O fim da psicanálise

por Georges Politzer

Apresentação | Giuseppe Bianco

Tradução |Guilherme C. Oliveira Silva

Apresentação: O longo fim da psicanálise

O leitor, tendo conhecido o trabalho de Georges Politzer exclusivamente através de sua Crítica dos fundamentos da psicologia (1928), único livro publicado com seu verdadeiro nome, só pode ficar surpreso ao ler este ensaio, redigido uma década mais tarde e assinado com o pseudônimo “Th. W. Morris” — homenagem em anagrama a Maurice Thorez, então secretário do Partido Comunista Francês. O livro de 1928, que deveria constituir o primeiro tomo de uma trilogia que tinha como intuito examinar as principais correntes psicológicas do começo do séc. XX  — a saber: a psicanálise, o behaviorismo e a Gestalt —, havia sido um trabalho pioneiro de introdução e releitura da obra de Sigmund Freud; trabalho que, em seguida, marcará profundamente a reflexão de filósofos, militantes comunistas, psicólogos e psicanalistas como Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Georges Canguilhem, Michel Foucault, Daniel Lagache, Jacques Lacan e Louis Althusser — para nomear apenas os mais conhecidos.

A Crítica estava estritamente ligada ao contexto cultural no qual havia sido elaborada, marcada pela persistência das resistências à psicanálise manifestadas por cientistas como Yves Delage e psicólogos universitários como Charles Blondel; pelas tentativas de introdução da obra de Freud feitas por médicos como Angelo Hasnard, René Allendy e René Laforgue; pela fundação — por esses dois últimos e por Marie Bonaparte — da Sociedade Psicanalítica de Paris (1926); pela organização da primeira de uma série de conferências dos psicanalistas de língua francesa (1926); pela criação da Revue Française de Psychanalyse [Revista Francesa de Psicanálise] (1927); pela organização de uma comissão linguística para a unificação do vocabulário psicanalítico em francês (1927); pelos primeiros debates e querelas concernindo às modalidades de exercício e aos títulos requeridos quanto à nova prática; e, por fim, pelo modo crescente da psicanálise nos meios literários, notadamente — mas não só — graças ao surrealismo[1].

De um lado, a Crítica se apresentava como um apelo entusiasta em prol da psicanálise, formulado por um jovem professor titular de filosofia que provavelmente já havia conhecido a obra de Freud e de Ferenczi, primeiro em Budapeste e depois em Viena, numa das etapas da viagem que, em 1922, o havia conduzido a Paris. Georges Politzer considerava a psicanálise uma nova prática, em nítida ruptura com o passado das ciências da psique; o primeiro sinal, com o behaviorismo e a Gestalt, da emergência de uma psicologia científica, ou seja, de um saber simultaneamente empírico e incidindo num conjunto original de fenômenos — o “homem concreto” ou o “drama humano”. Por outro lado, o livro de 1928 bem era um “crítico” e utilizava um tom corrosivo inspirado pelas vanguardas literárias: ele caçoava descaradamente tanto da psicologia, representada na França notadamente por Théodule Ribot e seu aluno Georges Dumas — autor, em 1923, de um Traité de psychologie [Tratado de psicologia] (uma psicologia que ele propunha “trucidar”) — quanto das interpretações do texto freudiano propostas pelos médicos da Sociedade Francesa de Psicanálise. Ele se propunha a livrar o texto de Freud dos aspectos considerados como ainda estando em dívida com o passado, a saber, com o realismo próprio à fisiologia e à neurologia, a psicologia associacionista e introspectiva. Tanto a teoria das pulsões quanto a noção de inconsciente, taxadas como substancialismo, eram alocadas entre os aspectos dogmáticos e obsoletos do freudismo. Essa empreitada era guiada por um arcabouço epistemológico kantiano e era inspirada pelo trabalho do mandarim universitário Léon Brunschvicg, que havia orientado os primeiros trabalhos universitários de Politzer e de quem também se esperava que orientasse a tese de doutorado, cujo projeto tinha sido apresentado quando da redação da Crítica.

“O fim da psicanálise”, redigido dez anos depois da publicação da Crítica, é, ao contrário, um ataque devastador e sem volta, não desprovido de atalhos e de simplificações brutais: a psicanálise é ali tratada como um “dogmatismo”, como uma pseudociência, uma “mistificação”, um “ecletismo confuso” influenciado por “correntes ideológicas retrógradas”, um “materialismo vulgar” tendendo ao idealismo, um simples sintoma ideológico. “O fim da psicanálise” retoma o “tom apocalíptico” presente na Crítica, mas mais ainda no La fin d’une parade philosophique: le bergsonisme [O fim de uma fachada filosófica: o bergsonismo], um longo panfleto publicado em 1929 com um outro pseudônimo, “François Arouet”[2] — nome de batismo de Voltaire. Tom esse que retornará uma vez mais numa última investida contra Bergson, “Après la mort de Bergson” [Após a morte de Bergson], publicado em 1941[3], também influenciado por Materialismo e empirocriticismo, de Lênin[4], cuja tradução francesa acabara de ser publicada.

Em La fin d’une parade, Politzer havia aproveitado a oportunidade do coroamento de Bergson no Nobel de literatura, em 1928, para alfinetar a filosofia da duração. Dez anos mais tarde, em “O fim da psicanálise”, o pretexto utilizado para enterrar a psicanálise era fornecido pela morte de seu fundador. Tanto no caso de Bergson quanto no de Freud, Politzer havia caminhado na contracorrente das reações da maior parte do mundo intelectual — que encensara o trabalho tanto do filósofo quanto do psicanalista. Nos dois casos, o jovem filósofo ressaltava que a teoria do autor em questão estava sendo doravante aceita e normalizada, após ter causado irritação e efervescência. Contudo, nos escritos dos anos de 1928-1930, o tratamento que Politzer havia reservado a Freud tinha sido bem diferente daquele reservado a Bergson. Segundo Politzer, o autor do Ensaio sobre os dados imediatos da consciência[5] havia sido um traidor e um mistificador que devia ser julgado e executado in loco. Bergson havia pretendido criticar a abstração alienante própria à psicologia científica, consistindo numa fragmentação do homem em processos supostamente mensuráveis; e, utilizando-se da ideia de uma duração interior qualitativa — conhecível através de um ato cognitivo sui generis, a intuição —, havia prometido uma descrição do homem em sua totalidade e concretude. Entretanto, em seguida, não fez outra coisa a não ser substituir as abstrações da psicologia científica por um simulacro de concreto, consistindo na “animação” artificial das velhas abstrações psicológicas. Bergson havia feito como a psicologia objetivista e a psicologia subjetivista que pretendia criticar: explicando o homem por meio da duração, o reduzira a uma coisa, o reificara. Em sua crítica, foi guiado por um texto clássico, a Crítica da razão pura de Kant, que teve um papel determinante nas críticas da psicologia e do “psicologismo”[6], tanto na França quanto na Alemanha, entre 1880 e 1920. Essa crítica epistemológica da psicologia foi acompanhada por uma crítica política, inspirada por Hegel e Marx, cujos textos, depois de meio século de esquecimento quase completo, estavam sendo redescobertos por uma nova geração. A redução do homem a uma coisa — mesmo a uma coisa “movente” e “em duração” — fazia parte, segundo Politzer, de uma ideologia que servia para justificar a utilização dos homens por uma determinada classe social. Uma psicologia realmente científica, uma psicologia “concreta”, era, em contrapartida, um instrumento revolucionário de emancipação. Mas para fazer isso, a psicologia deveria sofrer uma reforma que colocasse no seu centro o homem considerado não como um objeto fragmentado em processos, mas como o sujeito de uma série de atos significantes. É assim que, segundo Politzer, a psicologia concreta deveria utilizar noções “em primeira pessoa”, e não na “terceira pessoa”. A psicanálise reformada, livre da metapsicologia, constituía o carro-chefe de uma reforma epistemológica que tinha alcances políticos. Uma noção como a de complexo de Édipo era considerada concreta desde que se referisse a um sujeito, a um centro intencional de irradiação de ações que, por si sós, são capazes de dar uma significação ao comportamento do homem considerado como o resultado de sua trajetória de vida singular. A Traumdeutung constituíra a parte da obra freudiana que Politzer privilegiava: os sonhos eram tratados como os signos do comportamento do sujeito. Freud era colocado, assim, em oposição direta a Bergson, cuja teoria do sonho — concebido como perda de atenção na vida, caos e debandada psíquica — era o signo de sua dívida com a psicologia objetivista. Entre Marx e Freud não havia, então, conflito algum; suas teorias pertenciam a uma mesma peleja de emancipação humana.

