Drogas e psicanálise

por Rodrigo Alencar & Durval Mazzei

Caros leitores,

a Lacuna convidou dois psicanalistas para um debate acerca da questão das drogas e suas relações com a psicanálise.  Em um texto argumentativo, uma réplica e uma tréplica, o debate é desenvolvido com rigor e leveza nessa nossa seção que procura colocar os autores para trabalhar sobre posições e temáticas controversas intitulada “Telecatch”. Esperamos que gostem!


* Rodrigo Alencar é psicólogo e psicanalista, mestre em Psicologia Social pela PUC – SP, doutor em Psicologia Clínica pela USP, pesquisador de Pós-Doc do departamento de Psicologia Social da PUC-SP (Bolsa CAPES), investiga os fundamentos clínicos para o cuidado e tratamento de usuários de drogas. Já trabalhou no CAPS II Sé, foi professor na UFMS, Uninove e é professor convidado no curso de pós-graduação Sociopsicologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo desde 2013.

** Durval Mazzei Nogueira Filho é psicanalista membro do Departamento Formação Em Psicanálise (Instituto Sedes Sapientiae) e da seção São Paulo da Escola Brasileira de Psicanálise, mestre em Psiquiatria. Autor do livro ‘Toxicomanias’, pela Editora Escuta entre outros livros e artigos. Foi coordenador do Núcleo de Toxicomanias da CLIPP, instituto da seção São Paulo da EBP. Este Núcleo reiniciará as atividades em março do ano que vem.


A pulsão nas toxicomanias: esse conceito malparido | Rodrigo Alencar

Para Durval Mazzei Nogueira Filho.

Quando os editores da Revista Lacuna me indagaram qual psicanalista eu convidaria para o “telecatch”, seu nome foi o primeiro que me veio à cabeça, e não por menos, explico.

Comecei a pesquisar sobre tratamento aos usuários de drogas em 2008, mas só no início do mestrado, em 2010, mergulhei no tema me apropriando do referencial psicanalítico. Em meu levantamento bibliográfico, tive dificuldade de encontrar materiais lacanianos abordando a questão das toxicomanias, entretanto, quando encontrei tais materiais percebi que havia uma espécie de gagueira, uma repetição ad infinitum da sentença pronunciada por Lacan, de que o “toxicômano rompe o casamento com o Wiwimacher[1]”. Em alguns materiais a discussão me parecia mais pormenorizada, em outros, uma sequência tenebrosa de cacoetes em lacanês que levavam às mais precipitadas conclusões. Dentre as quais a que eu tomei como alvo, a ideia de que a toxicomania romperia laços com o Outro e aprisionaria o sujeito em um gozo autístico. Tal interpretação só me parecia possível da perspectiva da clínica privada, recebendo pessoas trazidas pelas suas famílias, pessoas que encaravam o psicanalista como mais um representante da ordem negada. Algo distante do contato e trabalho que tive com usuários na rua, onde formam turma, se agenciam o tempo todo, fazem corres e sobrevivem numa rede mais ou menos volátil.

O seu livro apareceu em minha pesquisa como uma brecha, na época estava trabalhando o desenvolvimento feito por Charles Melman em “Alcoolismo, delinquência e toxicomania”[2]. Um texto que apesar das discordâncias, até hoje tenho em boa conta. Mas o seu abria uma brecha, a leitura podia ser feita de forma franca, sem as reflexões labirínticas e um altar hermético tão comum na área, eu me deparava com uma articulação original que não parecia se importar em transmitir credenciais ou sobretaxar tributos de filiação de teórica. O estilo da escrita passou a ser uma referência, fonte de inspiração para não me deixar perder no lacanês que por vezes ia para a tela do computador, e que nos exercícios de releitura eu mesmo tinha dificuldade de compreender o que tentava transmitir.

Passados 7 anos, percebi que fiquei um bom tempo debatendo com uma afirmação tecida nesse livro, “Toxicomanias”[3]. Na página sessenta e cinco, você descreve um esquema topológico, e fala de uma “imprudência da estimulação direta da pulsão”. Por um tempo me perguntava se era a sua forma de falar do “rompimento com o faz-xixi”. Mas não dava para tomar uma coisa por outra, são afirmações que não se opõem, mas partem de lugares diferentes. Sendo assim, busquei sustentar um debate tanto com a afirmação tão repetida de Lacan, como com a sua.

