Sugestão a longo prazo

[ Suggestion au long cours

por François Roustang

ApresentaçãoMonique David-Ménard

Tradução | Paulo Beer

Apresentação

François Roustang não gostava que sua obra fosse reduzida a um de seus períodos, a seus escritos teológicos de quando era jesuíta ou a seus escritos psicanalíticos de antes de virar um dos principais refundadores da hipnose na França. O texto que aparece hoje na LACUNA é justamente um texto de transição. Foi publicado em um número da Nouvelle Revue de Psychanalyse no outono de 1978, nos meses em que uma crise interna se preparava na Ecole Freudienne de Paris. Na época, François Roustang era “AME”, ou seja, Analista Membro da Ecole Freudienne de Paris, “título que não precisava ser solicitado e que decorria de uma decisão do júri baseada no que este conhecia da prática do interessado”[1]. O que não impedia de modo algum o autor de escrever na revista dirigida por Jean-Bertrand Pontalis.

Esta é uma observação importante: sempre existiram, antes, durante e depois das cisões no movimento psicanalítico na França, relações — especialmente editoriais — entre analistas que pertenciam a sociedades diferentes.

Outra observação preliminar: “Sugestão a longo prazo” apareceu em um número temático sobre A Crença, que reunia textos de psicanalistas (Guy Rosolato, Jean-Luc Donnet, Christopher Bollas), historiadores, filósofos (Clément Rosset, Claude Imbert), jornalistas (Claude Roy) e antropólogos (Jean Pouillon). Mas todos eram também escritores, como o próprio François Roustang, que sempre desejou testemunhar sobre o lugar da sua prática clínica no contraste entre a solidão da escrita e o lugar das psicoterapias em uma cultura.

Neste texto François Roustang é um grande leitor de Freud. Ele o segue nos meandros de sua relação com o ocultismo e com a transmissão de pensamentos. Freud, racionalista e habitado por suas resistências, na verdade hesitava entre eliminar a questão das transferências de pensamentos e reconhecer que seu alcance constituía o essencial da transferência. Tais hesitações não são caladas por Freud — são, na verdade, muitas vezes explicitadas e redefinidas, medidas em termos do que aportam à teoria e à técnica psicanalíticas.

Roustang acusa Freud de ter, através de suas hesitações, constantemente aproximado o ocultismo do sonho, a transferência de pensamentos da interpretação de sonhos premonitórios, ou seja, o desconhecido do conhecido. Já François Roustang não tem medo do desconhecido. Ao chamar a atenção para a expressão “transferência imediata” nos textos de Freud, Roustang se faz o herói deste mergulho não apenas no desconhecido, mas também no indistinto e incontrolável da transferência imediata. Ele reavalia assim a hipnose e a sugestão: a regra psicanalítica da associação livre que vale também para o analista (que não deve privilegiar nenhum de seus próprios pensamentos) leva não apenas à flutuação provisória das representações, mas também à sua indistinção. Roustang afirma que essa confusão provocada é acompanhada por uma experiência de transferência que é uma experiência de indistinção de si e do outro. E já que o papel do analista é decisivo nessa introdução à dupla confusão (de pensamentos, de si e do outro), o analista não é neutro nessa história.

Tendo lido também Lacan, Roustang afirma que esta não neutralidade não se reduz ao suposto vazio do “desejo do analista”, na formulação lacaniana, já que o analista age assumindo a responsabilidade não só de favorecer, mas de produzir a indistinção em seu analisando. É por isso que diz que a transferência é uma sugestão a longo prazo.

Mas a sugestão não é o que se diz dela. Ela não é um controle exercido pelo médico, mas sim a audácia de introduzir o indistinto para des-considerar através de um ato as resistências. Resistências do analista e, portanto, do analisando. O que não quer dizer que elas vão se dissolver, mas sim que serão, de certa forma, situadas[2], como indica o título de seu último livro, Jamais contre, d’abord  [Nunca contra, para começar][3].

Em seu debate com Lacan e Freud, este tema clínico da transferência imediata se associa a uma escolha epistemológica: os analistas negligenciam a transferência imediata porque pensam que o inconsciente é uma questão de representações ou de significantes, ao passo que a imediatez que a transferência testemunha introduz o corpo. O corpo da infância, mas também um corpo paradoxalmente pessoal e impessoal a todas as idades, e que tece as relações características de um ser humano vivo. São essas relações que, quando fixadas, devem ser mergulhadas numa confusão — que é a única coisa que poderá levar a uma transformação terapêutica. François Roustang preferirá então este termo polissêmico, “vivo”, ao invés de “desejante”, e a transferência será criticada como sendo uma redução psicológica e fascinada pelo saber deste mundo da “perceptude”[4] à qual seria preciso voltar.

No caminho, enquanto leitor exigente de Freud, Roustang nota uma particularidade de vocabulário que as traduções em francês — mas certamente em outras línguas também — suprimem: no texto freudiano, o mesmo termo designa a repetição pelo viés da pessoa do analista, a repetição pelos conflitos infantis e o que traduzimos como transmissão de pensamentos. Como Roustang critica a importância inadequada da interpretação na clínica, assim como a associação entre ocultismo e sonho premonitório, nota esta identidade sem dar-lhe muita atenção, e sem relacioná-la ao fato de que o uso do termo transferência, Übertragung, desde a Interpretação dos Sonhos designa todas as transformações que permitem passar do sonho relatado até o pensamento do sonho: tratam-se de deslocamentos de intensidade tanto quanto deslocamentos de representações.

É verdade que quando François Roustang escreve “Sugestão a longo prazo”, ninguém havia notado que “Übertragung” designa ao mesmo tempo as transformações das representações e dos afetos no sonho, a repetição da vida sexual na análise que se serve da pessoa do analista, e a transmissão de pensamentos. No entanto, a transferência é o campo que esses três fenômenos desenham. A crítica exigente e mordaz que François Roustang dirige a Freud e à psicanálise teria sido a mesma se a psicanálise não tivesse circulado na cultura de modo tão seletivo? 

Originalmente publicado como “Suggestion au long cours” em Nouvelle Revue de Psychanalyse, n. 18 (1978), pp. 169-192.

Entre os exemplos citados por Freud para compreender, discutir e interpretar os fenômenos telepáticos ou ocultos, o único em que ele se implica pessoalmente enquanto analista aparece no final da segunda das Novas conferências[5]. No outono de 1919, o Dr. Forsyth visita Freud, que não pode recebê-lo imediatamente. Alguns minutos depois chega M.P., paciente de longa data, que conta a Freud que a jovem de quem ele falava com frequência o chama de Senhor de Vorsicht — quer dizer, Senhor da Precaução —, transposição alemã do inglês foresight[6]. Houve transmissão de pensamento entre o analista que está muito interessado pela visita do Dr. Forsyth e o paciente que retira de sua história, nesse momento preciso, a palavra que lhe corresponde em sua língua?

Freud se poupa de decidir rapidamente essa questão. Ele nos fornece todos os elementos suscetíveis de servir de intermediários entre Forsyth e Vorsicht, quer dizer, faz desaparecer a estranheza da referência imediata entre as duas palavras. É buscando invalidar a impressão de transmissão de pensamentos que ele poderá eventualmente reforçá-la.

De saída, P. apresentou a Freud as obras de Galsworthy, em que a família Forsyth tem um lugar central. “O nome de Forsyth, e todos os traços típicos que o autor queria incorporar nele, tinha também desempenhado um papel em minhas entrevistas com P.; ele tinha se tornado um pedaço da língua secreta (Geheimsprache) que, em encontros regulares, facilmente se constitui entre duas pessoas”.

Freud forneceu em seguida duas outras cadeias de associação, surgidas na mesma sessão, que podem parecer dar lugar a outras transmissões de pensamentos, mas que devem explicar analiticamente por que P. as produziu. O paciente pergunta: “A Senhora Freud-Ottorego, que ensina inglês na universidade popular, talvez seja sua filha?” E ele deforma Freud em Freund. Ora, Freud, na semana anterior, após ter esperado em vão M.P. para sua sessão, visitou o Dr. Von Freund, que mora precisamente no mesmo imóvel que P. Segunda cadeia de associações: no final da mesma sessão, P. conta que ele teve um pesadelo; ele não sabe mais traduzir essa palavra em inglês e encontra a mare’s nest no lugar de night-mare. Ora, Jones, um outro médico inglês que P. cruzou na sala de espera de Freud, publicou uma monografia sobre o pesadelo.

Todas as associações se explicam, aos olhos de Freud, pelo ciúme que habita P. Ele fora prevenido de que, quando da chegada de pacientes estrangeiros, ele [Freud] não teria mais tempo para recebê-lo. É como se ele dissesse: “Mas não sou eu também um Forsyth, uma vez que me chamam Vorsicht?” As duas outras associações, cujo laço com a primeira reside no inglês, exprimem igualmente o ciúme. Elas dizem, com efeito: “Não fui eu que o senhor foi ver em meu imóvel, mas um certo von Freund.” E: “Com certeza o senhor deve preferir esse outro inglês, Jones, que escreveu sobre o pesadelo”.

Ele assim se deu conta dos dizeres do paciente, ligados que são ao ciúme que os provocou. Mas, entre a vinda do Dr. Forsyth e o Vorsicht que aparece no mesmo dia, entre a visita a von Freund e a deformação da Senhora Freud-Ottorego em Senhora Freund-Ottorego, entre o night-mare esquecido e Jones, as possíveis transmissões de pensamentos permanecem, assim como muitas questões. À terceira, Freud responde que seu paciente, que continua à margem da literatura analítica, tinha podido ver a capa do livro de Jones e, logo, o seu título. Para a segunda, é bem possível que Freud tenha dito a P. ter visitado em seu imóvel um amigo, um Freund — daí o lapso do paciente. Quanto à primeira, Freud fica mais perplexo, porque ele não se lembra de ter pronunciado o nome de Forysth; mas, sem excluir totalmente a possibilidade, ele estima que “a balança pesa em favor da transmissão de pensamentos”. Visivelmente, Freud se encontra aqui na incapacidade de invalidar, de saída, a hipótese da telepatia. Ele não encontrou ligações prováveis que permitam estabelecer uma continuidade discursiva e associativa entre os dois extremos, Forsyth e Vorsicht.

