As diferentes formas da transferência

Magritte, Rene

[ Die verschiedenen Formen der Übertragung ]

por Wilhelm Stekel

Tradução e comentário: Caio Padovan & Norma Müller

Originalmente publicado como “Die verschiedenen Formen der Übertragung” em Zentralblatt für Psychoanalyse, 2(1), pp. 27-30.

As diferentes formas da transferência

Conhecer as diferentes formas da transferência é para o psicanalista a condição básica para um trabalho bem sucedido. Sem um conhecimento preciso da transferência, a análise fica presa em um beco sem saída e não avança. Sendo assim, é da maior importância para o iniciante conhecer a transferência em suas diferentes variações para poder lidar com ela de modo eficaz. Estou ciente de que aquilo que vou dizer já é conhecido e não muito novo para a maioria dos nossos colegas. Mas é dever daqueles médicos que lidam há mais tempo com a psicanálise, apresentar de forma aberta as suas experiências sobre pontos específicos da sua técnica e colocá-las em discussão.

A “transferência” é uma das mais importantes descobertas de Freud. Ela aponta para o curioso fato, ainda pouco estudado em termos psicológicos, de que o paciente psicanaliticamente tratado projeta todos os seus afetos sobre o médico. Principalmente afetos amorosos, de modo que alguns psicoterapeutas chegam erroneamente a acreditar que a transferência é idêntica ao processo em que o paciente se apaixona pelo médico. No entanto, notamos no curso de uma psicanálise que o paciente também odeia o médico, que ele o inveja, que o considera um rival, que o despreza e insulta, assim como também o superestima e excessivamente enaltece.

Assim, a pergunta se a transferência é provocada pela psicanálise deve ser respondida negativamente. Um comentário pertinente de Freud [a este respeito] é: a psicanálise não cria a transferência, ela apenas a revela. Devemos assumir que fenômenos semelhantes de transferência afetiva e o vínculo com outras pessoas fazem parte dos fenômenos cotidianos, o que então nos torna a vida compreensívelUma ideia que tentei comprovar em minha obra “A língua dos sonhos”.

Todos nós temos uma porção de afetos em suspenso, sempre à procura de um objeto ao qual eles possam se ligar. Nos neuróticos, muitos desses afetos já estão ligados, o que pode dar a impressão de uma aparente incapacidade neles para certo tipo de afetividade. Dizemos que eles não são capazes de amar ou de odiar, etc. No processo de análise, esses antigos nós podem ser então desatados e um punhado de afetos torna-se enfim disponível para o paciente. A quem ele vai dirigi-los durante o tratamento? Ele precisa projetá-los sobre algum objeto que se encontre no primeiro plano de seu campo de consciência. É evidente [portanto] que durante o tratamento este objeto será o médico. A preocupação com a própria saúde é sempre o mais importante interesse das pessoas. No médico, o paciente ama e odeia a si mesmo, isso porque ele sempre se identifica com o médico ou dele se diferencia.

Feitas estas considerações iniciais, pretendemos agora estudar como a transferência se expressa na prática da psicanálise. Tomemos como exemplo o simples caso de uma moça sofrendo de histeria de angústia que, durante o tratamento, expressou sérias dúvidas sobre o sucesso da cura e que “por amor a seu marido e por não querer deixar de tentar o último recurso” (pois ela não queria então sentir-se culpada) submete-se ao tratamento. Ela então chega com claras resistências à cura. Aparece com quinze minutos de atraso, o que é sempre um sinal preocupante para o futuro [do tratamento], e caçoa das diferentes perguntas colocadas pelo médico. Pedimos a ela então para que [simplesmente] comunique o que lhe ocorre, mas não lhe ocorre nada. Finalmente, ela consente em dar uma palhinha da sua história clínica e isso seria tudo o que ela teria a dizer. Passam-se assim alguns dias e uma dúvida paira sobre a possibilidade de uma psicanálise. Eis que certo dia ela chega cerca de quinze minutos mais cedo, explicando que já se encontrava visivelmente aliviada após aqueles poucos encontros. [Então], de uma só vez, ocorre-lhe uma porção de coisas, ela tem agora diversas coisas pra contar, e o tempo da consulta se torna curto. Assim segue por alguns dias e com o tempo essa moça vai ficando desmotivada ou distante, ou com uma pequena motivação, o que tende a acontecer quando não agimos na hora certa chamando a atenção para a transferência. O que aconteceu? A paciente se apaixonou pelo médico e, no esforço inconsciente de não colocar sua dignidade em risco — um princípio orientador na maioria dos neuróticos — ela parte em retirada. O médico tinha que ter chamado a sua atenção em um momento preciso para o deslocamento de afeto que havia sido gerado. Ele teria que tê-lo exposto — já quando a paciente se mostrou pela primeira vez ‘diferente’ e que ela o fazia por amor ao médico, que ela estava a ponto de se apaixonar por ele, [enfim], que este amor constitui um fenômeno legítimo na psicanálise, que na verdade seria um pseudoamor e que o médico teria assumido o papel de um ente querido por meio da identificação. No referido dia, ela teria, por esta ou aquela razão, realizado a identificação com seu pai ou com outra pessoa. Na verdade, nós todos amamos apenas uma vez e todo amor subsequente seria sempre um amor substitutivo. Também o médico estaria substituindo seus objetos amados da juventude com a psicanálise, o que tornaria possível a ele o sucesso. Porque, em verdade, far-se-ia tudo apenas por amor ou por ódio (teimosia!).

Por meio deste esclarecimento, a paciente se tranquiliza. Ela sente que “tudo é apenas um jogo” e que não precisa temer pela sua dignidade, dado que o médico, constantemente (de modo mais ou menos enérgico!), contesta seu enamoramento deixando latente a quantidade necessária de transferência que ele precisa para alcançar um bom resultado. Uma vez que a paciente se sinta segura de si mesma, isso então permitirá facilmente o desvelamento de sua imagem anímica interior. Ela só precisa saber de duas coisas: que o médico não a despreza e que ele não a ama.