Estudar drogas com a psicanálise sempre me provocou uma releitura desconfiada da teoria. Quando abordamos temas tabu, é comum ficarmos parcialmente desamparados de referenciais simbólicos. Visto que assim como as práticas sexuais, encontramos os usos tidos como normais e corriqueiros e os vistos como patológicos. Mais ainda, as substâncias das quais não teríamos vergonha alguma de referir uso num espaço público e aquelas que fazem sobrecair sobre o enunciador a pecha de doente, marginal ou tresloucado. Por esse motivo, vemos alguns pós freudianos apontando a hipocrisia dos médicos abstêmios, como Ferenczi[4], ou outros que parecem arautos da moralidade, como Abraham. Daí a desconfiança, o que teria de medo e recuo por parte dos psicanalistas ao abordar um tema tão espinhoso? Já não seria a sexualidade infantil e o complexo de Édipo, frentes de batalha bastante encarniçadas para os psicanalistas passarem a assumir posturas que não fossem moralistas sobre as drogas?

Tais questões certamente seguem abertas.

Também temos de conviver com as perguntas de cunho teórico que sempre retornam, dentre as quais algumas você buscou resposta em seu trabalho. Seria a droga um objeto? A toxicomania merece um lugar à parte nas estruturas diagnósticas? O uso de drogas produz saber na sua relação com o inconsciente? Seriam as adicções sinal da tal crise da imago paterna? E, por fim, seriam as drogas gadgets que podem suplantar a insatisfação inerente da repetição pulsional?

Sua afirmação se insere nessa última questão, ainda que você falou em estimulação e não em satisfação. De fato, não é a mesma coisa. No entanto, o que me suscitou o diálogo foi o uso das palavras ‘pulsão’ e ‘direto’ na mesma sentença. Talvez a resposta mais completa que eu tenha alcançado, e que não cabe aqui, está em um capítulo de minha tese de doutorado que ficou nomeado como “o autoerotismo não existe”[5].

Frente a toda crítica que você faz do “discurso biológico”, me pergunto se na pretensa potencialidade que atribuímos às substâncias, não reproduzimos o mesmo discurso, diga-se  ideológico, em algumas formulações teóricas. Talvez, o primeiro contra-argumento não venha da psicanálise, mas da antropologia. Não daquela que você parodia em seu texto, mas das pesquisas de Howard Becker. Na obra publicada como livro de consulta no Brasil, nomeado como “Outsiders”[6], Becker, por meio das entrevistas realizadas, aborda como o uso de drogas carece de um processo de aprendizado. Nenhuma droga simplesmente bate e encanta, se já não há uma fantasia prévia para a adequação disso. A prova é que as cervejas mais populares são menos amargas hoje, do que 30 anos atrás, estratégia eficaz para conquistar novos bebedores. Ou talvez em nossa própria trajetória, ou dentre conhecidos, quando experimentam alguma droga e se decepcionam, esperavam algo mais forte. Por vezes acham os efeitos incômodos. Parece-me que uma das principais constantes lacanianas foi subsumida da abordagem das drogas, o Outro. Arrisco a dizer, me expondo às pedras, que quem viaja com ajuda de alguma substância, também viaja para o Outro. Ora, se o sonho é demanda para o analista. Por que a bad trip não pode ser demanda para os pais, ou amigos, ou também para o psicanalista?

Nessa direção, tendo a afirmar que a pulsão se configura nas relações que permeiam os rituais de uso, sejam eles oficiais e refinados, ou marginais e grosseiros. Os trabalhos e pesquisas realizados no âmbito das políticas de Redução de Danos tem grande mérito nessa constatação. Publicações que eram raras na época da publicação do seu livro, hoje transmitem toda a complexidade das redes de relações, hierarquias, insígnias de respeito ou aversão. Elementos que por vezes ficam invisíveis na nossa prática clínica privada. Ainda que disso possa se presentificar na fala de alguns pacientes, a maioria costuma menosprezar profundamente suas artimanhas de rua. Não um desprezo absoluto, mas sim diante da figura do médico, psicólogo ou psicanalista, esses geralmente contatados pela família, suscitam o que há de mais superegóico nas recaídas. Cabe a nós, no um a um, barrar a ferocidade das demandas que fazem com que abandonem o nome próprio e não possam falar de nenhum outro lugar que não o de usuário.