Aí está, então, resumida a narração de Freud. Mas é permissível retomar essas páginas e desbloquear diversos traços que seriam suscetíveis de nos fornecer uma outra via de acesso à solução desse problema, mais do lado do analista que do paciente. Pois é notório que, para interpretar os dizeres de P., toda uma série de associações lhe é atribuída, de modo que elas permanecem uma invenção de Freud, e que são certamente mais reveladoras dele mesmo que de seu paciente.

Quando, a propósito do lapso Freud-Freund, ele lembra de sua visita a von Freund, é ele mesmo que fala da perda sentida com a morte desse amigo. Por que, nesse momento, ele introduz a menção à morte de Anton von Freund (1920) e de Karl Abraham (1926) como “as duas maiores infelicidades que teriam afetado o desenvolvimento (e não a causa, como quer a tradução francesa) da psicanálise”, se não porque, falando de telepatia, ele se lembra das reticências de Abraham e porque ele sabe estar colocando a psicanálise numa via perigosa?

A propósito do esquecimento de night-mare e de sua substituição por mare’s nest, é ainda Freud que associa a palavra “pesadelo” a Jones. Ora, sabe-se que este último havia suplicado a Freud nada escrever sobre telepatia ou ocultismo, para não comprometer as chances de implantação da psicanálise na Inglaterra. Por causa de sua indignação, é normal que a figura reprobatória de Jones lhe apareça, já que essa história de telepatia parece, para Jones — e Freud o sabe —, uma história de fantasmas, um verdadeiro pesadelo. Poderíamos até mesmo sugerir um sentido a esse lapso sobre o qual Freud não se detém. Não seria o analista quem impede o paciente de se lembrar de night-mare porque ele evoca imediatamente a presença crítica de Jones, mas quem provoca um deslocamento sobre mare’s nest, onde o recalcado retorna e onde a agressividade do paciente se libera: a análise da qual você quer me ejetar é um mare’s nest, uma ilusão, ou um “papo de pilantra” — como traduz Freud, curiosamente —, isto é, uma história de charlatões. Já que P. acaba de saber, pela chegada do Dr. Forsyth, que ele não tem mais muito tempo para ser recebido por Freud, que ele será colocado porta afora, por que ele não lançaria ao primeiro intérprete científico do sonho: vocês que dizem levar a sério o pesadelo, saibam que aí só há ilusão e pilantragem. Reação não muito policiada, mas regular.

Seria então bem possível que P., nesse contexto em que Freud o agride, queira, ao retomar o nome de Precaução que lhe foi dado por uma mulher, fazer ao analista uma demanda: “não poderia o senhor ter, em relação a mim, alguns cuidados? Ter comigo, como eu faço com as mulheres, algumas precauções?” Assim se imporia a ele, nesse contexto, o significante Vorsicht, sem qualquer outra relação com Forsyth, a não ser fortuita, isto é, submetido a uma necessidade estatística, repetindo nesse dia um significante de Freud, entre os muitos de que ele dispõe.

Do lado de Freud vemos, em contrapartida, muito mais diretamente por que é privilegiado o laço entre Forsyth e Vorsicht. Em 1919, terminada a guerra, Freud está especialmente preocupado com a ampliação do movimento psicanalítico e o Dr. Forsyth lhe parece, segundo seus termos, como “a primeira pomba após o dilúvio”, esse que anuncia uma nova era, que permite prever (voraussehen) um futuro feliz. E é por isso que Freud traduz o foresight inglês não somente por Vorsicht (previdência, precaução), mas por Voraussicht (previsão, previdência). Ao pedir a P. que deixe seu lugar de paciente aos estrangeiros que chegam, Freud o faz entrar em suas previsões, ele o constrange a se tornar Senhor da Previsão, e este reage a essa injunção a partir de sua história e se desloca levemente, tornando-se Senhor da Precaução. Ou, ainda, Freud apaga P., fazendo-o tornar-se Vorsicht, isto é, a partir de hoje aquele que virá tomar seu lugar: Forsyth.

Se Freud publica o relato dessa sessão em 1932, é evidentemente porque vê nisso um exemplo para discutir a transmissão de pensamentos, mas também porque pode fazer com que ele veicule suas preocupações e inquietudes a respeito do “desenvolvimento da psicanálise” e seu encontro com o ocultismo. Mais que nunca, Freud precisa produzir como seu duplo um Senhor da Previdência, Previsão, Precaução. A questão não seria mais saber se houve ali transmissão de pensamentos, isto é, passagem num outro de uma palavra mantida secreta por alguém, mas se a multiplicidade de parâmetros que constituem uma rede de relações entre duas pessoas não torna provável — num e noutro, ao mesmo tempo — a emergência de certos significantes. Ou ainda, acaso “a língua secreta que se forma tão facilmente entre duas pessoas a partir de encontros regulares” não supõe a formação de cadeias associativas similares ou idênticas que poderão se encontrar excitadas ao mesmo instante nos dois, seja por um evento exterior, seja pelas palavras de um dos dois, ou seus gestos, ou seus movimentos elementares imperceptíveis a todos os outros? Questões que, por enquanto, é necessário deixar abertas, até que o debate seja ampliado para além desse único exemplo — mesmo que tenha sido esse o que mais marcou Freud.

Ainda que Jones tenha instruído o processo de Freud[7] — culpado, do seu ponto de vista, de encorajar, por seu lado supersticioso, o retorno notável do velho fundo celta, com os fantasmas da sua terra e as suas casas assombradas —; ainda que o mesmo dossiê tenha sido retomado com minúcia, por Ch. Moreau[8], é necessário, para o leitor que não teria a oportunidade de recorrer a esses livros, retraçar brevemente as etapas das intervenções de Freud no domínio da telepatia e do ocultismo. Isso permitirá, de outro modo, acentuar certos aspectos que interessam especialmente às relações da psicanálise com esses fenômenos.

A partir de 1899, Freud se posiciona em relação a um sonho predizendo um evento que deveria acontecer no dia seguinte. Para ele, Madame B. somente teve a certeza de ter sonhado no memento do encontro previsto, e ela reconstruiu o sonho a partir dali. Ele conclui: “É a formação ulterior do sonho que torna possível os sonhos proféticos, isso não é outra coisa a não ser uma forma de censura que torna possível ao sonho a penetração na consciência”[9]. Em 1901, na Psicopatologia, o mesmo exemplo é retomado com a mesma interpretação, mas com essa observação que amplia o debate: se cremos nos sonhos proféticos, é que “muitas coisas ganham forma realmente no futuro, como o desejo de construí-las anteriormente em sonho”[10]. Nesses textos, então, o fenômeno telepático é totalmente assimilado pela psicanálise, que não lhe reconhece nenhuma consistência.

Vinte anos mais tarde a perspectiva mudou consideravelmente. Freud sofreu, durante muitos anos, a influência de questões colocadas por Jung e Ferenczi; ele próprio teve experiências de transmissão de pensamentos, o que resultou em fazê-lo considerar com muito mais seriedade o ocultismo e a telepatia, que se tornavam então domínios a inventariar, e em relação aos quais a psicanálise deveria se situar. Na apresentação que fez ao Comitê reunido em Harz, em agosto de 1921, ele procurou estabelecer as similaridades e diferenças entre “Psicanálise e telepatia”[11], e a dificuldade ou o perigo de suas relações. Ele discute um primeiro caso, que retomará mais tarde nas Novas conferências: o jovem que se vê predizer, por uma adivinha, a morte de seu cunhado por envenenamento. O envenenamento aconteceu, mas não a morte. Assim Freud conclui a observação: “A psicanálise nos ensina que um pedaço qualquer de um saber indiferente não é comunicado pela via da indução a uma outra pessoa, mas que um desejo extraordinariamente forte de uma pessoa, que estava numa relação particular com a consciência desta, podia, com a ajuda de uma outra pessoa, criar uma expressão consciente levemente velada, exatamente como o fim invisível do espectro se torna perceptível sobre uma chapa sensível à luz como sequência colorida”[12]. A formulação de Freud merece atenção: ele quer ser fiel aos fatos, mas quer se poupar de justificar a existência da transmissão de pensamentos. Por isso, não diz que um desejo secreto do cliente foi percebido e exprimido pela adivinha, mas somente que o desejo recebeu uma expressão consciente “com a ajuda de uma outra pessoa”; não se sabe mais, ao ler essa frase, se a expressão consciente é um feito do cliente ou da vidente. Essa ambiguidade tende simplesmente a reconduzir a profecia a nada mais que a realização de um desejo.

O que está em jogo aqui, digamos desde já, é a proximidade da situação da vidente com a do psicanalista que interpreta. Freud quer evitar a todo custo que essa aproximação possa ser feita. É por isso que o segundo caso que ele expõe vai ainda mais longe, e que ele o explica por uma reconstituição do diálogo com o adivinho, segundo o mesmo princípio de inteligibilidade que o sonho profético. É sobretudo por isso que ele se esqueceu de trazer a Gastein, no Harz — para comunicá-lo a seus alunos mais sensatos — o caso Forsyth; porque a questão da transmissão de pensamentos na análise teria sido colocada diretamente.

