Atas do Ato ‘Psicanalistas pela democracia’

APRESENTAÇÃO | Abril despedaçado: psicanalistas pela democracia

Paulo Endo

No dia 7 de abril de 2016, mais de 50 anos após o golpe civil-militar e mal chegados os 30 anos de democracia no Brasil, realizou-se no Instituto de Psicologia da USP o ATO: Psicanalistas pelo apoio incondicional à democracia no Brasil. Dez dias depois ocorreria a votação do impeachment da presidente Dilma Roussef na Câmara dos deputados em Brasília, que aprovara a continuidade do processo.

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Mais de 300 psicanalistas, alunos e simpatizantes compareceram ao ATO e outros milhares assistiram pela internet e, depois, no portal https://psicanalisedemocraciabrasil.wordpress.com/, que foi criado especialmente para a divulgação do vídeo, apoios, manifestações e artigos que respondessem à convocação da chamada. Ao mesmo tempo, novos ATOs, manifestações e petições, organizados por outros psicanalistas, ocorriam em outros estados do país.

Essa congregação de psicanalistas, advindos de diversas universidades brasileiras, de diferentes grupos, associações e sociedades de psicanálise, de dentro e de fora do país, inscreveu, por sua força e propósito, uma marca no campo mesmo onde se exerce, se pesquisa e se estuda a psicanálise no Brasil.

A palavra ouvida, proferida, remetida nesse ATO era endereçada aos psicanalistas, às respectivas instituições onde se formam e estudam os psicanalistas e aos cidadãos de um país que atravessa uma das crises mais importantes de sua história. Era também endereçada aos alunos, pesquisadores e também aos analisandos(tes), simpatizandos(tes) e interessados na psicanálise.

Como ATO, revelou um princípio, gênese e manifestação de psicanalistas que foram, coletivamente, para a cena pública, pela primeira vez em nosso país, reconhecer um processo em curso que prevê a derrota da democracia recém conquistada no Brasil; o desmonte de suas esquelética institucionalidade e o protagonismo de classes sociais que odeiam a democracia e a liberdade que ela promete e enseja.

A hiperconcentração de recursos, privilégios, aspirações, sonhos nas mãos de poucos, ofende a todos e agride os princípios que regem a clinica e o pensamento psicanalíticos. Seus efeitos mais óbvios para a psicanálise incluem o acesso privatista e restrito ao tratamento psicanalítico, mas também o ataque e tentativas de ridicularização da psicanálise e dos psicanalistas quando pensam, escrevem, agem para constranger as bravatas e palavras de ordem; propõem debates e questões para além e aquém do visto, do dito e do verdadeiro; quando demonstram a insuficiência do aparente e do manifesto dos discursos aspirantes à verdade incontestável.

Os efeitos da negação de conquistas sociais e políticas no presente querem determinar, mais uma vez, que alguns são sujeitos e outros são assujeitados; que alguns são dignos de escuta e outros são calados; que alguns são intérpretes e outros são categorias; que alguns vivem histórias arquiváveis, outros, histórias calcináveis.

Somos todos testemunhas dos achaques ininterruptos e seculares cometidos contra a democracia no Brasil. Ataques que incidem sobre o corpo do não cidadão, aquele que é calado, submetido e eliminado, mas seu objeto é o espírito, a devastação psíquica para que não haja marcas, traços ou vestígios após a passagem da força bruta. Todos vimos e vemos violências serem cometidas e narrativas serem ratificadas, como efeitos de verdades incontestes; e todos fomos alvos de tentativas de agenciamentos para dar seguimento à hegemonia dos discursos,  práticas jurídicas, midiáticas e empresariais que sempre estiveram no comando para reservar os profusos recursos do país a muito poucos.

Hoje parte significativa dos proprietários das grandes empresas-mídias, indústrias e parte dos operadores do direito é ocupada e comandada pelas mesmas elites que dominam o país há séculos. Os 30 anos de democracia não foram suficientes para mudar isso consistente e significativamente.

Para muitos desses psicanalistas que compareceram, apoiaram e se manifestaram nesse dia, a democracia no país está ameaçada; e, para eles, diante de tal ameaça, é da palavra singular proferida como reconhecimento do sujeito público que se carece. Daí o sentido do ATO que se consagra como experiência de fala pública e coletiva, que funda a linguagem e interpreta suas repetições, ecolalias, clichês e imperativos.

ATO que convoca todas as outras falas singulares, para que se constitua o pluralismo contra a hegemonia, e apela à singularidade como esteio da experiência pública. Um ATO requisita uma fala de origem, inédita e inaugural e se apresenta como interpretação quando a hegemonia discursiva se sobressai. Um ATO gera a interpretação e denuncia as falas impositivas, supostamente abrigadas no consenso e que, cínica e duradouramente, amparam a destruição de tudo o que não se submete a esse pretenso consenso.

Essa palavra positivada e positivista rejeita a palavra não que castra a palavra portadora da verdade, interpreta os princípios que regem a palavra de ordem e suscita o frescor do pensamento quando a ordem é não mais pensar. I would prefer not to, relebrando Bartleby.

Um ATO perfura os simulacros das palavras perfeitas, sem excluir os riscos do próprio discurso psicanalítico quando se exibe aquém ou além das tramas discursivas e institucionais que o definem; e, ao fazê-lo, evidencia que o rei está nu, e os juízes estão sem toga. Abre-se então, por um momento, o debate para desnudar verdades que tem no ordenamento jurídico sua última instância. Romper com o palavrório eloquente de toga, mas também com tagarelices, fofocas e desmentidos que fazem da interrupção de um mandato presidencial, referendado por milhões, uma partida de futebol nefasta que pretende se esgotar nela mesma. Torcedores, humilhadores e humilhados rumam para casa após a catarse catastrófica esperando a próxima partida.

Não será do ordenamento e muito menos de sentenças em tribunais que virão verdades absolutas — impossíveis por princípio —, mas sua presunção de verdade é o que hoje depõe governos legitimamente eleitos, superlota a cadeia de pessoas pobres, desconhece e não sentencia a tortura como crime no Brasil e preserva a impunidade das elites nacionais às quais se dobram.