A pulsão não teria um estado nascente, mas mal-nascido. A lição clínica que vivi é que apesar do título utilizado por Freud[7], a pulsão não tem destino. Algo parecido com a música composta por Luiz Tatit, “Sem destino”[8]. A pulsão caminha por ali, entre um quase e uma ausência. Acreditar que as drogas conquistariam a exceção, seria superlativar o trabalho de certa ciência que tanto apontamos como fracasso. Se os gadgets tivessem mesmo o poder que é atribuído pela literatura lacaniana, não ouviríamos tanto sobre seus fracassos na clínica. Não acha?

Em tempo, ao buscar suas referências em meus trabalhos, encontrei 2 lapsos. Na dissertação de mestrado há um Nogueira Filho, você, e um Nogueira[9]. Este último, autor de um texto que fiz duras críticas. Mas só o seu está na referência bibliográfica. Já na tese, o cito ao longo do texto, mas recalquei nas referências. Algo que foi apontado pelo professor e historiador Henrique Carneiro, no momento da defesa. Talvez os lapsos já sinalizassem a proficuidade de um futuro diálogo.

Um abraço.

Réplica a Rodrigo Alencar | Durval Mazzei

Caro Rodrigo:

Agradeço a lembrança do meu trabalho, do meu nome e escrevo sobre a satisfação em saber que meu escrito frequentou sua dissertação orientada pelo Henrique Carneiro, a quem admiro muito. Estar nessa boa companhia é sempre um alento.

A primeira questão que coloca põe em cena, pelo menos, dois pontos.

O primeiro deles é se há diferença entre os sujeitos envolvidos com drogas com e sem família. Ou, ampliando a questão, os com acesso à clínica privada e os sem esse acesso que, provavelmente, receberiam algum tratamento nos dispositivos da saúde pública. Responderia de bate pronto que não. Há pelo menos uma razão: nunca deixei de trabalhar na saúde pública e boa parte da inspiração para meu escrito veio justamente das peripécias ao receber sujeitos em pronto-socorro público ou recebê-los em ambulatório de periferia. Sobressaem semelhanças radicais entre o rapaz no consultório e o rapaz no ambulatório. Apesar da vontade em crer que a família defenderia o sujeito não é, propriamente, uma verdade. Creio que tal crença implica na moralidade dos analistas e psiquiatras, ponto que levanta mais adiante. O buraco é mais embaixo. A organização burguesa da existência não é garantia.

O segundo ponto é um que eu não havia pensado diretamente: se a ‘tribo urbana’ e o laço entre os sujeitos envolvidos com drogas que andam em grupo, que constituem ‘o fluxo’, termo famoso desde a desastrada intervenção na Cracolândia, fazem referência ao Outro. Creio que, no meu escrito, dei uma resposta – indireta – ao que sugere. A resposta implica na diferença entre as drogas em comunidades indígenas e o uso das drogas na cultura ocidental. Um jovem ‘Tucano’ ao encontrar-se com o alucinógeno, como elemento necessário em sua iniciação de menino para homem da tribo, viaja nos mitos que fundam a cultura ‘Tucano’. As imagens, histórias, afetos e emoções que vive confirmam as histórias que os anciãos contavam quando criança. É uma modalidade de uso que faz valer o Outro. A ayahuasca vai torná-lo mais ‘Tucano’, a folha de coca vai fazer o jovem do altiplano andino a crer na bondade e na generosidade de Pachamama e justificar os mitos fundadores de seu povo. Não é isso que acontece nem com o jovem de classe média, nem com o jovem que segue ‘o fluxo’. Na cultura ocidental, iluminista, é invariavelmente um ‘cair fora’. Um maravilhar-se. Um tira dores. Uma referência, então, ao Um do indivíduo e não ao todo de uma cultura. Não obstante, se fizermos de cada tribo urbana (skatistas, funkeiros, nerds, pagodeiros, rappers, membros do fluxo) fundadoras do Outro, temos uma novidade sobre a qual temos de nos debruçar. Maffesoli comenta algo que colabora: as tribos urbanas questionam o individualismo tão caro à verdade iluminista ocidental.