Apesar das precauções tomadas por Freud e suas visíveis hesitações, a oposição de Eitingon e de Jones foi tão determinante que essa apresentação nunca foi publicada, ou nem mesmo transmitida a um público mais amplo, enquanto Freud estava vivo. Não é surpreendente que o artigo escrito no final do mesmo ano de 1921, sobre “Sonho e telepatia”[13], seja ainda mais restritivo e defensivo. Trata-se de sustentar, de fato, que, mesmo “se a existência de sonhos telepáticos fosse assegurada, não precisaríamos modificar nada em nossa concepção de sonho”[14]; que o sonho telepático é “um sonho como outro qualquer”[15], isto é, que ele deve ser compreendido como realização de desejo referindo-se ao Édipo; ou, ainda, que “a mensagem telepática — se for para ser admitida — pode, por consequência, nada mudar na essência do sonho”[16]. A causa é então escutada: se nos armamos de dois princípios, o da produção do sonho pela força do desejo inconsciente e o da reconstituição ulterior do acontecimento que constitui o objeto da predição, estamos assegurados de que a telepatia não coloca à teoria do sonho — e, de modo mais geral, à psicanálise — nenhuma questão.

Alguns anos se passam. Em 1925, Freud parece ter mudado de ideia e decide tomar partido da existência da transmissão de pensamentos[17], como testemunha uma nota aditiva à Traumdeutung[18]. Por exemplo, ele não diz mais, como em 1921, em relação ao mesmo caso, que o desejo recebeu “uma expressão consciente com a ajuda de outra pessoa”, mas afirma:

Não podíamos explicar melhor todo esse estado de coisas, determinado de forma tão unívoca, que pela hipótese de que um forte desejo do consultante — na verdade, o desejo mais forte de sua vida afetiva e o motor de sua neurose em germinação — se havia feito conhecer por uma transferência imediata com o adivinho, absorvido por uma manipulação de distração.

E prossegue:

De igual maneira, por tentativas repetidas em um círculo íntimo, fiquei com a impressão que a transferência de lembranças, muito acentuadas afetivamente, sucede sem dificuldade. Se nos arriscamos a submeter, a um trabalho analítico, as ideias da pessoa com a qual devemos transferir, as correspondências aparecem frequentemente, as quais, de outra maneira, permaneceriam incognoscíveis. A partir de muitas experiências, estou inclinado a tirar a conclusão de que tais transferências sucedem particularmente bem no momento em que uma representação surge do inconsciente; em termos teóricos, a partir do momento em que ela passa do “processo primário” ao “processo secundário”.[19]

Um passo considerável é dado, mas, se Freud utiliza aqui a palavra “transferência” (Uebertragung), ele não a liga, de modo algum, à transferência em análise. Ele opera, isso sim, uma modificação de vocabulário, uma vez que não se serve mais do substantivo composto Gedankenübertragung, cujo sentido costumeiro remete à transmissão de pensamentos, e não — como poderíamos, contudo, traduzir — à transferência de pensamentos. Contudo, a visada de Freud nesses parágrafos continua limitada à tentativa de explicação dos fenômenos telepáticos, que a psicanálise, que é realmente outra coisa, pode, estima ele, ajudar a compreender.

Na segunda das Novas conferências, em 1932, Freud retoma os temas encontrados até aqui e conserva a mesma desconfiança: é a psicanálise, com sua interpretação dos sonhos, que é capaz de dar um sentido aos sonhos ditos telepáticos: “O adivinho tinha somente trazido à expressão os pensamentos da pessoa que o interrogava e, muito particularmente, seus desejos secretos”[20]. Poderíamos crer que Freud, que agora admite a transmissão de pensamentos, vai se surpreender com o fato de que o adivinho possa saber qualquer coisa dos desejos secretos de seu cliente. De modo algum; a frase recém-citada continua assim: “Estávamos, então, certos em analisar tais produções proféticas como se fossem as produções subjetivas, as fantasias ou os sonhos da pessoa envolvida.” Por uma inclinação significativa e inelutável, Freud retorna a suas ovelhas, isto é, ao estudo dos processos psíquicos de um indivíduo tomado isoladamente, e não a fenômenos de transmissão ou comunicação. Ele estima ter explicado tudo, embora só tenha trazido os fatos de volta ao seu terreno, e isso com uma consciência limpa e uma honestidade tão insuspeita que deu aos proponentes da transmissão de pensamentos a honra de acreditar em suas afirmações. Há aí uma cegueira repetitiva que se torna interessante e que justamente será preciso levar em conta.

Dois outros casos são, em seguida, comentados, cuja conclusão é ainda a mesma. No primeiro, “o astrólogo simplesmente exprimiu a própria expectativa do paciente”[21], no segundo, se o grafólogo “prometia que o autor do escrito que lhe estava sendo apresentado se mataria nos próximos dias, ali havia, de novo, somente trazido à tona um desejo secreto ardente da pessoa que o interrogava”[22]. Fica claro que Freud trata as falas do adivinho, do astrólogo e do grafólogo como o texto de um sonho, ou, mais exatamente, como aquele texto elaborado de tal modo que deixa já transparecer o conteúdo latente. Esses personagens são, para retomar a comparação do próprio Freud, chapas fotográficas sensíveis sobre as quais se projetam os desejos coloridos do consultante. Graças à redução de todos esses fenômenos às descobertas anteriores feitas sobre o sonho, Freud pensa ter dado um estatuto científico ao ocultismo. É por isso que ele conclui a apresentação dessa série de exemplos reafirmando: “Senhoras e senhores, vocês agora escutaram isso que a interpretação do sonho e a psicanálise em geral fizeram pelo ocultismo. Vocês viram, através de exemplos, que, por sua aplicação, fatos ocultos tornaram-se claros, os quais de outro modo permaneceriam incompreensíveis”[23].

Contudo, Freud não para aí. Ele tem a sensação de que a psicanálise é afetada pela transmissão de pensamentos, não somente pela passagem de pensamentos do consultante ao adivinho, astrólogo, grafólogo, e então ao analista, mas pela passagem inversa do analista ao paciente. É por isso que ele chega a apresentar o caso Forsyth, cujas notas, em 1921, ele havia esquecido em Viena antes de voltar a Gastein; mas que ele havia, entretanto, guardado na memória como “aquele que lhe havia deixado a mais forte impressão”[24]. Ele não pode, todavia, evitar, ao introduzi-lo, multiplicar as fórmulas sutis, sempre honestas, mas que evitam de pegar a questão pelos chifres. Esse caso faz parte de “observações que têm ao menos uma relação com a psicanálise, porque foram feitas durante o tratamento analítico, e talvez só tenham sido possíveis por sua influência”. Leia-se: isso não toca, entretanto, a própria essência da análise. E, adiante: “É um exemplo no qual os fatos se colocam claramente e não têm necessidade de ser desenvolvidos pela psicanálise. Quando da sua discussão, não podemos evitar, contudo, a ajuda da psicanálise”. Isto é: tudo isso não é da ordem da psicanálise, mesmo se nos servimos dela para tratar essas observações. Enfim: “Eu lhes adianto, entretanto, que mesmo esse exemplo de aparente transmissão de pensamentos não elimina todas as dúvidas e não permite nenhuma tomada de posição incondicional pela realidade do fenômeno oculto”. Dito de outra forma, não é necessário levar muito a sério isso que vou lhes dizer; afinal, isso não prova nada.

Freud reconhece, ele mesmo, que “sua atitude pessoal nessa questão continua de má vontade, ambivalente”[25]. Mas essa ambivalência deve ter uma função que já vimos se perfilar, e que agora é a hora de trazer às claras.

É necessário observar, de saída, que Freud reduz incansavelmente o ocultismo à telepatia; e, esta última, à transmissão de pensamentos.

Os senhores veem que todo o meu material trata somente o ponto da indução de pensamentos; de todos os outros milagres que o ocultismo afirma, eu não tenho nada a dizer. Minha própria vida, como já reconheci abertamente, é percorrida pela perspectiva oculta de maneira especialmente pobre. Talvez o problema da transmissão de pensamentos lhes pareça realmente restrito em comparação ao grande mundo mágico do oculto[26].

Entre a telepatia propriamente dita e a transmissão de pensamentos, tal qual fala Freud, existe também uma diferença considerável. Em diversos momentos ele define com exatidão a telepatia como uma comunicação “entre pessoas espacialmente afastadas” ou “sem a utilização de palavras e de sinais”[27]. Porém, ele passa constantemente, sem aviso prévio, de casos onde a transmissão se faz à distância a outros onde ela acontece em presença de indivíduos. Distinção capital para os proponentes do ocultismo e da qual, contudo, Freud não se dá verdadeiramente conta, porque é a transmissão de pensamentos, ela mesma, que lhe interessa; porque é através dela que ele teve a experiência mais relevante do oculto; porque é ela, então, que o fascina e da qual terá que se preservar. Façamos a hipótese de que tudo isso que Freud escreveu sobre esse tema tenha sido para exorcizar a realidade da transmissão de pensamentos de sua vida, bem como da psicanálise que ele inventou.

As experiências, registradas pelos biógrafos, praticadas por Freud com sua filha Anna e com Ferenczi; os sinistros rangidos de bibliotecas, à moda de Jung; as superstições que Freud, de tempos em tempos, exibe: tudo isso é, evidentemente, derrisório em comparação à ameaça de transmissão de pensamentos. Ameaça, porque ela é indissociável da estranheza inquietante[28]. No ensaio que consagra a essa sensação, Freud define justamente a telepatia como experiência do duplo.

