Lacan encontra Freud? Reflexões patoanalíticas sobre o estatuto das perversões na metapsicologia lacaniana

por Philippe Van Haute

Tradução | Hugo Lana

Introdução

Desde seu início a psicanálise se apresenta e se compreende como uma teoria e prática libertadoras. Freud e seus pupilos consideravam a psicanálise, tanto em seus aspectos teóricos quanto práticos, como um empreendimento que poderia nos libertar de todo tipo de normas culturais opressivas, particularmente no que diz respeito à sexualidade. Pensava-se que a psicanálise era uma ameaça à cultura sexual burguesa. Na mesma linha, Lacan introduziu a história apócrifa que em seu caminho para os Estados Unidos em 1909, Freud disse para Jung que eles estavam levando a peste para o Novo Mundo[1]. Claramente, Lacan também via a psicanálise como um movimento revolucionário no que diz respeito ao establishment psiquiátrico e cultural. A psicanálise contemporânea frequentemente repete essa pretensão.

É difícil negar que a psicanálise freudiana em muitos aspectos tinha um potencial liberador e que a psicanálise contribuiu de fato para mudanças profundas em nossa paisagem cultural e moral. Freud foi, por exemplo, um dos primeiros a despatologizar a homossexualidade, e suas ideias sobre sexualidade (infantil) e sobre educação sexual testemunham uma atitude que estava em descordo com as tendências fundamentais de seu tempo. Como é bem conhecido, o problema das perversões desempenha um papel crucial neste contexto. A psiquiatria e a sexologia do século 19 consideravam as perversões sexuais exclusivamente como entidades diagnósticas específicas que serviam a certos pacientes e não a outros.

A perversão era compreendida como uma psicopatologia, junto à histeria, a neurastenia e à personalidade múltipla[2]. Para Freud, no entanto, as perversões, como as outras patologias que são centrais para o seu pensamento (i.e., histeria, neurose obsessiva e paranoia), tem um valor antropológico. De acordo com Freud, as diferentes categorias psicopatológicas nos informam sobre as tendências e problemáticas fundamentais que constituem a existência humana como tal. Isso significa, mais concretamente, que com relação à nossa existência sexual as perversões mostram de um modo aumentada os blocos de construção que fazem a sexualidade de cada um de nós. A psicanálise freudiana é uma patoanálise[3]. Ela toma a psicopatologia como um ponto inicial para a sua antropologia e, ao fazê-lo, desconstrói a oposição problemática entre “normalidade” e patologia. De acordo com Davidson, isso implica em uma crítica radical do que ele chama “um estilo psiquiátrico de raciocínio”[4].

Apesar disso, o próprio Freud se distanciaria do potencial liberador de sua própria metapsicologia. De fato, a referência aos complexos de Édipo e de castração introduziram uma tendência mais normalizadora em suas teorias[5]. Esta referência contradiz a abordagem patoanalítica que ao mesmo tempo permanece presente em muitos dos escritos de Freud. Qualquer que seja o caso, as tendências normalizadoras ganharam destaque em muitos escritos pós-freudianos e na prática psicanalítica. Elas ainda são dominantes em muitas revistas psicanalíticas hoje[6].

Freud (e com ele, muitos de seus seguidores) parece trair os aspectos radicais e liberadores de sua própria teoria. Como resultado, a psicanalise corre o risco de tornar-se uma teoria normalizadora[7]. É impossível desenvolver esta problemática em todos os seus aspectos e em relação às diferentes tradições psicanalíticas dentro do escopo de um artigo somente.

Portanto, eu me limitarei neste artigo ao problema do estatuto das assim-chamadas perversões na tradição freudo-lacaniana[8]. De fato, a referência ao problema das perversões desempenha um papel fundamental nesta tradição. As reflexões de Freud sobre a abordagem patoanalítica da existência humana permitem uma crítica radical da própria ideia das perversões como uma categoria psicopatológica legitima.

O que é colocado em questão é a própria legitimidade do diagnostico diferencial no que diz respeito às perversões[9]. Eu discutirei esta abordagem na primeira edição dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Esta primeira edição diferencia-se em pontos cruciais das edições posteriores às quais estamos familiarizados e que foram publicadas na edição Standard e nos Gesammelte Werke. Ela é particularmente interessante e importante para nossa discussão porque ela não contém alguns dos conceitos e teorias normalizadores (e.g. a perspectiva desenvolvimentista e o complexo de Édipo) que somente foram introduzidos nas edições posteriores[10].

Meu argumento é o de que referências à estrutura perversa, que é popular em alguns círculos lacanianos, parecem quebrar com essa abordagem patoanalítica. Ela reintroduz a própria ideia de uma “identidade” diferencial que Freud desconstruiu. Ao fazê-lo, seus aderentes arriscam cair em todo tipo de preconceitos morais e sociais que são subsequentemente apresentados como leis que estruturam a sexualidade (e a sociedade) como tal, e que transcendem a história e os ambientes sócio-culturais nos quais eles ocorrem. Desta maneira preconceitos sociais e morais tendem a ser imunizados da crítica e, no processo, eles adquirem um estatuto ideológico. Eu discutirei primeiro a abordagem freudiana da perversão e então contrastar esta abordagem com a ortodoxia lacaniana e, mais particularmente, a ideia de uma estrutura perversa. Em minha conclusão eu retornarei ao contexto histórico e cultural que pode explicar, ao menos parcialmente, a visada problemática de Lacan das perversões.