Assim, de um lado, Politzer submetia ao crivo as novas tendências da psicologia nas páginas da revista da qual ele era o único condutor, a Revue de psychologie concrète [Revista de psicologia concreta] e que publicou apenas dois números, em 1929. De outro, aproximava-se do Partido Comunista, seguindo o caminho tomado por outros intelectuais no mesmo momento, como os surrealistas, mas sobretudo como seus amigos da Revue marxiste [Revista marxista] — Henri Lefebvre, Paul Morhange, Norbert Guterman, Georges Friedmann e Paul Nizan —, que eram seus amigos desde a universidade, e, com eles, os condutores, entre 1924 e 1927, das efêmeras revistas Philosophie [Filosofia] e L’esprit [O espírito]. O ano de 1929 havia marcado uma virada decisiva no mundo intelectual, não só por causa da Terça-feira Negra da bolsa, dos cursos de Husserl na Sorbonne e da introdução da fenomenologia na França graças aos livros de Georges Gurvitch e de Emmanuel Levinas, ou da publicação do Malheur de la conscience dans la philosophie de Hegel [A desventura da consciência na filosofia de Hegel] de Jean Wahl. A partir de janeiro de 1929, Stálin, que acabara de lançar o primeiro plano quinquenal, retoma o mando sobre o aparelho do Komintern, implementa uma política de classe contra classe, reativa a espionagem internacional e reorganiza a “internacional literária” que controla ou solapa toda veleidade de independência por parte dos intelectuais marxistas. Nesse momento era impossível ser, ao mesmo tempo, um intelectual independente e um membro fiel às diretivas do Partido. Isso demandava uma estrita obediência a esses membros e um verdadeiro rito de conversão aos aspirantes a membro — essa conversão passava, notadamente, por uma autocrítica escrita[7] que Politzer teve de redigir. No decorrer do verão de 1929, depois de uma primeira tentativa, fracassada, finalmente conseguiu se fazer aceitar no seio do Partido. Em agosto, confessa a seu amigo Paul Nizan, que já era membro desde 1927: “Nós, que somos inexperientes como militantes e como teóricos, devemos confiar no Partido”; e acrescenta, utilizando mais uma vez um tom categórico: “E fim da ‘vanguarda’”[8]. Esse “fim da vanguarda” coincidia com o fim das pesquisas em epistemologia da psicologia conduzidas por Politzer até então; logo, com o “fim da psicanálise”.

Esse processo de conversão é perceptível ao lermos a Revue de psychologie concrète. Em julho de 1929, no segundo e último número revista, Politzer havia publicado um artigo que se perguntava: “Para onde vai a psicologia concreta?”[9]. Em questão nesse texto estão as próprias noções de “concreto” e de “drama”, as quais haviam informado sua pesquisa precedente. É provavelmente nesse artigo que se pode assistir à transição da psicologia concreta para o materialismo histórico. Um fosso separa esse artigo, de julho, dos textos publicados no primeiro número da revista, de fevereiro. Em fevereiro, Politzer confiava num “novo ímpeto” próprio à psicanálise, capaz de fazê-la sair de seu “período de estagnação”[10]. Cinco meses mais tarde tudo mudou. A pergunta “Para onde vai a psicologia concreta?” recebe então uma resposta clara: para o materialismo histórico. Assumindo a nova equação psicologia científica = psicologia concreta = psicologia materialista = psicologia engastada no materialismo histórico, Politzer faz aí a sua autocrítica a fim de contrariar toda e qualquer acusação de idealismo que o Partido pudesse lhe dirigir. Esforça-se em mostrar, adotando um tom bem próximo ao da sua autocrítica, que os conceitos de “drama”, de “ato em primeira pessoa” e de “significação” — os quais a psicologia concreta utilizava — tinham uma função exclusivamente crítica, e sustenta que esses conceitos “estão conectados”, em todos os casos, “ao movimento materialista”.

A partir desse momento, Politzer substitui a oposição kantiana (entre criticismo e realismo) e a oposição hegeliana (entre concreto e abstrato) pela propriamente leninista (entre materialismo e idealismo). No início de 1929, Materialismo e empirocriticismo, a obra de Lênin que Lefebvre qualificará como “fundamental”[11], é traduzida para o francês e recebida como um verdadeiro “ato de libertação intelectual”[12] por um dos colaboradores da Revue marxiste. À luz do livro de Lênin, a “psicologia concreta” só podia parecer com o marxismo da escola de Capri, criticada pelo líder comunista. Tal como Górki e Bogdanov haviam flertado com o idealismo neokantiano de Avenarius e de Mach, Politzer se amparou no neokantismo francês. Em ambos os casos só podia se tratar de uma tentativa de reforma própria a um pequeno burguês atolado na ideologia.

Na tiragem da Revue marxiste de abril de 1929 é publicado — com um pseudônimo que poderia ocultar Politzer — uma resenha de Au delà du marxisme [Além do marxismo] (1927)[13] do político e teórico socialista belga Henri de Man (1885-1953), que se inspirava livremente em Freud. O autor da resenha atacava diretamente esse último, descrito como um ideólogo burguês, como o “teórico do erotismo universal e do amor por toda parte”. Não se tem certeza se Politzer era o autor desse texto; certo é que, três anos mais tarde, era justamente o autor da Crítica a assinar, num dos órgãos da Associação dos Escritores e Artistas Revolucionários, a revista Commune [Comuna], um texto incendiário intitulado “Psychanalyse et marxisme. Un faux contre-révolutionnaire: le freudo-marxisme” [Psicanálise e marxismo. Um falso contrarrevolucionário: o freudo-marxismo][14]. O alvo direto de Politzer era “O caráter materialista da psicanálise”, um ensaio publicado algumas semanas antes no número 154 dos Cahiers du Sud [Cadernos do sul] por Jean Audard, um autor próximo dos surrealistas; o alvo indireto era Wilhelm Reich e toda tentativa de combinar marxismo e psicanálise. Autor, em 1929, de uma obra controversa intitulada Dialektischer Materialismus und Psychoanalyse [Materialismo dialético e psicanálise], em 1933 Reich havia sido excluído simultaneamente da Associação Psicanalítica Internacional (IPA) e do Partido Comunista Alemão (KPD). No mesmo período, Audard defendia a tentativa de completar o marxismo com a psicanálise a fim de evitar a possível deriva idealista do materialismo histórico. Na França, esse cruzamento entre Freud e Marx havia sido preparado por André Bréton e seus acólitos, que, desde a segunda metade dos anos 1920, em sua crítica da sociedade burguesa, haviam mobilizado referências freudianas e marxistas. Em dezembro de 1931, na quarta tiragem da revista Le Surréalisme au service de la révolution [O Surrealismo a serviço da revolução], três escritos de René Crevel, André Breton e Tristan Tzara tinham abordado diretamente as relações entre inconsciente, ideologia e relações sociais.