Em seguida, Rodrigo, você faz um elogio ao meu escrito, ao qual agradeço. E, creio, que você toca no meu estilo. Sim, talvez, como você, escrevo o que passou por uma elaboração pessoal. Recortar e colar, por mais pós-moderno que seja, implica em elaborar coisa nenhuma. Outro detalhe é a época que o livro foi publicado (1999). Ainda o discurso analítico engatinhava a propósito das toxicomanias. Permitiu a ipseidade.

Sim: estimular a pulsão e romper ‘o casamento com o pipi’ são afirmações correlatas. Estimular a pulsão é fazer a vivência de prazer não contar com o significante e aproximar-se do gozo, do real. É o trilho por onde a droga pode construir o destino mais funesto. Se o falo, entre outras funções, é o significante que estrutura as relações de significação, romper com ele é romper com a metonímia do desejo. Este rompimento joga o sujeito para fora e a cena gozosa ocupa o palco todo.

Acompanho você na crítica que faz a certa moralidade sobre as drogas. Imagino que faltou a muitos analistas — especialmente os que cita, Ferenczi e Abraham — deixar claro que a operação toxicomaníaca é o avesso da operação psicanalítica. Se esta joga com o significante e o prazer, a outra joga com a experiência e o prazer. A questão, então, não é levantar um argumento moral, mas um argumento distinto. Que saliente tão somente a experiência que é vazia de inconsciente, de sujeito, de história. Não se trata, portanto, do Bem e do Mal, mas de uma ética da falta que o toxicômano não sustenta.

As perguntas que faz a seguir estão presentes no meu escrito. Eventualmente, dou respostas um tanto decisivas sobre a questão. Afasto-me de considerar as drogas um objeto no sentido psicanalítico do termo. Romper ‘o casamento com o pipi’ é permitir que eu não recorra mais a objetos com estrutura significante, os objetos ao desejo. Ninguém morre de tesão diante de um líquido qualquer, de um montinho de erva a não ser que o líquido, o comprimido, o selo, o montinho de planta, a pedra evoque uma experiência já vivida. E vivida para além da infância. Também defendo que a adicção às drogas não é uma estrutura. É uma operação sobre a estrutura. Fazendo valer o raciocínio estrutural, é uma operação sobre a neurose, a perversão, a psicose. Com efeitos distintos em cada uma delas. Até o terapêutico! Da mesma forma, afasto-me da produção de um saber via inconsciente pela experiência com a droga. Conto uma história: em 1972 foi publicado, do original francês, o texto ‘Mandala: a experiência alucinógena’ com textos reunidos por J.-C. Bailly e J.-P. Guimard. E, Rodrigo, se há uma qualidade de droga que foi sobejamente relacionada ao saber são os alucinógenos. Facilitariam a psicoterapia, a criação artística, a revelação mística além de serem substâncias que os primatas usam desde os Australopitecos. Li esse livro nos anos 70 e depois nunca mais o vi. Até que, alguns anos atrás, encontrei-o num sebo. Comprei. E reli: decepção! O que parecia genial, cabeçudo, ao jovem setentista pareceu ao homem mais lido uma tremenda bobagem. Quanto à história do fracasso da ‘imago paterna’ é resquício moralista. As pessoas drogam-se, pois o papai não estava lá para punir! Lembro que o escrito ‘Os complexos familiares na formação do indivíduo’ foi publicado por Lacan em 1938 e a ‘imago paterna’ já declinava. O povo da escola de Frankfurt, notadamente Adorno, indicava, antes do escrito de Lacan, que a ‘imago paterna’, no capitalismo, não funcionava mais como transmissão de poder e verdade. Os sujeitos, então, aproximam-se das drogas não pelo papai não estar lá. Aproximam-se, pois as drogas estão lá: à mão.  E, para não me estender, os gadgets desempenham uma função similar: o bom, o fantástico é sempre o próximo que proporcionará a grande experiência.