Essas são as características do “duplo” em todas suas nuances e formas, isto é, a produção de pessoas que, por causa de sua similaridade de aparência, devem ser tomadas por idênticas; a intensificação dessa relação pelo salto de processos psíquicos de uma dessas pessoas para outra — o que chamamos de telepatia —, de tal forma que uma é coproprietária do saber, da sensação, da experiência da outra; a identificação com uma outra pessoas, de tal maneira que nos perdemos em seu eu ou que o eu estrangeiro é colocado no lugar do eu próprio, isto é, duplicação do eu, cisão do eu, substituição do eu; e, enfim, o retorno constante do semelhante, a repetição dos mesmos traços faciais, características, destinos, atos criminais, até os mesmos nomes através diversas sucessivas gerações.[29]

A transmissão de pensamentos aparece então aqui como um elemento constitutivo do “duplo”. Seria suficiente multiplicar a passagem de pensamentos ou de processos psíquicos de uma pessoa a outra para que, progressivamente, com em um desenho, a partir de traçados suficientemente numerosos, uma adivinhe a resposta da outra — e que então não se saiba mais quem é quem[30].

Essa descrição presta contas de um dos aspectos da vida intelectual de Freud, visível muito especialmente em suas relações com seus discípulos. Entre outros, a impressão estranhamente inquietante (unheimlich) que lhe causava Tausk, que “não somente comunicava suas ideias, mas ainda acreditava que eram as suas próprias”[31]. Lou Andréas-Salomé conta o mal-estar de Freud depois de uma conferência de Tausk,

sua inquietude (quando se aproximavam de suas concepções) e as questões escritas durante a conferência (ele me passava pedaços de papel): “Ele já sabe de tudo?” Eu respondi da mesma maneira: “Claro que não.” (Tratava-se de confidências que Freud me havia feito)”.[32]

Como se, em seu trabalho de criação, ele se sentisse constantemente ameaçado de “duplicação do eu” por força de “copropriedade do saber”. Desse modo, ainda aponta Lou, após uma intervenção de Tausk, sua melhor defesa era o esquecimento: “Freud se refere com louvor a essa explicação ‘elucidante’; e, ao fazê-lo, esquece tão logo quem é o autor, o que ele disfarça sorrindo”[33]. O temor ou as acusações de plágio, a prioridade nas descobertas, a originalidade das concepções que preocupavam realmente Freud devem ser tomados na mesma perspectiva, como fenômenos preocupantes em que sua subjetividade está perigosamente engajada. Se ele reduziu o ocultismo à transmissão de pensamentos, é porque a experimentou e ela o levou à beira da despersonalização. Não surpreende que ele cultive o egoísmo sagrado do criador, ou que evite ler outros autores que lhe dariam a impressão de o terem precedido, conduzido, influenciado — e que viriam expropriá-lo de seus próprios pensamentos. O que ele quer preservar, a todo custo, é sua identidade; é por isso que ele terá de excluir a transmissão de pensamentos do campo da psicanálise, reduzindo-a à experiência e ao estudo dos processos psíquicos individuais, fundados sobre a não comunicação.

Graças à invenção da transferência, Freud pôde manter teoricamente a telepatia ou a transmissão de pensamentos dentro do registro do ocultismo e se proteger dos riscos de dissolução que essa passagem — constantemente possível, nele mesmo, do “saber, do sentir e da experiência” de um outro — lhe fazia correr. Pois, com a transferência, estamos do lado da objetividade científica, e não na movência do relacional obscuro, problemático, confuso, misterioso ou fantástico. Ao descobrir, um dia, que os ímpetos amorosos de uma de suas doentes não se endereçavam a ele, mas a um outro (dritte Person[34]) que ela fantasiou, ele sai pessoalmente do campo da relação para ver na transferência uma “falsa relação” (false Verknüpfung[35]). O que é demandado ao analista é transformar-se em puro aparelho registrador, ser ou “um espelho que não deve mostrar nada além daquilo que lhe é mostrado”[36], ou um receptor telefônico: “Ele deve, ao inconsciente emissor do doente, apresentar seu próprio inconsciente enquanto órgão receptor; comportar-se, em relação ao analisado, como o receptor de telefone em relação ao transmissor”[37]. Se o psicanalista deve se submeter a uma análise, é porque ele não deve “sofrer, nele mesmo, nenhuma resistência que impediria isso que é conhecido de seu inconsciente de sê-lo por sua consciência”[38]. Desse modo, ele pode pretender conseguir receber a mensagem do outro sem nenhuma “seleção ou deformação”. Trata-se, de fato, de passagem de pensamentos de uma pessoa a outra, mas não é uma questão de transmissão de pensamentos, no sentido da telepatia, não tanto porque a mensagem tem a linguagem como medium, mas sobretudo porque, em nenhum momento, o pensamento de um não se torna o pensamento do outro. O analista recebe as falas como endereçadas a um outro, e ele as recolhe puramente como as do paciente, em nenhum caso como suas — sem ter aí nenhuma participação, sem ter nada a dividir. É problema dele, eu não teria como estar ali para o que quer que fosse; e, se eu estivesse ali para alguma coisa, estaria fazendo mal meu trabalho. Desse jeito, Freud separa a análise de tudo isso que poderia parecer, de perto ou de longe, com a sugestão.

Tudo isso parece claro e decidido, mas poderia muito rapidamente se inverter, se nos permitíssemos algumas reaproximações. Uma página de Psychische Behandlung[39], publicado em 1890, dá um apanhado da maneira como trabalham os médiuns:

Os afetos strictu sensu são marcados por uma relação completamente particular aos processos corporais, mas, tomados de modo absoluto, são todos os estados psíquicos, mesmo esses que temos o costume de considerar “processos de pensamento” — “afetivamente”, em certa medida —, e nenhum deles está privado de expressões corporais e da capacidade de modificar os processos corporais. Mesmo quando do pensamento tranquilo em “representações”, excitações correspondentes ao conteúdo dessas representações são constantemente dirigidas aos músculos lisos e estriados, que podem ser distinguidas por um reforço apropriado e fornecer a explicação de muitos fenômenos surpreendentes, supostamente “sobrenaturais”. Assim, por exemplo, se explica a dita “adivinhação[40] de pensamento” (Gedankenerraten) pelos pequenos movimentos involuntários dos músculos, que executa o “médium”, se fazemos tentativas, se nos deixamos guiar por ele, para encontrar um objeto escondido. Todo o fenômeno merece antes o nome de “traição de pensamentos” (Gedankenverraten).

Ora, o que mais faz a psicanálise, uma vez que ela interpreta, se isso não é, de saída, “adivinhar”? Por exemplo, no homem dos ratos, Freud afirma “que ele fará todo o possível para adivinhar (erraten) o que ele lhe indica”[41]. Ou ainda ele dará como tarefa ao analisa “adivinhar (erraten) ou, mais exatamente, construir o esquecido a partir dos indícios que ele deixou”[42]. Adivinhar é então uma expressão técnica, uma peça central, que o analista deve observar para poder falar com propriedade, mas é também a tarefa daquele que, ao menos em francês, tirou daí o seu nome: o devin [adivinho].

No conteúdo, a aproximação entre o psicanalista e o médium não é menos impressionante. Segundo Freud, o segundo “não faria nada além de trazer à luz os pensamentos da pessoa que o interroga, muito particularmente seus desejos secretos”[43]. Mas isso não é exatamente o mesmo efeito que produz o analista, visto que se trata também de fazer os desejos passarem do latente ao manifesto? E se o adivinho é nomeado, em alemão, “dizedor de verdades” (Wahrsager), Freud não desdenharia carregar esse título, ele que persegue a busca pela verdade histórica ou pré-histórica do paciente, e que faz tudo para dissociá-las dos colapsos passados.

Ao prestar contas do processo de “adivinhação”, as explicações dadas a propósito da transmissão de pensamentos valem também para a transferência em psicanálise. Não é por acaso que o alemão utiliza a mesma palavra Uebertragung para dizer os dois fenômenos, ainda que o primeiro seja mais frequentemente empregado na forma composta (Gedankenübertragung). Depois de 1925, Freud faz claramente a aproximação. Para concluir um caso de telepatia, ele aponta:

Não podíamos explicar melhor todo esse estado de coisas, determinado de forma tão unívoca, que pela hipótese de um forte desejo do consultante — na verdade, o desejo mais forte de sua vida afetiva e o motor de sua neurose em germinação — se fazia conhecer por uma transferência imediata com o adivinho, absorvido por uma manipulação de distração.[44]

O adivinho ocupa aqui, claramente, o lugar do analista, que deve abandonar todo esforço de atenção consciente para possibilitar, em seu inconsciente, uma receptividade ótima[45]. O mesmo texto de 1925 continua: “Tais transferências sucedem particularmente bem no momento em que uma representação surge do inconsciente; em termos teóricos, a partir do momento em que ela passa do ‘processo primário’ ao ‘processo secundário’.” Dito de outra forma, a força do desejo do analisante, quando ele passa do inconsciente ao consciente, impressiona o inconsciente do analista, que, por sua vez, deixa vir à consciência essa impressão.

Comentando essa página de Freud, Hélène Deutsch frisou a proximidade da telepatia e da experiência analítica:

A situação psicanalítica, com sua técnica da associação livre, é, por excelência, essa na qual as “lembranças acentuadas afetivamente” encontram-se constantemente in statu nascendi, isto é, “passam do processo primário ao processo secundário”. As condições nas quais a segunda pessoa (com a qual ele está transferido) recebe nela o complexo de representação afetivo oriundo do inconsciente não são especialmente discutidas por Freud. Isso que é dito acima deixa supor que se trata, nesse processo, de uma reação no inconsciente, que se trai somente pelas associações livres e que dá a conhecer seu conteúdo e sua correspondência com o conteúdo da representação da pessoa da qual a estimulação provém, unicamente quando do trabalho analítico. Entre as pressuposições que não nos são tornadas claras, mas que, segundo toda verossimilhança, aproximam-se da operação da transferência (no sentido analítico), o processo reativo para a pessoa objeto de transferência penetra visivelmente na consciência e se torna o conteúdo da percepção. Já que a percepção sensível, que normalmente precede esse processo, falhou, ele adquire um caráter “oculto”. Podemos facilmente supor que a condição dessa transferência de “lembranças acentuadas afetivamente” reside numa certa disposição inconsciente ao acolhimento delas e que somente a realização dessa condição torna a pessoa envolvida capaz de ser uma “estação de recepção”. Os conteúdos das representações investidos afetivamente oriundos do inconsciente devem mobilizar, no inconsciente do outro, conteúdos análogos de um mesmo sentido, que penetram na consciência como uma percepção interior. Só depois, a identidade dos conteúdos é reconhecida e assim a percepção interna recebe o caráter de uma percepção externa.

