta a saudade de uma mulher de verdade é muito forte.[25]

A frase que se segue evoca o trabalho sobre a paranoia; não se saberia produzir associação mais explícita. Assim como Jung se mostra um admirador repleto de ambivalência, frequentemente capcioso, Ferenczi manifesta “sem pudores” a sua demanda de amor: “Não quero abandonar a esperança de que o senhor se deixe mobilizar uma parte da libido homossexual isolada e atribua mais simpatia ao meu ‘ideal de franqueza’”[26]. Dizer tudo / dizer-se todo: a regra fundamental tende a ir ao encontro, para Ferenczi, da própria fórmula do amor — antes que ao encontro da fórmula da análise mútua, quando duas pessoas “não têm vergonha uma da outra, não se dissimulam nada, dizem a verdade sem correr o risco de se ofenderem ou mesmo com a esperança certa de que, no âmbito da verdade, não pode haver ofensa durável[27]. O desejo homossexual, para Ferenczi, segue uma derivação mínima: da nudez dos corpos à da alma. É assim que ele próprio interpreta o sonho tido na Sicília, em que via Freud nu diante dele — Freud, nesse período, sonhava com Fliess… não há objeto de amor que não objeto perdido[28]. Ele assina, nestes termos, a sua patética carta de 3 de outubro de 1910: “Sedento de franqueza, seu Ferenczi”. Sabe-se o fim que Freud dará a todos esses transbordamentos:

Não tenho mais nenhuma necessidade dessa total abertura da personalidade […]. Então, por que está assim tão teimoso? Depois do caso Fliess, na superação da qual você precisamente me viu ocupado, essa necessidade extinguiu-se em mim. Uma parte do investimento homossexual foi retirada e utilizada para o engrandecimento do meu próprio eu. Tive êxito onde o paranóico fracassa.[29]

Extinto ou recalcado? Ferenczi, malicioso, vai se permitir duvidar, sob o risco de despachar Freud para o lado da… paranoia: “O senhor sabe: sou um terapeuta incorrigível. Nem mesmo um paranoico quero considerar caso perdido. Como poderia, então, habituar-me a isto: que o senhor estenda sua desconfiança, certamente em parte justificada, a todo o sexo masculino?”[30]

Entre a análise do caso Schreber feita por Freud, o lugar que nela ocupa a defesa contra a homossexualidade, e os conflitos psíquicos incubados nas relações Freud-Jung e Freud-Ferenczi, a relação certamente não é de simples similitude — todos os três estão de acordo em deixar a paranoia para Adler —, mas a proximidade não é menos impressionante. São os mesmos ingredientes libidinais e defensivos que governam a vida e alimentam o trabalho. “Schreber” é um dos assuntos que frequentemente reaparecem em suas trocas teóricas desse período. Freud deve a Jung — que cita Schreber em 1906, no seu artigo sobre a dementia praecox — ter tido a atenção chamada para as Memórias. No momento de sua reflexão sobre a paranoia, ele endereça ao psicanalista zuriquense verdadeiros manuscritos[31] que lembram os outrora enviados a Fliess. O breve suplemento que será acrescentado ao texto um ano depois da sua primeira publicação é um tipo de piscadela para Jung: “penso num complemento à análise de Schreber que certamente lhe falará de perto”[32]. Resta que o acordo dos dois sobre a questão é apenas aproximativo. Sua escolha nosográfica respectiva é disso indício: enquanto Freud diz “paranoia”, Jung continua falando dementia praecox. A abordagem reservada por este último ao “Schreber” é matizada de ambivalência, misturando o cumprimento à inveja, até mesmo ao respectivo julgamento:

não só capaz de provocar gargalhadas como também brilhantemente escrito. Fosse eu um altruísta e estaria a dizer como me alegro ao vê-lo apegar-se a Schreber e mostrar à psiquiatria os tesouros que aí jazem. A verdade, porém, é que tenho de me contentar com o papel do invejoso, por não ter sido o primeiro a fazê-lo, se bem que isso não seja propriamente um consolo. Não havia outro jeito, pois meu tempo era consumido por coisas que para mim tinham mais valor que os problemas especificamente psiquiátricos.[33]

Anos mais tarde a crítica de Jung perderá toda reserva: “O caso Schreber foi, no seu tempo, analisado por Freud — que por mim foi alertado sobre o livro — de maneira totalmente insuficiente”[34].