É a inversão e a subversão de poderes e hegemonias que hoje, mais uma vez, se quer solapar e são essas vozes que se pretende calar. É à palavra que rompe, inédita e plural, para denunciar o paradoxo do direito sem justiça que a psicanálise pode e deve apontar, juntamente com os milhares de movimentos, coletivos e grupos que ocupam as ruas, as escolas, as reitorias, as fundações e as assembleias para falar contra elas, sobre elas, para além delas. Para proferir o ‘não’ que inaugura a linguagem e instaura a ética da alteridade.

Todos, os que se deslocaram para o ATO no dia 7 de abril sabiam que seria a primeira vez que psicanalistas brasileiros se reuniam, às centenas, para defender uma e única coisa: a democracia no Brasil.

O que provocou esse sentido de urgência foi a clareza sobre os processos escusos, inconscientes e latentes que são agenciados por intenções deliberadas e projetos de poder explícitos, sobre o qual a psicanálise e os psicanalistas têm muito a dizer. Mas foi também um outro sentido, configurado pela linha de continuidade que precisa ao mesmo tempo prosseguir e romper com o episódio Amílcar Lobo, que vêm à público a partir da enunciação corajosa de Helena Besserman Viana e outros que a apoiaram e a seguiram. Esse episódio tornou-se assunto de aulas, conferências, encontros, artigos e livros, ao mesmo tempo em que, por vezes, serviu, para alguns, como álibi para não reinterpretar e agir sobre o tempo presente em função da mea culpa sobre o passado.

Não somos apenas os eventuais herdeiros dos psicanalistas do passado, somos também aqueles que interpretam essa tradição e decidem sobre sua transmissão.

No princípio foi, e sempre será, o ATO; frase que finaliza o texto Totem e Tabu de Freud e instaura sua condição de gênese. Nesse que é o país onde a psicanálise frutificou de maneira extraordinária, que seja possível imaginar uma fratria constituída por irmãos capazes de acusar a autoria das coisas que eles mesmos matam e fazem nascer, como poetas épicos — fundadores, contestadores, atores e críticos das tiranias modernas —, e não mais precisem (e queiram) se escorar no pretenso anonimato da horda muda, submissa e cativa falada por outros que melhor saberão sobre ela.


Caros colegas,

por considerar fundamental nos posicionarmos contra o ataque que está sofrendo a Democracia hoje no país sob diversas formas, venho manifestar minha posição de sustentação incondicional à Democracia.

A mais evidente prova de que se trata de um ataque direto à Democracia é o julgamento de um pedido de impedimento de uma Presidente da República contra a qual nenhuma investigação foi levada a termo. No documento do pedido constavam inúmeras alegações, tais como Petrobrás e BNDES, todas elas tendo sido indeferidas por não haverem provas, tendo restado na denúncia a edição dos decretos não numerados ou decretos orçamentários suplementares — previstos em lei — e a alegada “pedalada fiscal”, configurando, portanto, uma completa arbitrariedade. Situação semelhante à do personagem principal de O estrangeiro de Albert Camus, em que, ele sim, tinha cometido um crime e, ao longo do processo judicial, acabou sendo condenado à morte não pelo crime que cometeu, mas por não ter chorado no enterro da mãe, de modo completamente arbitrário.

Além disso, inúmeros atos de exceção à lei e, nessa medida, também excessivos, vêm acontecendo por parte do Judiciário, que não tem seguido os figurinos legais nas suas condutas — vide prisão coercitiva completamente descabida e vazamento seletivo de informações que deveriam ser confidenciais até o final do processo.

Fatos completados pela piada de péssimo gosto de termos um Presidente da Câmara sobre quem pesam gravíssimas acusações como o condutor de tal pedido de impedimento.

Esse governo pode ser defendido sob alguns e importantes pontos de vista desde a ótica da Democracia e da construção de uma sociedade digna para todos; ora, de acordo com documento do site do Banco Mundial: “Entre 2003 e 2013, o Brasil viveu uma década de progresso econômico e social em que mais de 26 milhões de pessoas saíram da pobreza”. Parece-me que sair da pobreza e poder, por exemplo, comer com frequência é um índice de mínima dignidade. Ou não?

www.worldbank.org/pt/country/brazil

Permitiu também, a instauração de uma Comissão da Verdade, que, por mais críticas que possamos fazer à mesma por não ser uma comissão de verdade e justiça, por exemplo, permitiu que um pouco disso que ainda insistem em dizer que não aconteceu, recalcado, pudesse vir à tona.

www.cnv.gov.br

Ao mesmo tempo, evidente que esse governo é indefensável sob um número quase ilimitado de coisas, dado que se elegeu com uma proposta e praticamente age na contramão dela: não delimitou terras indígenas; não sustentou o ECA, ao deixar passar a redução da maioridade penal; não propôs modificações na Polícia que assassina todos os dias milhares de jovens negros nas periferias; não consegue frear a retrógrada bancada evangélica e financiada diretamente pelos ruralistas e fabricantes de armas que pinta e borda aprovando, em Comissões em que eles são maioria, projetos que retiram ou flexibilizam direitos conseguidos sob muita luta, tais como direitos trabalhistas e civis; governo que acabou de aprovar uma lei anti-terror completamente vaga e indefinida e, pior de tudo, que não fez reforma política, fundamental para mudar a configuração e o modo de funcionamento do Congresso e do Senado.

Mas não se trata aqui de avaliarmos tal governo, se ele está mais pra direita, pra esquerda, pra centro; se fez boas coisas, se foram mais importantes que as ruins ou as não feitas.

Trata-se de nos posicionarmos quanto ao fato de que, se não há crime de responsabilidade, não é possível haver impeachment do mais alto posto do Executivo. Porque se isso for feito, o que nos garante que outras coisas tão ilegítimas e ilegais quanto essa não o serão???? NADA!!!! Atos de exceção levam sempre, mais cedo ou mais tarde, a Estados de Exceção. Agambem nos lembra que o estado de exceção apresenta-se como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo. E, ainda, que, nos anos que antecederam a tomada do poder por Hitler, os governantes social-democratas da República de Weimar tinham recorrido tantas vezes ao estado de exceção que se pode dizer que esse país já tinha cessado, antes de 1933, de ser uma democracia parlamentar.