O perverso, meu vizinho? A gênese das perversões sexuais e a revolução freudiana

Todos nós conhecemos a tradicional lista de perversões que foi descrita em grande detalhe por Krafft-Ebing e outros sexologistas no final do século 19: homossexualidade, fetichismo, sado-masoquismo, voyeurismo e exibicionismo[11]. Foucault, Davidson e outros tem demonstrado da forma mais convincente que estas perversões não são tanto descritas pela primeira vez na segunda metade do século 19 mas foram literalmente criadas naquele período[12]. Estes autores sustentam que não havia perversões (e também não havia homo ou heterossexualidade) antes da segunda metade do século 19. Eles obviamente não querem dizer que não havia comportamento perverso antes deste período (ou que antes disso as pessoas não teriam interesse em sexo). Eles afirmam, pelo contrário, que estes atos e atividades foram somente a partir de então consideradas como sendo a expressão de um tipo específico de indivíduo, um tipo específico de identidade subjetiva que se mostra, por exemplo, em traços particulares de caráter que são o resultado de uma história e desenvolvimento psicossexual[13]. Fazendo referência a Ian Hacking, poderia-se dizer que é somente a partir da segunda metade do século 19 que a perversão se torna uma “possibilidade de individuação”[14]. Davidson liga essa possibilidade ao desenvolvimento de um “estilo psiquiátrico de raciocínio” que determina suas pressuposições. Neste “estilo de raciocínio”, explicações psicológicas centradas ao redor da própria noção de personalidade desempenham um papel importante[15]. De uma perspectiva histórica o estilo psiquiátrico de raciocínio substitui um estilo anatomo-patológico de raciocínio. Em seu estilo posterior, o comportamento desviante é consistentemente ligado a mudanças anatômicas ou a lesões no substrato neurológico. Daí, por exemplo, sérias tentativas foram feitas para se ligar a homossexualidade a mudanças no órgão masculino[16] . Era pensado, por exemplo — a hipótese mostrou-se incorreta — que homossexuais teriam um pênis no formato de um saca rolhas. Não há espaço suficiente para discutir toda a história do sexologia do século 19 em seus detalhes picantes, mas está mais do que claro que é a ausência de lesões orgânicas (por exemplo, no caso da homossexualidade) que forçou os sexologistas e psiquiatras a determinar as perversões (mas também, por exemplo, a histeria) como doenças funcionais. Ou, mais precisamente, é somente no momento exato que a sexualidade é definida como uma função que, como outras funções, podem ser perturbadas sem haver causa orgânica especifica ou lesão neurológica, que as perversões podem ser descritas como categoria ou classe de fenômeno separadas que intrinsicamente pertencem juntas[17]. Somente quando a sexualidade é vista como uma função (reprodutiva) — e essa é exatamente a definição que Krafft-Ebing usa no começo de Psychopathia Sexualis — que as diferentes perversões podem ser categorizadas sob um rótulo como as diferentes desordens (distúrbios?) desta função. Somente a partir deste ponto uma “identidade perversa (psicológica)” que é essencialmente diferente de outras “identidades” torna-se possível.

Todos estes desenvolvimentos pertencem ao contexto no qual Freud articula seus insights sobre a sexualidade humana e seu papel na psicopatologia. Eu limitarei minha discussão sobre Freud à primeira edição dos Três ensaios[18] [19], que são fundamentalmente diferentes das edições posteriores que foram publicadas em 1910, 1915, 1920 e 1924. Nesta primeira edição, a ideia de um desenvolvimento psíquico progressivo está quase que completamente ausente. Estas teorias foram somente introduzidas nas edições posteriores[20]. Já está claro disso que a primeira edição dos Três Ensaios se diferenciam em muitos aspectos do que é frequentemente tomado como sendo característico da teoria freudiana[21]. Mas uma coisa não muda nas edições subsequentes do texto: o ponto de início de Freud. Como é bem conhecido, a primeira parte do texto discute as “aberrações sexuais”, ou seja, as diferentes perversões como elas haviam sido definidas (principalmente) por Kraft-Ebing. É com essas “aberrações” que Freud inicia[22]. A importância deste gesto deveria ser imediatamente evidente. Os sexologistas no final do século 19 e começo do século 20 tomaram o funcionamento (reprodutivo) supostamente normal da sexualidade como seu ponto de início. A partir de então tornou-se possível definir as perversões como desvios dessa função. Freud, por outro lado, chama a própria ideia de sexualidade como uma função reprodutiva de uma “fábula poética”[23], e ele literalmente pões a argumentação de seus colegas sexologistas de cabeça para baixo: para entender a sexualidade nós não deveríamos começar da função supostamente “normal”, mas sim do que nós consideramos ser “desvios” desta função. De fato, de acordo com Freud, estes desvios — as “perversões” clássicas — nos mostram os elementos constitutivos da sexualidade como tal. Isso significa, mais concretamente, que as diferentes perversões revelam os blocos de construção da sexualidade humana de uma forma isolada e ampliada. O sadismo nos confronta, por exemplo, com um instinto de maestria que pertence à sexualidade como tal e que, de outra forma poderia passar desapercebida[24].

É difícil superestimar as consequências desta virada patoanalítica. De fato, Freud conecta este insight imediatamente com a ideia de que a sexualidade não tem um objeto designado por natureza (e, mais ainda, que as pulsões somente tendem ao prazer)[25]. O ponto de início dos sexologistas não é, portanto, nada mais do que uma quimera. Tendo mente o que foi dito anteriormente sobre Foucault e Davidson, tudo isso implica que desde o princípio Freud rejeita as condições de existência das perversões como uma identidade separada, uma “possibilidade de individuação” separada. Se a sexualidade não pode ser compreendida como uma função natural, se a sexualidade pode, além disso, somente ser compreendida desde uma perspectiva de seus assim chamados desvios, então inevitavelmente torna-se impossível classificar um grupo de pessoas como “perversas”, o que, de um ponto de vista psicológico, seria fazer uma distinção fundamental entre um grupo que escapa à “perversão” e outro que não o faz. Davidson conlui disso que Freud rompe do estilo psiquiátrico de raciocínio como foi definido anteriormente neste artigo[26].

As diferentes perversões nos informam sobre os diferentes blocos de construção da sexualidade. O que Freud aprende deles é que a sexualidade é construída de pulsões parciais (oral, anal…) que encontram seu locus nas zonas erógenas correspondentes. Essas pulsões parciais somente perseguem o prazer e são fundamentalmente auto-eróticas — isso significa que elas não miram um objeto ou, mais precisamente, que sua relação a qualquer e todo objeto não tem um significado essencial. É exclusivamente a capacidade do objeto de prover prazer que está em jogo aqui[27]. As diferentes zonas erógenas -e isso é absolutamente crucial — não estão situadas em uma sequência cronológica (ou teleológica). Há somente uma passagem na edição de 1905 dos Três ensaios que parece contradizer essa ideia. É onde Freud escreve a respeito da masturbação genital infantil, da qual dificilmente alguém escapa, que está alinhada com o “propósito da Natureza” (“die Absicht der Natur”) para preparar a zona genital para o papel determinante que ela desempenhará depois na vida[28]. Quando confrontado em 1912 por um membro das célebres reuniões das quarta-feiras à noite com o fato de que isso introduziria um motivo teleológico em seus textos e que nada preparava para tal motivo, Freud imediatamente recuou e mudou seu texto de acordo[29]. Da edição de 1915 para frente, a referência ao “propósito da Natureza” é deixada de fora[30]. A sexualidade não tem objeto natural e, mais radicalmente ainda, não pode haver uma primazia da zona genital que esteja fundada na natureza da sexualidade tampouco. Freud é um psicanalista muito mais radical do que muitos de nossos contemporâneos: ele não somente sustenta que todos nós temos fantasias perversas[31], como também, e isso é mais fundamental, ele desconstrói os pressupostos essenciais que nos permitiriam identificar uma categoria separada dos assim chamados “perversos sexuais”.