É nessa conjuntura que se inscreve “Un faux contre-révolutionnaire”, que é publicado pouco depois da notícia da exclusão de Reich do Partido Comunista Alemão. Politzer condena o freudo-marxismo por sua tentativa de esvaziar o marxismo “de seu caráter materialista e revolucionário”, semeando a discórdia a propósito da significação do materialismo. Politzer denuncia tanto o freudo-marxismo dos surrealistas (qualificado como “delirante”) quanto o de Wilhelm Reich (julgado portador de “intenções revisionistas”). A única psico-análise aceitável para “sondar as almas de contrarrevolucionários” é, então, uma e somente uma; a saber, o marxismo-leninismo — e o texto abunda, com efeito, em citações tiradas de Materialismo e empirocriticismo. Praticamente sem conhecer a obra de Reich, Politzer se concentra na psicanálise em sua versão freudiana, que se vê aqui massacrada. A crítica é, primeiro, epistemológica: a psicanálise se apresenta como uma ciência, enquanto ela não passa de um sistema filosófico construído a partir de elucubrações incontroladas. Politzer não só retorna a sua crítica da noção de libido — denunciada enquanto dependente de uma metafísica energetista —, mas ataca também a obra que havia exaltado na Crítica, a saber, a Traumdeutung[15] — julgada falsamente revolucionária. É a carência de cientificidade própria à psicanálise que é a razão do caráter ideológico do freudo-marxismo. A aplicação do freudismo às ciências sociais só pode levar a resultados reacionários: estando fundamentada num materialismo vulgar, a psicanálise não pode compreender a história — e deve, portanto, recorrer a explicações idealistas. Os psicanalistas transformam as razões reais da luta e do conflito “em conflitos existindo apenas em sua cabeça”. Assim, a presumida sociologia fundamentada na psicanálise só pode ser contrerrevolucionária.

Este ensaio constituirá uma sólida barragem à primeira tentativa, abortada, de entrada do freudo-marxismo. Com efeito, alguns meses depois de sua publicação, excertos de Materialismo dialético e psicanálise, de Reich, são traduzidos e reunidos num volume editado pelas Éditions Sociales, La crise sexuelle [A crise sexual]. Nesse livro figura também a tradução de “Freudisme, sociologie, psychologie” [Freudismo, sociologia, psicologia], um ensaio, originalmente publicado em russo, de I. Sapir — um membro do Partido Comunista que, ferozmente antifreudiano, desmonta a tentativa do freudo-marxismo.

Durante os anos de 1930, tendo dali em diante se tornado um intelectual orgânico, Politzer multiplica suas atividades militantes. Continua a ser uma das vozes da Associação dos Escritores e Artistas Revolucionários; participa, em 1932-33, da fundação da “Université Ouvrière” [Universidade Operária]; dedica-se a estudos de economia e finanças, publicando diversos artigos de análise para o Partido; traduz, com Jacques Solomon, La dialectique de la nature [A dialética da natureza], de Engels e Marx; dedica-se, por fim, a uma atividade de crítica das “ideologias” teóricas. Politzer passa pelo espiritualismo, o neokantismo, a fenomenologia, o existentialismo, o hegelianismo e interpretações do marxismo julgadas não ortodoxas, inclusive aquelas propostas por seus antigos amigos Friedmann e Lefebvre. Ele se desinteressa completamente pelas questões atinentes à psicologia e à psicanálise — que, entretanto, entra no hospital e começa a suscitar o interesse de filósofos, como testemunha a obra de Ronald Dalbiez e, em seguida, a de Sartre e de Merleau-Ponty.

É nesse contexto, na véspera da eclosão da guerra, que é publicado “O fim da psicanálise”, cujo conteúdo segue as linhas do ensaio publicado seis anos antes. Após sua redação, a revista La Pensée, comunista, é banida; e Politzer, mobilizado para o front. No fim da guerra, com a ocupação alemã de Paris, Politzer se empenha numa resistência ideológica e política que lhe custa a vida. Quando da Libertação, sua morte heroica, a recordação desses ensaios dos anos 1930 e as instruções do Partido Comunista farão com que a psicanálise precise esperar mais de quinze anos antes de ser aceita entre os militantes comunistas.

La fin de la psychanalyse foi originalmente publicado por Georges Politzer em Revista La pensée, nº 3, outubro-novembro-dezembro de 1939, pp. 13-23; assinado pelo pseudônimo Th. W. Morris.

O fim da psicanálise

A morte de Sigmund Freud recoloca diante do nosso espírito a psicanálise que, de fato, já pertence ao passado.

O interesse pelas concepções e métodos ligados ao nome de Freud não parou de diminuir, sobretudo durante os últimos dez anos. Chegou mesmo a desaparecer nos meios científicos realmente avançados.

A história da psicanálise revela, com efeito, três períodos: um período de elaboração, um período de grandes controvérsias e de prestígio crescente e, por fim, o período de inserção na ciência oficial e de decadência escolástica.

Durante a década que segue os trabalhos de Freud, posteriormente a sua ruptura com Breuer, a psicanálise, pouco conhecida, é combatida pelos representantes da psiquiatria universitária. As discussões se tornam cada vez mais vivas, na medida em que o “freudismo” se propaga, não somente entre os médicos, mas entre os escritores e o “público culto”. Durante os anos que seguiram a guerra, o prestígio da psicanálise está no seu auge. Depois, as discussões apaixonadas cessam; a “resistência” dos psiquiatras clássicos cai; e a psicanálise se integra por sua vez à ciência oficial, enquanto que, para os representantes “autênticos”, ela toma um ar verdadeiramente escolástico: libido, complexo, supereu, etc., tornam-se clichés, e os trabalhos psicanalíticos giram em falso ruminando constantemente os mesmos temas.

Se, durante os dez anos que precederam a guerra de 1914-1918, a psicanálise já era assaz célebre nos países da Europa central e assaz conhecida nos meios científicos dos países anglo-saxões, na França, pelo contrário, ela era mais ou menos ignorada. A refutação levada a cabo por Yves Delage[16] da teoria freudiana do sonho é uma tentativa deveras isolada.

A difusão da psicanálise na França começou logo depois da guerra. Foi também primeiramente feita por representantes da ciência oficial, polêmicos acerbos, com argumentos que nem sempre eram científicos. O saudoso Charles Blondel, então professor da Universidade de Estrasburgo, não escreveu, num opúsculo destinado a refutar a psicanálise[17], que as ideias e as práticas que a caracterizam podiam convir ao espírito germânico, mas que não eram compatíveis com o gênio latino?

Entretanto, a difusão da psicanálise também continuou na França, e hoje ela coabita igualmente nesse país com métodos e teorias clássicas que, de acordo com seus partidários, ela foi convocada a eliminar.