De acordo, Rodrigo, estimulação e satisfação são diferentes. Viver o efeito da droga é, sim, mais estimulação que satisfação. Não há o ritmo do orgasmo, de um crescendo a uma descarga, ao estilo do primeiro Freud. Há uma sensação que, um momento, ‘bate’ e desaparece. Daí, talvez, o sucesso do ‘crack’: a rapidez mimetiza a satisfação. Quanto ao autoerotismo ‘não existir’ implica na proposição de um objeto desde sempre – se foi essa a via que seguiu – e, salvo um enorme equívoco, é o que está no desenvolvimento de Jean Laplanche e de sua discípula Silvia Bleichmar.

Rodrigo: não conheço o texto de Howard Becker, ao qual se refere. Desconfio, no entanto, de qualquer formulação que se proponha universal no campo da adicção. Há sujeitos que, de fato, ao experimentar drogas pela primeira vez, sentem-se mal, vomitam, ficam tontos, desmaiam e não há nada parecido a uma ‘good trip’. Há outros, entretanto, que dizem: ‘não deveria ter experimentado. A sensação é boa demais’. Quanto ‘à relação melhor’ com a droga, como efeito do uso repetido, é provável. Conhecer o bom ou o mau produto, sacar que cheirou mais pó de vidro e farinha que cocaína é aprendizado. Distinguir maconha de alfafa também. E a referência que faz a Becker faz-me considerar que, como proponho, depender de droga não é algo escrito nos genes defeituosos, no Édipo com ‘imago paterna’ prejudicada. Depender de droga é uma construção que se faz todo o dia. Cuidadosamente e dedicadamente construída e não algo contido na primeira experiência. A toxicomania é, portanto, uma prática que aponta o futuro e não o desenvolvimento passivo diante de um erro do passado.

Sobre o que os submissos à droga falam é, de fato, um problema. Se rompo ‘o casamento com o pipi’, rompo com a estrutura significante do desejo. Se rompo com a estrutura significante do desejo, rompo com o Outro. Se rompo com o Outro, com o significante do desejo e com o falo, rompo com a verdade. Meia-verdade, decerto. Mas, rompo. E digo o que ocorrer, digo o que me vier ao pensamento. Aquele sujeitinho à minha frente, o analista, o médico, o professor, não produz em mim grande sentido. Não produz em mim nem a possibilidade de desejar um traço naquele corpo. Afirmo que a condição desejante é condição fetichista e o fetiche tem a estrutura da linguagem: um traço. Assim, uma preocupação que presidiu a escrita de meu livro, foi lembrar aos analistas que o dizer submisso à droga é um dizer distinto do que fez Freud encontrar no sintoma uma página esquecida da história do sujeito. E, acompanho-o, ao referir que desde a fundação dos Alcóolicos Anônimos, nos anos 20 do século passado, e os Narcóticos Anônimos, de fundação mais recente, define aquele sujeito como rompido com o pipi, rompido com o Nome Próprio.

Quanto ao que comenta sobre a pulsão, o valioso é você buscar uma forma pessoal de conceituá-la. Conceituá-la como mal-nascida. Não obstante, sigo Freud que a define como ‘radicalmente inconsciente’ e dela só há notícia por meio de seus representantes. E, quando ligada a um representante, perde seu caráter de acéfala. Perde, portanto, seu caráter de pulsão propriamente. O que permite Lacan comentar que pulsão é tão somente a pulsão sem ligação: a pulsão de morte. Assim, por uma torção, chega-se à sua noção: a pulsão não tem destino e, se encontra algum, não é mais pulsão. Quanto aos ‘gadgets’, desenvolvo um raciocínio que, num certo sentido, é o avesso do seu. Assim, acompanho-o na crítica ao poder do ‘gadget’, mas considero que o fracasso do ‘gadget’ não depende do poder de cada um desses objetos. O fracasso do ‘gadget’ é efeito do fracasso do sujeito falante em construir uma harmonia, uma utopia, que permita que ele diga: não há nada mais a desejar. O ‘gadget’ aproveita esse furo estrutural e permanente para que o sujeito vá, para todo sempre, atrás do próximo.

Por fim, preciso descobrir quem é esse outro ‘Nogueira’ que fala um monte de besteiras! E, afirmo, com muito prazer, que esse diálogo já é profícuo e agradeço a você e ao Paulo Beer essa agradável oportunidade.

Grande abraço!

Durval Mazzei.

Setembro de 2017.