Há outro caso ainda muito mais comum. Uma senhora chega alegre ao tratamento. Ela tem tanto a dizer que o tempo não é suficiente. O mesmo se repete por alguns dias. Eis que um dia ela fica em silêncio. Ela não tem mais nada a dizer. Ela já contou “tudo”, acabou. O psicanalista experiente logo se dá conta que a transferência está impedindo o andamento da cura. Ele tem que solucionar na transferência. Na maior parte das vezes um sonho trará a ele o material necessário. Frequentemente os pacientes omitem esses sonhos, pois eles se sentem envergonhados quando os sonhos incluem relações eróticas explícitas entre médico e paciente. As associações livres também revelam a transferência e denunciam assim a origem da resistência.

Com homens não acontece diferente. O componente homossexual que nunca desaparece totalmente permite as mesmas projeções e identificações eróticas, tal como ocorre com as mulheres.

Sem conhecimento da transferência, de sua solução e de sua recondução ao amor objetal primário, a continuidade do tratamento se torna impossível. Ofereci alguns breves apontamentos sobre os tipos mais comuns de transferência, pois quero ainda me dedicar hoje às formas mais raras e menos conhecidas pelos colegas.

A forma mais importante de transferência, fora aquela dirigida ao médico, já discutida por nós, é a transferência à família do médico. Esta assume na maior parte das vezes uma forma negativa. A esposa do médico é objeto de grande desprezo e menosprezo em sonhos e fantasias. Ela nunca entende o médico, ela é mesquinha, feia e barraqueira. Ele deveria ter uma mulher bem diferente. Os sonhos mostram a mulher em situações embaraçosas e comprometedoras. Toda a família torna-se objeto de desdém. Isto é também uma vingança dos pacientes que se sentem constrangidos pela intromissão [do médico] nos segredos de sua casa, e que segue o princípio da retaliação (Olho por olho, dente por dente)[1]. A filha e o filho serão insultados e colocados no centro de fantasias vexaminosas. O contrário, porém, também acontece. Toda a família torna-se objeto de grande admiração. Conhecemos da vida prática essa forma de transferência. Frequentemente, casa-se com uma mulher por amor a sua mãe, seu pai ou a sua família.

A próxima variação dessa transferência é a transferência a outros membros da casa. A arrumadeira, a cozinheira, a babá ou o assistente do médico tornam-se objeto de transferência. Esta forma mostra claramente uma tendência de vingança pelo amor não correspondido, sobre a qual ainda vamos conversar. Assim, esses odiosos e modestos espíritos serviçais se tornam então, de repente, objeto de uma fervorosa admiração entusiástica. Certa vez me aconteceu de um paciente fugir com uma amante de meia idade [Dulcinea][2], sem que eu sequer tivesse pensado na possibilidade dessa inclinação.

Não são raras também as transferências dirigidas a outros membros da casa como, por exemplo, ao meu cachorro, permitindo assim a vivência de ternos sentimentos que na verdade são endereçados ao médico.

A mais curiosa forma da transferência é a transferência para a própria residência. Quando tive que me mudar uma vez, ficou claro para mim o quão descontentes ficaram todos os pacientes por conta disso. Uma senhora não quis mais vir às sessões porque agora já não seria mais tão confortável como antes, em minha “boa e velha sala vermelha”. A tudo que rodeia o médico apegam-se os afetos dos neuróticos, que em suas demandas de amor sem limites, preocupam-se em eleger os objetos mais improváveis (cachorro, apartamento, quadros, plantas, etc.).

Durante o tratamento, essa necessidade imperativa de amor dos pacientes é ainda substancialmente aumentada. Os antigos afetos emergem à superfície da consciência visando avidamente um objeto. Os casados desabrocham para uma nova lua de mel e as mulheres vão ao médico para agradecê-lo, [pois] seus maridos já há muitos anos não eram tão carinhosos. Mas a coisa tem também o seu lado desagradável. Também na casa dos pacientes a transferência se encontra dirigida a outros membros quando esse processo é facilitado por um modelo infantil. Por vezes descobri como fonte das resistências de pacientes um amor verdadeiramente ardente por uma arrumadeira. Em um dos casos, pude assim impedir a tempo que uma grande besteira acontecesse. Especialmente em neuróticos obsessivos, essa forma de transferência é bastante comum. A familiaridade com esse tipo de transferência sobre certos membros da casa é para o psicanalista da máxima importância. Certas estagnações na cura sem qualquer explicação, certas interrupções repentinas do tratamento, são causadas por essas transferências no interior do próprio círculo [do sujeito em tratamento].

O paciente percebe seu interesse não correspondido pelo médico, assim como sua dependência em relação a ele, como pesadas algemas, e se esforça por livrar-se delas. Neste empenho, ele chega a fazer as coisas mais curiosas. Além do amor não correspondido, ele se apaixona por outro objeto que se mostra casualmente mais simpático. Então, de uma hora pra outra, o sujeito se apaixona por uma moça qualquer que até então não lhe chamava muito a atenção, e um início de psicanálise é, sem que o paciente se dê conta, a causa de um matrimônio. Nos últimos anos, dois histéricos de angústia se apaixonaram durante o tratamento, juntaram-se em um casamento às pressas e, ao sentirem que tinham conquistado mais liberdade com os resultados até então atingidos [pelo tratamento] do que eles necessariamente precisavam para viver, interromperam-no prematuramente.

Eis aqui apenas alguns pequenos exemplos. Estou convencido que existem muitas outras formas de transferência que nós ainda não conhecemos e que, em função disso, não podemos agir sobre elas no momento exato. Contribuímos sobre esse tema reunindo experiências e aplicando-as à técnica da psicanálise. São incontáveis os rochedos que devemos contornar durante uma cura e a maioria dos insucessos não provam nada contra o método, denunciando no máximo a inexperiência dos jovens e o fato de que a técnica da psicanálise é uma ciência ainda em construção[3].