Isso é o que Freud diz em 1905. Ou, melhor, isso é o que Freud diz nos primeiros dois capítulos da edição de 1905 dos Três ensaios[32]. No terceiro capítulo intitulado “Transformações da Puberdade” Freud parece defender uma posição completamente diferente. Aqui, por exemplo, Freud escreve o seguinte:

Escritores no assunto… afirmaram a precondição necessária de todo um numero de fixações perversas está em uma fraqueza inata do instinto sexual. Dessa forma a visão parece para mim insustentável. Faz sentido, no entanto, se o que se quer dizer é uma fraqueza constitucional de um fator particular no instinto sexual, nominalmente a zona genital — a zona que controla a função de combinar as atividades sexuais separadas com o propósito da reprodução. Por isso a zona genital é fraca, essa combinação, que é requerida acontecer na puberdade, está destinada a falhar, e o mais forte dos outros componentes da sexualidade continuarão sua atividade como uma perversão [33] .

Como podemos reconciliar esta afirmação com o que Freud já havia afirmado nos primeiros dois capítulos do livro sob consideração? De um ponto de vista histórico é patentemente óbvio que os sexologistas a quem Freud está se referindo disseram exatamente a mesma coisa que o próprio Freud está afirmando, nominalmente, que a perversão deve ser ligada a uma fraqueza da zona genital[34]. Mas essa citação implica uma visão teleológica e funcional da sexualidade, que era precisamente a visão que Freud buscou rejeitar nos primeiros dois capítulos do livro. Davidson está então, bastante justificado ao afirmar que, à luz de sua própria argumentação, Freud poderia somente haver dito o seguinte:

Por isso a zona genital é fraca, essa combinação que frequentemente acontece na puberdade (em vez de: que é requerida de acontecer na puberdade”… isso de fato implica uma interpretação funcional/teleológica, PvH), fracassará e os mais fortes dos outros components da sexualidade continuarão sua atividade ( em vez de “continuarão sua atividade como uma perversão”… a última implica que existe uma “identidade perversa” que pode ser descrita como tal PvH).[35]  

A estrutura perversa

Vamos nos voltar agora para Lacan e seus seguidores para considerar a maneira pela qual eles repensam o estatuto das perversões sexuais. Meu foco aqui não é nem analisar a totalidade dos textos de Lacan nem apresentar um relato detalhado de tudo o que Lacan escreveu sobre as perversões, o que , de fato, não foi muito. Em vez disso eu me limitarei à ideia de uma estrutura perversa, que é muito popular em muitos círculos lacanianos e que é supostamente essencialmente diferente das estruturas neuróticas e psicóticas[36]. De acordo com Verhaeghe, a teoria das diferentes estruturas do sujeito é geralmente aceita na teoria lacaniana contemporânea[37]. Enquanto a ideia é sem dúvida baseada em algumas premissas mais fundamentais de Lacan[38], seria porém, injusto reduzir seu pensamento sobre este tópico à ideia de que a perversão, ou a estrutura perversa como é frequentemente chamada, é essencialmente diferente das outras duas estruturas mencionadas. Lacan não pode ser reduzido às versões de cartilha de seu pensamento. Daí, em seu célebre texto “Kant com Sade”, Lacan tenta compreender as características básicas do desejo humano como tal a partir da perspectiva do sadismo e, mais particularmente, do trabalho do próprio Sade[39]. Aqui Lacan defende uma abordagem patoanalítica que torna impossível reduzir o “sadismo” a uma perversão específica ao lado de outras perversões. O sadismo não é, neste texto, interpretado exclusivamente “ao lado e em oposição” a outras posições. Ao contrário, o trabalho de Sade demonstra, de acordo com Lacan, os impasses da filosofia de Kant e, ao fazê-lo, permite a descoberta de alguns aspectos fundamentais do desejo humano. Não há lugar aqui para fornecer uma leitura detalhada deste texto difícil, mas está claro que nele, Lacan procura seguir uma abordagem patoanalítica. Esta abordagem caracteriza, como nós já sabemos, os primeiros textos de Freud e vai contra a ideia de “identidades” patológicas que seriam essencialmente diferentes de outras “identidades” patológicas. O pensamento de Lacan sobre (o estatuto das) diferentes estruturas é, em outras palavras, muito menos unívoco do que geralmente é sugerido.

Mas no que implica essa teoria das estruturas subjetivas sobre a qual parece haver um comum acordo? Para termos uma ideia mais clara desta teoria, vale a pena nos focarmos um pouco mais em Verhaeghe e na maneira pela qual ele tematiza as perversões em seu bem conhecido livro sobre o diagnóstico diferencial em psicanálise[40]. De fato, o tratamento das perversões por Verhaeghe torna explícito o paradigma que poderia ser considerado como subjacente a uma série de outras publicações lacanianas sobre o mesmo tópico[41]. Assim como esses autores, Verheaghe refere-se, em sua introdução, ao capítulo sobre as perversões dos Três ensaios sobre a sexualidade, de Freud. Ele menciona a ideia de Freud de que a sexualidade humana é essencialmente polimorfa perversa e que a predisposição à perversão está presente em  todos nós. Ele então conclui como se segue: “Consequentemente, de acordo com a teoria freudiana, a distinção entre traços perversos e a estrutura perversa não é fácil de se fazer”[42]. É imediatamente claro que essa citação contradiz a perspectiva patoanalítica de Freud que eu expliquei anteriormente neste artigo. Essa citação pode, de fato, ser apresentada da seguinte forma: “claro, nós todos temos mais ou menos tendências perversas, e fantasias perversas são bastante comuns… Mas estas são irrelevantes com relação a uma estrutura essencialmente neurótica, psicótica ou perversa; a “perversão” verdadeira/real está situada em outro lugar”. Vale a pena recuperarmos que a distinção entre traços perversos e a perversão propriamente dita em algumas maneiras ressoam uma distinção similar que pode ser encontrada no trabalho de Kraft-Ebing de alguns psiquiatras do século 19. Kraft-Ebing chama as trangressões perversas no contexto de patologias não sexuais de “perversidades” (Perversitäten) em pessoas de outra forma “saudáveis”. As últimas seriam vícios que devem ser julgados de um ponto de vista moral ou jurídico. Perversitäten seriam atos licenciosos cometidos por pessoas que poderiam fazer diferente, mas que preferem prazeres proibidos ao que a lei considera “normal” ou “bom”. Como um ponto de princípio, esses “atos perversos” são julgados imorais e são frequentemente passíveis de punição. Eles tem de ser especificamente distinguidos da perversão (Perversion) como uma doença que ‘anula’ o livre-arbítrio e que diz respeito à toda a personalidade — portanto a perversão é uma “possibilidade de individuação”.[43] É válido notar que assim como autores lacanianos contemporâneos, Kraft-Ebing considera a “perversão” não somente como um tipo distinto de identidade, mas também como um tipo incurável. Uma vez perverso, sempre um perverso!