 

As drogas e o falo: de quem para quem? | Rodrigo Alencar

Caro Durval:

Agradeço muitíssimo sua resposta e o compartilhamento de referências.

Já de início gostaria de fazer de um engano, desengano: fui orientado, no mestrado e doutorado, pela Profª Drª Miriam Debieux Rosa, que com leitura atenciosa, aberta e astuta me ajudou muito na caminhada sobre o tema. O Profº Henrique participou das bancas de qualificação e defesa do doutoramento, com brilhantes contribuições e me possibilitando acesso a um arcabouço de valiosas referências. Uma delas, inclusive, acerca da psicoterapia com psicodélicos. Algo que não acatei devido à uma implicação epistemológica, mas que talvez caiba retomarmos no sentido de discurso na cultura, que tem vindo à tona com mais força nos últimos anos. Com experiências conduzidas por profissionais e pesquisadores extremamente competentes, do campo da psiquiatria, antropologia e psicologia.

Permita-me mexer um pouco na ordem, para começar a tréplica por essa via. A parte de seu livro que você brinca com as referências de um saber cósmico adquirido por meio da psicodelia foi um momento de minha experiência de leitura que considero nietzchniano. Há uma passagem em “Assim falou Zaratrusta” na qual o profeta busca o consentimento de seus interlocutores, só que um determinado momento, alguém desconfia de sua eloquência. Nesse momento o profeta dispara: “para seres tortos tenho de falar de maneira torta”. Enquanto lia, pensava “Por quê? O que essa viagem de ácido está fazendo aqui?”. Quando você aponta para a câmera e diz “é uma pegadinha!”, fiquei um pouco impressionado. Me perguntando por que um livro com tantos argumentos e uma discussão dotada de profundidade tinha uma trollagem nessas proporções. Na sua carta, me lembrei desse posicionamento, quando você diz que se afasta da hipótese da produção de um saber inconsciente pelo uso da substância.

Quanto a isso, tenho um relato curioso, certa ocasião me permiti a experimentação psicodélica com a busca de algum insight, epifania que me possibilitasse algum caminho de trabalho pessoal. Viagem longa e complexa, mas na época, já em análise, tive a oportunidade de comparar a experiência e reconhecer que aquela viagem psicodélica não chegava perto do que vinha sendo construído em análise. Mais ainda, descobri, posteriormente, que algumas das sensações corporais e imagens eram relativamente típicas nos efeitos dessa substância. No entanto, algo eu não posso negar, o diálogo com algumas pessoas ali, me apresentou traços de liturgia religiosa encontrados em qualquer outro espaço, mas ao mesmo tempo me permitiu testemunhar algumas reflexões, ditas por alguns frequentadores, que me pareciam um tanto rebuscadas acerca da própria posição em relação ao Outro. Algo parecido do que se ouve de pessoas que passam um tempo em análise. Portanto, eu não afastaria um saber via inconsciente pela experiência da droga, desde que se perceba, ou mesmo reconheça que um certo conteúdo, muitas vezes desorganizado e non-sense, opera em posições subjetivas que podem afastar ou estreitar laços.

Como um último exemplo, cito a matéria da Revista Piauí, denominada “Doce Remédio”. A matéria aborda o esforço de uma equipe de médicos pesquisadores que ministram psicodélicos em pacientes com câncer, que se encontram em estado terminal, como uma forma de tentar oferecer uma ressignificação da experiência da vida frente a morte que se aproxima. O relato das viagens dos pacientes[10] não é muito distinto do que você aborda, costumam ver a mãe que já morreu, o Elvis, o Câncer como uma bola preta conversando com o paciente. Cenas que parecem uma mistura de roteiros do David Lynch com desenhos animados satíricos. No entanto, a equipe vem constatando uma importante mudança de postura em alguns pacientes, que passam a buscar experiências que possibilitem que a vida que resta seja verdadeiramente vivida. Essas experiências podem render um extenso debate entre psicanalistas, principalmente em torno de gadgets e bem-estar. Mas mais ainda, não estamos falando aqui, de um saber consciente. Um saber que é fracassadamente imaginarizável, mas que opera certas mudanças que nós, enquanto analistas, ainda não escutamos com a devida atenção.