Os aspectos descritivos da transferência e os fundamentos de sua dinâmica: um comentário à tradução de As diferentes formas da transferência de Wilhelm Stekel

Caio Padovan & Norma Müller

Em janeiro de 1912, Freud publica seu famoso artigo técnico Sobre a dinâmica da transferência[4]. Nas primeiras linhas deste trabalho, o autor faz referência a outro artigo, publicado poucos meses antes por um outro psicanalista vienense, onde o fenômeno da transferência já havia sido abordado desde “um ponto de vista descritivo”. Trata-se, como bem sabemos, de As diferentes formas de transferência, publicado em outubro de 1911 por Wilhelm Stekel.

Nestas breves considerações que se seguem, nosso objetivo será o de dar continuidade a nosso trabalho de tradução e comentário de textos clássicos de psicanálise, tomando agora como objeto a publicação de Stekel sobre o conceito de transferência. Em nossa última contribuição[5], tematizamos a noção de narcisismo a partir do artigo de Otto Rank, também publicado em 1911. Naquela ocasião, havíamos chamado a atenção para uma dimensão não puramente teórica do fenômeno clínico em questão, dimensão à qual o termo narcisismo vem fazer referência, e que não coincide com aquela explorada por Freud três anos mais tarde em seu artigo metapsicológico de Introdução ao narcisismo. Desta vez, pretendemos fazer o mesmo em relação à noção de transferência, explorando, para tal, alguns de seus aspectos descritivos a partir das observações feitas por Stekel em seu artigo. Tal como acontecera no caso de Rank, estes aspectos, ditos descritivos, serão mais tarde retomados por Freud desde um ponto de vista teórico.

Porém, antes de passar para a análise propriamente dita do texto de Stekel, caberia aqui tecer a título preliminar algumas considerações mais gerais sobre a interessante trajetória deste psicanalista, assim como sobre o contexto mais amplo no interior do qual suas contribuições tiveram lugar.

Natural de Boiane, uma pequena cidade situada a leste do então Império Austro-húngaro, hoje pertencente à Ucrânia, Wilhelm Stekel (1868-1940) realiza seus estudos de medicina na Universidade de Viena entre 1887 e 1893. Seus professores foram, em grande parte, os mesmos de Freud, que havia terminado sua formação médica nesta mesma instituição no início dos anos 1880. Sabemos que Freud começa a lecionar enquanto professor auxiliar na Faculdade de medicina de Viena no semestre de inverno de 1886, mas não contamos com qualquer evidência de que Stekel tenha seguido os seus cursos neste período[6]. Ao que tudo indica, um primeiro contato entre os dois médicos teria acontecido apenas em 1891, no Instituto Kassowitz, onde Freud liderava na época o departamento de neurologia e onde Stekel, enquanto estudante, realizava uma parte de sua formação. Em 1896, em sua conferência sobre a Etiologia da histeria[7], Freud cita um artigo publicado por Stekel em 1895 sobre o Coito na idade infantil[8]. Considerando o caráter autobiográfico deste último artigo[9], é provável que Stekel tenha consultado Freud nesta mesma época sobre questões de natureza sexual e que uma breve análise com duração de poucas semanas tenha tido início naquele momento[10]. Assim, tendo isso acontecido antes de 1896 – algo que não podemos supor senão em termos hipotéticos – é possível que Stekel tenha sido um dos seis pacientes homens mencionados por Freud em seu artigo sobre a etiologia da histeria[11]. Em 1902, ao lado de Freud, Alfred Adler (1870-1937), Rudolf Reitler (1865-1917) e Max Kahane (1866-1923), Stekel será um dos cinco membros fundadores da Sociedade psicológica das quartas-feiras – futura Sociedade psicanalítica de Viena – tornando-se editor em 1910 do importante periódico Zentralblatt für Psychoanalyse (Folha central de psicanálise).

Muito pouco fora publicado pela literatura secundária em relação à vida e à obra de Wilhelm Stekel. Ambas foram tratadas de forma indireta e por vezes pejorativa em alguns textos considerados clássicos da historiografia psicanalítica. Dentre outros trabalhos, podemos citar aqui como exemplo: as biografias de Freud escritas por Fritz Wittels[12] em 1923 e por Ernest Jones[13] entre 1953 e 1957; a monumental História da descoberta do inconsciente[14] de Henri F. Ellenberger; e, por fim, um dos capítulos de Freud e seu legado[15], de Paul Roazen. Entre aqueles que as abordaram de maneira direta, podemos destacar primeiramente sua Autobiografia[16] póstuma, editada por seu antigo assistente Emil Gutheil, e publicada em 1950; o volume organizado em 2007 por Jaap Bos e Leendert Groenendijk em colaboração com Johan Sturm e Paul Roazen, intitulado A automarginalização de Wilhelm Stekel[17]; e, enfim, o trabalho de Francis Clark-Lowes, publicado em 2010: O Apóstolo de Freud. Wilhelm Stekel e os primeiros anos da história da psicanálise[18], sem dúvida o texto mais criterioso já escrito sobre a trajetória pessoal e a produção científica deste importante personagem da história da psicanálise.

Outra fonte importante de informações sobre Stekel, particularmente no que diz respeito a sua situação no interior do movimento psicanalítico, se encontra nas correspondências trocadas entre Freud e seus colegas, sobretudo aquelas com Carl G. Jung (1875-1961)[19]. A partir destes documentos, podemos recolher passagens relevadoras sobre alguns traços de sua personalidade tal como ela era vista por alguns de seus contemporâneos. Após a publicação em 1908 de sua obra mais conhecida, Estados de angústia nervosa e seu tratamento[20], prefaciada por Freud e reeditada diversas vezes e em diferentes línguas[21], Jung se queixaria de sua “má escrita” e da “variação intuitiva” das análises por ele realizadas[22]. De sua parte, Freud reconhece a riqueza descritiva dos casos apresentados por Stekel, criticando, no entanto, as insuficiências teóricas do texto[23]. Mais tarde, ele revelará ser Stekel “um sujeito desleixado e destituído de senso crítico que solapa toda a disciplina”, acrescentando, contudo – o que nos chama a atenção – que “o azar é que nenhum de nós tem um faro tão bom quanto ele para os segredos do inconsciente[24]. Discutindo com Sándor Ferenczi (1873-1933) sobre a publicação de textos sobre a técnica psicanalítica, Freud diz ainda não querer ver “nas mãos de Stekel” trabalhos mais teóricos deste tipo[25]. Muitos anos mais tarde, em correspondência trocada no início dos anos 1920 com o pastor suíço Oskar Pfister (1873-1956), notamos que este último fará referência a interpretações extravagantes através do adjetivo “stekelianas”[26], o que acaba revelando a má fama de seus métodos no interior do movimento psicanalítico.