As mudanças sobrevindas nos destinos da psicanálise foram notadas pelo próprio Freud.

Ele assinalou, em 1932, que a psicanalise é “considerada como uma ciência”; que ela “conquistou seu lugar na Universidade”; que, se “os combates engajados em torno dela ainda não terminaram”, “é de um modo menos amargo que eles prosseguem” (Novas conferências sobre a psicanálise, p. 189).

Nada indica que o direito de cidadania tenha sido conferido à psicanálise por causa dos aportes realmente positivos que se poderiam inscrever em seu legado, notadamente na psiquiatria.

Sem querer insistir nesse estudo sobre uma discussão detalhada da psicanálise enquanto terapêutica, pode-se notar que é certo, a partir de então, que o método de Freud não justificou as grandes esperanças que suscitou.

Muitos médicos, nas clínicas, dizem se valer da psicanálise. Mas, de fato, praticam na imensa maioria dos casos um método eclético, e não se pôde estabelecer, de uma maneira realmente científica, que os resultados práticos obtidos pelos procedimentos especificamente freudianos representam um progresso efetivo nos nossos meios de ação sobre as doenças mentais. Os resultados obtidos não são superiores àqueles que se pode obter por outros métodos, ditos de medicação psicológica, além de ficar sempre uma dúvida sobre a natureza do procedimento pelo qual o resultado foi, de fato, obtido. De resto, é característico que nas suas últimas obras Freud tenha declarado, falando da eficácia da psicanálise, que ela só era prima inter pares, se comparada aos outros métodos.

Fato é que nossos meios de ação em psiquiatria permanecem, depois da psicanálise, tão insuficientes quanto no passado. O problema que se coloca nesse domínio ultrapassa muito verossimilmente os enquadramentos, tanto das medicações psicológicas e fisiológicas tomadas separadamente, quanto dos métodos que se contentam a combiná-las, abstraindo-se das condições históricas objetivas no meio das quais se desenvolve o homem psicopata enquanto fenômeno social, e da necessidade de uma ação sobre essas próprias condições.

Nós não nos estenderemos muito sobre um outro aspecto da psicanálise que pareceu no começo sensacional, a saber, suas aplicações pedagógicas.

Aí também, parece hoje claro que as esperanças colocadas na psicanálise eram inteiramente injustificadas.

A pretensa prova pelos “resultados” que propõem, com sua imprecisão habitual, os psicanalistas, não tem alcance.

Como em matéria de psicoterapia, os procedimentos efetivamente aplicados pelos psicanalistas na pedagogia são de dois tipos.

Há procedimentos salutares, mas que não têm nada de especificamente freudiano. São procedimentos que reagem contra a parte bárbara que comporta nosso sistema tradicional de educação. É assim que a condenação do método que consiste em querer resolver pela violência os problemas que a formação do caráter da criança coloca não tem nada de especificamente psicanalítico.

Quanto aos procedimentos especificamente psicanalíticos, eles são, nos melhores casos, ineficazes. São, mais exatamente, prejudiciais, na medida em que se trata de procedimentos que colocam a educação no eixo da atenção aos conflitos de ordem sexual. Existe uma realidade física e social cuja vida não é, de modo algum, determinada pelos mecanismos familiares aos psicanalistas. A realidade no meio da qual devem viver meninas e meninos lhes coloca problemas cuja objetividade é totalmente diferente daquela a partir da qual são feitos os complexos de Ariadne[18] e de Édipo. Considerar que liquidar esses complexos ou resolver conflitos que os constituem forma a tarefa essencial, ou uma das tarefas essenciais da educação, é distorcer para a criança “a atenção à vida”, retomando a expressão de um célebre filósofo. Enquanto método assim orientado, a pedagogia psicanalítica se inspira evidentemente na posição daqueles para quem os problemas objetivos, econômicos e outros, estão resolvidos, e para quem o mundo parece efetivamente gravitar em torno dos conflitos sexuais.

Existem, decerto, meios sociais nos quais haja uma base material para uma tal abstração, e nesse sentido a psicanálise contém uma parte de verdade, mas as grandes massas, por exemplo, se encontram em presença de preocupações cuja objetividade é decisivamente outra que aquela das relações entre Ich e Es. Sem dúvidas, é a razão pela qual houve algumas tentativas para completar a pedagogia psicanalítica individual com uma pedagogia social concebida segundo os mesmos princípios.

No fim das contas, a psicanálise é mais interessante como fato histórico que enquanto movimento científico, e ela é mais instrutiva pelos fatos sociais cujos reflexos ela contém do que pelo conteúdo das teorias com as quais ela quis nos instruir. Entretanto, se a psicanálise perdeu o essencial do seu prestígio; se, mesmo do ponto de vista literário, os temas com libido e os personagens com complexos não rendem; é ainda o conteúdo propriamente teórico do movimento oriundo de Freud que suscita, relativamente, mais ilusão. Não é inútil, segundo nossa opinião, nos estendermos mais longamente sobre este aspecto do problema.

***

A contextura teórica da psicanálise é aquela de um ecletismo muito heteróclito.

A reprovação por ecletismo endereçada a Freud pode surpreender, haja visto ter ele sido sobretudo acusado de dogmatismo por seus discípulos dissidentes, e o fato é que ele chegou a afirmar que a psicanálise, tal como ele tinha costume de conceber, constituía um todo do qual não se poderia retirar nenhuma peça essencial.

Mas dogmatismo e ecletismo não se excluem de modo algum. A história das ideias fornece a prova constante disso. Victor Cousin, chefe da Escola Eclética, não foi dogmático ao ponto de querer impor uma filosofia oficial à Universidade[19]?

É que o dogmatismo não exprime a firmeza do pensador que não aceita outra regra senão a conformidade das ideias aos fatos. Ele exprime a eventual determinação em manter um andaime ideológico contra os fatos. Os representantes de todos os sistemas inconsequentes e incoerentes são dogmáticos, e são eles que têm necessidade de assim ser. Um pensamento realmente aprofundado, não tendo outra ambição senão cernir de mais perto o real, se adapta naturalmente aos fatos novos e às situações novas. Para o cientista e o pensador autêntico, o fato novo, a descoberta nova são sempre eventos felizes, enquanto que o falso cientista e o pensador que vive sobre ideias mal ajustadas se erigem com furor contra o inovador, na mesma proporção que são por eles incomodados em sua quietude eclética.

Freud foi dogmático e eclético, e seu ecletismo foi determinante para os destinos da psicanálise.

Se se examinarem as primeiras concepções teóricas de Freud, revela-se muito nitidamente a influência de um materialismo mecânico, aquele que foi tão difundido entre os médicos do século passado e popularizado pelos representantes filosóficos do materialismo vulgar, tais como Moleschott[20] e Büchner[21].

É esse materialismo mecanicista que aparece em Freud quando, por exemplo, nos Três ensaios sobre a sexualidade, ele propõe reduzir a atração de um sexo sobre o outro a uma ação físico-química. É esse materialismo que aparece nos modelos, sobretudo quando servem de meio para Freud tentar dar conta de suas observações. As concepções teóricas fundamentais do autor da Traumdeutung são dominadas, com efeito, pelos seus modelos mecânicos. De uma maneira geral, o ideal da explicação científica consiste segundo Freud em representar os processos mentais por um jogo de forças construídas sobre o modelo de forças físicas. Daí a noção de “complexo”, que é definida como a ação de uma força sobre uma representação; daí a noção de “libido”, com a utilização contínua da noção de energia manipulada segundo um esquematismo puramente físico.