O estudo mais circunscrito dos processos durante uma análise nos faz reconhecer que as pressuposições acima admitidas para a produção de um fenômeno oculto são, na análise, continuamente dados[46].

A telepatia se diferencia da análise porque essa última procura explicar como se faz a passagem do pensamento de uma pessoa a outra, porque ela quer estabelecer uma continuidade entre os diferentes fatos que aparecem, enquanto os proponentes da telepatia tentam preservar o misterioso — logo, deixar do lado do incompreensível e do estranho todos os elementos intermediários. Nesse sentido, a psicanálise se vê irrevogavelmente do lado da ciência, e abandona então isso que não pode dar conta. Mas, para dizer a verdade, Freud não vai muito longe no estabelecimento de uma cadeia de fatos ininterruptos, no preenchimento de lacunas que separam dois pensamentos similares ou idênticos em duas pessoas diferentes. No final de sua conferência sobre “Sonho e ocultismo”, eis o que ele propõe:

Isso que há entre dois atos psíquicos pode bem ser um processo físico, no qual o psíquico se transpõe a uma ponta e que se transpõe de novo à outra ponta no mesmo psíquico. A analogia com outras transposições como falar ou ouvir ao telefone seria então incontestável. E pensem só, se pudéssemos nos valer desse equivalente físico do ato psíquico! Gostaria de dizer, para a introdução do inconsciente entre o físico e isso que era nomeado “psíquico” até agora, que a psicanálise nos preparou para admitir processos como a telepatia.[47]

Na página anterior, Freud havia reenviado ao artigo de Hélène Deutsch que acabamos de citar. Ela buscava ir mais longe na aproximação entre psicanálise e telepatia, não tanto para acessar a inteligência da telepatia da qual ela não trata, mas simplesmente para melhor compreender isso que surpreende em certos fatos patentes na análise. Freud jamais entrou nessa linha de pesquisa, pois ele propõe, aqui de novo, à frágil telepatia que não logra se alçar ao nível da ciência, os serviços da psicanálise, que, por sua vez, está bem estabelecida em suas bases. Não lhe é possível considerar, como faz Hélène Deutsch, que a transmissão de pensamentos está no próprio coração da experiência analítica. Todos os comentadores, na minha opinião, também caem na armadilha. Eles ficam ou inquietos, ou contentes, com o fato de que Freud tenha se interessado pelos fenômenos parapsíquicos. Como ele, perguntaram-se com seriedade se ele acreditava ou não acreditava, enquanto ao passo que aí se tratam de puras manobras de distração. Se o ocultismo, a telepatia, a transmissão de pensamentos são constituídos num campo próprio, a psicanálise se encontra liberada e pode continuar a funcionar com seus princípios alegadamente científicos, isto é, com suas intensões ou pretensões científicas. Mesmo quando Freud cita, ao final dessa mesma conferência, o artigo de Dorothy Burlingham, que, nas análises de crianças e de suas mães, constata fenômenos desse gênero, ele conclui simplesmente que tais observações “colocam fim à dúvida sobre a realidade da transmissão de pensamentos”[48]. Tudo isso não lhe coloca nenhuma questão sobre o trabalho analítico e isso que ali se passa. Ele não deixa de apontar, contudo, que esse modo de comunicação provém do arcaico ou do infantil, que não são especialmente estranhos ao domínio analítico. Dito de outra forma, as aproximações entre transferência de pensamentos e transferência não podem não vir na pena de Freud, mas é para evitar mais fortemente que a questão da transmissão de pensamentos penetre como um ferro em brasas no próprio coração da análise.

Nesse interesse distante pela telepatia, o inimigo mais temível que Freud quer afastar é a sugestão — que ele praticou por muito tempo, com a hipnose. Quando fala da transferência, é sempre no sentido analisante-analista. A contratransferência é simplesmente isso que ameaça atrapalhar a transferência. Hélène Deutsch, que trata, no artigo citado acima, dos processos ocultos em análise, pode se apoiar em diversos textos de seu mestre, tanto que ela fala “das reações do inconsciente do analista aos processos inconscientes do paciente”, mas, quando quer lançar um olhar sobre “as influências do inconsciente do analista sobre o paciente”, se aventura sozinha sobre um terreno que não está balizado; e não é por acaso. Admitir que o analista possa ter uma influência sobre o analisante, ou que ele possa querer qualquer coisa por ele, ou em seu lugar, isso arruinaria toda a descoberta psicanalítica, visto que seríamos trazidos de volta a uma variante da sugestão. Mas, sobretudo, é preciso evitar a qualquer custo que uma questão como essa se coloque, pois, se a colocamos, seríamos obrigados a falar não somente dos anseios conscientes do analista, mas de seus anseios inconscientes, o que o poria na situação de jamais saber o que faz. Com a transferência bem compreendida e resumida no “É problema seu”, estamos seguros de preservar a análise de tudo isso que poderia atrapalhar sua pureza.

(Diremos que, desde Freud, a análise fez progressos; e que Lacan, por exemplo, colocou precisamente o desejo do analista bem no coração do tratamento analítico. Mas isso aí não seria, por acaso, apenas uma maneira mais sutil de virar a questão, ou de escondê-la? Se o desejo é sem objeto ou só há objeto que fracassa, não há inconveniente em fazer desejar o analista. Um tal desejo depurado não suscita qualquer coisa no analisante, a não ser desejo. Falar do desejo do analista é, então, uma maneira muito fina de responder à objeção, mas talvez também de fazer crer que a tenhamos respondido, ao negligenciá-la totalmente, porque é supor que o desejo do analista não traz consigo, como sua sombra, os desejos, os fantasmas e os sintomas do próprio analista; ora, é a isso que o analisante é confrontado. Na mesma linha, a recusa em tomar como questão a cura poupa o analista de se perguntar isso que ele busca na análise, naquela análise — isto é, curta e grossamente, a forma e o conteúdo do seu desejo. Há já alguns anos, escutei um analista titulado me explicar que o analista não pendia a nenhum objetivo. Quando perguntei a ele, então, como fazia para não perder o rumo, teve alguns segundos de espanto; mas, felizmente para ele, somente alguns segundos. Lacan é mais claro e nos indica uma pista a seguir quando faz da análise didática a psicanálise pura, isto é, quando coloca como horizonte da análise a produção de analistas; em resumo, a reprodução do mesmo).

Freud só se interessa pela transferência pelo viés onde ela pode ser utilizada no tratamento; portanto, analisada. Nesse sentido, ele se afasta radicalmente da prática da sugestão. Ele busca explicitamente “a independência final do doente”, e então a suspenção da transferência[49] graças ao trabalho psíquico realizado pelo paciente. Um corte é então operado entre o analista e essa “terceira pessoa” sobre a qual o analisante transferiu. Mas toda a questão é de saber se esse corte, certeiro nesse ou naquele ponto, pode ser feito sobre a totalidade das ligações transferenciais, ou mesmo sobre as mais importantes. No caso de, como faz Freud, chamarmos de “transferência” unicamente isso que aparece através das resistências — e que pode, então, ser percebido e analisado —, a transferência não terá nada a ver com a sugestão. Isso, contudo, é supor resolvido o problema ou se colocar somente a questão que se pode resolver.

De fato, se, como reconhece Freud, a transferência tem essa particularidade de “ultrapassar, pela medida e pela maneira, isso que pode ser justificado como sensato e racional”, porque foi “suscitada não somente por representações de expectativa conscientes, mas ainda por aquelas que são reprimidas ou inconscientes”[50], ela estabelece um tipo de relação que excede por toda parte isso que poderá ser analisado. Pela descoberta genial da transferência, isto é, pela recusa em crer no endereçamento feito pelo paciente e a recusa em responder à sua demanda — isto é, ausentando mais ainda a sua individualidade da relação para se tornar uma “terceira pessoa”, um “ele” indeterminado —, o analista Freud constatava que ele provocava a desmesura, a deformação e o excesso, e que isso que vinha então à tona na fala era da ordem do primitivo, do arcaico, do infantil, do erótico. Isso quer dizer que o analista, para o analisante, não é mais uma pessoa como outra com a qual se poderia discorrer, mas se torna alguém que, ao continuar “terceira pessoa”, volta a ser um indivíduo concreto (já que é de todo jeito a ele que falamos), marcado doravante pela desmesura e pela deformação; um indivíduo que é dotado de onisciência e onipotência; um indivíduo fantástico que o analisante não pode ver, não pode escutar, não pode encontrar — que, no limite, ele alucina.

Poderíamos então concluir que as particularidades do analista não teriam como entrar em consideração, porque o analisante faz qualquer coisa com elas. Não são, na verdade, essas particularidades que estão em causa, mas sim sua capacidade em ser o suporte das deformações que lhe submetemos e a não tropeçar sob o peso da desmesura da qual ele está investido. Em tudo isso, ele é solicitado não ao nível de seus traços de caráter, mas na relação que ele mesmo mantém com o primitivo, o infantil e o sexual. É por aí que ele entra em cena e se torna operatório, mas é também por aí que ele se instala, para o analisante e para ele próprio, no universo da estranheza inquietante.