Neste sentido, se Freud, Jung e mesmo Ferenczi, conhecido pelo seu pendor especulativo, poderiam ser tomados como bons teóricos, Stekel talvez devesse ser considerado mais como um bom clínico, quem sabe mais sensível que seus colegas àquilo que escapava à teoria. É o que uma passagem datada de poucos meses antes da publicação de seu artigo sobre a transferência, extraída da correspondência entre Freud e Jung, parece nos sugerir. Em 27 de abril de 1911, alguns meses antes da publicação de As diferentes formas de transferência, Freud diria a Jung: “De todo incorrigível, Stekel é uma ofensa ao bom gosto, um legítimo produto do inconsciente, um ‘extravagante filho do caos’, mas em geral acerta ao falar do ics. [inconsciente], onde se encontra muito mais à vontade que qualquer um de nós[27].

Em relação a sua produção, além do já citado trabalho sobre os estados de angústia nervosa, onde Stekel desenvolve algumas das teses de Freud lançadas em 1895 sobre as neuroses de angústia – e onde o autor também se ocupa da recém-criada categoria de “histeria de angústia”[28] – podemos ainda chamar a atenção para outra de suas obras célebres, intitulada A linguagem dos sonhos[29]. Neste trabalho, publicado em sua primeira edição em 1911[30], Stekel propõe uma espécie de dicionário simbólico de sonhos, um projeto que vai ser assimilado até certo ponto por Freud na terceira edição de sua Interpretação dos sonhos, publicada neste mesmo ano de 1911[31].

A lista de trabalhos publicados por Stekel neste período – a maior parte ligada a temas mais aplicados, consistindo também em diversos textos de divulgação da psicanálise ao grande público – é bastante grande e não seria o caso aqui de retomar em detalhe cada uma destas publicações. Para uma revisão exaustiva, ver a bibliografia estabelecida por Francis Clark-Lowes[32].

Vale a pena lembrar, contudo, que uma de suas maiores contribuições em termos técnicos fora o desenvolvimento daquilo que passou a ser chamada na época de “terapia ativa”, técnica de manejo clínico que não corresponde exatamente àquilo que mais tarde Ferenczi irá conceber em termos de “técnica ativa”, mas que pode ser considerada como um de seus precedentes. Talvez a primeira referência a este modo particular de conduzir uma análise se encontre em seu livro de 1908 sobre os estados ansiosos de angústia. Como podemos ler em seu trigésimo-segundo capítulo, intitulado A técnica da psicoterapia, Stekel diz propor a alguns de seus pacientes, especialmente aqueles que por influência de resistências se tornaram incapazes de associar livremente, que construam narrativas deliberadamente conscientes e cronológicas de sua história[33]. Na sequência, buscando ir além do discurso manifesto pelo sujeito em análise, passa a explorar de maneira ativa as lacunas e as incongruências do discurso produzido pelo paciente, atentando especialmente para algumas formas linguísticas constantes que parecem denunciar pontos de convergência inconscientes. Um ano mais tarde, em 1909, em Contribuições à interpretação dos sonhos[34], o psicanalista sugere igualmente que o trabalho analítico pode muitas vezes se dar fora da livre associação, por meio da análise ativa de discussões aparentemente descompromissadas, justamente nestes momentos em que o paciente se mostra inibido por resistências. Finalmente, em 1911, em seu trabalho sobre a Linguagem dos sonhos, Stekel irá propor uma forma de intervenção ativa a partir da interpretação simbólica de sonhos, técnica que deveria ser colocada em prática quando a livre associação se mostra falha, notadamente a fim de dinamizar a escuta analítica[35].

*

Após esses comentários preliminares, chegamos enfim ao artigo de Stekel aqui traduzido.

De início, cabe chamar a atenção para o fato de este artigo ter sido publicado na Folha central de psicanálise, revista médica mensal de psicologia, editada em Viena, entre 1911 e 1914, por Freud e Stekel[36]. Já em 1911, esta revista será considerada como um dos dois órgãos oficiais de difusão da Associação psicanalítica internacional, instituição recém-fundada em 1910. O outro destes órgãos, colocado em circulação em 1909, é como bem sabemos o Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschungen (Anuário de pesquisas psicanalíticas e psicopatológicas), editado semestralmente por Eugen Bleuler (1857-1939), Freud e Jung.

Cada uma destas revistas terá, no entanto, um objetivo distinto, ainda que complementar, no interior de um movimento psicanalítico então crescente. Como afirmam os editores da Folha central em seu prospecto, publicado em seu primeiro número em tom de carta “Aos nossos leitores”:

O ‘Anuário de Psicanálise’ (…) oferece um maior espaço a grandes contribuições, normalmente destinadas ao leitor iniciado e conhecedor da disciplina. Por outro lado, ‘A folha central’ tem um propósito essencialmente didático. Assim, os adeptos e os opositores da psicanálise poderão não apenas se familiarizar rapidamente com a literatura até então publicada, mas também se aprofundar em certos problemas psicanalíticos de importância prática através de artigos originais e acessíveis a um círculo mais amplo de leitores. Por esta razão, ‘Anuário’ e ‘Folha central’ devem se complementar.

Assim, em continuidade aos objetivos da revista, Stekel chama a atenção já no primeiro parágrafo de seu texto para a vocação didática e introdutória de seu artigo:

Estou ciente de que aquilo que vou dizer já é conhecido e não muito novo para a maioria dos nossos colegas. Mas é dever daqueles médicos que lidam há mais tempo com a psicanálise, apresentar de forma aberta as suas experiências sobre pontos específicos da sua técnica e colocá-las em discussão.