Em vez de chegarmos a uma conclusão de modo muito apressado, é razoável perguntarmos o quê caracteriza a estrutura perversa de acordo com os autores sob consideração. Essencialmente, Lacan e seus seguidores ligam a perversão a um tipo específico de relação com a (o Outro da) lei[44]. A perversão é fundamentalmente identificada com uma relação específica com a Lei da linguagem que introduz a falta (ou, como Lacan coloca: castração) e, ao fazê-lo, torna o desejo possível. Essa lei é também a lei do Pai que proíbe a Mãe a tomar a criança como um objeto que pode permití-la a superar sua própria falta no gozo (jouissance). Portanto, não é surpresa que alguém busque a origem da estrutura perverse em relação ao primeiro Outro – em princípio, a Mãe. O sujeito perverso, assim nos é dito, está preso em sua relação ao primeiro Outro no qual ele é reduzido a um objeto fálico permitindo a ela (fantasmaticamente) portanto, superar sua falta. Em outras palavras, a criança não é aqui nada além do falo imaginário do Outro[45]. O pai (ou seja, a lei que ele representa) está, em um só tempo, reduzido a um espectador sem nenhum poder ou importância. Portanto, a castração é tanto negada (na Mãe que supostamente seria capaz de superar a falta em relação a seu filho) quanto reconhecida (no pai impotente). Lacan generaliza aqui o mecanismo de defesa que, de acordo com Freud, caracteriza o fetichismo de tal maneira que ele agora se aplica a todas as perversões. Este mecanismo de defesa é o/a denegação[46]. Esse mecanismo de defesa implica que o sujeito tome uma posição dupla: ele, ao mesmo tempo, reconhece e nega a castração[47].

Essa situação confronta a criança com um paradoxo que está, de acordo com nossos autores, na base da estrutura perversa e explica sua lógica. A criancinha é, de um lado o objeto que torna possível o gozo do Outro, mas de outro lado, esse estado de coisas exclui o desenvolvimento de uma identidade separada. De fato, se  o infans permanecer como o objeto que preenche a falta do Outro, ele não poderá desenvolver um desejo próprio. A criança tenta superar essa situação paradoxal tornando-se — ativamente — ela própria no instrumento do gozo do Outro. Ele está a serviço do gozo do Outro, cuja possibilidade ele continua a acreditar firmemente. O gozo do Outro é o objetivo de todo esse trabalho duro. Isso explicaria, por exemplo, por que sujeitos perversos tão frequentemente afirmam que as vítimas de seus atos “também gostam/gozam” ou que “eles que pediram”[48]. O sujeito perverso, isso está claro, se identifica com o objeto que o permite superar a falta de uma vez por todas. Isso também implica que o sujeito perverso não aceita a lei da castração e da falta. Mas o gozo do Outro implicaria, inevitavelmente, no seu próprio desaparecimento como um sujeito desejante. Não há sujeito desejante for a da falta e da castração. Portanto, a possibilidade de gozo do Outro provoca angústia. Essa angústia força o sujeito a limitar o gozo e portanto introduzir a lei afinal (o masoquista, por exemplo, se submete ao Outro e se torna, ele próprio, em objeto de seu gozo, mas ao mesmo tempo ele se certifica de não perder o controle da situação e define um limite)[49]. Mas essa lei somente pode ser a lei do sujeito perverso, já que pertence à própria estrutura da perversão o questionamento da lei do Outro (do pai, que introduz a castração). As consequências deste desafio são de que ou o Outro é reduzido a um espectador impotente ou é sistematicamente ridicularizado. Pode-se pensar que os escritos de Sade, que “ensina” o Outro passivo (aqueles que leem seus livros) sobre o que é o “gozo real” e como ele se diferencia radicalmente dos nossos pequenos (“neuróticos”) prazeres. Pode-se ver a diferença entre a posição perversa e a neurótica. Na última, a castração é reconhecida e a criança aceita que nem ele nem o pai podem satisfazer o desejo da mãe. Aqui a questão central no que concerne a sexualidade torna-se: eu estou indo bem? Nós estamos muito distantes aqui dos escritos de Sade[50].

Mesmo que incompleta, essa descrição deve ser suficiente para indicar o que está em jogo aqui. Em primeiro lugar, Lacan não está mais preocupado com os tipos de comportamento sexual (fetichista, sádico…) que podem ser vinculados a um tipo específico de identidade. Esses tipos de comportamento podem ocorrer em qualquer estrutura. Lacan está, ao contrário, muito mais interessado emu ma relação estrutural com a lei (do Outro). É sobre isso que a ideia de uma estrutura perversa é. A noção de uma estrutura perversa implica que essa relação caracteriza um grupo específico de pessoas de um modo consistente e invariável. Portanto, nós estamos falando de um tipo de identidade ou perfil psicológico (o “perverso”) que não mais ameaça a sexualidade humana, mas a sociedade humana como tal[51]. A lei que o perverso recusa (a lei do pai, da castração… diferença sexual) é de fato suposta a ser a lei que funda a sociedade humana. Essa lei (“não”) do Pai (que nos separa do primeiro Outro) se refere inerentemente à interdição do incesto ou à obrigação de exogamia (e portanto à lei da diferença sexual) que, de acordo com Lacan, funda a sociedade humana. Como uma consequência o sujeito perverso não questiona essa ou aquela lei específica. Ao contrário, ele ativamente subverte a ordem da legalidade como tal.[52] Isso provavelmente explica, em segundo lugar, porque a qualificação de “perverso” é constantemente e entusiasticamente aplicada for a da esfera estritamente sexual, enquanto as perversões sexuais clássicas simultaneamente continuam a ser utilizadas (geralmente com a exceção da homossexualidade[53]) como paradigmas da perversão. De fato, a lei que o sujeito perverso recusa (ou denega) está, em ultima análise, estruturalmente vinculada à (lei da) diferença sexual[54][55]. Desta maneira, as perversões sexuais clássicas continuam a desempenhar um papel pivô no contexto que estou discutindo aqui. Em terceiro lugar, essas perversões estão — assim como no passado — tanto implicitamente quanto explicitamente qualificados de um modo negativo. Nós encontramos essa qualificação negativa tanto no contexto clínico quanto nos escritos teóricos. Verhaeghe, por exemplo, escreve que as perversão estão próximas da psicopatia, e ele descreve os sujeitos perversos como “perpetradores potenciais”[56]. Verhaeghe de fato escreve que nós encontramos um quadro clínico generalizado da estrutura perversa na prática forense[57][58]. Isso não deve vir como uma surpresa dado que a perversão é definida, em primeiro lugar, em termos de uma relação desafiadora à lei.