Quando busca dar conta disso, Freud reutiliza os traços fundamentais desenvolvidos sobre a transferência. “O duplo é uma formação pertencente aos tempos psíquicos primitivos ultrapassados que deviam, sem dúvida então, ter um sentido mais benigno”[51]. Algumas páginas depois: “Que a estranheza inquietante do retorno do idêntico resulta da vida psíquica infantil, só posso aqui mencionar”[52]. Enfim, a última explicação que retoma as precedentes: a estranheza inquietante é aquela que nasce da nostalgia do corpo materno ou da volúpia que se encontroa ligada a ele[53]. A aproximação com a psicanálise não escapa a Freud: “Eu não me surpreenderia em escutar que a psicanálise, que se ocupa da descoberta dessas forças secretas, se torne, ela mesma, por causa disso, estranhamente inquietante aos olhos de muitos”[54]. Mas então seria preciso tirar disso todas as consequências. Não é somente porque se ocupa do infantil e do sexual que a psicanálise é inquietante; é porque, ao se ocupar do infantil e do sexual, fazendo-os ressurgir apesar da repressão e do recalque, ela provoca o retorno do idêntico, a aparição dos fenômenos de duplo e, então, a comunicação imediata.

Ao final de sua conferência sobre “Sonho e ocultismo”, depois de ter apresentado o caso Forsyth, quando ele quer dar razão à transmissão de uma mensagem sem o suporte de palavras ou sinais, Freud retoma os mesmos termos. A única explicação possível é o recurso a um mundo de comunicação, seja ele arcaico, apaixonado ou infantil:

Claramente não sabemos como a vontade coletiva se realiza nas grandes coletividades de insetos. É possível que isso aconteça pela via de uma tal transferência psíquica direta. Somos conduzidos a supor que isso é a via original, arcaica, da compreensão entre indivíduos, que, no curso do desenvolvimento filogenético, é repelida para um método melhor, aquele da comunicação por sinais, que recebemos com os órgãos dos sentidos. Mas o método anterior poderia ser mantido em segundo plano e aparecer ainda em certas condições — por exemplo, também nos loucos arrebatados pela paixão. Tudo isso é ainda incerto e cheio de enigmas não resolvidos, mas não há razão para temer.

Se existe uma telepatia enquanto processo real, podemos supor, apesar da dificuldade de prová-la, que ela seja um fenômeno bastante frequente. Isso corresponderia à nossa expectativa, se pudéssemos descobri-la justamente na vida psíquica da criança. Lembramo-nos da representação de angústia frequente das crianças, segundo a qual os pais conhecem todos os seus pensamentos, sem que elas lhes tenham comunicado — a total correspondência, e talvez a fonte, da crença dos adultos na onisciência de Deus. Recentemente, uma mulher digna de confiança, Dorothy Burlingham, comunicou num artigo intitulado “A análise das crianças e a mãe” observações que, se fossem confirmadas, deveriam pôr fim à dúvida subsistente sobre a realidade da transmissão de pensamentos.[55]

Freud continua aqui claramente na mesma problemática restritiva: há no tratamento analítico fenômenos de transmissão de pensamentos, mas eles são, para a psicanálise, fenômenos anexos, até aberrantes. Contudo, se a relação entre analista e analisante faz ressurgirem infância, paixão, relação com a mãe, a “transferência imediata” não constitui o cimento que a análise propriamente dita não teria como suspender (aufheben) e decompor (auflösen) totalmente? Podemos até nos perguntar se a análise da transferência não é suscetível a reforçar essa “transferência imediata”, enquanto que, por outro lado, ela a desfaz. Quando fala da interpretação que tem por objeto fazer vir à tona o recalcado, Freud pensa que o analista não carrega nada de seu e que se afasta, então, assim, da sugestão; mas ele parece ter esquecido isso que escrevia em 1890, certamente antes da descoberta da transferência, sobre o fator de sucesso de um tratamento:

Tal meio é, antes de tudo, a palavra, e as palavras são também o instrumento essencial do tratamento psíquico. O profano achará muito difícil de compreender que os problemas doentios do corpo e do espírito devem ser afastados “só” pelas palavras do médico. Pensará que se exige dele crer na magia. Ele não está errado, realmente; as palavras de nossos discursos cotidianos não são nada além de magia desbotada. Mas será necessário tomar um desvio mais longo para fazer compreender como a ciência faz para devolver à palavra uma parte de sua antiga força mágica.[56]

Se há um lugar onde as palavras reencontraram sua força mágica, bem além daquela que podem aparentar na relação médico-doente, é sem dúvida no tratamento analítico. O analista, tão facilmente confundido, ou sempre arriscando sê-lo, com a “terceira pessoa” — que deveria ser, efetivamente, uma pessoa “qualquer”, pura condição de possibilidade da linguagem; mas que, na maior parte das vezes, é fantasiado ou alucinado —, dá às palavras que ele pronuncia uma intensidade que ultrapassa, como a transferência, “na medida e na maneira, isso que é sensato e racional”. Porque as palavras do analista têm uma força que o discurso cotidiano não tem, elas são capazes de ter efeitos analíticos, isto é, elas podem desembocar, em particular, para retomar a expressão de Freud, “na independência do paciente”; mas, porque elas têm uma força mágica, não podem não ter, por um lado, efeitos inversos que ligam mais fortemente o analisante ao analista (que soube, por exemplo, liberá-lo de um entrave) e, por outro, efeitos anexos que induzem no analisante aquilo que o analista não pode dominar — porque, ao receber a palavra eficaz, o analisante recebe e assimila tudo aquilo de que aquela fala era, inconscientemente, portadora. As palavras servem aqui de medium à comunicação dos inconscientes.

Para evitar essas induções sub-reptícias, o analista escolhe se calar e, como ele é também subtraído aos olhares; ele não se arrisca deixar transparecer qualquer coisa de seu inconsciente através dos gestos ou dos movimentos elementares do rosto ou das mãos. Mas o processo não é talvez tão eficaz quanto parece num primeiro momento. Isso seria esquecer que o silêncio é uma linguagem que o analisante aprendeu cedo. Que abismo entre o silêncio da morte e o da vida; que diferença entre o silêncio da sonolência e o do interesse vivo, entre o silêncio do desejo e o da impotência, entre o da depressão e o da mania contínua! Todos esses silêncios têm intensidades e colorações que são perceptíveis ao analisante. Se a pontuação é decisiva para dar sentido a uma frase, podemos estar seguros que o silêncio, por si só, é capaz, com todas as suas nuances, de fazer passar ao analisante toda forma de mensagens pré-conscientes ou inconscientes, mais claras quanto mais o analista se crê protegido da comunicação.

Aquilo que é então estabelecido no tratamento analítico e que é reforçado, de bom ou mau grado, seja na fala, seja no silêncio do analista, é uma relação imediata de tipo arcaico, infantil, erótico, cuja visada é a negação de toda alteridade. A paixão do analista torna-se a paixão da paixão que faz fusionar os loucos, os amantes, as mães — ou os pais — e a sua prole; que os faz comunicar sem que tenham necessidade de comunicar. “Transferência imediata” cujo princípio é de jamais se separar, de permanecer colados um ao outro para constituírem um só; ou, ainda melhor, de ser um dentro do outro. Porque todo analisante, saiba ele ou não, sonha em se fundir ou permanecer engolido nesse ventre silencioso ou falante que não lhe deixa nenhuma autonomia.

Freud tentou jogar essa transferência imediata para fora das preocupações do analista, incluindo, seja no incognoscível ou no ainda-não-conhecido do telepático e do oculto, seja no impossível de analisar da psicose. Se ele repele essa última, que só conhece a transferência imediata, para fora do campo da psicanálise, é porque quer se limitar a operar a partir disto que poderíamos chamar de “transferência mediata”, aquela em que o analista é tomado como um outro, onde a linguagem é rei e torna possível a vinda à tona das fantasias, o jogo dos significantes, a aparição das resistências e sua dissolução.

Mas porque não quis levar em conta na análise a força da transferência imediata — e, então, a existência da transmissão de pensamentos e o segundo plano psicótico de toda relação analítica —, Freud deixou a porta aberta ao retorno desse recalcado sob a forma de uma transferência em que se combinam o imediato e o mediato, e que poderíamos chamar de “transferência infinita”. Infinita, de saída, na duração, assim como indefinidamente carregada, porque a análise só pode se desfazer de uma parte que é ínfima e que ela reaviva sem cessar; infinita, na sequência, em intensidade, em que assume as formas estranhamente inquietantes da veneração[57], esse cúmulo da crença. A transferência infinita utiliza a transferência mediata para jamais ter de se colocar a questão da transferência imediata; para escondê-la, mas igualmente para selá-la. Senão, como explicar, por exemplo, a palavra incontestável de Binswanger: “Aquele que a psicanálise uma vez agarrou, não larga mais”? Não se trata de uma disciplina à qual seríamos apaixonadamente ligados, nem mesmo de um discurso no qual seríamos assimilados, mas de uma experiência inultrapassável, no limite do inumano, que a idade adulta não saberia jamais nos dispensar de modo duradouro. Os desvios sutis da teoria, as sofisticações matemáticas que representam o apogeu da transferência mediata, podem fazer crer que a análise está a cem léguas da simbiose; elas talvez só façam esquecer que aí está seu solo e o lugar de seu desenvolvimento.