Assim, uma vez que a ética da psicanálise depende da livre circulação da palavra e de seu valor enquanto enunciação, é preciso lembrar que a psicanálise, com sua ética, não tem como existir em qualquer outro regime que não a democracia. Sabemos que ela é tornada impossível em qualquer regime totalitário em que tudo se cerceia; logo, onde falar — que dirá falar livremente — é completamente impossível, pois pode levar esse que fala a dizer coisas que vão contra o regime — e, como sabemos, nesses regimes não há nenhum espaço para a alteridade, para a diferença. Assim como não há espaço para a Lei, mas para arbitrariedades.

O momento de nos posicionarmos é agora! Se a Democracia for condenada, mesmo que temporariamente, à morte, serão as nossas cabeças que, como repolhos, arbitrariamente, serão cortadas.

Grande e fraterno abraço,

Heloisa Marcon

(Paris, 17/04/2016)


Ato dos psicanalistas pela democracia

Gostaria de lembrar a afinidade de origem entre psicanálise e democracia. Para os gregos só é possível democracia se tivermos também isegoria, ou seja, uso livre da palavra em situação pública. E é pelo uso livre da palavra que o destino político pode ser definido pelos homens, e não apenas pelos deuses. É pelo livre uso da palavra e diante dela que nos fazemos iguais, mas também tratamos nossa diferença. Não é um acaso que o método psicanalítico nasça com a associação livre. Não é indiferente que este presuma um mundo de livres associações, entre desejos e suas sobredeterminações. Portanto, psicanálise e democracia, no sentido político, dependem dessa possibilidade inédita de tratar, pela palavra, os conflitos que passam a ter, desde então, textura de palavra. Por isso a democracia se coloca antes do direito, antes da política, antes da moral e antes da economia. Ela é a condição pela qual tais domínios podem e devem se submeter.

A psicanálise possui uma segunda afinidade de origem com a democracia. Esta diz respeito ao fato de que o inconsciente é sem fronteiras. O inconsciente, assim como o desejo, assim como o princípio da livre palavra, não é um defeito ou uma virtude particular, mas uma experiência universal. Ainda que dividido, ainda que faltante, ainda que negativo, esse universal nos afasta por origem da guerra entre os particulares. É porque a psicanálise adota a lei da palavra e faz da palavra a sua lei que ela se mostra profundamente consoante ao segundo princípio da democracia, a saber, a isonomia, igualdade diante da lei.

Se a psicanálise é filha da Modernidade é porque poucas coisas ela herdou da Antiguidade. Por isso são tão importantes. A democracia é uma delas. Tantos outros valores poderiam ser evocados aqui neste momento para nos reunir: a liberdade ou a justiça, a solidariedade ou o medo, a coragem ou a indignação, talvez a ética. Todos eles presentes diretamente na experiência da psicanálise. A democracia não apenas agrega todos eles, mas emerge como prática e discurso que nos faz ultrapassar o domínio dos indivíduos e passar ao das relações coletivas que permitem a existência de tais indivíduos. A palavra de cada um colocada entre diferentes. A terceira afinidade entre psicanálise e democracia está no princípio da isocracia, pelo qual, diante dos bens públicos e suas instituições, não haverá prerrogativa de família, origem ou destino privilegiado que suspenda o pacto instituído pela palavra.

A democracia se perde quando, em vez da fala de cada um, um por um, emerge o funcionamento de massa, onde a fala de cada um apaga-se no líder ou ideal único, sem isegoria. A massa não é o coletivo, assim como o grupo não é a classe. Na massa transferimos a autoridade regressiva para um estado de minoridade da razão. A democracia se anula quando suspendemos a isonomia criada pelo diálogo, substituindo a lei da palavra pela política da força e do rito jurídico, da guerra e da militância. A democracia está suspensa quando reduzimos a experiência coletiva da isocracia aos interesses privados, aos juízos de circunstância e à manipulação dos que têm acesso aos meios de exercício do poder. A palavra e a democracia estão ameaçadas neste momento no Brasil.

Palavra que se diz no voto, ou Wunsch, que faz a lei do desejo. Palavra que cria laços, compromissos e promessas no espaço público e privado. Palavra que se diz livremente, a cada vez e a cada um.

Neste ato, levamos em conta essa profunda afinidade entre democracia e psicanálise. Por isso não é um evento que se pauta pela representatividade, com pessoas escolhidas em função de escolas, sociedades, linhas teóricas ou instituições de ensino. Ainda que muitas estejam aqui presentes, queremos valorizar o fato de que aqui cada um fala por si, no uso próprio de sua própria palavra, não como mais um caso contado na regra do partido, orientação ou grupo. Nosso partido é o coração partido. O fato de que estejamos de fato aqui e juntos, e tantos, fato tão incomum, faz ato. Já é por si só um pequeno acontecimento. Um corte em ato contra a razão esbravejante, dos deuses e suas famílias, da força da lei e da imperícia dos maus governantes, da divisão entre puros e dos impuros. Um contra-golpe da palavra pela democracia.

Christian Ingo Lenz Dunker


Arquivos da Memória de um Brasil Sombrio…

Vivemos em um momento histórico. Manifestações e atos em defesa da democracia ecoaram não apenas em vários Estados do Brasil, mas atravessaram oceanos e foram ouvidos em quase todos os continentes do mundo. Nesse ano, o Golpe Militar completou 52 anos. Golpe que em 31 de março de 1964 encerrou não apenas o governo de um presidente democraticamente eleito, mas foi produzido por uma situação muitíssimo parecida com a que vivemos hoje. Um golpe que esfacelou a vida de milhares de brasileiros com o apoio de vários segmentos da sociedade. Um golpe incitado pela imprensa e realizado em nome de interesses políticos e econômicos que mergulhou o país em uma ditadura que durou 21 anos.