Essa atitude negativa em relação ao “perverso” transpassa o trabalho de outros autores lacanianos que aparentam não exibir qualquer simpatia pelo tipo de pessoa a quem eles chama “perversos”. Portanto, Feher, por exemplo, escreve que ninguém “em sã consciência” chamaria a si próprio de “perverso”[59]. Ela nao somente afirma que ninguém simpatiza com perversos, mas que deveríamos desconfiar do “estranho mundo da lógica perversa”[60] e aquela teoria queer, que é sua representante cultural, deveria portanto ser rejeitada[61] [62]. Essa atitude negativa dificilmente vem como surpresa quando percebemos que as perversões foram inicialmente definidas como uma ameaça direta à própria existência da sociedade humana. Na medida em que as perversões tradicionais continuam a ter um valor paradigmático dentro da assim chamada estrutura perversa, suas qualificações negativas (e a rejeição que isso implica) permanecem intactas (ou são reinstaladas [63]). Nós somos confrontados aqui com uma ambiguidade que é de difícil solução: de um lado, o problema da perversão não pode ser limitado aquele das “aberrações sexuais”, enquanto de outro lado essa última continua a ser seu paradigma preferido. Dessa forma, as perversões sexuais clássicas continuam a participar da reputação negativa que acompanha as perversões e que Freud (mas também Krafft-Ebing) queriam superar[64]. Estamos aqui já bem distantes das intuições iniciais de Freud.

Eu sugeri mais cedo que teóricos lacanianos tendem a reintroduzir a ideia de uma “identidade perversa”. Ao fazê-lo, eu obviamente quis indicar que a maneira que esses teóricos tematizam as “posições subjetivas” podia sinalizar uma mudança regressiva de volta ao estilo psiquiátrico de raciocínio que Freud, ao menos inicialmente, rejeitou pelas razões já expostas. Pode-se, claro, objetar que a sexologia do século XIX tomou seu ponto inicial em uma função sexual alegadamente “normal” e que Lacan e os lacanianos dos quais eu falo não aceitam uma posição ou estrutura “normal” ao lado da perversa e neurótica.

Mas as coisas podem ser mais complicadas do que parecem ser. As três estruturas que são distinguidas na teoria lacaniana evidentemente não estão no mesmo nível. Posto de uma maneira bruta, poderíamos dizer que há uma posição neurótica ao lado de uma posição psicótica e então há “perpetradores potenciais”. A estrutura perversa é reiteradamente avaliada de forma negativa em relação às duas outras estruturas. Mas isso não é tudo – ao mesmo tempo a posição ou estrutura neurótica tende a ser descrita como sendo aquela “normal”. Há muitos exemplos que ilustram essa tendência. Verhaeghe fala de um “contexto normalo-neurótico”[65], assim como chama o psicanalista de “normalo-neurótico”[66]. Dessa forma, Verhaeghe implicitamente transforma a estrutura ou posição neurótica no padrão para uma “melhor forma de viver”. Em linhas semelhantes, Fink escreve sobre um paciente perverso dizendo que há “pouca esperança” de que ele algum dia se torne neurótico. Citando o ensaio de Freud “A Divisão do Ego no Processo de Defesa”[67]  , o mesmo autor acrescenta o termo “neurótico” entre parênteses depois de “normal” a uma citação na qual Freud fala das “consquencias normais da angústia de castração”[68]. Portanto, apesar das aparências, esses autores lacanianos — de uma maneira muito mais sistemática que o próprio Lacan — claramente traem a patoanálise freudiana. A perversão não mais nos informa sobre a sexualidade como tal, mas está reduzida a uma estrutura particular (patológica) junto a outras estruturas. Essa estrutura específica não tem nada em princípio a nos ensinar sobre o desejo humano como tal.

A influência da psiquiatria francesa: Dupré?

A perversão lacaniana — a ideia de uma “estrutura perversa” — parece participar de um universo que não é exatamente o mesmo que aquele que determina as ideias de Freud sobre a perversão. Estamos acostumados a pensar sobre Lacan e a teoria lacaniana em termos de um “retorno a Freud”. Mas nós podemos entender essa teoria apropriadamente – especialmente no que diz respeito às perversões – sem leva rem conta a tradição da psiquiatria francesa, na qual Lacan foi formado como um psiquiatra? Ou, mais concretamente: não é Lacan, com relação às perversões, um pupilo de Ernest Dupré, em vez de um aluno de Krafft-Ebing (e, consequentemente, de Freud)? Dupré influenciou de forma hegemônica a psiquiatria francesa no que diz respeito ao problema das perversões até ao menos 1960[69]. Dupré pertence à geração de Clérambault — a quem Lacan chamava seu “mestre na psiquiatria” — e cuja influência no pensamento lacaniano também permanece insuficientemente estudada. Como não disponho de espaço suficiente aqui para dar um tratamento detalhado da relação entre Lacan (a ideia de uma estrutura perversa) e Dupré, eu me limitarei a formular os contornos de uma hipótese.

Apesar de diferenças importantes que separam Lacan e Dupré, há algumas similaridades perturbadoras que merecem nossa atenção. É verdade que Dupré dessexualiza as perversões mais ainda do que Lacan. Em seu trabalho, as perversões sexuais não mais funcionam como um paradigma da perversão em geral. Elas não são nada mais do que uma espécie entre outras (perversões do instinto de conservação e do instinto de associação)[70]. Além disso, Dupré postula uma constituição perversa inata que no fim não é nada mais do que uma tendencia a infligir o mal e fazer o errado (ou a preferir o que é mau ao que é bom)[71]. Obviamente, uma estrutura (perversa) não pode ser identificada a uma constituição no sentido biológico da palavra como no Trabalho de Dupré. Mas pode-se ponderar se o primeiro não é sua imagem reversa no espelho. Claro, a estrutura perversa não é inata do mesmo modo como a constituição biológica de Dupré o é. Mas sua gênese data de tão antigamente que tende a transcender o tempo histórico[72]. Isso explica seu caráter imutável e indeclinável (incurável) que é partilhado com uma constituição biológica. Além disso, a estrutura perversa está explicitamente ligada — como é na constituição perversa, apesar de por razões diferentes — à psicopatia e, portanto, ao problema do mal. Segue-se disso que a estrutura perversa essencialmente transcende a sexualidade, mesmo se ao mesmo tempo ela não pode ser compreendida como separada dela em Lacan, pelas razões que expliquei anteriormente. Apesar dessa hipótese ser ainda uma tentativa, a conclusão de Lantéri-Laura certamente não mais nos vem como uma surpresa: “a noção de uma estrutura perversa, 40 anos depois de Dupré, assegura exatamente o mesmo papel que aquele da constituição e também para reinstalar um neo-moralismo”[73][74].

Conclusão

A desconstrução freudiana da “normalidade” transformou a perverão emu ma condição humana universal. Especificamente, ela tornou impossível apresentar a perversão como uma identidade (psicológica) diferente. De uma perspectiva freudiana, poderia-se dizer que, já que todos são “perversos”, ninguém pode ser um perverso no sentido de uma identidade que é essencialmente diferente de outras identidades. O sujeito perverso, em outras palavras, não é somente um “outro” com que meu não tenho nada em comum. Claro, isso não quer dizer que para Freud in sexualibus “tudo passa”. Ao contrário, Freud liga as diferentes pulsões parciais em seus Três ensaios, a “formações-reação”- basicamente vergonha e nojo (mas ele também menciona a culpa, por exemplo) — que colocam limites as nossa tendências perversas inatas[75]. Essas “formações-reação” são o ponto inicial para o desenvolvimento de proibições e obrigações culturais no que diz respeito à sexualidade. Portanto, para Freud não há sexualidade sem limites e sem conflito. Mas as leis que fazemos com relação à ela não pode, sem grande dificuldade, ser ligada a uma suposta “natureza” da sexualidade. Elas são essencialmente históricas e contingentes e, portanto, sujeitas a críticas e debate[76].