Se a telepatia pôde operar tal sedução sobre Freud, é porque ela é portadora de um mito, o da mais total comunicação no maior afastamento, isto é, o da identidade na diferença. O mesmo pensamento é pensado ao mesmo tempo por um e outro que não se veem, não se falam nem se escutam. O pensamento de dois, distintos e distantes, é o pensamento de um só. Não se pode sonhar uma realização mais bela da relação simbiótica sem os riscos de absorção e aniquilação que ela comporta. É a simbiose sem suas dificuldades; é, então, o superprazer sem divisão e sem revés. Pela telepatia, retorna-se ao um na retenção da separação. Se ela tivesse podido entrar no campo da ciência, a transferência imediata teria recebido, também ela, um estatuto científico; e a psicanálise teria deixado de ser taxada de uma deficiência tão pesada que a coloca em risco de se perder, incessantemente, no charlatanismo, na magia e nas “histórias de pilantra”.

Pois a questão é saber quem, da transferência imediata ou mediata, terá a última palavra. Se é a transferência mediata, então a relação fusional de inconsciente a inconsciente só subsistirá o tempo necessário à análise; ela não será nada além de um artifício criado por um expediente que controla as condições de sua experiência, e esse artifício desaparecerá uma vez alcançado o objetivo. Mas, se por acaso, o não dito tivesse mais força que o “semidito”, se a transferência mediata que permite escutar alguma coisa do inconsciente só fosse — se a consideramos isoladamente e trabalhando sozinha — uma nova forma de ilusão do eu, que crê na dominação, na objetividade, na cientificidade, porque algo do recalcado foi suspenso, é bem possível que toda análise volte para o lado da sugestão. Não mais como na sugestão hipnótica, em que uma ou diversas injunções são transmitidas ao paciente, mas na qual tudo isso que é inconsciente no analista passa ao analisante sob a proteção da transferência mediata, que, do lado do analista, se pretende sem nenhuma influência sobre as falas, as fantasias, as projeções e a história do analisante. Uma longa análise seria então a produção fio a fio de um tecido simbiótico onde os inconscientes se comunicariam progressiva e silenciosamente ao abrigo de uma análise linguageira. Não esperaríamos a simbiose sempre visada e sempre impossível, mas ao menos a osmose, cujo equilíbrio ótimo marcaria o fim da análise. Analista e analisante se separariam quando cada um pudesse constatar no outro seu melhor “duplo” possível — a sugestão não incidindo mais, então, sobre um traço particular, mas sobre todos os possíveis inconscientes.

Freud já apontava que M.P. tinha tirado de sua própria história, em boa hora, o vocábulo “Precaução” como que para responder a Forsyth, que então preocupava Freud. O que impede de imaginar que a história dita singular do analisante seja reconstruída inteiramente em função do desejo do analista, ele mesmo inconscientemente preso, de certo ângulo, nos labirintos inconscientes do analisante? Quem quer que tenha consultado diversos analistas sabe bem que não descobriu com cada um o mesmo passado; que seu olhar ou sua visão medíocre, suas falas ou sua orelha ruim não atuaram com um ou com outro, nem sobre os mesmos pontos, nem na mesma relação. Constatação banal que não poderia deixar de abrir algumas perspectivas nos proponentes e entusiastas do tratamento analítico. Isso é mais claramente visível no caso da análise dita didática. Como explicar, por exemplo, que o analisante tornado analista adote — ou rejeite, mas adote ainda — o discurso de seu analista? Ele foi, de bom ou mau grado, constituído como “duplo”. E não é isso que é reconhecido explicitamente quando se faz da produção de analistas a visada da análise? A questão da transmissão da análise não tem mais de ser colocada porque em seu próprio funcionamento ela atua o princípio de repetição na forma da reprodução.

É possível modificar esse funcionamento e romper de alguma maneira a fatalidade dessa repetição? Granoff cita Nacht, que propunha que, no fim da análise, o analista “mostre um pouco mais seu ser”[58]. Ele prossegue lembrando que Freud, para se livrar de seu paciente envergonhado e colocar fim a uma análise que prosseguia indevidamente, havia o convidado para jantar em sua casa; para concluir que o psicanalista deveria se inspirar em Homero: “Não sou um qualquer, sou Ulisses de Ítaca, filho de Laerte”. Em efeito, trata-se claramente, de um jeito ou de outro, de por fim à transferência que tirou do analista a sua particularidade para torná-lo outro, a “terceira pessoa” que não tem nome, não tem história e deveria ser puro espelho, puro receptor. Mas o processo utilizado passa deliberadamente ao largo da questão. Ao voltar a ser o Dr. Freud ou Ulisses ou Durand, o analista retorna à realidade trivial e deixa o analisante no estado anterior. Esse último se encontra, então, frente a um personagem cortado em dois, que não é mais apenas qualquer pessoa, mas esta, sem que entre os dois pedaços qualquer passagem seja possível. Dizer “Não sou um qualquer, mas Ulisses” é colocar numa bolha tudo isso que foi organizado com essa pessoa “qualquer”, nada querer dizer ou saber disso que foi possível passar com ela; é então reforçar, para sempre, a transferência imediata que se constituiu ao longo de uma análise. Por aí, o analista se separa de seu cliente, mas ele preserva sua posição, seu poder, e fixa para sempre no seu rosto a máscara clownesca do analista. Ele não é mais um “qualquer”, sem dúvida, mas se torna — o que é bem pior — o analista com um grande A, enquanto que aquilo que está em jogo no final da análise é que não haja, ou não haja mais, analista. Convidar para jantar ou para beber algo no café da esquina não é a dissolução de uma pessoa “qualquer”, mas uma forma de embalsamá-la e de construir-lhe um mausoléu.

Mostrando um pouco mais seu ser, convidando à mesa ou dizendo seu sobrenome, o psicanalista fica só na iniciativa e redobra o ideal da transferência mediata, uma vez que passa da fala do oráculo ou do silêncio do mago à hipocrisia da linguagem social: ele permanece impenetrável, não expõe nada; ele continua fora do jogo e, então, fora de qualquer alcance. É assim que ele mantém seu poder grotesco para além do momento analítico, remetendo indefinidamente o analisante a ele mesmo. Tal analisante tampouco deixa de degustar essa situação: ele precisa de um ídolo; ele precisa incrivelmente acreditar. E se ele se interessa, feito um porteiro, pela vida privada de seu analista, é para se dar a impressão de não acreditar; na verdade, para ter intacto o outro, o fabuloso, o todo-poderoso que ele encontrou face-a-face. É importante, sobretudo, nada escutar nem nada saber das fantasias ou dos sintomas que o analista pôde induzir, isto é, preservar o princípio absoluto da transferência mediata, como a única presente na análise, a fim de nada apreender dos efeitos, e mesmo da existência, da transferência imediata.

Para sair do impasse, é necessário que analisante e analista entrem em acordo (e isso não é evidente nem de um lado, nem do outro) para demonstrar o artifício que permitiu a análise. É decisivo que o analista volte explicitamente a campo, como participante e participado, a fim de permitir ao analisante captar ulteriormente por que, em tal momento, a análise tomou tal rumo; por que tal fala não foi escutada — o que teve essa ou aquela consequência —; por que tal fantasia ou tal acontecimento foi incessantemente interpretado em um sentido que trancava o inconsciente ao invés de afastar suas bordas. Em cada caso se descobre o caráter defensivo da palavra ou do silêncio do analista, a indução de sua ideologia ou de seus fantasias, a necessidade de firmar sua cegueira; mais geralmente, de qual maneira o analista utilizou o analisante como formação de compromisso, isto é, como sintoma, às vezes revelando a céu aberto isso que o faz funcionar inconscientemente, mas de tal maneira que não haja do que se perceber e ter em conta, uma vez que ele o expulsou para o outro.

Esse trabalho, é preciso dizer, é de uma dificuldade extrema, porque é preciso que o analista renuncie a suas certezas mais estabelecidas. Ora, se nesse ponto particular ele está cego, é por muito boas razões, escute-se, é para se proteger ou simplesmente para sobreviver, para não ficar vulnerável demais. Para dizer a verdade, a única hipótese favorável é que ele tenha feito algum caminho em relação ao momento anterior de sua surdez na análise de seu paciente, e que ele se encontre, então, pronto a reconhecer alguma coisa dessa surdez; senão, ele ainda tem a absoluta necessidade do outro, assim como do seu sintoma, e ele continuará a prendê-lo ali.

Para esclarecer isso que precede, um único exemplo. Groddeck escreve a Freud dizendo que teve, com ele, uma transferência materna. Freud nega absolutamente; ele estima não suscitar nada além de uma transferência de tipo paterno. Esse ponto é vital para Groddeck porque é ali que ele se encontra inextricavelmente enrolado. Mas é igualmente vital para Freud não parar de ignorá-lo. Suponhamos, ao contrário, que Freud tenha captado isso em que era interrogado. Ele teria então devido repensar toda sua teoria fundada sobre a prevalência do pai, o interdito do incesto (que sempre fez Groddeck rir), a estima da ciência; ele também teria devido questionar sua própria relação com a teoria, sua utilização por seus discípulos etc. Tarefa imensa, talvez impossível, mas que teria sido a condição necessária para que Groddeck deixasse de se repetir em sua incansável demanda, a ponto de ficar doente e de morrer. Condição que não podia se realizar enquanto Freud se agarrava a suas próprias evidências, enquanto ele permanecia incapaz, nesse sentido, do reconhecimento ulterior do seu desconhecimento passado.

Não se trata então, evidentemente, de o analista contar os sentimentos ou as emoções que ele provou no curso da análise, tampouco de se estender sobre as formas e as figuras de sua contratransferência; é importante fornecer um ponto de ancoragem ao analisante a fim de que ele possa distinguir sua história daquela do analista durante a análise, quando a transferência imediata lhes havia visto se tomarem uma única massa. E não é necessário que essa transferência imediata seja analisada totalmente, isso que é, aliás, propriamente impossível e contraditório; é suficiente que, em um desvio ou outro, em um momento ou outro, um “qualquer” apareça como esse particular que, por suas próprias razões, quis ou não conseguiu se impedir de trancar o analisante em seu desejo, de fazê-lo lugar de sua reprodução. Pois, quando “alguém” reconhece “Eu estava ali sem o saber para localizá-lo”, é “alguém” inteiro que é desmistificado, é toda a crença nele que se esvai, ou ao menos podia se esvair para o interlocutor que assim o quisesse. A sugestão cessa e os desejos, as fantasias ou as histórias — que estavam imbricadas, a ponto de tentar se confundir[59] — começam a se desemaranhar para tão somente se entrecruzar. Do tecido constituído pela análise, cada um pode doravante seguir alguns fios que lhe sejam um pouco mais seus.