Em 1964, no momento em que articulavam o golpe contra Jango, não apenas Carlos Lacerda, mas todos aqueles que gritavam “fora comunistas!” desconsideraram a possibilidade de um Golpe Militar. E quando o poder constitucional foi derrubado, o jornal “O Globo” publicou em sua manchete de capa em 2 de abril de 1964: “Ressurge a democracia”. Nunca imaginaríamos que os militares tomariam o poder e seriam capazes de tantas atrocidades… Assim como não imaginamos que hoje, em pleno 2016, um golpe seria possível… Um golpe nunca é militar, ele sempre é político…

Assim como um Golpe jamais teria acontecido no Brasil sem o apoio popular, Hitler jamais teria conseguido instaurar um “Estado de Exceção” na Alemanha sem o apoio da população… Enquanto eram os deficientes, os homossexuais, os negros e os judeus que morriam das formas mais atrozes, as coisas pareciam ir muito bem para os alemães…  E na Ditadura não foi diferente… Enquanto eram os ditos “comunistas” que desapareciam ou eram torturados, as coisas pareciam transcorrer muito bem… O problema foi quando as atrocidades começaram a incluir aqueles que gritavam “Fora Comunistas!”

Esquecemos que da barbárie, quando se instala, ninguém está protegido! Inclusive aqueles que “teoricamente” eram apoiadores ou protegidos do sistema…
E para nos lembrar do desamparo e das possíveis violações a que todos nós estamos submetidos a partir de um golpe, evoco o recorte feito por Ayrton Centeno, que nos lembra do que aconteceu com Sônia Moraes, filha de um coronel do exército, teoricamente um homem que não apenas apoiou o golpe, mas foi um dos golpistas:

Filha de coronel do Exército, a adolescente Sônia Moraes foi levada pelo pai e a mãe à versão carioca da marcha da família com deus pela liberdade. Era 1964 e os Moraes festejavam a queda do governo constitucional. O tempo passou, o regime mostrou seus dentes e Sônia desapareceu. Engajara-se na luta armada contra a ditadura. Presa, teve os seios arrancados e foi chacinada até a morte. Desesperado, o pai procuraria durante anos pela filha. Um dia recebeu um presente sem sentido, enviado pelo seu desafeto, o general Adyr Fiúza de Castro, comandante do DOI-Codi, no Rio. Era um cassetete da Polícia do Exército. Descobriria depois que aquilo representava uma advertência e um escárnio. Com aquele cassetete sua filha, Sônia Maria de Moraes Angel Jones, fora estuprada antes de morrer em suplício.

E as atrocidades não pararam por aí…

Em 1981 um grupo de militares insatisfeitos com a incipiente abertura democrática e política que vinha acontecendo, explodiram duas bombas no Riocentro durante um ato pela redemocratização do país e em comemoração ao dia do trabalhador… Sim, tratava-se de um ataque terrorista planejado pelos militares que tinha como “alvo” não apenas os artistas que naquela noite se apresentavam, mas a população que ali manifestava… Como sabemos, até hoje esse atentado não foi desvendado e a cena se repete hoje, 35 anos depois… Estamos em 2016 e novamente precisamos ir às ruas defender uma democracia recentemente conquistada e a garantia de direitos mínimos previstos a partir da constituição de 1988.

Nesse contexto, os partidários da “violação” da democracia seguem sendo os mesmos que defendem o extermínio de direitos humanos e sociais mínimos, fundamentalmente, aqueles que beneficiam as camadas mais pobres e vulneráveis da sociedade. E não deixa de ser paradoxal que, num país que apresenta um dos maiores índices de desigualdade social do mundo, a pobreza seja criminalizada e perseguida por demandas reacionárias de extinção de programas sociais, de direitos trabalhistas e da redução da maioridade penal incitadas por programas televisivos que apresentam a pobreza e a vulnerabilidade como estando na origem dos “males sociais”.

Sim, esquecemos que foram situações de barbárie como o estupro brutal de um menino negro de 12 anos por 20 homens adultos que deu origem ao início de uma série de medidas para proteger não apenas a criança, mas o adolescente em situação de vulnerabilidade social… Na ocasião, felizmente, alguns poucos “iluminados” se deram conta de que não se tratava de criminalizar “o pivete” que cometia pequenos furtos, mas de proteger a criança e o adolescente através da garantia de direitos mínimos fundamentais:

Em março de 1926, o Jornal do Brasil revelou a estarrecedora história do menino Bernardino, de 12 anos, que ganhava a vida nas ruas do Rio como engraxate. Ele foi preso por ter atirado tinta num cliente que se recusara a pagar pelo polimento das botinas. Nas quatro semanas que passou trancafiado numa cela com 20 adultos, Bernardino sofreu todo tipo de violência. Os repórteres do jornal encontraram o garoto na Santa Casa “em lastimável estado” e “no meio da mais viva indignação dos seus médicos”.

Sim, esquecemos que se passaram 90 anos (sim, 90 anos!!!) e o discurso de ódio contra a pobreza, lamentavelmente, continua não apenas presente, mas vem crescendo e ganhando muitos adeptos nos últimos tempos… O formato da narrativa pode até mudar, mas a estrutura do discurso segue a mesma…

E assim…

Embriagados pelo discurso de luta contra a “corrupção” e pela promessa de “salvar o Brasil da crise” milhares de brasileiros foram às ruas vestidos de verde e amarelo demandando o impeachment de uma presidente eleita por 54 milhões de brasileiros. O curioso é a repetição nua e crua da narrativa atual com aquelas que culminaram no golpe de 64. Em 1 de abril de 1964, o “Diário de Notícias” publicava: “Durante dois anos o Brasil agüentou um Govêrno que paralisou o seu desenvolvimento econômico, primando pela completa omissão, o que determinou a completa desordem e a completa anarquia no campo administrativo e financeiro”.

Como podemos ver, “crise” e “economia” não têm sido usadas apenas como conceitos, mas como palavras de ordem que servem para impor medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise”, hoje em dia, significa simplesmente “você deve obedecer!”. A chamada “crise” que se abateu não somente sobre o Brasil, mas tornou-se uma verdadeira paranoia mundial, já dura decênios e nada mais é senão o modo normal de funcionamento do capitalismo em nossos tempos. E por que a noção de “crise” e de “economia” são tão poderosas?