Entre Freud e Ferenczi, igualmente, o “Schreber” é um espelho privilegiado do que os aproxima e os separa. Longe das nuances junguianas, Ferenczi não apenas compra a tese freudiana, mas seria facilmente levado a forçar-lhe a barra: “A paranoia quiçá não seja outra coisa, a não ser uma deformação da homossexualidade”[35]. O “Schreber” está viajando pela Sicília e parece justamente que os dois homens vislumbraram um verdadeiro trabalho em comum, passando talvez até pela ideia de publicação. Contudo o projeto aborta ou, mais exatamente, submete-se às consequências do mal-entendido no seio do casal. Ferenczi contará mais tarde a Groddeck do “jeito rompante” com que ele se havia retirado do negócio:

Em Palermo, onde [Freud] queria fazer esse famoso trabalho sobre a paranoia (Schreber) comigo, em repentino acesso de revolta eu bati o pé desde a primeira noite de trabalho — quando ele quis me ditar alguma coisa e eu lhe expliquei que não se tratava de um trabalho comum ele ficar simplesmente me ditando. “Então é assim que você é?”, disse ele, impressionado. “Você está manifestamente querendo pegá-lo todo?” Desde então, trabalhou sozinho todas as noites.[36]

A história seguinte é uma história de amor platônico. Diversas vezes, Freud encoraja Ferenczi a publicar por sua própria conta: “Se quiser publicar a paranoia, anda logo, pois o meu Schreber (logo) será terminado. Um atraso faria você perder o impacto dela”. “É preferível que fique independente de mim no que concerne à paranoia”[37]. Ao que Ferenczi responde, um pouco deprimido: “A ‘autonomia’ que o senhor me reservou sobre a questão da paranoia não me convém manifestamente. […] ainda não escrevi uma linha sequer”[38].

A pergunta que Freud se faz a propósito do “Schreber” (“até que ponto pude manter meus próprios complexos ao largo?”[39]) pode ser feita sobre qualquer outra obra sua; e ser feita, em geral, sobre todo e qualquer escrito psicanalítico — tanto é verdade que o inconsciente é um objeto de investigação que arresta o analista, minimamente na medida em que o primeiro é suscetível de poder se apoderar do segundo. Resta que, no caso das Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia, os fios entre a vida e a obra, mas também entre o conteúdo da obra (a paranoia) e a teoria encarregada de dela dar conta (a psicanálise) revelam-se bem particularmente emaranhados. Ecoando uma observação de Freud, Ferenczi nota que o distanciamento entre psicanálise e paranoia se reduz àquele que separa indicativo e imperativo. Se a psicanálise se esquecer como “ciência de fatos”, submetida ao desmentimento da experiência, para ser formulada imperativamente, propondo-se como Weltanschauung [visão de mundo], nada mais a distinguirá do delírio singular de um Schreber ou do “delírio coletivo” que uma religião constitui. Essa proximidade é arriscada, e também fascinante. O próprio Schreber, que discute “alucinação” com Kraepelin, não está longe de ser uma personagem da correspondência, e não apenas seu objeto. Freud, Jung e Ferenczi, carentes de identificação, tomam emprestado do Presidente da corte de apelação o seu “falar de nervos”. A “língua fundamental”, que é para o inconsciente o que os “raios divinos” são para os investimentos libidinais, sela a cumplicidade dos missivistas: é sucessivamente questão de “miraculado”, de “homens feitos às pressas” ou da necessidade de estabelecer um “conexão nervosa” com esse ou aquele.

Neuropsicoses

A teoria freudiana da paranoia, tal como formulada em 1910, permanecerá a mesma. Os grandes remanejamentos ulteriores, especialmente a introdução da pulsão de morte, não lhe farão nada. Nada abalará a convicção de Freud: na paranoia é “a pessoa mais amada do mesmo sexo que se torna o perseguidor[40]. Freud admite, sem dúvida, que o recalcado enquanto tal, o conteúdo das representações inconscientes, não poderia ser chamado de paranoico (nem mesmo histérico ou obsessivo)[41]; de todo modo, ele descreve as diversas formas de paranoia como número de combinações possíveis de um núcleo conflitual sempre homossexual. Acrescentemos que essa constância, para além de 1911, é igualmente perceptível antes disso: Análise de um caso de paranóia crônica, publicado em 1896, sem reconhecer à homossexualidade um lugar explícito, sugeria fortemente a sua importância na apresentação do material clínico[42]. Em 1915, Freud se deu o trabalho de escrever um breve artigo, intitulado “Comunicação de um caso de paranoia que contradiz a teoria psicanalítica”, a fim de ilustrar sua “opinião em favor de uma dependência, geralmente válida, do delírio de perseguição com relação à homossexualidade”[43] — na circunstância, contra as reputações heterossexuais de uma paranoia feminina. Nota-se, apesar disso, que esse texto de 1915 introduz, ao fazer referência ao fantasma da cena originária, uma espécie de derivação em relação ao tema central da homossexualidade. A ideia de um vínculo privilegiado entre paranoia e força patógena da cena primitiva será o feito de desenvolvimentos pós-freudianos[44]. Mesmo se ele, Schreber, que pensava que “deveria ser realmente belo ser uma mulher submetendo-se ao coito”, mas ao mesmo tempo temia a prostituição de seu corpo “como prostituta feminina” (p. 26), certamente já teria podido conduzir Freud a essa pista.