Desse ponto de vista freudiano, pensar em termos de posições psicopatológicas arrisca ser inevitavelmente anacrônico. As perversões tornam-se novamente identidades — de fato, identidades de uma natureza desprezível — que são essencialmente diferentes de outras “identidades”. O fato de que “traços perversos” (universais) não são mais rejeitados como moralmente maus e inadmissíveis não é um consolo real, já que agora o próprio estado patológico que é sistematicamente julgado de uma forma negativa ou que tende a ser qualificado como “mau” ou “maligno”. Isso é, no mínimo, paradoxal. A história da psiquiatria e da sexologia do século 19 pode ser resumida como uma tentativa permanente (e em grande medida mal-sucedida?[77]) de separar o pensamento psiquiátrico científico de preconceitos morais e religiosos nas bases dos quais nós consideramos todos os tipos de práticas sexuais como sendo “ruins” ou “moralmente erradas”. Essa é precisamente a razão pela qual Krafft-Ebing, por exemplo, separa “perversidades” que são moralmente repreensíveis de “perversões” que são doenças mentais. Freud dá ainda um passo a mais ao “desconstruir” a própria ideia de “perversão” como uma identidade separada e transformá-la em uma disposição humana universal. Na tradição lacaniana, esses dois aspectos arriscam ser confundidos mais uma vez[78]. O que caracteriza as perversões é precisamente uma relação enroscada e provocadora com a lei que funda a sociedade humana. E uma vez que a perversão é caracterizada como o debilitamento sistemático das leis da sociedade enquanto tal, não deveríamos achar muito surpreendente que as perversões frequentemente evoquem uma rejeição moral (violenta). Essa rejeição parece repetir em muitos modos os pressupostos e preconceitos de psiquiatria francesa tradicional que Lacan aprendeu em sua formação psiquiátrica.

No entanto, nós não podemos compreender esse movimento regressivo simplesmente nos referindo ao background histórico do pensamento lacaniano. Há, em minha opinião, ao menos dois outros elementos que precisam ser mencionados aqui. Primeiramente — e apesar das aparências — os autores lacanianos sob discussão rejeitam a perspectiva patoanalítica que eu defendi como intrinsecamente ligada à desconstrução da identidade perversa. Uma segunda razão pode ser ainda mais interessante, ao menos do ponto de vista filosófico. Parcialmente como uma consequência do trabalho de Lacan, tornou-se costumeiro pensar sobre a sexualidade da perspectiva da diferença sexual. Mas é possível pensar a sexualidade dessa forma sem sera o mesmo tempo (e pela mesma razão) heteronormativo? Isso significaria desqualificar ou subordinar “posições” nas quais a diferença sexual é negada a posições nas quais ela não o é. Na primeira edição dos Três ensaios, Freud não tematiza a sexualidade a partir da perspectiva da diferença sexual tanto quanto da perspectiva de prazeres corporais não-funcionais.[79] As perversões são pensadas como maneiras estranhas de se obter prazeres corporais, mas não há nenhum princípio intrínseco que permita subordinar uma forma de prazer a outra forma de prazer. Em Lacan, pelo contrário, o que caracteriza o sujeito perverso não é tanto os prazeres corporais que o sujeito está procurando, mas a forma torcida e transgressiva pela qual o sujeito se relaciona à lei [80]. Lacan não define o gozo perversa em termos de prazeres corporais, mas, por exemplo, em termos de angústia que ele provoca no Outro[81].

É a tematização da sexualidade em termos de prazeres corporais, juntamente à perspectiva patoanalítica que torna uma desconstrução da perversão como uma identidade separada possível e necessária. Dessa forma, minha jornada através da problemática das perversões termina (ao menos, provisoriamente) onde ela começou: com Foucault. De fato, não é preciso muita imaginação para descobrir os “corps des plaisirs” de Foucault nos prazeres sexuais de Freud[82]. Talvez no momento nós deveríamos concluir que se a psicanálise permanecer verdadeira aos insights mais importantes de Freud, então ela será uma empreitada foucaultiana. 

REFERÊNCIAS

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* Philippe Van Haute ensina antropologia filosófica na Radboud University, em Nijmegen (Holanda) e é professor convidado na University of Pretoria (África do Sul). É psicanalista (Escola Belga de Psicanálise).

* Hugo Lana é psicanalista. Mestre e doutorando em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo.


[1] ROUDINESCO, Elisabeth (2014). Sigmund Freud en son temps et dans le nôtre. Paris: Seuil; p. 194.

[2] DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press.

[3] VAN HAUTE, Philippe; GEYSKENS, Tomas (2004) Confusion of tongues. The primacy of sexuality in Freud, Ferenczi and Laplanche. Nova York: Other Press.

[4] DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press.

[5] Van Haute and Geyskens 2012; VAN HAUTE, Philippe (2014) Freud against Oedipus. Radical philosophy, 188, pp. 39-46.

[6] TORT, Michel (2005) Fin du dogme paternal. Paris: Aubier.

[7] Em tempos mais recentes, Jean Laplanche sem dúvidas tem estado muito atento a essa temática (ver e.g Laplanche 2007). Sua teoria de uma sedução generalizada implica em uma crítica feroz da abordagem desenvolvimentista da psicanálise, do complexo de Édipo e da primazia do falo lacaniana. Desse modo, Laplanche tenta libertar a psicanálise de suas tendências normalizantes (Laplanche 2007; Van haute 2004)

[8] No que se segue eu não discutirei a relação entre homossexualidade e psicanálise. Essa relação é e permanece em muitos modos muito ambígua e complicada (Dean and Lane 2001). É muito óbvio que muitos psicanalistas ainda defendem posições altamente problemáticas nesse tópico. Os debates recentes na França entre psicanalistas sobre o casamento gay, por exemplo, testemunham essa atitude extremamente conservadora. Analisando diferentes posições e ideias nesse assunto nos levaria muito longe de nossa questão. Para uma visão geral, ver Roudinesco, 2002.

[9] E mais genericamente dos diagnósticos diferenciais enquanto tais. Quando a psicopatologia nos informa sobre quem nós somos e nos mostra as tendências e problemáticas fundamentais que são operativas em todos nós, torna-se muito difícil pensar as diferentes patologias como “identidades” independentes que podem ser claramente distinguidas uma da outra, quanto mais de uma “normalidade” alegada.