Deste ponto em diante, podemos dizer que seu artigo será dividido em três partes bem definidas.

1) Na primeira destas partes, o autor justifica a pertinência de seu trabalho atentando para o fato de que o conhecimento das “diferentes formas de transferência” é de fundamental importância para o sucesso do tratamento analítico. Seu argumento começa com uma constatação, a saber, de que “o paciente psicanaliticamente tratado projeta [projitiert] todos os seus afetos sobre o médico, principalmente afetos amorosos”, fenômeno que será considerado por Stekel como uma descoberta freudiana[37]. Na sequência, este mesmo fenômeno será explicado teoricamente pela afirmação de que, durante o tratamento, todos os afetos manifestados pelos neuróticos – afetos de amor e ódio que se encontravam até então ligados – se tornam livres por influência do trabalho de análise, passando assim a se ligar de maneira desordenada aos mais diferentes objetos, dentre eles o próprio analista. Como veremos mais adiante, as ditas “diferentes formas de transferência” vão corresponder a estas “diferentes formas de ligação” estabelecidas pelo paciente durante o tratamento. Enfim, conclui o autor, a transferência, definida como um produto inevitável da relação analítica, pode também operar como uma resistência ao avanço do tratamento, razão pela qual o médico deve ser capaz de identificar suas diferentes formas de expressão a fim de bem conduzir a análise.

É sem dúvida a esta parte do artigo de Stekel que Freud irá se reportar mais tarde em A Dinâmica da transferência, julgando-a como teoricamente insuficiente, sobretudo no que diz respeito à relação entre transferência e resistência, assunto que será explorado em detalhe por Freud neste trabalho. Em todo caso, para além destas insuficiências, podemos notar também aqui algumas imprecisões. Ao discutir o destino dos “afetos livres”, por exemplo, Stekel acaba utilizando a noção de “projeção” sem o devido rigor, visto que até então Freud a tinha empregado para designar um mecanismo psicológico próprio à paranoia[38] e que, já em 1909, Ferenczi o havia conceitualizado em oposição ao mecanismo análogo e tipicamente neurótico de “introjeção” [Introjektion][39]. O mesmo vale para a noção de “identificação” [Identifizierung] que, curiosamente, ao longo do trabalho, será utilizada pelo autor em um sentido bastante próximo àquele atribuído por Ferenczi à introjeção. Cabe lembrar, entretanto, que o conceito de identificação, cujas fronteiras eram ainda porosas, não era utilizado na época de maneira absolutamente unívoca, como podemos claramente notar em alguns textos publicados pelo próprio Freud[40]. Mais tarde, sabemos que a noção em questão ganhará em inteligibilidade a partir das distinções estabelecidas entre “identificação histérica” e “identificação narcísica” e entre “identificação primária” e “identificação secundária”[41].

2) Na segunda parte de seu artigo, que contém o núcleo de suas contribuições, Stekel nos traz alguns exemplos típicos de transferência observados durante o tratamento psicanalítico. O primeiro deles será dado a partir de um caso de histeria de angústia, em que a paciente vai se deparar com inibições durante o processo de associação em função do aparecimento de sentimentos tenros dirigidos ao psicanalista. Segundo o Stekel, o médico teria neste momento “assumido o papel de um ente querido”, isso por meio da “identificação com seu pai ou com outra pessoa”, fenômeno que Freud vai estudar com mais cuidado em 1912 a partir da ideia de “atualização de clichês” na transferência[42]. Do ponto de vista técnico, vale a pena chamar a atenção aqui para o manejo destas ligações proposta por Stekel, baseada no controle exercido sobre os afetos dirigidos pelo paciente ao analista, que teria como objetivo permitir a emergência de elementos inconscientes em análise. A estes elementos inconscientes que emergem a partir de um manejo eficiente dos afetos na transferência, o autor dará o nome de “imagens anímicas” [Seelenbilde][43]. O segundo exemplo trazido por Stekel é análogo ao primeiro. Através dele, o autor aproveita para fazer mais uma consideração técnica, argumentando que o psicanalista pode ter acesso indireto à dinâmica destes afetos inconscientes por meio da análise de sonhos eróticos produzidos pelos sujeitos em tratamento.

Em uma segunda série de exemplos, Stekel chama a atenção para um importante fenômeno ligado à transferência, em geral pouco explorado, da “projeção” (para usar as suas palavras) de afetos dirigidos não propriamente ao médico, mas sim à família do médico. Considerando que nesta época os atendimentos eram muitas vezes realizados no próprio local de residência do médico, o contato do paciente com a família do analista era frequente e seus possíveis efeitos transferenciais, portanto, mais evidentes. Nestes casos, igualmente capazes de influenciar o curso do tratamento, o sujeito neurótico cria, segundo Stekel, fantasias em relação à esposa e aos filhos do médico, cujo conteúdo pode ser tanto positivo como negativo. Outros membros da casa podem ser também tomados como objeto das mesmas fantasias, como uma arrumadeira ou uma babá e mesmo aos possíveis animais de estimação que possui o analista. De acordo com Stekel, relações desta natureza se estabelecem justamente em função do desequilíbrio afetivo causado pelo processo de análise, quando toda uma soma de afeto tornada livre precisa ser a todo custo ligada, agindo neste caso como uma espécie de amor compensatório que não pôde se satisfazer a contento na figura do analista.

Por fim, uma última forma de transferência observada pelo autor se daria em relação a objetos inanimados, como quadros, plantas e até ao consultório onde as sessões costumam ocorrer. O exemplo dado aqui por Stekel é de uma paciente que chegou a abandonar o tratamento em função da mudança de endereço do médico.

Dados esses exemplos, podemos retirar daí pelo menos três grandes “formas” de transferência, formas que poderiam ser explicadas a partir de uma “dinâmica” particular, própria a cada uma delas. A primeira destas formas é a tradicional transferência dirigida ao médico, por meio da qual, nos termos de Stekel, o paciente “projeta” sobre o analista expectativas normalmente endereçadas a um ente querido. A segunda forma de transferência é aquela dirigida à família do médico, quer dizer, a pessoas que fazem parte do círculo mais íntimo do analista e que em geral possuem a sua estima. Por fim, a terceira e última forma de transferência discutida por Stekel é a transferência dirigida aos objetos inanimados que orbitam em torno do médico, e com as quais ele possui uma ligação por vezes afetiva, como as peças de decoração de seu consultório e mesmo o seu local de residência.