A insistência de Freud em vincular paranoia e homossexualidade deve ser entendida num quadro mais geral: o da etiologia sexual. A análise das Memórias é, para ele, a oportunidade de reafirmar: “As raízes de toda doença nervosa e psíquica devem ser buscadas sobretudo na vida sexual” (p. 41). Em todo caso: para “nós, psicanalistas”. Seria bem espantoso que Freud não tivesse Adler na cabeça — se não Jung, além disso — ao renovar uma profissão de fé outrora destinada à única “medicina oficial”, mas agora visando algo das cercanias. Uma das apostas do texto freudiano é a de sustentar que na paranoia também, também na psicose, é do sexual conflituoso que se trata. “A etiologia sexual não é óbvia” na paranoia (p. 79), ela precisa ser demonstrada; e Schreber, precisamente, não é “o ‘caso negativo’, há muito procurado, em que a sexualidade tem papel irrelevante” (p. 42). É ao crime incestuoso — ou ao onanismo — que Freud remonta a partir do “assassinato de alma” (p. 50), e não somente à influência (manifesta) sobre o pensamento. O modelo solicitado por Freud segue sendo o de uma (homo)sexualidade solta, de uma “grande fluxo de libido” (p. 82), fazendo desmoronar as sublimações. Com Schreber acontece o que acontece com Fliess (tratando-se, para o último, de um desprendimento de um amor até então associado ao objeto Freud): a paranoia é a saída de uma demasia sexual que não se deixa liquidar, uma vez abandonadas as vias anteriormente tomadas emprestado. O conflito que ela tenta solucionar nasce menos da homossexualidade enquanto tal do que de seu desprendimento.

Discutir o lugar da sexualidade na psicose ultrapassa evidentemente o âmbito deste prefácio; apenas importa sublinhar o que será a posição intangível de Freud na matéria. Isso é ainda mais necessário quando se percebe que o primeiro artigo psicanalítico sobre Schreber que defenderá abertamente a opinião oposta à tese freudiana, o de I. Macalpine e R. A. Hunter, é também um texto que renega ao sexual todo e qualquer papel patogênico nessa circunstância[45].

Sem que seja possível unificar os diferentes pontos de vista críticos acerca da tese freudiana, existe ao menos um acordo amplamente partilhado de recusar à homossexualidade um papel etiológico — o que já era perceptível nas observações de Bleuler em 1912[46]. O laço entre paranóia e homossexualidade é menos negado que deslocado: da causa para a solução. É como saída, como ligação, que a homossexualidade figura então no quadro. Dito de outro modo, quanto mais homossexual é o paciente, menos psicótico ele é[47]. Freud teria considerado os temas neuróticos presentes na psicose como sendo a própria psicose; o raciocínio de Lacan, por exemplo, vai todo nesse sentido[48].

O fato de que Freud oferece o flanco a tais ataques é algo pouco contestável. “O mistério [do caso Schreber] já ficava claro”, escreve ele a Jung em 1º de outubro de 1910,

A redução ao complexo nuclear é fácil. A mulher dele se apaixona pelo médico e conserva anos a fio, sobre a mesa, um retrato do mesmo. Ele também, é claro, mas no caso da mulher há decepções, há o fracasso em ter filhos; desenvolve-se assim o conflito; ele teria de odiar Flechsig como rival, mas na verdade o ama por força da disposição e da transferência oriundas da primeira doença. A situação infantil está agora completa e logo surge por trás de Flechsig a figura do pai.[49]

Eis aí, pois, uma história a três, toda “edipiana”, permitindo ao psicanalista encontrar-se num “terreno bem familiar” — o do complexo paterno e de seu inevitável complemento: o complexo de castração.