Essa atitude se encontra até mesmo nos últimos trabalhos de Freud.

Entretanto, Freud quis reagir contra certas teorias marcadas com a chancela do materialismo mecanicista.

Na introdução à Traumdeutung ele examina e descarta as teorias puramente fisiológicas do sonho. Ele insiste precisamente nessa ideia de que não é possível explicar o sonho unicamente por processos fisiológicos, pois o sonho tem também um conteúdo. Como se sabe, Freud quis consagrar seu principal esforço nesse domínio, à explicação do conteúdo do sonho. Ele quis explicar por que certo indivíduo teve precisamente certo sonho e adotou uma atitude análoga face a neuroses e a psicoses, tentando explicar o conteúdo dos sintomas.

Nesse sentido, Freud se aproximara de um domínio cuja importância capital era impossível de ser abordada de maneira útil pelas teorias inspiradas no materialismo mecanicista.

Com efeito, desde que se trata da explicação do que habitualmente chamamos de vida mental, nós nos encontramos diante da necessidade de fazer uma distinção  que é fundamental: de um lado o fato da produção de “ideias” e, de outro, o conteúdo das “ideias” produzidas. O fato da produção de ideias depende do cérebro, mas as ideias produzidas têm um “conteúdo” que não pode ser explicado nem sem o cérebro, nem pelo cérebro. É correto que o cérebro seja aqui condição necessária, mas não condição suficiente. Se, para pensar a ideia de liberdade, é necessário ter um cérebro, a forma diferente pela qual as diversas classes sociais entendem a liberdade não se explica manifestamente pelas diferenças da estrutura cerebral. O fato está estabelecido num argumento clássico: não há paralelismo entre a evolução das ideias de um lado, e a evolução do cérebro de outro. Mas isso não significa que se deva renunciar à busca de uma realidade efetiva, podendo servir de substrato material à história das ideias. Isso significa que essa realidade deve ser buscada em outro lugar, não no cérebro.

É isso que o materialismo mecanicista é incapaz de fazer. Ele fica confinado aos limites das explicações puramente fisiológicas e não conhece outras explicações materiais. Incapaz de explicar assim o conteúdo concreto da “vida mental”, ele disso perde o interesse e caí na abstração ou, antes, aí reencontra o idealismo.

Este não se ocupa do conteúdo preciso da vida mental. Porque as “ideias” não se reduzem ao cérebro, porque não se pode “deduzir” as “ideias” do “cérebro”, ele erige as ideias como realidades independentes, constrói um mundo à parte e perde o interesse no homem concreto. O materialismo mecanicista e o idealismo não podem se desvencilhar um do outro: o materialismo mecanicista comporta um certo fundo de idealismo e as doutrinas espiritualistas se fazem do espírito de representações que são sempre cópias mais ou menos finas da matéria.

Freud reprovou as teorias psicológicas e psicopatológicas inspiradas no materialismo mecanicista por elas se desinteressarem do conteúdo da vida mental. Nós deixaremos de lado a questão de saber se os próprios termos nos quais ele colocou o problema estão corretos; se, por exemplo, o problema é buscar a significação de cada sonho e de cada sintoma neurótico. O essencial é que se o materialismo mecanicista e o idealismo – as teorias ditas fisiológicas e as teorias da psicologia introspectiva clássica – pecam pela abstração, esta não poderia ser ultrapassada senão ao se liberar ao mesmo tempo do materialismo mecanicista e do idealismo. Sem isso, reagindo contra o materialismo mecanicista recaímos no idealismo. E é o que aconteceu com Freud.

Levado a sublinhar com muita insistência a impotência das explicações puramente fisiológicas em psicologia e em psiquiatria, Freud opôs as explicações psicanalíticas às explicações fisiológicas. Ele negou, no que concerne à vida mental, uma gênese material falsamente concebida, mas sem poder indicar uma outra concepção, correta, de sua gênese material. É por isso que um dos resultados dos combates direcionados por Freud contra as teorias mecanicistas foi que sua teoria pôde ser citada com o apoio da doutrina segundo a qual o pensamento não se explica pelo cérebro. Com isso, a psicanálise entrou na esfera de atração da reação filosófica do final do séc. XIX para sofrer, em seguida, cada vez mais sua influência nefasta.

Invoca-se frequentemente o biologismo de Freud contra a afirmação segundo a qual a psicanálise é de orientação idealista.

Faz-se notar que um dos aspectos mais fundamentais, mesmo o aspecto mais fundamental da doutrina de Freud, é a insistência sobre o papel determinante dos instintos que são de fonte biológica, portanto material.

Entretanto, uma concepção que explicaria toda a vida mental, seja pelo jogo de instintos, seja por um instinto predominante, continuaria a se mover nos enquadramentos estreitos de um materialismo mecanicista. E é precisamente uma orientação desse gênero que é uma das faces da teoria freudiana dos instintos e, em particular, da libido. Com efeito, esta é concebida desde o início segundo um modelo energético. A noção de libido foi calcada, primeiramente, diretamente sobre a noção de energia psíquica.

Ao mesmo tempo, é característico que Freud não tenha podido se ater a esse ponto de vista de uma maneira consequente.

Mas uma tal teoria, precisamente porque ela compete ao materialismo mecanicista, reencontra o idealismo em todas as questões históricas, pois o idealismo no domínio da história é justamente, segundo a expressão de Engels, uma das “estreitezas específicas” dessa concepção.

Se os instintos são de fonte orgânica, isto é, material, não resulta daí que toda explicação pelos instintos seja materialista, no sentido científico deste termo. Com efeito, os instintos têm como fontes orgânicas diretas o corpo individual, e uma explicação dos fatos históricos pelos instintos praticamente nos leva à uma explicação da história pela psicologia individual, não para atribuir a ela sua parte legítima, mas para erigi-la como fator determinante. Ora, sabe-se que a maquinaria dos “complexos” psicanalíticos foi utilizada por Freud igualmente para a explicação dos fatos sociais, dos fatos históricos. Um dos méritos teóricos da psicanálise seria precisamente, segundo Freud e seus discípulos, ter “revolucionado” as ciências sociais. Dessa maneira, a psicanálise foi levada a se colocar contra o materialismo histórico. Ela se colocou contra ele, primeiramente, de uma maneira “inconsciente”. Era a consequência de seu confusionismo. Mas ela reencontrou aí uma corrente ideológica reacionária e desde então esse aspecto da psicanálise se desenvolveu sistematicamente: a “sociologia psicanalítica” foi erigida contra a sociologia marxista.

Basta folhear qualquer obra psicanalítica para se dar conta das infantilidades a que se pode chegar com a “sociologia freudiana”. Indiquemos somente que de fato Freud e seus discípulos foram levados a propor os “complexos” no lugar das forças motoras reais da história. A “sociologia” na qual eles assim chegaram deixa transparecer na sua superfície o idealismo que a doutrina contém na sua base.

Por esse aspecto das teorias psicanalíticas, o movimento oriundo de Freud encontrou, para além da reação filosófica, a reação social e política.

Freud introduziu, como se sabe, na sua teoria do sonho a distinção entre o “conteúdo manifesto” e o “conteúdo latente”. O método de interpretação consiste em extrair, à luz dos materiais fornecidos pelo sujeito, o conteúdo latente do conteúdo manifesto. Essa redução é apresentada como uma penetração nas profundezas da alma do sujeito e é por causa desse procedimento que a psicanálise é considerada uma “psicologia abissal”.

