Transcendência de Freud

por Jean-Luc Nancy

Tradução | Rodrigo Gonsalves

Me perguntam qual é a minha relação com Freud. Eu não tenho muito o que responder, pois Freud nunca foi para mim um objeto de trabalho nem uma fonte de reflexão, não mais que Lacan. Acontece que o efeito produzido pela psicanálise em geral é tal que parece estranho – até suspeito – que qualquer um que trabalha com filosofia ou com pensamento no sentido mais amplo, não tenha algum interesse particular nesse lado. A coisa é, contudo, simples: Freud revelou uma nova maneira de falar sobre transcendência, mas ele foi compreendido (e se compreendeu a si mesmo, até certo ponto) como tendo descoberto um continente inexplorado da imanência. Em outras palavras: ele falou disso que nos traz, nos empurra e nos leva para fora da pequena estreita esfera do “eu” e acreditou-se que ele revelava a existência de camadas não egóicas, superegóicas ou hiperegóicas do “eu”. Ao fazê-lo, interpretou-se Freud ao inverso de seu próprio movimento: toda a história – não terminada, interminável – do pensamento de Freud vai no sentido de um interesse crescente por aquilo que não se deixa capturar em termos de “eu”, de “sujeito”, de indivíduo ou de pessoa, mas muito mais em termos de “mitos”, de “civilização”, de “relações” ou mesmo de “cosmos” (a vida/a morte). De certa maneira, era recolocar a preocupação filosófica de uma maneira mais próxima a Schopenhauer e Nietzsche (assim como a Vaihinger) do que a Kant ou Hegel, mas somente se vemos Kant e Hegel como os pensadores de um sujeito do saber (e do não saber) ao invés de como pensadores, que são antes de tudo, da transcendência desprovida de referencial divino.

Ali onde a transcendência tinha o valor de proveniência e destinação, Freud a faz valer como profundeza enterrada e anterioridade imemorial; não as camadas situadas sob a consciência e simplesmente de mais difícil acesso, mas uma abertura de escavações arqueológicas no pleno meio do “eu”, abertura escancarada de abismos comunicantes entre todos os seres falantes, todos os seres vivos e todas as vertigens das galáxias.

Freud, no entanto, entendia situar-se em uma perspectiva científica e falar de fatos, de objetos, de realidades apresentáveis, ainda que ele tenha cultivado a transcendência de um real tão pouco apresentável quanto a “vontade” de Schopenhauer ou o “amor da eternidade” de Nietzsche. Ele estava, ao fazer isso, em perfeita sintonia com o seu tempo ainda que, no mais profundo de si mesmo e talvez no mais secreto, ele soubesse que escapava da ilusão da “ciência”. Lacan também sabia disso, mas perseguiu ao mesmo tempo este outro recurso de Freud, proveniente do modelo médico, mesmo que tenha se distanciado o máximo possível de qualquer esquema terapêutico. Assumindo que todo horizonte médico esteja dispensado (o que não é obviamente o caso, digam o que disserem os analistas, especialmente em uma sociedade onde se espalha um modelo de “cuidado” generalizado) permanece ainda o fato de que a prática analítica (aquela que chamamos de “clínica”) mira o próprio sujeito e não o seu exterior.

A experiência obtida por uma fala livre de suas condições de comunicação social não é sustentada por isso que sustenta uma experiência análoga (até mesmo idêntica) que por si só é engajada num fora – seja isso designado como uma prática política, artística, amorosa, cognitiva, espiritual, etc. É certamente legítimo e mesmo indispensável afirmar que a sociedade atual parece se esforçar precisamente em bloquear o acesso a estes “exteriores” e confinar seus membros na execução de tarefas bem ordenadas em nome da manutenção da existência e não da transcendência que lhes é a sua essência. Mas isto apenas confirma o fato de que o lado tendenciosamente terapêutico da psicanálise é, de saída, alinhado a um certo estado da civilização e não a uma disposição universal e permanente do objeto denominado “sujeito”.

Esse objeto foi produzido por uma certa cultura: a do conhecimento positivo, de equivalência geral e de tudo isso que a palavra “​niilismo” engloba. A psicanálise capturou nesta cultura o seu produto mais patético (para não dizer patológico): o homem só, que nem mesmo está mais no “mundo” – no sentido de uma presença ativa numa circulação de sentidos – mas que só funciona dentro de um determinado número de lógicas, organizações, economias e ecologias no sentido mais amplo dessas palavras. Ela mostrou que as “pulsões” fazem agir este homem, sem que lhe seja possível relacionar-se com elas de outro modo senão como com forças naturais cegas. Mas se essas pulsões são “nossos mitos”, como diz Freud, isso quer dizer que tais mitos nos contam uma história que ainda não ouvimos enquanto história (ou lenda, ou cosmogonia, ou, precisamente, mitologia). Esta história começa por ser a do nosso distanciamento de nós mesmos – o que chamamos de “sexo” – e continua como a história de todas as nossas relações, envios e reenvios de uns aos outros e do outro ao mesmo, lenda infinitamente multiplicada da nossa existência subtraída as razões suficientes.

Ainda não a ouvimos, essa história ainda nova, porque não a contamos, ou bem não a permitimos se contar – e então, de saída, se inventar. Freud esboçou essas condições, mas para além disso falta forjar o relato, que não é mais psicanalítico (nem “psicológico” nem da ordem de nenhum “cuidado”). Não é tampouco filosófico no sentido em que a filosofia atinge, também ela, seu limite enquanto construção de “imagens do mundo” (e singularmente de um mundo referido em primeira e última instância a um homem-sujeito). Isso talvez seja uma tarefa que começa onde se esgotam as significações de tudo o que parecia fornecer sentido – o que implica sempre também que esse sentido seja sentido e sensível até em suas qualidades mais intelectuais ou espirituais.

Lá onde as significações são depositadas — isto é, se congelam em conceitos e compreensões —, lá se suspende o movimento do sentir: a aproximação e seu recuo, a afirmação e a negação, a aceitação e a rejeição cuja simultaneidade é o que está em jogo em todo o sentir. A ambivalência desempenha um grande papel para Freud, mas ela não denuncia uma duplicidade obscura das nossas condutas, ela designa o movimento, a agitação e a animação de existir, júbilo e pesar confundidos.


** Jean-Luc Nancy é filósofo, professor e responsável pela cadeira Georg Wilhelm Friedrich Hegel na European Graduate School/EGS. Ensinou brevemente em Colmar antes de tornar-se professor assistente no Instituto de Filosofia na Universidade de Estrasburgo em 1968. Em 1973, tornou-se professor da Universidade de Ciências Humanas em Estrasburgo, onde permaneceu enquanto professor até aposentar-se em 2002. Foi professor convidado em diversas universidades, entre estas a Universidade Livre de Berlim, Universidade da California, Irvine, e Universidade da California, Berkeley.

* Rodrigo Gonsalves é psicanalista, graduado em filosofia e psicologia. Mestrando em filosofia, teoria crítica e arte pela European Graduate School (EGS – Suíça) sob supervisão de Mladen Dolar e Alenka Zupančič. Membro do Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia (CEII). Participante do grupo de estudos História Política da Psicanálise que integra o Laboratório de Psicanálise Política e Sociedade (USP e PUC). Tradutor para revista Crises and Critique, membro do conselho editorial da revista de psicanálise Lacuna e do website de filosofia política Lavra Palavra.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | NANCY, Jean-Luc (2017) Transcendência de Freud [Trad. R. Golsalves]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -3, p. 3, 2017. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2017/04/28/n3-03/>.