Desde os manuscritos H (24 de janeiro de 1895) e K (1º de janeiro de 1896) endereçados a Fliess existe em Freud, indiscutivelmente, uma vontade de pensar a paranoia sobre o fundo de uma comunhão com os dois grandes registros neuróticos: histeria e neurose de compulsão. Essa comunhão sustenta-se em algumas palavras: representação inconciliável (sexual, infantil), defesa, conflito psíquico, formação de sintoma. Tomando sucessivamente o exemplo da psicose alucinatória e da paranoia, Freud produz em 1894 e 1896 dois artigos sobre as “neuropsicoses de defesa”, em que frisa de uma só vez a solidariedade e a originalidade dos diferentes registros[50]. O “Schreber” também ecoa essa preocupação no átimo de uma fórmula: “A paranoia decompõe assim como a histeria condensa” (p. 66). Ou ainda, conservando o termo genérico de recalque para qualificar o mecanismo específico do desprendimento da libido. Quaisquer que sejam as suas evoluções ulteriores — especialmente com a introdução da clivagem do eu —, Freud jamais abandonará a ideia de um fundo comum à neurose e à psicose. Até escrever, em 1937: “também ao delírio se aplicaria a frase que um dia usei apenas para a histeria: que o doente sofre de suas reminiscências”[51].

Confrontado às desmesuras das Memórias, é preciso reconhecer que a abordagem “neurotizante” de Freud parece, às vezes, bem razoável. Sobre o fundo de “complexo paterno” estaríamos no direito de esperar do Presidente da corte de apelação uma homossexualidade que o próprio Freud define como esquiva da concorrência[52]. Em vez disso, temos as loucuras femininas de “Miss Schreber”. As fórmulas da paranoia, das quais Freud faz o inventário, reúnem no amor e no ódio pessoas, objetos totais. A libido “inundante” das Memórias é amplamente dominada pelas pulsões parciais, especialmente masoquistas, anais[53]. Freud insiste em citar a passagem inteira das Memórias concernindo aos problemas de “evacuação” do Presidente, sem que se encontrem os elementos na interpretação ulterior. A ideia de que a fantasia de anseio de transformação em mulher pudesse ser resultado da ameaça paterna de castração — e, para além disso, a ideia de que a paranoia eclode no terreno do complexo de castração — não é muito convincente. A equação feminino = castrado pouco suscita Schreber, completamente ocupado em observar seus seios no espelho, deixar-se penetrar-fecundar pelo raios divinos e engendrar uma nova raça de homens. A emasculação, que as Memórias descrevem, não evoca em nenhum momento, aliás, a representação de um cerceamento, de uma mutilação, mas mais a de uma involução embrionária, de uma retração de fora para dentro — fiéis reflexos das concepções ginecológicas que dominaram, por muito tempo, a medicina ocidental desde Galeno e Avicena[54]. Em apoio à tese freudiana têm-se, por vezes, invocado as reais experiências de castração conduzidas por Flechsig com fins terapêuticos, e das quais Schreber devia ter conhecimento. Sem dúvida… mas o texto sobre a questão, que Flechsig publica em 1884, se intitula: Zur gynaekologischen Behandlung der Hysterie [Sobre o tratamento ginecológico da histeria]. Os únicos aparelhos genitais aos quais se dirigiu o honorável Professor são os femininos. O que ele ameaçava em Schreber: o homem ou a mulher?

A riqueza específica de um texto de Freud, não somente do “Schreber”, é que jamais se deixa conduzir numa única linha de pensamento. Assim, a página 46, consagrada à identificação feminina, abre uma perspectiva totalmente outra que não aquela balizada pelo complexo de castração. Freud prolongará implicitamente o questionamento em 1919, num artigo que foge ao raciocínio falocêntrico, consagrado à fantasia feminina de fustigação, “Uma criança apanha”[55], que ele relacionará com o que constitui a “base da mania de querela dos paranoicos”[56].

Da homossexualidade ao narcisismo

Eis aí, pois, Freud debatendo-se com as dificuldades intrínsecas de seu próprio raciocínio: se complexo paterno e fantasia homossexual não têm nada de específico da paranoia, de onde ela tira a sua originalidade? O que a fantasística é insuficiente para assegurar, pode-se esperá-lo do mecanismo? O problema é duplo, conforme se encara a formação de sintoma (por projeção) ou o próprio recalcamento. Se a paranoia usa e abusa da projeção, o fato é que tal mecanismo de defesa participa regularmente da “nossa atitude para com o mundo externo” (p. 88). Já em seu primeiro escrito sobre a paranoia, o Manuscrito H, Freud manifestava certo embaraço em distinguir o “abuso” paranoico da projeção de uso normal[57]. Dado que o estudo da projeção será postergado — para um “outro contexto” que jamais se apresentará —, resta interrogar o próprio processo de recalcamento.