Simplesmente porque antes de ser um fundamento racional, ela está constituída sob um pressuposto religioso. Conforme assinala Giorgio Agamben no clássico Qu´est-ce qu´un dispositif?, foi a partir de Clément d’Alexandrie que a economia passou a se  confundir com a noção de providência divina e acabou por significar a promessa de salvação do mundo e da história dos homens (Aganbem, 2014). Por isso a assertiva de Agamben: “Deus não morreu. Ele tornou-se dinheiro”. E o que foi postulado como “salvação” transformou a vida dos homens num verdadeiro “inferno”…

Ainda não recomeçamos a queimar as pessoas em fogueiras, mas sabemos que inúmeras modalidades de extermínio seguem em curso…

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco — com os seus cinzentos funcionários e especialistas — assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé — a escassa, incerta confiança — que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o título de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudorreligiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas. (Giorgio Agamben)

Desta forma, o que se configura hoje como “golpe” nada mais é do que a tentativa de “salvar” a “economia” ao preço do sacrifício de vidas humanas, o que inclusive, já vem sendo anunciado e colocado em ato através da intolerância e das medidas que visam exterminar as condições mínimas necessárias à condição humana e à vida civilizatória. E não é ao acaso que Marx tenha utilizado a expressão “capitalismo selvagem”. Por isso, não se trata apenas da defesa e da sustentação incondicional de nossa jovem democracia. Mas, da defesa e da sustentação incondicional de condições mínimas necessárias à vida civilizada…

Michele Kamers


Bom dia a todos e todas,

Neste ato de apoio incondicional à democracia no Brasil, gostaria de fazer aqui, em nome do Centro Acadêmico Iara Iavelberg, uma breve reflexão sobre os significados atribuídos à palavra “democracia”, esclarecendo quais deles achamos que devemos reivindicar e defender. É importante fazer isso, tendo em vista o papel histórico da psicanálise e da psicologia na manutenção das estruturas de poder da democracia burguesa; e tendo em vista que temos que lutar contra isso, nos apropriando de uma ação psicanalítica na direção da construção da democracia defendida por nós.

Acreditamos que, diante de um momento de grande turbulência política, polarização e manifestações massificadas, a palavra “democracia” exerce o papel de um significante vazio para a grande parcela da população que se identifica com ela. Segundo a definição de Laclau, os significantes vazios constituem-­se a partir de uma cadeia de discursos articulados entre si que, embora sejam distintos uns dos outros, unem-­se, em um determinado momento, formando uma totalidade ou unidade hegemônica. A palavra “democracia” é uma dessas que têm tido essa capacidade de unificar demandas e objetivos políticos de naturezas distintas.

Nessa conjuntura política específica que estamos vivendo, acreditamos que é importante tirar a democracia do plano do abstrato, esclarecendo que defendemos uma concepção radicalizada de democracia, diferente da democracia burguesa que vivemos hoje, essa democracia onde quem vence as eleições são as empreiteiras, grandes empresas e os bancos que financiam as campanhas, e os reais interesses da classe trabalhadora nunca são contemplados. Defender a democracia apenas no abstrato, neste momento, abre espaço para a cooptação desse discurso para fins de defesa de um governo que, na nossa opinião, é indefensável. Na manifestação do dia 18 de março, onde diversas pessoas marchavam honestamente pela defesa da democracia, pudemos ver que o ato foi dominado e dirigido pelas entidades ligadas ao governo federal, tornando-­se, na prática, um ato em defesa do governo ­ por melhores que fossem as intenções de muitas das pessoas presentes.

Para nós do centro acadêmico, defender ao mesmo tempo a democracia e o governo federal é uma contradição. Para nós, não existe nada de democrático em um governo que foi eleito a partir de um programa político claro, e, uma vez empossado, colocou em prática o programa tucano que foi derrotado nas urnas, aplicando um ajuste fiscal anti­popular que recai sobre as costas dos trabalhadores.

Na democracia que defendemos, não existe um controle ideológico realizado por uma mídia dominada pelas famílias mais ricas e reacionárias do país. Mas para lutar por essa democracia, não podemos defender o governo que se recusou a pautar a democratização das comunicações. Na democracia que reivindicamos, não há opressão contra mulheres, negros e negras, indígenas, pessoas pobres e lgbts. Não faz sentido lutar por uma democracia livre de opressões ao lado de um governo que investe apenas 0,27 centavos por mulher no combate à violência machista; que veta o projeto de descriminalização do aborto; que se alia à bancada evangélica para vetar o kit Escola sem Homofobia; que promove a falácia da guerra às drogas que é responsável pelo assassinato de jovens negros e periféricos todos os dias; que veta a demarcação das terras indígenas e ignora, silencia e reprime as manifestações contra centenas de mortes de indígenas em confrontos com fazendeiros. Infelizmente, eu poderia ficar horas dando exemplos como esses, mas o tempo é curto. Para defender uma democracia livre de opressões, não podemos nos posicionar ao lado de um governo que não apenas é cúmplice, mas também é, em boa medida, responsável pela violência, opressão e assassinato de mulheres, negros, indígenas e lgbts.

Queremos, sim, combater a direita reacionária que dirige o processo do impeachment; queremos combater os abusos de autoridade, a falta de direito de defesa. Mas temos que fazer isso com a consciência de que essa justiça de exceção já existe todos os dias nos becos e vielas da periferia urbana, criminalizando violentamente a juventude negra e pobre. Queremos combater as iniciativas pró-­intervenção militar, mas não podemos fazer isso ao lado de um governo que já promove intervenção militar diariamente nas favelas.

Por tudo isso que apresentei, e também por muito mais que não cabe nesse tempo de fala, acreditamos que é importante, sim, defender a democracia e combater o conservadorismo anti­democrático emergente, mas não é possível fazer isso com qualidade e responsabilidade se não nos colocarmos enquanto oposição de esquerda ao governo federal. Não se opor a esse governo é um grande erro, porque os milhares de pessoas que estão legitimamente insatisfeitas com as políticas impopulares acabam sendo cooptadas pela única força política que se coloca claramente enquanto oposição: a direita. Quanto mais insistirmos em silenciar as críticas a esse governo, mais nós contribuiremos para a massificação das manifestações pró-­impeachment que são dirigidas por grupos reacionários e corruptos. Precisamos propor uma saída que não seja um eterno adiamento dos enfrentamentos realmente necessários. Na atual conjuntura, acreditamos que quem insistir em se apegar esse governo cairá junto com ele. Nós do C.A. defendemos a construção de uma terceira via diante da polarização. Uma terceira via de esquerda, de oposição ao governo e à direita, que seja construída nas ruas, nas ocupações, nas greves e manifestações, ao lado dos trabalhadores e de todos os setores oprimidos. Diante da crise, a saída é pela esquerda. Obrigada.