Essa distinção entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente foi, em seguida, generalizada por Freud e aplicada não somente à interpretação dos sintomas neuróticos, mas também a assuntos sociológicos e históricos. E é assim que ela foi aplicada à história das ideias.

Mas eis que aí o psicanalista se encontra incapaz de captar como o reflexo, primeiramente, fantástico do mundo real na consciência humana se torna um reflexo cada vez mais fiel. Mais que isso: ele busca nas ideias não o reflexo do mundo real, mas o reflexo dos complexos que são concebidos, de fato, fora da história. É assim que os psicanalistas foram levados a ligar aos “complexos” os movimentos sociais. Naturalmente, uma teoria pretendendo representar o real é ilusória, na própria medida em que ele depende de um simbolismo psicológico. Buscando aplicar o “método psicanalítico” a movimentos sociais, os discípulos de Freud erigiram, contra suas explicações por meio de causas históricas reais, explicações fantasiosas por meio de causas imaginárias. Mas esse aspecto de sua teoria era, e é, particularmente usado por todos que querem “refutar” uma sociologia científica e combater o movimento social que dela se alimenta. Está aí a causa do sucesso em certos meios de todos os tipos de “psicanálises” do marxismo ou do socialismo.

Aqui, a incoerência que está na base da psicanálise pode ser captada em toda a sua trivialidade anticientífica.

Naquilo que temos o hábito de chamar de psicologia, encontramos incessantemente, ao estudar as “funções mentais superiores”, o problema das relações entre o indivíduo e a realidade que age sobre ele e sobre a qual, ele age. Freud e seus discípulos jamais chegaram a uma compreensão clara das relações entre o indivíduo e entre a lei psicológica individual e a lei histórica.

Quando se estuda um movimento social, deve-se, certamente, atentar-se para o papel dos indivíduos, haja visto que em última análise a história é feita por indivíduos agentes. Mas explicar por que um indivíduo determinado pode ter determinado papel, explicar sua seleção considerando o cumprimento desse papel, é um problema que não deve ser confundido com a explicação do próprio movimento.

Mesmo uma distinção como essa seria insuficiente sob essa forma. O papel que um indivíduo é levado a desempenhar não pode se explicar nos seus caracteres históricos concretos somente pelo indivíduo. É um papel engendrado pelo desenvolvimento histórico, e o que depende do indivíduo é a escolha que sua “psicologia” fará entre as possibilidades historicamente dadas de uma época. Essa “psicologia” não pode tampouco ser separada da história concreta da humanidade. “Mecanismos psicológicos” selecionam uns para o papel de heróis e outros para o papel de vilões, mas esses “mecanismos” têm também sua gênese histórica e suas condições sociais de existência.

Freud e seus discípulos colocam na base não somente ações individuais nos aspectos mais estritamente individuais, mas também na base dos movimentos sociais alguns mecanismos de psicologia individual.

Supondo que os complexos fundamentais como o “complexo de Édipo” e o “complexo de Ariadne” existam realmente, com as características e proporções que lhes dão os psicanalistas, há aí “mecanismos” que poderiam, além do mais, explicar a inclinação de um indivíduo em direção a tal tipo de ação com suas características histórias concretas. Assim, não faltaram tentativas de aplicar o método psicanalítico à explicação do nazismo.

A bestialidade nazista com os frequentes temas eróticos parece convidar, muito especialmente, esse tipo de explicação. Entretanto, se podemos no limite explicar porque um nazista X e não um Y aceita o papel de torturador num campo de concentração, isso não explica o nazismo enquanto fenômeno histórico.

Freud transformou sua confusão inicial entre a psicologia e a história em tese dogmática, e imaginou que seus “complexos” forneceriam igualmente a chave da história.

As “aplicações da psicanálise às ciências sociais” não podem ser tentadas sem desembocar em uma dupla abstração. Os célebres “complexos” não passam de – dado que eles existam – esquemas muito gerais. Sua generalidade se funda no fato que se encontra, evidentemente, em toda a história da humanidade, por exemplo, a relação sexual entre o homem e a mulher. Por outro lado, só são encontrados nas situações históricas concretas: sociedades determinadas que têm seus modos de produção e toda sua superestrutura complexa. A sociedade, em toda a sua complexidade, entra no tecido mesmo da relação sexual. Ao querer explicar os fatos sociais pelos “complexos”, Freud foi levado a empregar algumas fórmulas gerais genéricas e a negligenciar o homem concreto na sua realidade histórica. A sociologia psicanalítica não é, por essa razão, senão a reedição, com um vocabulário diferente, da velha sociologia idealista.

Um segundo aspecto da abstração idealista do freudismo aparece se consideramos o modo segundo o qual Freud e seus discípulos concebem as relações entre a realidade objetiva e os produtos do espírito humano. Nós deixaremos de lado as confissões filosóficas de Freud, de onde se pode tirar argumentos fáceis para provar a que ponto ele caiu sob a influência idealista. Nós preferimos considerar o que aparece efetivamente nas concepções propriamente psicanalíticas.

Sabe-se que depois de ter tentado interpretar os sonhos e os sintomas neuróticos, Freud tentou interpretar pelo mesmo método não somente os mitos, mas também as obras literárias, até mesmo filosóficas e, inclusive científicas.

O método consistia não somente em reconstituir um conteúdo “latente” no qual se reencontra os “complexos” fundamentais da psicanálise, mas também em atribuir à intervenção desses complexos o papel determinante na formação do mito, por exemplo. Quando Freud cita a interpretação segundo a qual o mito do Labirinto simboliza um nascimento anal, no qual o fio de Ariadne representa o cordão umbilical, ele pensa que assim foi fornecido o essencial da explicação.

Desse modo, o reflexo do mundo exterior na consciência humana desaparece e chegamos novamente a uma monstruosa abstração: o espírito humano trabalha principalmente na elaboração de símbolos em função do seus “complexos”. Eis de novo o idealismo transposto em linguagem psicanalítica: ao “idealismo fisiológico” com gloriosa memória vem se juntar o “idealismo psicanalítico”; “a energia específica dos nervos sensoriais” de Müller[22] se encontra substituída pela “libido” de Freud.

As alusões são numerosas, em Freud e nos seus discípulos, à influência da sociedade sobre o indivíduo. O complexo de Édipo não supõe uma experiência social, a da família? Poder-se-ia, portanto, pensar que os psicanalistas deveriam aprofundar este aspecto da questão. Na realidade, eles não o aprofundaram. Eles não têm meios para isso. Um trabalho como esse é contrário à inspiração da psicanálise. Seguindo essa via, desemboca-se na descoberta do caráter eminentemente histórico dos complexos e, portanto, na compreensão da insuficiência dos métodos puramente psicológicos para a explicação da história. Ora, a psicanálise busca explicar a história pela psicologia e não a psicologia pela história. Por essa via, ela cai necessariamente numa concepção metafísica do homem. É ainda mais singular que alguns aí tenham podido encontrar uma concepção dialética.

De resto, todo estudo detalhado só poderá confirmar essas constatações concernentes à orientação idealista da psicanálise. Esse idealismo pode ainda ser colocado em evidência de uma outra maneira.

O idealismo, tal qual se desenvolveu a partir do final do século XIX foi, à medida que se desenvolveu, cada vez mais tingido de irracionalismo. A psicanálise devia fornecer alimentos também a esse movimento.