Em todos os três casos, podemos notar que os afetos são “projetados” primeiramente sobre o analista e que nos dois últimos eles acabam em um segundo momento se deslocando a objetos animados ou inanimados que se encontram, de uma forma ou de outra, ligados ao analista. Cabe ainda lembrar neste sentido que, em cada um destes casos, a projeção de afetos pode influenciar a evolução e mesmo alterar o curso da análise, razão pela qual o médico deve permanecer atento as diferentes formas de expressão que esse deslocamento pode vir a assumir.

É verdade que, em termos teóricos, cada uma destas formas poderia ser explorada em detalhe, mas Stekel acaba não desenvolvendo seu argumento a este ponto no artigo. Se quiséssemos, no entanto, com base no conhecimento psicanalítico disponível na época, afinar o tratamento conceitual dado pelo autor aos fenômenos por ele descritos, seria talvez o caso de tomar a primeira forma de transferência como caso particular de “introjeção” – tal como a concebe Ferenczi em 1909 – e as duas últimas como casos particulares de “identificação” – tal como Freud a definira em 1900. Como bem sabemos, é na primeira edição de A interpretação dos sonhos que Freud conceitualiza pela primeira vez a noção de identificação, definindo-a como uma espécie de imitação que toma como modelo um suposto objeto de estima daquele que amamos[44]. Trata-se, portanto, de um mecanismo que leva o sujeito a reorientar seus afetos a objetos estimados por aqueles a quem seus afetos haviam sido direcionados em um primeiro momento. Ora, quando os pacientes de Stekel passam a criar fantasias em relação a sua esposa e filhos ou mesmo a objetos de decoração de seu consultório, eles não estariam fazendo outra coisa senão investir afetivamente objetos de estima do analista, operando, assim, a partir de um mecanismo próximo ao de identificação. Considerando, no entanto, que esta operação não inclui um processo propriamente dito de imitação, mas apenas em um processo de reorientação afetiva baseado naquilo que o sujeito supõe ser o desejo de um objeto de amor inicialmente investido – neste caso, o analista – seria talvez o caso de apontar aqui para um interessante impasse teórico. As formas de transferência do segundo e terceiro tipo não se encaixam no modelo clássico de transferência do primeiro tipo; ao mesmo tempo, elas também não encontram uma explicação satisfatória através de outros conceitos já formalizados, como o de identificação.

3) Retomando a linha argumentativa de Stekel, chegamos finalmente à terceira parte de seu artigo, onde o autor conclui chamando a atenção para o valor destas observações para o desenvolvimento da teoria e principalmente da técnica psicanalítica, consideradas por ele como partes de uma “ciência ainda em construção” [werdende Wissenschaft].

Podemos dizer que estas “observações”, de caráter mais descritivo, adquirem valor na medida em que se mostram capazes de, por um lado, dar sustentação a princípios teóricos já estabelecidos e, por outro, de problematizar princípios a partir de novos dados oriundos da experiência clínica. Das diferentes formas de transferência apontadas por Stekel, uma delas poderia ser explicada através de noções psicanalíticas bem conhecidas, como a de introjeção, enquanto que as demais parecem exigir um trabalho de elaboração complementar, posto que, na época, a teoria psicanalítica não se mostrava aparentemente apta a explicá-las. Assim, em oposição aos fundamentos dinâmicos da transferência, que serão posteriormente discutidos por Freud em seu artigo técnico de 1912, nos encontramos aqui, com Stekel, diante de alguns de seus aspectos descritivos, extraídos diretamente da experiência por um psicanalista pouco hábil teoricamente, mas que, como revelaria Freud a Jung em 1911, “em geral acerta ao falar do ics., onde se encontra muito mais à vontade que qualquer um de nós”.

REFERÊNCIAS (comentário)

BOS, Jaap; GROENENDIJK, Leendert. (2007). The self-marginalization of Wilhelm Stekel, Freudian circles inside and out. New York: Springer, 222 p.

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* Wilhelm Stekel é… Wilhelm Stekel.

WilhelmStekel


** Caio Padovan é psicanalista, mestre em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), doutorando em Psicanálise e Psicopatologia na Universidade Paris 7, Paris Diderot. Presidente da Associação de pesquisadores e estudantes brasileiros na France (APEB-Fr).

*** Norma Müller é tradutora, bacharel em Letras Português-Alemão com ênfase em Estudos da Tradução pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Professora de alemão e interculturalista.



[1] Literalmente, a expressão usada por Stekel é Haust du meinen Juden, so hau ich deinen, que podemos traduzir ao pé da letra como: “se você bate nos meus judeus, eu bato nos seus”. Para um comentário sobre a origem deste ditado, ver a nota presente em DUDEN (2011), Zitate und Aussprüche. Manheim, Leipzig, Wien, Zürich: Dudenverlag, 960 p., p. 263.

[2] Talvez uma referência à personagem Dulcinea del Toboso, de Miguel de Cervantes, em Don Quijote de la Mancha.

[3] Stekel usará a mesma expressão no prefácio ao seu A linguagem dos sonhos, a fim de qualificar prática da interpretação de sonhos [Traumdeutung]. Ver: STEKEL, Wilhelm (1911) Die Sprache des Traumes. Eine Darstellung der Symbolik und Deutung des Traumes in ihren Beziehungen zur kranken und gesunden Seele für Ärzte und Psychologen. Wiesbaden: J. F. Bergmann, 539 p., p. vi. Quatro anos mais tarde, Ferenczi fará uso da mesma expressão para qualificar a psicanálise em seu comentário crítico ao livro de Emmanuel Régis e Angelo Hesnard, La Psychanalyse des Névroses et des Psychoses, publicado em FERENCZI, Sándor (1915) “Die psychiatrische Schule von Bordeaux über die Psychoanalyse”, Internationale Zeitschrift für ärztliche Psychoanalyse, 3(6), pp. 352-369, p. 353.