O analista torna-se então o analisador analisado, o desnodador desnodado — como se diz, o caçador caçado[60] —, porque a análise lhe retorna. O “passe” inventado por Lacan teria certamente por objetivo essa retomada da análise num segundo grau, para aquele que se tornou analista. Ele bem visava, no só-depois, a compreensão dessa produção do analista na e pela análise. Mas, como se realiza com “passadores”, puras testemunhas, ele não consegue realmente retornar; ele se perde no indefinido. Ele é, então, feito também para continuar a manter o analista abrigado; para evitar que ele caia da sua posição na transferência mediata; para deixar o analisante às voltas com suas interpretações sempre em suspenso, isto é, com seus fantasmas; para desrealizá-lo, já que ele só diz respeito à objetividade das testemunhas puras que não respondem a nada e a um júri incontrolável e inapreensível. Ele é então remetido ao real de sua loucura e constituído definitivamente como sintoma. Forma genial de levar diretamente em consideração uma questão deixada em repouso pela psicanálise para tratá-la sem resolver e, por fim, para redobrá-la ao infinito — o que faz do passe a instituição da transferência infinita.

Cumpre perguntar se todas as soluções propostas para atualizar o fim da análise ou para teorizar alguma coisa não têm um efeito estrita e automaticamente inverso àquele visado. O analisante que quer desmontar a lona sob a qual seu analista se deu uma continência leva-a muito frequentemente na cara, e ele está tão enrolado na grandiosidade de sua tarefa que não chega nem mesmo a rir. É verdade que algumas vezes ele perdeu, na operação, um pouco mais do que esperava. Em todo caso, não vemos como poderia se desnodar alguma coisa do lado de fora do lugar onde isso se enodou, e por outros que não seus protagonistas. Mas que o analista, tomado por outro durante a análise, reconheça que ele também tomou o analisante por outro, suporia uma interrogação tão radical da própria psicanálise que as hesitações, os desvios, os subterfúgios podem facilmente se compreender e, sem dúvida, se justificar. 

REFERÊNCIAS

ANDRÉAS-SALOMÉ, Lou (1970) Correspondance avec Sigmund Freud, suivie du Journal d’une année. Paris: Gallimard.

DEUTSCH, Hélène (1926) “Okkulte Vorgägne während der Psychoanalyse”, Imago, n. 12, pp. 418-433.

JONES, Ernest (1953) La vie et l’oeuvre de Sigmund Freud, P.U.F., 1969.

MAJOR, René (1977) Rêver l’autre. Paris: Aubier-Montaigne.

MOREAU, Christian (1976) Freud et l’occultisme. Toulouse: Privat

ROAZEN, Paul (1971) Animal mon frère, toi. Paris: Payot.


*  François Roustang é… François Roustang.


** Monique David-Ménard é é psicanalista e filósofa. Autora de Les constructions de l’Universel (PUF, 1991); Deleuze et la Psychanalyse (PUF, 2005) e Eloge des hasards dans la vie sexuelle (Hermann, 2011), entre outros. Cofundadora da Société Internationale de Psychanalyse et Philosophie (SIPP/ISPP).


*** Paulo Beer é psicanalista, mestre e doutorando no Instituto de Psicologia (IP-USP). Membro do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise e da Société International de Psychanalyse et Philosophie. Editor de Lacuna – uma revista de psicanálise.



[1] “Princípios relativos ao acesso ao título de psicanalista na Ecole Freudienne de Paris” , Anuario 1975, p. 17. Nesta época F. Roustang era membro da EFP, mas não AME.

[2] No sentido de estar em lugar. [N. de E.]

[3] Odile Jacob, 2015.

[4] Conceito criado por François Roustang e que se refere a um modo de percepção marcado pela continuidade e pela consciência de todos os nossos laços com o mundo, distinto de uma percepção que se traduz pela descontinuidade e pela parcialidade. [N. de E.]

[5] Gesammelte Werke (doravante, G.W.), vol. 15, pp. 51-58.

[6] Em alemão, Vorsicht significa tanto previdência quanto precaução, enquanto que em inglês foresight significa somente previdência, previsão. Mas, segundo Catherine Wieder, que me forneceu um extenso dossiê, foresight viria do mesmo campo lexical e semântico que carefulness e caution. Entretanto, ela assinala que Forsyth, do anglo-saxão, vem de far-side e significaria “aquele que vem de longe”. Esse nome não teria, então, nenhuma relação com foresight.

[7] JONES, Ernest (1953) La vie et l’oeuvre de Sigmund Freud, P.U.F., 1969, 3, pp. 425-460.

[8] MOREAU, Christian (1976) Freud et l’occultisme. Toulouse: Privat — que compreende uma bibliografia completa sobre a questão.

[9] “Eine erfüllte Traumahnung”, G.W., vol. 17, pp. 21-23.

[10] G.W., vol. 4, p. 291.

[11] G.W., vol. 4, p. 291.

[12] G.W., vol. 4, p. 35.

[13] G.W., vol. 13, pp. 165-191.

[14] G.W., vol. 13, p. 165.

[15] G.W., vol. 13, p. 176.

[16] G.W., vol. 13, pp. 177, 190.

[17] JONES, Ernest (1953) La vie et l’oeuvre de Sigmund Freud, P.U.F., 1969, 3, p. 444.

[18] G. W., vol. 1, pp. 569-573.

[19] G.W., vol. 1, p. 572.

[20] G. W., vol. 15, p. 45.

[21] G. W., vol. 15, p. 47.

[22] G. W., vol. 15, pp. 49-50.

[23] G. W., vol. 15, p. 50. Cf. vol. 15, pp. 41, 45; vol 17, p. 40.

[24] G.W., vol. 17, p. 31.

[25] G.W., vol. 17, p. 31.

[26] G.W., vol. 17, p. 43.

[27] G.W., vol. 15, pp. 38 e 42.

[28] Cf. “O inquietante”, G.W., vol. 12, p. 246.

[29] “O inquietante”, G. W., vol. 12, p. 246.

[30] A questão é colocada em toda a sua agudeza no livro de R. Major. Cf. MAJOR, René (1977) Rêver l’autre. Paris: Aubier-Montaigne.

[31] ROAZEN, Paul (1971) Animal mon frère, toi. Paris: Payot; pp. 96-97.

[32] ANDRÉAS-SALOMÉ, Lou (1970) Correspondance avec Sigmund Freud, suivie du Journal d’une année. Paris: Gallimard; p. 347.

[33] ANDRÉAS-SALOMÉ, Lou (1970) Correspondance avec Sigmund Freud, suivie du Journal d’une année. Paris: Gallimard; p. 324.

[34] “Estudos sobre a histeria”, G. W., vol. 1, p. 310.

[35] G. W., vol. 1, p. 309.

[36] “Conselhos aos médicos no tratamento psíquico”, G. W., vol. 8, p. 384.

[37] G. W., vol. 8, p. 381.

[38] G. W., vol. 8,  p. 382.

[39] G. W., vol. 5, pp. 295-296. Esse texto é datado de 1905 pelas G. W. e pela Standard, vol. 7, p. 582. Erro corrigido pela Standard, vol. 1, p. 63.

[40] Neologismo necessário [Roustang utiliza aqui o termo devinage (N. de T.)] porque não há substantivo em francês para designar o ato de adivinhar; a mancia ou a adivinhação remetem exclusivamente às religiões antigas.

[41] G. W., 7, p. 291.

[42] “Construções em análise, G. W., vol. 15, p. 45.

[43] “Construções em análise, G. W., vol. 15, pp. 49-50.

[44] G. W., 1, p. 572.

[45] G. W., 8, p. 377.

[46] DEUTSCH, Hélène (1926) “Okkulte Vorgägne während der Psychoanalyse”, Imago, n. 12; pp. 420-421.

[47] G. W., vol. 15, p. 59.

[48] G. W., vol. 15, p. 60.

[49] “Para uma dinâmica da transferência”, G. W., vol. 8, pp. 371-372.

[50] G. W., vol. 8, p. 366.

[51] G. W., vol. 12, p. 248.

[52] G. W., vol. 12, p. 251.

[53] G. W., vol. 12, pp. 257, 259.

[54] Ibid., p. 257.

[55] G. W., 15, p. 59-60.

[56] G. W., 5, p. 289.

[57] Cf. Interprétation, n. 21, primavera 1978, “Son psychanalyste”. Especialmente o artigo de J. Bigras.

[58] Filiations, Ed. De Minuit, 1976, p. 108.

[59] Me lembro desse psicanalista que, durante seu “passe” – ele foi evidentemente nomeado “Analista de escola” -, se maravilhava em descobrir, pouco a pouco, quanto sua história lhe parecia mais e mais parecida com a de Lacan.

[60] No original, “l’arroseur arrosé” [o regador regado]: uma expressão popularizada a partir do cinema, à época dos irmãos Lumière, intitulando um filme mudo e preto e branco lançado no ano de 1895. No roteiro, a mangueira se volta contra o personagem que está regando o jardim.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | ROUSTANG, François (1978) Sugestão a longo prazo [Trad. P. Beer]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -4, p. 1 , 2017. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2017/11/20/n4-01/>.