A importância desse momento para o “Schreber”, para o conjunto da obra freudiana e, além disso, para a psicanálise como um todo, é capital: não se trata de nada menos que a introdução do narcisismo. Para ser exato, a palavra já se apresentou uma primeira vez na pena de Freud, bem pouco tempo antes, a propósito da gênese da escolha do objeto (homossexual, pedofílico) em Leonardo da Vinci[58]. O narcisismo se impõe à psicanálise — e, com ele, a reviravolta da tópica e da teoria das pulsões — quando a perversão, e mais ainda a psicose, tornam-se seus objetos de reflexão. Se a atenção dada ao recalcamento (entendido como designação genérica do processo constitutivo do inconsciente) na paranoia é também oportunidade para introduzir o narcisismo, é porque a definição proposta por um caracteriza, ao mesmo tempo, a dinâmica do outro: “desprender-se da libido em relação a pessoas (…) antes amadas” (p. 94)[59]. A originalidade paranoica, contudo, reside menos nesse desprendimento que no passo seguinte, narcísico até a patologia: utilização da libido assim liberada para o engrandecimento do eu[60].

Como é de costume em Freud, essa “introdução” tem sinais precursores nos anos de nascimento da psicanálise. Assim, escrevia a Fliess que os paranoicos “amam seus delírios como amam a si mesmos. É esse o segredo”[61]. Noutra ocasião (carta de 9 de dezembro de 1899), a ideia inclusive tomava forma de um jeito impressionante: “A paranoia dissolve a identificação, reinstaura todas as pessoas amadas da infância […] e dissolve o próprio eu nas pessoas externas” — a paranóia “decompõe”, dirá Freud no “Schreber”. A clivagem do eu não está longe[62] — “Assim, passei a encarar a paranoia como uma irrupção da corrente autoerótica, um retorno a um estado anterior”[63].

Resta o fato, é claro, de que a riqueza da terceira parte do “Schreber” tem, sobretudo, valor antecipatório: com relação à introdução “oficial” do narcisismo em 1914; à redistribuição pulsional de 1920; e ao lugar do eu nos últimos desenvolvimentos da obra freudiana. Vamos nos contentar, aqui, em seguir o nosso fio de partida: a homossexualidade. Cercada entre a fixação e a regressão ao narcisismo típico da paranoia, a homossexualidade aparece agora, no próprio raciocínio de Freud, como esse tempo secundário (tempo de ligação) que lhe será atribuído pela crítica pós-freudiana. “Amar um homem” segue como um “amar a si mesmo” mais radical. A escolha do objeto homossexual é uma re-presentação da escolha do objeto narcísico. Simultaneamente, o delírio de grandeza e a fantasia de fim do mundo vêm ao primeiro plano. “Miss Schreber” se apaga diante da “conexão” entre todos, mesmo se, em sua mansidão, o Presidente admite a companhia de outros grandes “conectados”: Wagner, por exemplo[64].

Contudo, articulando as coisas assim, corre-se o risco de reduzir rápido demais a complexidade do “Schreber”. Duas linhas psicogenéticas da homossexualidade, e de sua combinação com o narcisismo, disputam implicitamente a prevalência. Uma faz derivar a homossexualidade diretamente do amor do filho pelo pai, ainda que Freud insista regularmente sobre a mediação fraternal e que ele esteja longe de negligenciar a identificação à mulher — aquela que conservava a foto de Flechsig sobre a sua escrivaninha. Essa via concretiza particularmente a equação entre narcisismo e recalque, vindo o redobramento narcísico responder àquilo que a escolha do objeto incestuoso-homossexual tem de “inundante”. Apesar de ser distinto da via “leonardina”, um processo assim parece com ele, contudo, num ponto: nos dois casos o narcisismo é secundário, ele responde por seu desmesurado fechamento da abertura ao objeto (a mãe, para Leonardo; o pai, para Schreber).

A outra linha, que desenha mais transparentemente a argumentação freudiana, faz do amor do filho pelo pai a retomada de amor pelo mesmo (sexo) — ou seja, a duplicação do amor de si. Dessa vez o narcisismo é primário, constituindo-se pela síntese do autoerotismo antes de todo amor de objeto. A articulação narcisismo-recalque torna-se, então, mais obscura — tanto é verdade que a invasão pela libido narcísica evoca mais o retorno do recalcado do que o combate contra ele.

Na esteira da análise de Freud, a homossexualidade se revela de uma equivocidade da qual a crítica pós-freudiana geralmente se ausentou. Operador ou elo, ela se mostra um guia tão indispensável à descrição psicopatológica quanto à construção teórica. Numa de suas faces contempla a neurose, pelo viés da ligação e da manutenção do amor objetal. Na outra, leva Freud ao narcisismo e seu triunfo na psicose, pela via do desprendimento da libido objetal e do louco investimento do eu. Lá onde a homossexualidade cessa para deixar Narciso sozinho com ele mesmo começa a pura (auto)destrutividade: “Eu não amo absolutamente, não amo ninguém” (p. 86).