[4] FREUD, Sigmund (1912) « Zur Dynamik der Übertragung »,  Zentralblatt für Psychoanalyse, 2(4), pp. 167-173.

[5] PADOVAN, Caio; MÜLLER, Norma (2016) “Sobre o narcisismo, uma tradução”, Lacuna: uma revista de psicanálise, 2, p. 2. Disponível em: .

[6] O nome de Stekel não consta da na lista de alunos de Freud estabelecida por Josef e Renée Gicklhorn. A este propósito, ver: GICKLHORN, Josef; GICKLHORN, Renée (1960) Sigmund Freuds akademische Laufbahn im Lichte der Dokumente. Wien-Innsbruck: Urban & Schwarzenberg, 196 p.

[7] FREUD, Sigmund (1896) « Zur Ätiologie der Hysterie », Wiener klinische Rundschau, 10(22), pp. 379-381, (23), pp. 395-397, (24), pp. 413-415, (25), pp. 432-433, (26), pp. 450-452.

[8] STEKEL, Wilhelm (1895) « Ueber Coitus im Kinderalter. Eine hygienische Studie », Wiener medizinische Blätter, 16, pp. 247-249.

[9] STEKEL, Wilhelm (1950) The Autobiography of Wilhelm Stekel: the life story of a pioneer psychoanalyst. New York : Liveright, 294 p. p. 30.

[10] Stekel afirma em sua autobiografia ter consultado Freud fim de resolver problemas pessoais de caráter sexual. Segundo o psicanalista, esse tratamento não teria durado “mais do que oito semanas”. Ver: STEKEL, Wilhelm (1950), p. 107.

[11] FREUD, Sigmund (1896), p. 415. Ao todo, Freud cita em seu artigo dezoito casos de histeria, seis homens e doze mulheres, sobre os quais o médico irá apoiar seus argumentos. Esta hipótese se baseia em parte nos dados trazidos por CLARK-LOWES, Francis (2010) Freud’s apostle: Wilhelm Stekel and the early history of psychoanalysis. Sandy: Authors OnLine, 431 p., em seu “apêndice II” (pp. 393-410), onde o autor procura reconstruir este período pouco conhecido da vida de Stekel, entre 1891 a 1901, a partir de um escrupuloso trabalho biográfico.

[12] WITTELS, Fritz (1923) Sigmund Freud, der Mann, die Lehre, die Schule. Leipzig, Wien, Zürich: E.P. Tal & Co., 245 p.

[13] JONES, Ernest (1953-7) Sigmund Freud, life and work, 3 vol. London: Hogarth press, 456 p., 534 p., 536 p.

[14] ELLENBERGER, Henri (1970) The Discovery of the Unconscious. London: Fontana Press, 1994, 932 p.

[15] Ver o quinto capítulo de ROAZEN, Paul (1975) Freud and his followers. New York: Alfred Knopf, 602 p., pp. 187-234.

[16] STEKEL, Wilhelm (1950)

[17] BOS, Jaap; GROENENDIJK, Leendert (2007) The self-marginalization of Wilhelm Stekel, Freudian circles inside and out. New York: Springer, 222 p.

[18] CLARK-LOWES, Francis (2010).

[19] MCGUIRE, William; SAUERLÄNDER, Wolfgang (org.) (1974) Sigmund Freud, C. G. Jung: Briefwechsel. Frankfurt a. Main : S. Fischer, 721 p.

[20] STEKEL, Wilhelm (1908) Nervöse Angstzustände und ihre Behandlung. Berlin-Wien: Urban & Schwarzenberg, 315 p.

[21] A obra em questão receberia quatro edições entre 1908 e 1924 e seria traduzida em inglês, holandês e francês ao longo dos anos 1920. O conteúdo de longo trabalho já havia sido objeto de três reuniões da Sociedade psicológica das quartas-feiras em 20 e 27 de novembro de 1907 e em 8 de janeiro de 1908. Sobre as reuniões, ver CHECCHIA, Marcelo. TORRES, Ronaldo. Hoffmann, Waldo (org.). (2015). Atas da Sociedade Psicanalítica de Viena, volume I, Os primeiros psicanalistas 1906-1908. São Paulo: Scriptorum, 583 p.

[22] Ver carta de Jung a Freud enviada em 8 de novembro de 1909, em MCGUIRE, William; SAUERLÄNDER, Wolfgang (org.) (1974).

[23] Ver carta de Freud a Jung enviada em 14 de janeiro de 1908, em MCGUIRE, William; SAUERLÄNDER, Wolfgang (org.) (1974).

[24] Ver carta de Freud a Jung enviada em 11 de novembro de 1909, em MCGUIRE, William; SAUERLÄNDER, Wolfgang (org.) (1974).

[25] Ver carta de Freud a Ferenczi enviada em 28 de janeiro de 1912, em: BRABANT, Eva; FALZEDER, Ernst; GIAMPIERI-DEUTSCH, Patrizia (org.) (1993) Briefwechsel / Sigmund Freud, Sándor Ferenczi, 6 volumes. Köln: Böhlau, 446 p., 327 p., 252 p., 275 p., 274 p., 315 p.

[26] Ver carta de Pfister a Freud enviada em 14 de março de 1921, em: Meng, H. Freud, E. (1963). Psychoanalysis and Faith. The letters of Sigmund Freud & Oskar Pfister, trad. Eric Mosbacher. New York: Basic Books, 152 p. Curiosamente, não encontramos essa passage nem no original alemão, nem na tradução francesa de L. Jumel. O mesmo pôde ser constatado a partir da consulta à edição completa das correspondências entre Freud e Pfister, publicada recentemente por Noth, I. (org.). (2014). Briefwechsel 1909-1939 / Sigmund Freud, Oskar Pfister. Zurique: Theologischer Verlag, 374 p.