Centro Acadêmico Iara Iavelberg


Psicanalistas pela sustentação e apoio incondicional à democracia no Brasil

O que a psicanálise tem a dizer?

Essa pergunta foi feita a Freud em 1932 pelo físico Albert Einstein, que representava o Instituto Internacional da Liga das Nações.

Queria ouvir do criador da psicanálise a opinião sobre as possibilidades de a humanidade se livrar da ameaça das guerras, pois as tentativas para evita-las redundavam em fracasso. Haveria um desejo de destruição e de ódio que permanece?

Na longa resposta, Freud manifesta surpresa ao perceber que a conversa entre os dois não estava circunscrita à física e à ciência da natureza. Estava sendo consultado para delimitar problemas da evitação da guerra compatíveis com seu conhecimento sobre as relações emocionais entre os humanos.

Sem meias palavras, Freud afirma que os conflitos são resolvidos pelo uso da violência. O desejo de agressão, as incontáveis crueldades que encontramos na história e na vida de todos os dias, atestam a existência da destrutividade em permanente embate com pactos civilizatórios de triunfo fugaz.

A carta-resposta tornou-se referência para pensar cultura e civilização. Foi amplamente divulgada com o título Por que a guerra?

No Brasil a genealogia da violência materializou-se nas práticas de rapinagem e predação dos povos que os europeus aqui encontraram. Essa prática manteve-se na colonização.

O tratamento cruel e as penas corporais impostas aos africanos sequestrados em seus países de origem não conheceu limites: homens, mulheres e crianças foram classificados como coisa, propriedade móvel, usurpados de qualquer condição humana[1].

Os pilares de nossa história construíram-se sobre violações que permanecem impunes e mal contadas.

Se acreditamos na premissa da psicanálise de que tudo o que uma vez se formou não pode perecer, percebemos que o legado que recebemos é funesto.

Adentramos os séculos XX e XXI assolados pela destrutividade. Antes açoites, hoje cassetetes; pistolas paralisantes e gazes danosos são disparados por agentes públicos contra a população pobre, negra, sem terra e sem teto no campo e na cidade.

Ainda permanecem sem solução listas dos mortos e desaparecidos da ditadura civil militar: todos sabemos o que ocorreu. Amigos viram amigos torturados. Primos viram primos arrastados dentro das prisões. Casais frente a frente nas salas de tortura, filhos sequestrados com seus pais.

Trabalhos acadêmicos, pesquisas, congressos reúnem fatos; filmes e fotos estampam provas. Hoje sabemos muito mais sobre o que sequer imaginávamos. Mas a justiça, ainda em transição, não esgotou sua possibilidade de reparar, julgar e punir.

Os pilares da nossa democracia resvalam em terreno movediço.

A construção dos mecanismos de ruptura com a violação de direitos essenciais não se materializou na plenitude. Resíduos do pior permanecem intocáveis. Nossa Constituição enfrenta embates no campo de interpretação.

Novas formas de corromper misturando dinheiro e palavra multiplicam comportamentos incomuns de incertas consequências éticas.

No Congresso Nacional, homens e mulheres que nos representam vivenciam a discórdia em abraço mortífero.

O círculo mais alto do poder executivo está sitiado.

Os laços sociais apequenam-se a cada notícia de captação indevida.

Tomamos como inimigos os que eram irmãos. Como adversários, o vizinho. O ódio e a desmedida incivilidade tornaram-se recorrentes.

Vivemos o desamparo.

O que fazer?

Não sei, não sei, compartilho minha dor e minha dúvida.

Faço necessário registro: diferentemente de outros momentos da nossa história recente, conversamos publicamente sobre comuns inquietações.

Não há armas visíveis apontadas para nós.

Que os impasses não nos neutralizem: façamos circular propostas por muitas mãos.

Nesta conversa suprapartidária para sustentar a democracia, partimos deste campus universitário de resistentes à ditadura civil militar. Lembrando Alexandre Vannuchi Leme e Iara Iavelberg, alunos desta casa, minha homenagem a todos os que foram perseguidos.

Que a vigilância cívica reverbere no Congresso Nacional.

Que chegue aos legisladores e à Corte Suprema para que o tirocínio que os levou à escolha de lugares republicanos os estimule a cumprir com dignidade seu papel civilizatório neste tempo de crise, de dúvida, de embates mortíferos.

Maria Auxiliadora Arantes


Produção de democracia – da política na psicanálise à psicanálise na política

Foi com grande entusiasmo que recebi o convite para participar deste ATO, inédito e histórico, em que psicanalistas de diversas tendências e instituições se reúnem para tomar posição na acirrada crise política brasileira, em defesa radical da Democracia, mais uma vez ameaçada.

O que pode fazer o psicanalista num momento como este, além de, como cidadão, tomar seu lugar no debate político coletivo?

A oportunidade de falar com jovens universitários e colegas psicanalistas sobre o tema fez-me evocar o início da minha própria formação, psicóloga com o desejo de devir psicanalista nos idos dos anos 70, em plena ditadura, quando o que se colocava era a necessidade urgente de incluir a dimensão política na psicanálise e articular ao campo psicanalítico a realidade histórica e social de um país submetido ao poder totalitário. Uma espécie de pensamento redundante, tendo em vista a dimensão política intrínseca à psicanálise com sua ética do desejo, libertária e transformadora.

Mas o fato é que, naquele momento, era preciso anunciar essa evidência para fazer a crítica à ideia de neutralidade da posição do analista defendida pela Internacional Psicanalítica e replicada por sua representante no Brasil, o que à época significava, na prática, adesão ao status quo autoritário, de consequências institucionais nefastas, hoje amplamente conhecidas. Maior exemplo disso é o caso de Amílcar Lobo, médico psicanalista que colaborou com a tortura sob o beneplácito de Leon Cabernite, então presidente da Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro, denunciado corajosamente, em 1973, por Helena Besserman Vianna, e só desligado da Sociedade em 1980.