Mas há uma posição que têm me parecido cada vez mais valiosa em relação a esse campo: a psicanálise não deve excluir isso de seu escopo de investigação. Que fique claro: não sou a favor de psicanalistas ministrarem psicodélicos, não é o nosso método, não é por onde caminha a nossa episteme. Mas isso não significa que não poderíamos acompanhar e ouvir os que são submetidos a essas experiências. Com tudo o que Freud nos legou acerca da vida onírica e seu funcionamento inconsciente, somente a paixão pela ignorância nos permitiria excluir de nossas pesquisas pessoas que fazem profundas investigações subjetivas sobre si por intermédio de substâncias. Já pude ouvir reflexões advindas de certas experiências que poderíamos qualificar como analíticas, de modo que o sujeito indaga acerca de seu posicionamento frente ao Outro. Algo que, devo admitir, me parece raro em um mar de experiências difusas e pouco engajadas, mas ainda assim presente.

Quanto ao que temos abordado sobre os gadgets, e talvez possamos abarcar tanto o Rivotril quanto os smartphones, penso que a crítica sobre como esses objetos fariam certa parasitagem do desejo é algo que me parece uma hipertrofia de breves passagens do trabalho de Lacan. As características advindas da Ciência a serviço do poder político é um fenômeno tão moderno quanto à psicanálise. Eric Hobsbawm[11] tece interessantes comentários sobre o início da relação entre ciência, Estado e bem-estar social, já no contexto da Revolução Francesa. Esse é um campo aberto pelo abalo das instituições tradicionais e suas justificações divinas, talvez aí a tal movimentação do significante de uma lei paterna fará sua letra de forma cada vez mais fragmentada. Desse processo a psicanálise também é tributária.

Talvez venha a mudar de posicionamento no futuro, mas por hora, a crítica que boa parte dos psicanalistas fazem aos gadgets me remete à figura quixotesca de salvar o desejo (Dulcinéia) dos gadgets (gigantes de moinho de vento). O fato do sujeito não se contentar e ir sempre atrás do próximo só atesta que o que captura o sujeito não é o objeto, mas a montagem comercial que possibilita sua extensão. Convenhamos, vivemos um tempo curioso, os produtos estão cada vez mais perdendo sua materialidade, e junto com a perda dessa materialidade não se vendem mais objetos, mas relações que visam subsidiar determinadas satisfações ao longo da sua vida. Por exemplo: não compramos mais música, podemos assinar um serviço que nos promete deixar a música a disposição no tempo que quisermos. A política das assinaturas por pagamentos mensais é a institucionalização da insatisfação: “sabemos que você se cansará do que temos a oferecer, e por isso cobraremos para seguir tentando te impressionar com novidades”. E assim podemos assinar serviços de cervejas, vinhos, livros, brinquedos, cuecas, jogos e etc. Convenhamos, enquanto psicanalistas, podemos dizer que somos pioneiros nessa prática. Pactuávamos serviços[12] a longo prazo muito antes disso virar moda.

Talvez, em função do ceticismo que carrego frente a essas questões, me parece muito pouco plausível que a droga possa de fato, tornar possível uma ruptura com o falo. De certa forma, faz sua projeção invertida para determinadas instâncias, mas não rompe. Isso nos leva a uma constatação que por vezes é pouco levada em conta na psicanálise: o que é fálico é relacional, e não absoluto, por essa via ao ponderarmos clinicamente acerca da rede de transferências de cada paciente encontraremos diferentes insígnias. Portanto, só há um falo que poderíamos julgar de valor absoluto, aquele da fantasia neurótica que é atribuído ao pai da horda.

Quanto aos usuários, justamente por subvertê-lo com certa lógica, é que a questão das drogas não para de suscitar clamor político. A referência que Lacan faz ao pequeno Hans[13] nessa citação, me leva a pensar na tal cena em que Hans fala da banheira parafusada ao traseiro. Tal processo remete mais à uma busca de repleção andrógina, do que a demissão de um papel frente ao Outro. E aqui, talvez você aponte que a essa repleção, seria o mecanismo de desarticulação do significante. Seja a banheira, enquanto produtora de bebês, ou o falo, sob ameaça da mordida do cavalo, operam na fantasia inconsciente como significantes da diferença sexual. A busca dessa repleção não prescinde do reconhecimento do Outro. Não por menos, ainda que por vezes de forma exageradamente moralista, a psicanálise aponta para as peculiaridades do homoerotismo masculino no alcoolismo, essa percepção não deve ser tomada enquanto equivocada. Nesse sentido, não é raro que as substâncias, inclusive as ilícitas, agenciem diferentes construções sintomáticas sobre impasses relacionados à diferença sexual e ao posicionamento do sujeito em relação à essa diferença.