[27] Ver: MCGUIRE, William; SAUERLÄNDER, Wolfgang (org.) (1974). “Er ist unverbesserlich unerziehbar, jedem guten Geschmack ein Greuel, so recht das Kind des Unbewußten, »des Chaos wunderlicher Sohn«, aber er hat mit seinen Behauptungen über das Unbewußte, mit dem er auf viel besserem Fuß steht als wir, doch meistens recht”. A expressão “extravagante filho do caos” é feita em referência a um verso extraído do sexto capítulo da obra Fausto de Johann Wolfgang von Goethe.

[28] A noção de “Histeria de angústia” seria posteriormente retomada por Freud em 1909, no contexto de seu artigo sobre o Caso Hans. A este propósito, ver: FREUD, Sigmund (1909) “Analyse der Phobie eines 5jährigen Knaben”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 1(1), pp. 1-109.

[29] STEKEL, Wilhelm (1911) Die Sprache des Traumes. Eine Darstellung der Symbolik und Deutung des Traumes in ihren Beziehungen zur kranken und gesunden Seele für Ärzte und Psychologen. Wiesbaden: J. F. Bergmann, 539 p.

[30] O trabalho seria duas vezes reeditado e traduzido para o inglês. As segunda e terceira edições datam respectivamente de 1922 e 1927. Duas traduções inglesas foram por nós encontradas, a primeira com o título Sex and dreams: the language of dreams, datada de 1922, e a segunda, publicada em 1943, com o título The interpretation of dreams.

[31] Para um comentário a este respeito, ver o quarto capítulo de MARINELLI, Lydia; MAYER, Andreas (2009) Rêver avec Freud. L’histoire collective de L’interprétation du rêve. Paris: Flammarion, 333 p.

[32] CLARK-LOWES, Francis (2010), pp. 253-364.

[33] STEKEL, Wilhelm (1908), p. 289.

[34] STEKEL, Wilhelm (1909) “Beiträge zur Traumdeutung”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 1(2), pp. 458-512, p. 458-9.

[35] STEKEL, Wilhem (1911), p. 14.

[36] No original alemão: Zentralblatt für Psychoanalyse, Medizinische Monatsschrift für Seelenkunde. Freud será o editor deste periódico até meados de 1912, enquanto que Stekel permanecerá ligado à revista como redator chefe até o fim de 1914.

[37] Atribuída normalmente – e em geral muito rapidamente – à Freud, a descoberta do fenômeno transferencial foi bastante discutida em termos históricos ao longo do século XX. Para uma discussão introdutória a este respeito, reenviamos o leitor ao artigo clássico de CHERTOK, Léon (1968) “La découverte du transfert. Essai d’interprétation épistémologique”, Revue française de psychanalyse, 32(1), pp. 503-530., onde o autor busca demonstrar suas origens a partir da retomada de uma série de experimentos hipnóticos realizados ao longo do século XIX. As primeiras referências importantes de Freud à transferência se encontram no quarto capítulo dos Estudos sobre a histeria (1895) e no Caso Dora (1905).

[38] A primeira referência importante feita por Freud a este respeito se encontra em FREUD, Sigmund (1896) “Weitere Bemerkungen über die Abwehr-Neuropsychosen”, Sammlung kleiner Schriften zur Neurosenlehre aus den Jahren 1893-1906. Leipzig und Wien: Franz Deuticke, 1906, pp. 112-134. A partir dos anos 1910, no entanto, um debate a este respeito ganhará um peso maior em complexidade. A este propósito, podemos citar como exemplo o trabalho de Maeder, Alphonse. (1910). “Psychologische Untersuchungen an Dementia praecox-Kranken”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 2(1), pp. 185-245.

[39] A este propósito, ver: FERENCZI, Sándor (1909) “Introjektion und Übertragung”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 1(2), pp. 422-457. Neste trabalho, Ferenczi argumenta: “enquanto o paranoico expulsa os estímulos desprazerosos para fora [hinausdrängt] do eu, o neurótico se organiza de forma a trazer para o interior do eu a maior porção possível do mundo externo, fazendo dela objeto de fantasias inconscientes. Trata-se de um tipo de processo de diluição, mediante o qual o neurótico procura dissolver a intensidade desses impulsos de desejo [Wunschregungen]. Poderíamos então nomear este processo, em oposição ao de projeção [Projektion], de introjeção [Introjektion]” (p. 429). O leitor brasileiro de Ferenczi talvez se surpreenda ao comparar esta versão do trecho em questão a aquela que encontramos na tradução das obras completas deste autor para a língua portuguesa (I, 2011, p. 95).

[40] Esta confusão aparece de maneira particularmente evidente no texto de Freud sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901), onde a noção de “identificação” e o verbo “identificar” são usados de maneira não conceitual em relação à definição rigorosa de “identificação histérica” apresentada pelo autor em 1900, em A interpretação dos sonhos.

[41] Para uma visão geral sobre o conceito de identificação em Freud, ver FLORENCE, Jean (1878) L’identification dans la théorie freudienne. Bruxelles: Facultés universitaires Saint-Louis, 305 p.

[42] FREUD, Sigmund (1912), p. 168.

[43] O conceito de Seelenbild, bastante inusual em psicanálise, havia, no entanto, sido recentemente utilizado por SILBERER, Herbert (1910) “Phantasie und Mythos”, Jahrbuch für psychoanalytische und psychopathologische Forschung, 2(2), pp. 541-622, p. 621. Neste mesmo trabalho, Silberer aborda a noção de projeção de maneira estendida, aplicando-a à compreensão de fenômenos culturais diversos, revelando assim uma possível origem do uso da mesma noção feita por Stekel.

[44] FREUD, Sigmund (1900) Die Traumdeutung. Viena: Franz Deuticke, 371 p., p. 105. “Man möchte den Vorgang; noch sprachlich in folgender Weise erläutern; Sie setzt sich an die Stelle der Freundin im Traum, weil diese sich bei ihrem Mann an ihre Stelle setzt, weil sie deren Platz in der Werthschätzung ihres Mannes einnehmen möchte”.



COMO CITAR ESTE ARTIGO | STECKEL, W. (2017) As diferentes formas da transferência [Trad. C. Padovan; N. Müller]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -4, p. 6, 2017. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2017/11/20/n4-06/>.