Foi, portanto, com um forte espírito de combate, simultaneamente contra a ditadura civil militar e a favor de uma psicanálise implicada com a vida social e as questões de seu tempo, que sucessivas gerações de psicanalistas puderam estabelecer os parâmetros éticos, teóricos e metodológicos que deram origem a uma psicanálise — talvez, brasileira e latinoamericana —, embrenhada na cidade, na rede pública de serviços, nos hospitais, nas escolas, nas instituições jurídicas, nas ruas, em iniciativas de formação, produção e atuação criativas e complexas, que se desdobraram e se desdobram ainda, como aqui e agora, neste Ato político realizado na universidade, convocado por psicanalistas reunidos, também, acredito, pelo compromisso de pôr a trabalhar o saber do inconsciente na luta pela sustentação da legalidade democrática.

Uma conquista árdua e preciosa, e um empenho a perseverar dentro e fora das instituições psicanalíticas pela democratização da própria psicanálise e por sua inserção nos movimentos sociais e na cultura, como condição de preservação da sua potência e longevidade.

Em minha trajetória, como na de muitos colegas da minha geração, dois encontros foram fundamentais nesse sentido: na origem, Wilhelm Reich, apaixonante por ser comunista e psicanalista e, ademais, por protagonizar a memorável façanha de ser expulso tanto do Partido Comunista quanto da Sociedade de Psicanálise; e depois, já à procura de Freud, o encontro com o Instituto Sedes Sapientiae, historicamente engajado na luta pelos direitos humanos e contra a ditadura e, consoante com isso, o Departamento de Psicanálise, do qual hoje faço parte.

Penso que é na via inversa e não excludente do que se trata agora: além de incluir a política na psicanálise, é preciso fazer a inclusão da psicanálise na política, na prática.

Emblema disso é a visão atual da presidente Dilma Rousseff como uma mulher torturada, como uma mulher sendo torturada, que em algumas fotos publicadas pela mídia antidemocrática e golpista tem as feições trabalhadas para parecer desfigurada, quase enlouquecida, num recurso vil e inaceitável de desmoralização, descrédito e desestabilização da legitimidade de sua posição republicana. Ao mesmo tempo, nas publicações mais dignas, em seu rosto emagrecido parecem ressurgir os traços da jovem militante desafiadora e determinada, sentada por força do arbítrio no banco dos réus, naquela que é a imagem mais comovente e eficaz de suas campanhas para a presidência. Nas fotos que ilustram camisetas e outras peças de campanha ficam fora da cena os homens que a interrogam e que, infantilmente, escondem a cara pretendendo escapar à responsabilidade pelos seus atos e ao julgamento da história.

Mais difícil é dizer o que eles sentem: estariam amedrontados, envergonhados, culpados? Deveriam, é claro, mas penso que não é o que acontece.

É um equívoco atribuir-lhes sentimentos que seriam efeito da transgressão apenas no caso de uma consciência moral bem constituída, o que não se verifica quando estamos diante de agentes da lei e operadores da justiça, que se atribuem a condição de estarem acima e infensos a elas.

É ao retorno da cena traumática que assistimos agora?

Acredito que sim, mas há, porém, uma inversão dos lugares na cena. Agora é a esquerda que se amedronta, se envergonha e se culpabiliza (não toda, mas uma parte significativa dela) — o que retardou e dificulta a resistência ao golpe que está sendo urdido. Um movimento que precisa ser analisado para que o traumático seja ultrapassado e outro projeto político (re)fundado, construindo novas pautas a partir da crítica e da auto crítica, sem a inibição constrangida do desejo.

Para tanto, é necessário que se inclua o trabalho com a subjetividade, cuja matriz inconsciente edípica (familialista, autoritária, fálica e rivalizante) em nada favorece a capacidade de lidar com a diversidade e as perdas narcísicas exigidas pelo exercício da democracia — que apesar de suas imperfeições, ainda é a melhor das nossas possibilidades.

É tempo de inventar modos de subjetividade democrática em larga escala, porque, além de sustentar a democracia, estamos vendo que é preciso produzi-la, através da convocação da fala e da escuta, em verdadeiros debates. Penso que só assim teremos a chance de operar mudanças políticas mais profundas e consistentes.

Um desafio que nos concerne como psicanalistas, como sujeitos e como atores no campo social, cultural e político.

Heidi Tabacof


Psicanalistas pela sustentação e apoio incondicional à democracia brasileira

Em todas as ocasiões, em todos os lugares em que a democracia foi seriamente ameaçada por golpes de estado, guerras e totalitarismos, eles foram acompanhados de invasões de corpos, direitos e pensamentos.  Com eles a psicanálise também o foi.

No Brasil, ainda hoje se tenta compreender as razões de omissões, acordos e o suposto “apoliticismo” nos movimentos, associações e institutos de psicanálise no passado ditatorial, bem como as reações de psicanalistas que reagiram, se opuseram e defenderam a democracia arriscando seu nome, seu prestígio e sua vida.

Os golpes de estado são atos de violência que se consagram dentro ou fora do estado de direito, pela via do direito ou contra ele, e consistem em atacar de forma desabrida as posições de maioria e os direitos de minorias, por sua vez construídos ao longo da história de sucessivas lutas sociais que constituem a representação, o discurso e a institucionalidade de uma nação democrática.

Eles atentam deliberadamente contra um projeto nacional que trabalha pelo acesso e pela distribuição de benefícios econômicos, sociais e políticos menos assimétricos e desiguais, e pleiteiam a constituição de valores partilhados em torno de práticas que desautorizam a força bruta.

Como tudo, a psicanálise também é ferida profundamente quando um golpe se torna vitorioso, porque a situação de fala e escuta livre é uma condição para que a psicanálise exista.

Quando isso é coibido, seja pela violência física, seja pela parcialidade hegemônica no uso dos instrumentos jurídicos e comunicacionais de massa, instaura-se a hegemonia da palavra. Então, o sentido da liberdade da palavra, que inspira a associação livre, é destituído e interpretado como francamente ameaçador e corrosivo. E, sem a palavra livre, o horizonte fraterno se converte então, muito rapidamente, em fratricida.