Sabe-se, com efeito, que a psicanálise foi proclamada “psicologia abissal” principalmente por causa das suas “revelações” relativas ao “inconsciente”.

Quando se quer fazer um grande cumprimento a um teórico, dizemos habitualmente que ele realizou uma revolução copernicana. Os discípulos de Freud não deixaram de atribuir isso ao mestre de Viena. A revolução copernicana teria consistido, aqui, no fato de que no lugar de uma psicologia gravitando em torno da consciência, Freud teria colocado uma psicologia gravitando em torno do inconsciente. A conclusão teórica essencial da Traumdeutung é, efetivamente, que o inconsciente, que não era nada, parece ser tudo, e vice-versa.

Uma afirmação como essa ia certamente no mesmo sentido das teses irracionais às quais ela parecia trazer novos argumentos de uma grande precisão. Aqui também, os psicanalistas se encontraram com uma corrente ideológica reacionária. O irracional, o inconsciente são, portanto, a lei da vida anímica. A passagem do ponto de vista teórico ao ponto de vista normativo foi feita facilmente: posto que, de fato, a vida mental é fundada sobre o inconsciente dinâmico, por que lutar contra o inconsciente, ao invés de mergulhar nele? Assim a psicanálise que apareceu primeiramente como oferecendo místicas sagradas de explicações profanas, e que até mesmo foram acusadas de ser profanadoras, acabou por apoiar a mística sob todas as suas formas. Os contatos múltiplos estabelecidos entre a religião e a psicanalise, a frequência dos temas psicanalíticos em obscurantistas de todas as sortes, incluindo aí os nazistas, o comprovam suficientemente.

 A psicanálise parecia conquistar o mundo. Mas, de fato, ela foi chacoalhada de influência em influência e arrastada até as correntes ideológicas mais reacionárias.

Tudo isso tendo sido dito, poderíamos nos contentar em declarar que aqueles que tentaram apresentar a psicanálise como o complemento que faltava ao materialismo dialético, para ser de fato moderno, não conhecem nem um nem outro, nem a psicanálise, nem o materialismo dialético.

Todavia, é necessário notar que as tentativas desse gênero são muito características e atraem a atenção sobre o caráter social do freudismo. Com efeito, as falações sobre a síntese do marxismo e da psicanálise foram desenvolvidas em meios revisionistas; por sua aptidão em servir de invólucro ao revisionismo em um dado momento, a psicanálise revelou suas amarras profundas com todas as fontes das quais o revisionismo se alimenta.

É, entretanto, verdade que muito se gabou do caráter revolucionário da psicanálise. O argumento principal que foi invocado consistia em dizer que a psicanálise ousou, enfim, assinalar o verdadeiro lugar do instinto sexual, da libido, do erotismo. Certos autores não hesitaram em estabelecer sobre essa base um paralelismo entre a psicanálise e a sociologia científica. A sociologia científica compreendeu o verdadeiro lugar do proletariado na sociedade; a psicanálise compreendeu o verdadeiro lugar da sexualidade. A sociologia científica criou as bases teóricas para a supressão da exploração do homem pelo homem. A psicanálise despedaçou as correntes do instinto sexual, doutrina de libertação nos dois casos.

Não é útil insistir sobre o absurdo que é colocar em paralelo o proletariado, ou seja, uma classe social, e o instinto sexual, ou seja, uma concepção biológica (no melhor dos casos). Mas é útil notar que as afirmações desse gênero levam a marca de uma orientação que não tem notoriamente nenhuma relação com o socialismo científico.

O grande utopista Fourier havia feito análises geniais sobre a hipocrisia, do que se chama moral burguesa e principalmente suas obras contêm também percepções brilhantes sobre o “problema sexual”. Mas para ele, a corrupção dos costumes, a hipocrisia, etc., caracterizam isso que se chama de a era da “civilização”, ou seja, a etapa histórica que representa o capitalismo, e ele compreendeu bem que a vida sexual sadia é, na escala social, função da organização da sociedade, que é a solução do “problema sexual” que depende da solução do problema social, e não a solução do problema social da solução do “problema sexual”, como os psicanalistas tendem a acreditar.

Mas essa tendência, precisamente, revela a abstração característica dos meios da pequena burguesia.

A observação dos fatos confirma inteiramente essa forma de ver. Não são, com efeito, as massas populares que forneceram à psicanálise suas bases sociais.

O que pôde ter criado, nesse domínio, muitas ilusões é o fato de, sobretudo no início, a psicanálise ter encontrado adversários violentos nos meios conservadores.

Essa reação dos meios conservadores estava ligada notadamente às concepções religiosas. Mas há, a esse respeito, dois fatos a serem considerados.

De um lado, colocar no centro das preocupações a luta pelo “reconhecimento do direito sexual” é uma atitude característica de certas frações da pequena burguesia; do outro, mesmo nesse ponto de vista, a situação da psicanálise evoluiu; como nós já dissemos, contatos oficiais puderam ser estabelecidos entre a religião e a psicanálise.

É verdade que frequentemente se falou, nos meios psicanalíticos, do exilio de Freud simbolizando a condenação da psicanálise pelos nazistas.

Certamente houve declamações nazistas contra a psicanálise. Mas não é menos verdade que a psicanálise e os psicanalistas forneceram temas aos teóricos nazistas, em primeiro lugar o tema do inconsciente.

A atitude prática do nazismo em relação à psicanálise foi determinada essencialmente por razões táticas.

Tomando feitios iconoclastas, os psicanalistas chocaram profundamente os sentimentos das massas das classes médias. Tal é a especialidade histórica do anarquismo pequeno burguês. Além da questão racial, foi para explorar esse fato que o nazismo denunciou um pouco o freudismo, mas isso nunca impediu nem de integrar os psicanalistas entre funcionários nazistas, nem de tomar emprestado temas da doutrina freudiana.

Além do mais, precisamente porque os exageros psicanalíticos chocavam os sentimentos de certas camadas sociais, e também porque houve vários fervorosos da psicanálise entre os intelectuais de vanguarda (em particular, sociais democratas), os propagandistas nazistas se utilizaram do ressentimento contra a psicanálise para descreditar ainda mais os meios em questão. É pela mesma razão que Hitler, no Mein Kampf, troveja contra a arte decadente, etc.

***

Nós tentamos mostrar que as bases teóricas da psicanálise são caracterizadas por um ecletismo confuso. Nessas condições, Freud tinha poucas ferramentas, no sentido próprio da palavra, para analisar corretamente os fatos novos ou relativamente novos que ele pôde assinalar. E, efetivamente, quanto mais a psicanálise se desenvolveu, mais ela caiu sob a influência de correntes ideológicas retrogradas. Todavia, fato é que a psicologia clássica quase não falava sobre a sexualidade, que ela se desinteressou pelo indivíduo concreto e seu meio histórico concreto, seu meio vital. É um fato também que a psicanálise atraiu com uma particular insistência a atenção para esses assuntos “tabus”. Mas falar de assuntos “proibidos” não é um título suficiente em matéria de ciência, e hoje parece que a psicanálise não fez quase nada além disso: ela não trouxe nenhuma claridade nova aos problemas que põem os fatos dos quais ela se ocupou.