REFERÊNCIAS

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* Jacques André é psicanalista. Em 1986, defendeu sua tese de doutorado intitulada L’inceste focal: la famille noire antillaise, structure et conflits [O incesto focal: a família negra caribenha, estrutura e conflitos], sob orientação de Jean Laplanche, na Université Paris 7 (Diderot), da qual hoje é professor emérito de psicopatologia. É membro da Association Psychanalytique de France, da qual foi presidente em 2016.

** Paulo Sérgio de Souza Jr. é psicanalista e tradutor. Bacharel e doutor em linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, realizou pós-doutoramento pela Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atuou como professor associado na Universitatea Alexandru Ioan Cuza, em Iași, e como tradutor residente no Institutul Cultural Român, em Bucareste. É pesquisador associado dos grupos de pesquisa Outrarte (Unicamp) e Tradução e Psicanálise (UnB), e coordenador da série “pequena biblioteca invulgar” na Editora Blucher. É autor de O fluxo e a cesura: um ensaio em linguística, poética e psicanálise (Blucher, 2023).



[1] SCHREBER, Daniel Paul (1903) Memórias de um doente dos nervos. Trad. M. Carone. Rio de Janeiro: Graal, 1984 [N. de T.]

[2] FREUD, Sigmund (1910) “Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci”. In: Obras completas, vol. 9. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, pp. 113-219.

[3] Carta de Freud a Jung, 11 de novembro de 1909. FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 313.

[4] Carta a Jung, 1º outubro de 1910. FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, pp. 415-416

[5] Deve-se a F. Baumeyer a divulgação dos dossiês psiquiátricos do Presidente Schreber. Cf. PRADO DE OLIVEIRA, Luis (org.) Le cas Schreber: contributions psychanalytiques. Paris: PUF, 1979, p. 171.

[6] Os principais artigos desse autor, desde o primeiro em 1951, estão reunidos no volume coletivo: PRADO DE OLIVEIRA, Luis (org.) Le cas Schreber: contributions psychanalytiques. Paris: PUF, 1979. Cf. igualmente o artigo da revista Scilicet (nº 4, 1973, Ed. du Seuil): “Une étude, la remarquable famille Schreber”. O livro de M. Schatzman, L’esprit assassiné (Paris: Stock, 1974), cita numerosas passagens das obras do pai de Schreber, mas a obra padece do caráter rude de suas elaborações e de um desconhecimento da psicanálise.

[7] Citado em (1973) “Une étude, la remarquable famille Schreber”, Scilicet, n. 4, Ed. du Seuil, p. 311.

[8] (1973) “Une étude, la remarquable famille Schreber”, Scilicet, n. 4, Ed. du Seuil, p. 313. Igualmente: SCHATZMAN, Morton (1974) L’esprit assassine. Trad. J. Esnault-Vaillant. Paris: Stock, 1974, pp. 160-161.

[9] Esse destino das palavras do pai na língua do filho evoca a descrição que Freud dá do tratamento esquizofrênico da linguagem (cf. O inconsciente (1915), em Obras Completas vol 12 trad Paulo Cesar de Souza, São Paulo: Cia das Letras). Esquizofrênico ou paranóico? Com Schreber a questão se coloca, e isso antes do próprio Freud, que admite um modo misto de organização. M. Klein, e outros depois dela, colocarão anteriormente a ênfase no aspecto dissociado (esquizofrênico) de Schreber (M. Klein (1946) Notas sobre alguns mecanismos esquizóides. In Obras Completas de M. Klein – Vol. III. trad. B. Mandelbaum. Rio: Imago, 1991.).

[10] FREUD, Sigmund (1937) “Construções na análise”. In: Obras completas, vol. 19. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. #.

[11] Carta de Freud a Ferenzi, 6 de outubro de 1910; e de Ferenczi a Freud, 12 de outubro de 1910: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy.

[12] FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, pp. 164-165; trad. modificada.

[13] Carta de Freud a Jung, 18 de dezembro de 1910: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 437.

[14] Cartas de Ferenczi a Freud, 7 de dezembro de 1909 e 27 de outubro de 1910: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, pp. 119, 177.

[15] FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 137.

[16] Carta a Jung, 9 de março de 1909: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 259.

[17] Carta a Freud, 20 de fevereiro de 1908: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 166.

[18] Carta a Freud, 11 de março de 1909: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 262.

[19] Carta de 22 de dezembro de 1910: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 440. A ruptura com Adler ocupara Freud durante os primeiros meses do ano de 1911.

[20] Carta de Freud a Jung, 23 de maio de 1912: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 576.