Nesse contexto, a associação livre de representações, pessoas, instituições e ideias é cotidianamente coibida e transformada em seu contrário. Pessoas são convertidas em suspeitas e cativas por dizerem o que pensam e sentem. E, em nome disso, cidadãos são calados, perseguidos, violentados e mortos.

Cores, credos, pensamentos, atitudes, expressões são transformados em indícios sobre os quais suposições se apoiam para destruir, maltratar e machucar pessoas; denegrir instituições; erradicar formas de pensamento.

A ambiguidade dos grupos e associações de psicanálise diante de fatos históricos conhecidos no passado, nos quais a violência e a força bruta dos aparatos militares, patrocinados pelo capital privado, comandavam a sociedade brasileira, não deve prosseguir na construção do país que queremos no futuro.

As lições que herdamos de histórias de psicanalistas no passado que reagiram, ou apoiaram, ou se omitiram diante de flagrantes abusos cometidos em nome do estado devem nos servir agora para uma tomada de posição menos incerta, menos ambígua.

A psicanálise será, evidentemente, alvo de ataques se se tornam hegemônicas as demandas pela cura gay; se prosperam as tentativas de caracterizá-la como método demorado e ineficaz; se a igreja evangélica for determinante na condução das políticas de saúde no país; se as consequências psíquicas derivadas de crimes de Estado forem consideradas desimportantes.

Pensamos que o que está em jogo, neste momento, é a frágil democracia brasileira em seu conjunto, que não pode ficar à mercê de delações premiadas sem comprovação, determinações de juízes em franca campanha político-partidária e acusações que suspendem a presunção da inocência. Tudo isso para que a sentença seja largada aos poucos veículos de comunicação de massa, que constituem hoje a voz e a vez daqueles que aguardam, pacientemente, que eles façam o trabalho sujo para retornarem ao poder limpos e de banho tomado; mais um vez por vias indiretas.

Muitos hoje temem o avanço das investigações da operação em curso, e veem no impeachment um modo de estancá-las. Pois, para muitos que vão às ruas de verde e amarelo, a saída do atual governo do poder é o único objetivo plausível das operações de investigação, denominadas de lava-jato. Seriam mesmo só para lavar a jato, bater uma água, porque a faxina brava, mesmo, se quer a todo custo evitar.

Colocamo-nos ao lado, nesse momento, de todos os que defendem os mecanismos de preservação dos resultados de eleições livres e justas e que reagirão contra a parcialidade de interesses, que nada tem a ver com a construção de um Brasil republicano e com a preservação de nossa frágil democracia.

E nos posicionamos contra as forças que hoje articulam, sustentam e apoiam investigações endereçadas para destruir pessoas e partidos específicos.

Há momentos em que o direito fere a justiça;

em que a política é apequenada pelos políticos;

em que parte das esquerdas não sabem mais de onde partiram, nem onde querem chegar;

em que a palavra ‘veja’ quer dizer apenas ‘vende seus olhos’ ou ‘venda seus olhos’.

Nesse mesmo torvelinho nasce, contudo, o tempo da resistência, herdada das lutas do passado e instruída pelas aspirações do tempo presente;

A compreensão mais profunda dos problemas que pautam nossas repetições;

A manifestação de divergências, até então latentes, que conflitam há séculos no país;

A urgência em apoiar os jovens brasileiros que viram antes de nós, e reagiram antes — diante do perigo do retrocesso implícito da impunidade dos torturadores do passado; do ataque sistemático ao direito à mobilidade urbana; da degradação do sistema educacional brasileiro —, e chamaram a atenção para a paciência dos que desprezam a democracia e aguardam, demoradamente, para atacá-la sempre e uma vez mais.

O momento é esse e o tempo é agora.

Pela sustentação e apoio incondicional à democracia brasileira.

Paulo Endo


[1] REIS, João Jose; GOMES, Flávio dos Santos, Liberdade por um fio história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.


* Heloisa Marcon é psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre (APPOA), especialista em saúde mental (RIS-GHC), mestre em filosofia (UFRGS), doutoranda em psicologia (USP), bolsista CAPES PDSE na Université Paris VII Denis Diderot, BEX 0403/15-6.

** Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP. Colunista de várias revistas, pós-doutor pela Universidade Metropolitana de Manchester, analista membro da Escola dos Fóruns do Campo Lacaniano. Autor de Mal estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015), recebeu o Prêmio Jabuti em 2012 por Estrutura e constituição da clinica psicanalítica (Annablume, 2011).

*** Michele Kamers é psicanalista; mestre em psicologia e educação pela FE-USP. Doutoranda em psicologia escolar e do desenvolvimento humano no Instituto de Psicologia da USP; bolsista CAPES PDSE na Université Paris VII Denis Diderot, BEX 0404/15-2. Coordenadora dos cursos de especialização em psicologia hospitalar e da saúde e psicopatologia da infância e da adolescência do Hospital Santa Catarina de Blumenau. Co-organizadora e coautora do livro Por Uma (nova) psicopatologia da infância e da adolescência pela Editora Escuta – SP.

**** O Centro Acadêmico Iara Iavelberg (CAII) da Psicologia USP foi fundado em 1986. Seu nome é homenagem a Iara, aluna da psicologia USP, militante e guerrilheira assassinada na ditadura. Ainda hoje essa entidade desempenha um papel importante na mobilização política estudantil.

***** Maria Auxiliadora Arantes é psicóloga e psicanalista. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae. Mestre em psicologia clínica e doutora em ciências sociais pela PUC/SP. Livro publicado: Tortura. Testemunhos de um crime demasiadamente humano (Casa do Psicólogo, 2013).

****** Heidi Tabacof é documentarista, psicanalista, professora e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

******* Paulo Endo é psicanalista e professor da Pós-graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades (FFLCH-USP) e do Instituto de Psicologia (IP-USP). Autor de A violência no coração da cidade: um estudo psicanalítico (Ed. Escuta, 2005), ganhador do prêmio Jabuti 2006.


COMO CITAR ESTE ARTIGO | ENDO, Paulo (org.). (2016) Atas do Ato ‘Psicanalistas pela Democracia’. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -1, p. 9, 2016. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2016/05/22/atas-do-ato-psicanalistas-pela-democracia/>