O que é curioso na circulação dessa afirmação do Lacan, é que já podemos encontrar certa dissidência não declarada, talvez por filiações e questões políticas. Jésus Santiago[14], fala em seu livro, de tentativa de ruptura com o falo, o que já situa a afirmação em um direcionamento distinto. Constatando que essa tentativa fracassa, mesmo com o subterfúgio químico. Nesse sentido, o que você fala sobre grupos adolescentes e suas dinâmicas, conduz, ao menos no caso das drogas, à uma espécie de retorno de demanda do reconhecimento fálico após seu recalque frente às insígnias familiares. Daí que nos contextos de uso, quem faz o corre para conseguir a droga, tende a gozar de maior respeitabilidade dentre os pares.

Há mais dois elementos que sua carta me evoca. O primeiro, é a sua afirmação sobre como as drogas remetem mais sobre um futuro do que especificamente de um passado mal vivido. Tal afirmação, presente no seu livro, me possibilitou uma série de desencadeamentos clínicos e políticos, acerca dessa questão nos dias atuais. A segunda diz respeito à conceituação pessoal da pulsão, tal conceituação só me remete há um contexto: a práxis clínica. Nesse sentido, me arrisco a afirmar que a pulsão só passa a ser objeto de trabalho na medida em que se desenvolve um estilo clínico, estilo que certamente tende a operar por vias diferentes frente a cada paciente. Agora, tirando consequências de nossos apontamentos acerca da pulsão, na clínica está muito mais relacionado à insistência sobre os fracassos de captura de um ideal, do que especificamente os truques ilusionistas das instituições que prometem gloriosos destinos livres de desvios, mas têm como prática toda uma engenharia de alienar o sujeito de seu próprio desejo.

Ao escrever essas linhas, fico me perguntando se você não se sente impelido a continuar o diálogo. Será que avançamos sobre outras plataformas? Seria uma honra. 


[1] “Faz-pipi”, na maioria das interpretações está simplesmente como “falo”. Mas uma pesquisa mais apurada aponta para o termo que Freud citou no caso clínico conhecido como “Pequeno Hans”.

[2] MELMAN, Charles (1992) Alcoolismo, delinquência e toxicomania: uma outra forma de gozar. São Paulo. Ed Escuta.

[3] NOGUEIRA FILHO, Durval Mazzei (1999) Toxicomanias. São Paulo, Escuta.

[4] FERENCZI, Sándor (1911) “Le rôle de l’homossexualité dans la pathogénie de la paranoia”. In: Sur les addictions. Paris: Ed. Payot & Rivages,2008.

[5] ALENCAR, Rodrigo (2016) A fome da alma: Psicanálise, drogas e pulsão na modernidade. Tese de doutorado, USP, 2016.

[6] BECKER, Howard S. (2008) Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro:  ed. Jorge Zahar. 2008.

[7] As pulsões e seus destinos.

[8] TATIT, Luiz. Sem destino. Álbum: Sem destino. 2010.

[9] NOGUEIRA, Analuiza Mendes Pinto (2003) Drogas e violência: considerações sobre um fracasso superegoico. Pulsional: Revista de psicanálise, ano XVX, n. 171, julho/2003.

[10] Pode ser acessada em: <http://piaui.folha.uol.com.br/materia/doce-remedio/>

[11] HOBSBAWM, Eric (1977) A era das revoluções: 1789 – 1848. São Paulo: Paz e Terra, 2015.

[12] Mesmo que não sejam serviços de bens.

[13] Com o Wiwimacher.

[14] SANTIAGO, Jésus (2001) A droga do toxicômano: uma parceria cínica na era da ciência. Rio de Janeiro: Ed. Jorge Zahar.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | ALENCAR, Rodrigo; MAZZEI, Durval (2017) Drogas e psicanálise. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -4, p. 10, 2017. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2017/11/20/n4-10/>