[10] Essa primeira edição é de fato difícil de se encontrar. Não há tradução para o inglês disponível no momento. Uma tradução inglesa de 1905 está atualmente em preparação por Ulrike Kirstner, Herman  Westerink e eu para a publicação pela Verso. Para uma versão recente em alemão ver S. Freud, Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie (Hrsg. Philippe Van Haute, Christian Huber & Herman Westerink), Vienna University Press, 2015.

[11] KRAFT-EBING, Richard von (1965) Psychopathia Sexualis. Nova York: Stein and Day (tradução da 12ª edição).

[12] FOUCAULT, Michel (1976) Histoire de la sexualité 1: La volonté de savoir. Paris: Seuil., DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press.

[13] FOUCAULT, Michel (1976) Histoire de la sexualité 1: La volonté de savoir. Paris: Seuil., passim; DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press. p. 22 ff

[14] HACKING, Ian (2002) Making up People. In: Historical ontology. Cambridge/Massachusetts: Harvard University Press, pp. 99-114.: p. 107

[15] DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press.: p. 63

[16] DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press.: p. 6

[17] DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press.: p. 74 and passim

[18] FREUD, Sigmund (1905) Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig / Wien: Deuticke.; FREUD, Sigmund (1905d) Three essays on the theory of sexuality, SE 7.

[19] Eu somente tematizarei a primeira edição. Eu citarei de ambas as edições Alemã 1905 e 1924 que se encontra na Standard Edition. S. Freud, Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie (Hrsg. Philippe Van Haute, Christian Huber & Herman Westerink), Vienna University Press, 2015.

[20] VAN HAUTE, Philippe (2014) Freud against Oedipus. Radical philosophy, 188, pp. 39-46.

[21] VAN HAUTE, Philippe; WESTERINK, Herman (2015) Hysterie, Sexualität und Psychiatrie. Eine Relektüre der ersten Ausgabe der’Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Vienna : Vienna University Press.

[22] FREUD, Sigmund (1905) Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig / Wien: Deuticke.: p. 1 ff; FREUD, Sigmund (1905d) Three essays on the theory of sexuality, SE 7.: p. 135 ff

[23] FREUD, Sigmund (1905) Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig / Wien: Deuticke.: p. 2; FREUD, Sigmund (1905d) Three essays on the theory of sexuality, SE 7.: p. 136

[24] FREUD, Sigmund (1905) Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig / Wien: Deuticke.: passim

[25] FREUD, Sigmund (1905) Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig / Wien: Deuticke.: p. 10; FREUD, Sigmund (1905d) Three essays on the theory of sexuality, SE 7.: p. 147-148

[26] DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press.: p. 71

[27] FREUD, Sigmund (1905) Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig / Wien: Deuticke.: p. 37; FREUD, Sigmund (1905d) Three essays on the theory of sexuality, SE 7.: p. 181

[28] FREUD, Sigmund (1905) Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig / Wien: Deuticke.: p. 42

[29] FREUD, Sigmund (1905d) Three essays on the theory of sexuality, SE 7.: p. 188

[30] Começando com a edição de 1915 a passagem lê-se assim: “É dificilmente possível evitar a conclusão de que as fundações para a futura primazia sobre a atividade sexual exercida por essa zona erógena sejam estabelecidas pela masturbação infantil inicial, que é apenas uma fuga individual” (Freud 1905d: 188)

[31] Encontra-se essa interpretação das teorias de Freud em textos dos mais bem-informados e inteligentes psicanalistas. Ver e.g. Florence 2005

[32] A introdução de uma abordagem desenvolvimentista junto com a introdução do complexo de Édipo em versões tardias muda fundamentalmente a perspectiva de Freud e introduz uma abordagem normalizante. É para além do escopo desse artigo desenvolver uma teoria sobre essas mudanças. Para um tratamento mais detalhando ver  Vanhaute 2005, 2014 e Van Haute e Westerink 2015.

[33] FREUD, Sigmund (1905) Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig / Wien: Deuticke.: p. 75; FREUD, Sigmund (1905d) Three essays on the theory of sexuality, SE 7.: p. 237

[33] DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press.: p. 89

[34] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.; FINK, Bruce (1997) Clinical introduction to Lacanian psychoanalysis: theory and technique. Massachusetts: Harvard University Press.; SWALES, Stephanie  (2012) Perversion: a Lacanian psychoanalytic approach to the subject. Nova York: Routledge.; BONNY, Pierre; MALEVAL, Jean-Claude (2015) Evolution du concept de structure perverse-fétichiste dans le courant lacanien. La théorie et sa Clinique. Evolution psychiatrique, 2015. <www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0014385515000900>. Consultado em 16/11/2015.

[35] DAVIDSON, Arnold (2001a) The emergence of sexuality: historical epistemology and the formation of concepts. Cambridge, MA: Harvard University Press.: p. 89

[36] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.: p. 77

[37] “Todo o problema das perversões consiste em conceber como a criança, em relação à mãe – uma relação constituída em análise não pela sua dependência vital dela, mas pela sua dependência de seu amor, ou seja, pelo seu desejo de desejo, identifica ela própria (a criança) com o objeto imaginário de seu desejo na medida em que a mãe ela própria simboliza a si no falo “(Lacan, 1977: 197-198).

[38] LACAN, Jacques (1966) “Kant avec Sade”. In: Écrits. Paris: Seuil, pp. 765-790.

[39] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.

[40] FINK, Bruce (1997) Clinical introduction to Lacanian psychoanalysis: theory and technique. Massachusetts: Harvard University Press.; FEHER, Judith (2003) A Lacanian approach to the problem of perversion. In: The Cambridge companion to Lacan (Org. J.-M. Rabaté); DOR, Joël (1987) Structure et perversion. Paris: Denoël.; MILLER, Jacques-Alain (1996) “On Perversion”. In: Reading seminars I and II: Lacan’s return to Freud (Org. R. Feldstein; B. Fink; M. Jaanus). Albany: State University of New York Press.; LEBRUN, Jean-Pierre (2007)  La perversion originaire. Paris: Payot.

[41] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.: p. 403

[42] “Perversão do instinto sexual… não confundir com a perversidade do ato sexual; já que a última pode ser induzida pelas condições outras do que psicopatológicas. O ato perverso concreto, monstruoso como é, não é clinicamente decisivo. Para diferenciar entre doença (perversão) e vício (perversidade), deve-se investigar toda a personalidade do motivo individual e original que leva ao ato perverso. Aí será encontrado a chave do diagnóstico” (Krafft-Ebing 1965: 53).

[43] Para o que se segue, ver e.g. Verhaeghe 2004: 397-427; Swales 2012.

[44] _____. (1977) Écrits. A Selection. Nova York/Londres: Norton company.: p. 197-198

[45] FREUD, Sigmund (1927e) Fetisjism, SE 21.

[46] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.: p. 411

[47] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.: p. 425

[48] É por isso que Lacan chama a perversão de uma ‘père-version’.

[49] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.: p. 436

[50] DEAN, Tim (2008) The frozen countenance of perversions. Parallax, 14(2), pp. 93-114.