Os fatos que a psicanálise atingiu devem ser retomados para serem compreendidos corretamente. A psicanálise, ela mesma, deve seu sucesso não aos novos meios que ela nos forneceu para conhecer um aspecto real e para agir sobre ele, mas a sua adequação a preocupações e à situação de certos meios sociais. Ela foi uma moda no sentido próprio da palavra; seu voo se explica, ademais, pelas condições que conhecemos durante os anos que seguiram a guerra de 1914-1918.

Hoje nos é verosímil que a psicanálise sofrera um destino análogo ao da frenologia e do hipnotismo. Como eles, ela pertence ao passado.

A via das descobertas reais e da ciência efetiva do homem não passa através dos “atalhos” sensacionais da psicanálise. Ela passa pelo estudo preciso dos fatos fisiológicos e históricos, à luz dessa concepção cuja solidez é garantida pelo conjunto das ciências modernas da natureza. 

Referências

FREUD, Sigmund (1932) “Novas conferências introdutórias sobre psicanálise”. In: Obras completas de Sigmund Freud, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago.


* Georges Politzer é… Georges Politzer.

** Giuseppe Bianco é pós-doutorando no Departamento da Filosofia da USP, se ocupa de História da Filosofia e das Ciências Humanas dos séculos XIX e XX na França e Alemanha. Seus últimos livro publicados são Georges Politzer, le concret et sa signification. Psicologie, philosophie et politique (Hermann, 2016) e Après Bergson. Portrait de groupe avec philosophe (Puf, 2015). Atualmente trabalha na reconstrução socio-genealógica da trajetória de Gilles Deleuze e em um livro sobre o nascimento do internacionalismo na filosofia.

*** Guilherme C. Oliveira Silva é psicanalista em São Paulo, graduado em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), com intercâmbio acadêmico na Université Rennes II. Atualmente, faz mestrado no programa de psicologia social do Instituto de Psicologia da USP (PST-IPUSP), pesquisando o conceito de Letra na obra de Jacques Lacan (bolsa CNPQ), com orientação do professor doutor Nelson da Silva Júnior.



[1] Para o contexto histórico relativo à entrada da psicanálise na França, podemos nos remeter a dois estudos clássicos: OHAYON, Annick (2006) Psychologie et psychanalyse en France: l’impossible rencontre (1919-1969). Paris: La Découverte ; ROUDINESCO, Elisabeth (1994) Histoire de la psychanalyse en France. Paris: Fayard. Para o itinerário de Georges Politzer, cf. POLITZER, Michel (2013) Les trois morts de Georges Politzer. Paris: Flammarion; BIANCO, Giuseppe [Org.] (2016) Georges Politzer, le concret et sa signification: Psychologie, philosophie et politique. Paris : Hermann. ;  BRUYERON, Roger, « Combattre en philosophe : les écrits clandestins de Georges Politzer. (1939-1942) », Revue philosophique de la France et de l’étranger 2002/3 (Tome 127), p. 303-314.

[2] Cf. AROUET, François (1929) La fin d’une parade philosophique: le bergsonisme. Paris: Les Revues. (N. do T.)

[3] Cf. POLITZER, Georges (1941) “Après la mort de Bergson”, La pensée libre, n. 1, fevereiro de 1941. (N. do T.)

[4] Cf. LENIN [Vladimir Ilyich Ulyanov] (1909) Materialismo e empirocriticismo: notas e críticas sobre uma filosofia reacionária. Trad. Bastos. Rio de Janeiro: Editorial Calvino Ltda., 1946. Disponível em: <www.marxists.org/portugues/lenin/1909/empiro/index.htm>. (N. do T.)

[5] Cf. BERGSON, Henri (1889) Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. Trad. J. S. Gama. Lisboa: Edições 70, 2008. (N. do T.)

[6] Para a Alemanha, cf. KUSCH, Martin (1995) Psychologism: a case study in the sociology of philosophical knowledge. Londres: Routledge. Para a França: JOLY, Marc (2017) La Révolution sociologique: de la naissance d’un régime de pensée scientifique à la crise de la philosophie (XIXe-XXe siècles). Paris : La Découverte.

[7] Cf. POLITZER, Michel (2013) Les trois morts de Georges Politzer. Paris: Flammarion.

[8] Cf. NIZAN, Paul (2001) Paul Nizan, intellectuel communiste. Articles et correspondance 1926-1940. Paris: La Découverte ; pp. 272-73.

[9] POLITZER, Georges (1929) “Où va la psychologie concrète?”. In: Écrits II. Les fondements de la psychologie. Paris: Éditions Sociales, 1969.

[10] POLITZER, Georges (1929) “Psychologie mythologique et psychologie scientifique”. In: Écrits II. Les fondements de la psychologie. Paris: Éditions Sociales, 1969.

[11] LEFEBVRE, Henri (1946) L’existentialisme. Paris: Syllepses, 1999, p. 68.

[12] ARNOLD, Félix (1929) « La lutte pour le matérialisme », Revue marxiste, n. 1, février 1929.

[13] ARNOLD, Félix (1929) “Henri De Man, Au-delà du marxisme ou en deçà de la réalité”, Revue marxiste, n. 4, abril de 1929.

[14] POLITZER, Georges (1933) “Psychanalyse et marxisme. Um faux contre-révolutionnaire: le freudo-marxisme”. In: Écrits II. Les fondements de la psychologie. Paris: Éditions Sociales, 1969.

[15] FREUD, Sigmund ([1899]1900) A interpretação dos sonhos. Trad. R. Zwick. São Paulo: L&PM, 2013. (N. do T.)

[16] Yves Delage (1854-1920) foi um Zoólogo francês, Professor da Sorbonne, citado por Freud em A interpretação dos sonhos, e interessando pela teoria psicanalítica, tendo escrito sob o pseudônimo de T. Henvic poemas e contos inspirados pela psicanálise. Politzer refere-se aqui, provavelmente, ao último livro de Delage sobre o tema Le rêve, de 1920. [Nota dos editores]

[17] BLONDEL, Charles (1924) La psychanalyse, Paris: Éditions L’Harmattan, 2014. [Nota dos editores]

[18] Freud cita o mito grego de Ariadne uma única vez ao longo de sua obra. Nas Novas Conferências Introdutórias ao comentar a interpretação dos sonhos: “Assim por exemplo, a lenda do Labirinto pode ser reconhecida como uma representação do nascimento anal: as vias sinuosas são os intestinos e o fio de Ariadne é o cordão umbilical.” Politzer nomeia tal passagem como “Complexo de Ariadne” e o compara ao complexo do Édipo ao longo do texto. [Nota dos editores]

[19] Victor Cousin (1792-1867) foi um filósofo e político francês, tendo editado as obras de Descartes, traduzido Platão, bem como diversos trabalhos sobre as mulheres célebres do século XVII. É considerado na França como o fundador da tradição dos estudos de História da Filosofia e reformador do ensino de filosofia nas escolas francesas. [Nota dos editores]

[20] Jacob Moleschott (1822-1893) foi um fisiologista holandês, com diversos escritos sobre dietética. É conhecido por suas reflexões filosóficas referentes ao materialismo científico. [Nota dos editores]

[21] Ludwig Büchner (1824-1899) foi um filósofo e naturalista alemão, igualmente defensor do materialismo científico. [Nota dos editores]

[22] Johannes Peter Müller (1801-1858) foi um anatomista e fisiólogo alemão. [Nota dos editores]




COMO CITAR ESTE ARTIGO | POLITZER, Georges (2017) O fim da psicanálise [Trad. G. C. O. Silva]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -3, p. 14, 2017. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2017/04/28/n3-14/>