[21] FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 606. [N. de T.]

[22] Ao se defender da acusação de Freud de um afastamento (teórico) com Adler, Jung comete o seguinte lapso: “Nem mesmo os amigos de Adler consideram-me um dos seus” (grafado Ihrigen, “vossos”, em vez de ihrigen, “deles”). O que Freud sublinha duplamente: retomando a frase e assinando: “Apesar de tudo, seu” (grafado Ihrige, “vosso”). Carta de Jung a Freud de 11-14(?) de dezembro de 1912; e de Freud a Jung, de 16 de dezembro de 1912: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, pp. 604, 605.

[23] Carta de Freud a Ferenczi, 10 de janeiro de 1910: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, pp. 133-134.

[24] Carta de Ferenczi a Freud, 13 de maio de 1911: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, p. 292. A ideia será retomada por Freud no artigo de 1922: FREUD, Sigmund (1922) “Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade”. In: Obras completas, vol. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, p. #.

[25] Carta de 24 de setembro de 1910: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 410.

[26] Carta a Freud, 12 de outubro de 1910: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, p. 234.

[27] Carta a Freud, 3 de outubro de 1910: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, p. 229. É Ferenczi quem destaca a passagem.

[28] Cartas de Ferenczi, 3 de outubro de 1910, e de Freud, 6 de outubro de 1910: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, pp. 228, 232.

[29] Carta de 6 de outubro de 1910, Correspondance, op. cit., p. 231.

[30] Carta de Ferenczi a Freud, 12 de outubro de 1910: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, p. 234.

[31] Quelques opinions théoriques sur la paranoïa (14-21( ?) de abril de 1907), Correspondance, op. cit., p. 86-

[32] Carta de 1º de setembro de 1911: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 505.

[33] Carta de Jung a Freud, 9 de março de 1911: FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, pp. 466-467.

[34] Citado no volume de Correspondance Freud/Jung, op. cit., p. 399.

[35] FERENCZI, Sándor (1911) “O papel da homossexualidade na patogênese da paranoia”. In: Obras completas – Psicanálise, vol. 1. São Paulo: Martins Fontes, 2011, p. #.

[36] Carta de Ferenczi a Groddeck, 25 de dezembro de 1921: FERECZI, Sándor; GRODDECK, Georg, Correspondance (1921-1933). Paris: Payot, 1982, p. 56-57. Cf. a carta de Ferenczi a Freud, 27 de maio de 1911: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, p. 297.

[37] Cartas de Freud a Ferenczi, 15 de novembro de 1910 e 23 de novembro de 1910: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, pp. 242, 246.

[38] Carta de Ferenczi a Freud, 2 de dezembro de 1910: FREUD, Sigmund; FERENCZI, Sándor (1992) Correspondance, 1908-1914. Paris: Calmann-Lévy, p. 246.

[39] FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 440.

[40] FREUD, Sigmund (1922) “Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade”. In: Obras completas, vol. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, p. #.

[41] FREUD, Sigmund (1922) “Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade”. In: Obras completas, vol. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, p. #.

[42] FREUD, Sigmund (1896) “Observações adicionais sobre as neuroses de defesa”. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 3. Rio de Janeiro: Imago, 1996, pp. 159-183.

[43] FREUD, Sigmund (1915) “Comunicação de um caso de paranoia que contradiz a teoria psicanalítica”. In: Obras completas, vol. 12. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp. 151-170.

[44] Cf. especialmente: FAIRNBAIRN, William Ronald Dodds (1956) “Considérations au sujet du cas Schreber” In: PRADO DE OLIVEIRA, Luis (org.) Le cas Schreber: contributions psychanalytiques. Paris: PUF, 1979, pp. 201-ss.; ROSOLATO, Guy (1963) “Paranoïa et scène primitive”. In: Essais sur le symbolique. Paris: Gallimard, 1969.

[45] MACALPINE, Ida; HUNTER, Richard A. (1955) “Discussion sur le cas Schreber”. In: PRADO DE OLIVEIRA, Luis (org.) Le cas Schreber: contributions psychanalytiques. Paris: PUF, 1979, pp. 111-ss. Renegação é a palavra, tanto que esses dois autores — qualquer que seja, aliás, o interesse do artigo —, que colocam no cerne de sua análise das Memórias uma fantasia arcaica (pré-sexual) de procriação, sustentam a sexualidade anal à margem de suas colaborações. O texto é bastante representativo de uma tendência psicanalítica pós-freudiana de reidentificar o sexual ao genital, ao objetal. É curioso ver que a interpretação de Lacan às vezes é muito próxima da de Macalpine e Hunter; cf. LACAN, Jacques (1981) O seminário, livro III: As psicoses (1955-1956). Trad. A. Menezes. Rio de Janeiro: Zahar, p. # (p. 99 do francês).