[51] Stephanie Swales escreve a esse respeito: “O sujeito perverso é aquele que passou pela alienação mas denegou a castração, sofrendo de jouissance excessiva e uma crença central de que a lei e as normas sociais são fraudulentas no pior dos casos e fracas no melhor dos casos” (Swales 2012: xii).

[52] A atitude de muitos psicanalistas lacanianos com relação à homossexualidade permanece bastante ambígua. Para um tratamento mais detalhado dessa problemática ver E. Roudinesco 2002, Tort 2005.

[53] FEHER, Judith (2003) A Lacanian approach to the problem of perversion. In: The Cambridge companion to Lacan (Org. J.-M. Rabaté), pp. 191-207.

[54] De fato, o perverso se apresenta como o objeto que pode preencher a falta do Outro e, ao fazê-lo, nega a diferença sexual. Ele é um “homossexual”.  (Lacan 1973: 78).

[55] “… a linha tênue entre a vítima e o perpetrador é frequentemente transgredida…” (VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.: p. 429).

[56] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.: p. 405 ff

[57] Por exemplo, Verhaeghe escreve “em um mundo convencional, a lei será aparentemente seguida, ou seja, os perversos agem na assunção que outros seguirão as regras convencionais e ele ou ela farão uso total de seu conhecimento (Verhaeghe 2004: 412)”. Em uma nota de rodapé a essa passagem ele acrescenta: “a associação com a velha psiquiatria é bem clara…”

[58] FEHER, Judith (2003) A Lacanian approach to the problem of perversion. In: The Cambridge companion to Lacan (Org. J.-M. Rabaté), pp. 191-207.: p. 191

[59] FEHER, Judith (2003) A Lacanian approach to the problem of perversion. In: The Cambridge companion to Lacan (Org. J.-M. Rabaté), pp. 191-207.: p. 205

[60] FEHER, Judith (2003) A Lacanian approach to the problem of perversion. In: The Cambridge companion to Lacan (Org. J.-M. Rabaté), pp. 191-207.: p. 203-204

[61] Judith Feher claramente não tem ideia do que “falácias informais” são…

[62] Nós deveríamos de fato nos lembrar que a sexologia clássica tentou se livrar dessas qualificações negativas afirmando que as perversões eram doenças mentais e que escapavam de nosso livre-arbítrio. A consequência disso é que os sujeitos perversos merecem nossa ajuda e atenção, não rejeição.

[63] Stephanie Swales a quem eu já citei anteriormente (ver nota 13) é um exemplo perfeito disso. De um lado ela define o sujeito perverso como alguém para quem a lei é fraudulenta, enquanto ao mesmo tempo – e sob o mesma direção dando um tratamento muito detalhado das diferentes perversões sexuais (Swales 2012).

[64] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.: p. 335

[65] VERHAEGHE, Paul (2004) On being normal and other disorders: a manual for clinical diagnostics. Nova York: Other Press.: p. 352

[66] FREUD, Sigmund (1940e) The splitting of the ego, SE 20.

[67] FINK, Bruce (1997) Clinical introduction to Lacanian psychoanalysis: theory and technique. Massachusetts: Harvard University Press.: p. 197

[68] MAZALEIGUE, Julie (2014) Les déséquilibres de l’amour. La genèse du concept de perversion sexuelle, de la revolution française à Freud. Paris: Ithaque ; LANTÉRI-LAURA, Georges (2012) Lecture des perversions. Histoire de leur appropriation medical. Paris: Economica/Anthropos.: p. 129-137

[69] DUPRÉ, Ernest (1925) Les perversions instinctives. Pathologie de l’imagination et de l’émotivité. Paris: Payot, pp. 355-428.: p. 367 et passim

[70] DUPRÉ, Ernest (1925) Les perversions instinctives. Pathologie de l’imagination et de l’émotivité. Paris: Payot, pp. 355-428.: p. 419 ; LANTÉRI-LAURA, Georges (2012) Lecture des perversions. Histoire de leur appropriation medical. Paris: Economica/Anthropos.: p. 133

[71] LANTÉRI-LAURA, Georges (2012) Lecture des perversions. Histoire de leur appropriation medical. Paris: Economica/Anthropos.: p. 167

[72] “…La notion de structure perverse…(assure), quarante ans après E. Dupré, exactement le même office que celle de constitution, et aussi pour restituer un néo-moralisme” [A noção de estrutura perversa… (assegura), quarenta anos depois de E. Dupré, exatamente o mesmo ofício que a da constituição, e também para restituir um neomoralismo”].

[73] LANTÉRI-LAURA, Georges (2012) Lecture des perversions. Histoire de leur appropriation medical. Paris: Economica/Anthropos.: p. 185

[74] FREUD, Sigmund (1905) Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Leipzig / Wien: Deuticke.: p. 35; 1905d: 151 ff

[75] VAN HAUTE, Philippe; WESTERINK, Herman (2015) Hysterie, Sexualität und Psychiatrie. Eine Relektüre der ersten Ausgabe der’Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie. Vienna : Vienna University Press.

[76] A teoria de Lacan das perversões deveria ser recontextualizada da perspectiva da história do pensamento psiquiátrico no assunto. Para mais nessa questão, ver MAZALEIGUE, Julie (2014) Les déséquilibres de l’amour. La genèse du concept de perversion sexuelle, de la revolution française à Freud. Paris: Ithaque: p. 290.

[77] “Traços perversos” que ocorrem em estruturas neuróticas e psicóticas não são mais vistos como intrinsecamente problemáticos ou moralmente “errados” como em Krafft-Ebing. Pode não ser injusto dizer que para autores lacanianos sob consideração eles não são nada mais que “frivolidades sexuais” que não merecem atenção.

[78] Para uma discussão desse problema ver BUTLER, Judith. Preface (1999). Gender trouble: Feminism and the subversion of identity, p. vii-xxviii, 1999.

[79] A ideia de que o gozo perverso está intrinsecamente ligado a provocar angústia no Outro  (LACAN, Jacques (2004). L’angoisse. Le séminaire de Jacques Lacan (Org. J.-A. Miller). Paris: Seuil) ilustra a mesma problemática. Ver também MAZALEIGUE, Julie (2014) Les déséquilibres de l’amour. La genèse du concept de perversion sexuelle, de la revolution française à Freud. Paris: Ithaque: p. 290.

[80] LACAN, Jacques (2004). L’angoisse. Le séminaire de Jacques Lacan (Org. J.-A. Miller). Paris: Seuil.

[81] DAVIDSON, Arnold (2001b) Foucault, psychoanalysis and pleasure, homosexuality and psychoanalysis (Org. T. Dean; Ch. Lane). Chicago: University of Chicago Press.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | VAN HAUTE, Philippe (2017) Lacan encontra Freud? Reflexões patoanalíticas sobre o estatuto das perversões na metapsicologia lacaniana [Trad. H. Lana]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -3, p. 1, 2017. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2017/04/28/n3-01/>.