[46] Cf. BLEULER, Eugen (1912) “Freud, ‘Psychoanalytische Bemerkungen über einen autobiographisch beschriebenen Fall von Paranoia (Dementia Paranoides)’”. Zentralblatt für Psychoanalyse, vol. 2, p. 343.

[47] Cf. MACALPINE, Ida; HUNTER, Richard A. (1955) “Discussion sur le cas Schreber”. In: PRADO DE OLIVEIRA, Luis (org.) Le cas Schreber: contributions psychanalytiques. Paris: PUF, 1979, p. 115.

[48] LACAN, Jacques (1981) O seminário, livro III: As psicoses (1955-1956). Trad. A. Menezes. Rio de Janeiro: Zahar, p. # (p. 121 do francês).

[49] FREUD, S.; JUNG, C. G., Correspondência completa. Org. W. McGuire; Trad. L. Fróes e E. A. M. de Souza. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 415.

[50] FREUD, Sigmund, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 3. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

[51] FREUD, Sigmund (1937) “Construções na análise”. In: Obras completas, vol. 19. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p. #. Freud faz, aqui, referência à célebre frase da «Communication préliminaire», de 1893, nos Études sur l’ystérie (1985), PUF, 1956, p. 5.

[52] FREUD, Sigmund (1922) “Sobre alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e na homossexualidade”. In: Obras completas, vol. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras.

[53] Cf. as observações sobre esse assunto feita por J. Laplanche: LAPLANCHE, Jean (1993) “Séduction, persécution, révélation”. Psychanalyse à l’Université, n. 72, pp. 10-ss.

[54] Cf. p. 53 da edição original das Memórias (1903); p. 58 da tradução francesa: Mémoires d’un névropathe (Le Seuil, 1975); p. 74 da edição brasileira.

[55] No original alemão, Ein Kind wird geschlagen, geralmente é traduzido por “Bate-se numa criança”. No entanto, para além da possibilidade de leitura em que a criança é tão somente objeto do ato de bater (ein Kind ist geschlagen, uma criança é fustigada), a frase também comporta o sentido de que a criança se faz fustigar — ambiguidade já contida no próprio verbo “apanhar”. [N. de T.]

[56] FREUD, Sigmund (1919) “Batem numa criança: contribuição ao conhecimento da gênese das perversões sexuais”. In: Obras completas, vol. 14. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. #.

[57] FREUD, Sigmund (1895) “Manuscrito H [Anexo à carta a Fliess de 24 de janeiro de 1895]”. In: Neurose, psicose, perversão. Trad. M. R. Salzano Moraes. Belo Horizonte, 2016, p..

[58] FREUD, Sigmund (1910) “Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci”. In: Obras completas, vol. 9. Trad. P. C. de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. #.

[59] Não é mais Jung ou Ferenczi que Freud encontra, dessa vez, para um tempo de elaboração partilhada, mas Abraham: cf. cartas de 26 de julho de 1907, 4 de outubro de 1907 e 21 de outubro de 1907 (FREUD, Sigmund; ABRAHAM, Karl (1969) Correspondance (1907-1926). Paris: Gallimard). O propósito de Freud seria claramente a oportunidade de abrir a discussão sobre a teoria da recusa. Qual a relação entre essa recalcamento-desprendimento e o processo defensivo descrito nas neuroses de transferência?

[60] Notar que, quando Freud escrevia a Ferenczi “Tive êxito lá onde o paranoico fracassa”, estava indicando com isso uma via (recuo do investimento homossexual – engrandecimento do eu próprio) que é a mesma que o paranoico segue.

[61] FREUD, Sigmund; FLIESS, Wilhelm (1985) A correspondência completa (1887-1904). Org. J. M. Masson. Rio de Janeiro: Imago, 1986, p. 112.

[62] Cf., sobre esse ponto, as observações de A. Green: GREEN, André (1977) “Transcription d’origine incomune”. Nouvelle revue de psychanayse, n. 16, p. 39.

[63] FREUD, Sigmund; FLIESS, Wilhelm (1985) A correspondência completa (1887-1904). Org. J. M. Masson. Rio de Janeiro: Imago, 1986, p. 391.

[64] Na edição alemã: p. 17, nota 10. Na edição francesa: p. 31, nota 10). Na edição brasileira: p. 44, nota 10.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | ANDRÉ, Jaques (2023) Prefácio à edição francesa de O caso Schreber. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -14, p. 10, 2023. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2023/06/04/n-14-07/>.