No discurso do Outro: uma teoria geral da citação

por Rodrigo Camargo

nenhuma palavra é minha

nenhuminha…

XV.

O que estou escrevendo é um informe, ou melhor, um resumo: está em jogo a autoria de um texto. Correr no limiar do precipício: de um lado, o abismo sem fundo, de outro, os rostos que a gente ama, os livros, os amigos e me deixaste só para sempre em meus caminhos de amargura. Tudo é falso, não há ninguém, não há nada. Minh’alma caminha comigo, forma das formas.  A própria insatisfação tornou-se mercadoria. As abelhas têm de se mexer muito depressa para ficar paradas. A violação da forma é inerente ao seu próprio sentido. O ideal de uma estrela no céu é estar sem a noite (todo o ideal de uma estrela está em ser a luz no centro da luz). A existência é dominada pela entropia, pela dissolução em instantes e em impulsos como corpúsculos sem nexo nem forma. O escritor acredita que é o centro do mundo; trapaceia à vontade; engana a opinião pública, consciente ou inconscientemente. Sim, às vezes a porta começa a se abrir. O que está escondido nunca é outra coisa senão aquilo que falta em seu lugar. A crença é uma questão de obediência à letra morta e não compreendida. Proclamo que não creio em nada e que tudo é absurdo, mas não posso duvidar de minha própria proclamação. Essa incerteza, dúvida, profunda ambiguidade, impossibilidade de resolver-se quanto ao sentido. Os escritos sobre a arte não devem jamais almejar um modo de apresentação artístico.  A vista, por exemplo, da capa de um livro já lido tece nos caracteres do título os raios de lua de uma remota noite de verão. De onde é que estão olhando para mim? Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim? Quem espreita de tudo? Por acaso mostramos a um público às vezes aturdido, outras indiferente, o funcionamento de nossos artifícios? Meu sol e minha lua, tu os extinguiste para sempre! E me deixaste só para sempre em meus caminhos de amargura. Conseguiu-se algo tão próximo à verdade que pode nos tranquilizar um pouco a ambos e nos tornar mais fácil viver e morrer. E, contudo, de modo difuso e aleatório, explicar-me é preciso, ou todos esses capítulos podem reduzir-se a nada. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.

XIV.

Bricolagem: consiste em elaborar conjuntos estruturados — (…) — utilizando senão resíduos e restos de acontecimentos. “Odds and ends”, diria um inglês, testemunhos fósseis da história de um indivíduo ou de uma sociedade. Trata-se simplesmente de uma falsificação tosca de outras falsificações que também se inspiraram em falsificações. Descubramos suas pistas onde ela nos despista. Pois para realmente esquecer um acontecimento, precisamos primeiramente criar a força para lembrá-lo: assim, em todos os lugares, poderás ser bem-vindo ao deserto do real.

XIII.

Há sempre uma trajetória na obra de arte. E o que é estranho aos sentidos decorre somente da excessiva distância em relação ao sentido. Quando você conta os segundos que o separam do fim, isso significa que tudo já está no fim; mais que isso, que já estamos além do fim. As ilusões — dizia-me um amigo — são talvez tão inumeráveis quanto as relações dos homens entre si, ou dos homens com as coisas. A esperança verdadeira — o inesperado de toda esperança — é a afirmação do improvável e a expectativa daquilo que é. A intenção inicial é que cada frase dessas possa ser lida separadamente, como se da contemplação de um quadro se tratasse. É inútil querer fingir indiferença face a pesquisas cujo objeto não pode ser indiferente à natureza humana. Escrever provoca a voz dos outros quando tudo o que você procura é o silêncio.

XII.

para O.

Je est un autre. Ah! Por que não disseram antes? A razão pela qual ele não fica à vontade. Tentemos esclarecer o assunto. Não teria ele esse direito? Fale, fale, combine coisas, basta você tagarelar, eis a caixa de onde saem todos os dons da linguagem, uma caixa de Pandora. Antes que se dilate a pupila do zero. Hay que buscarlo: o poema.

XI.

Quis fazer um livro, ou melhor, um catálogo, que explicasse cada detalhe de meu quadro. São apenas pedaços do verdadeiro enlouquecimento, do calor, da fumaça e da excitação dessa época. A justaposição desses detalhes particulares (em certo modo de montagem) chama à vida, torna perceptível, o conjunto que imaginou cada parte. O invisível não é obscuro nem misterioso, é transparente. É sempre bom não deixar o horizonte da gente se estreitar. Não existe originalidade nem verdade a não ser nos detalhes. Confrontar duas palavras de som semelhante, mas de sentido diferente, e encontrar entre elas uma ponte verbal. O grande problema era o ato de escolher (…) era necessário reduzir o meu gosto pessoal a zero. “O poeta está trabalhando”: estava inscrito na porta do quarto em que dormia algum poeta surrealista (mesmo agora, ao escrever estas palavras, isto também se torna falso). Não podemos mais respirar num mundo fechado. Habituamo-nos a pensar que tudo isto existe necessariamente e é inabalável.

X.

Ao diabo se duvidarem como, casando um verde matizado com um vermelho, entristece-se uma boca ou faz-se sorrir uma face. Cada cor que vemos na natureza provoca, por uma espécie de repercussão, a visão da cor complementar, e estas… (complementares) se exaltam. O quadro deve ser, para qualquer observador, um acontecimento, aquela manhã, aquela cor. O que acontece com a dilatação do céu numa gravura? Um quadro é somente o que ele quer. Não há meios de olhá-lo de outro modo que não o seu. Foi como se o céu tivesse, em silêncio, beijado a terra. O que foi separado não pode ser colado novamente. Abandonai toda esperança de totalidade, tanto futura como passada. Esse retorno do narrativo ao não-narrativo, sob uma forma ou outra, não deve ser considerado como ultrapassado para sempre. Não se pode mais narrar, embora a forma do romance exija a narração. “É mais tarde do que supões”. Não sou mais um escritor; estou cego; para escrever preciso ver; não leio, não consigo escrever também; sou um ex-escritor. Logo, distingui confusas e veladas, duas vozes nesta voz, uma à outra misturadas. O masoquista elabora contratos, enquanto o sádico abomina e rasga todo tipo de contrato. O caminho que segue lhe vai ficar gravado na lembrança com a excitação produzida pelos lugares novos, os atos inabituais. Você tem a liberdade de escolher o que quiser desde que faça a escolha certa. Perceber a presença da ficção no real e na política, a manipulação das crenças, as histórias que se tornam reais. O feitiço que agora, tanto, está no ar, não há quem saiba como evitar. A pulsão do parágrafo que jamais se circompleta, tanto tempo quanto o sangue, o que (chamo assim), continue a advir em sua veia. Muita coisa que em certos níveis da vida humana é agravamento serve a um nível superior como aliviamento. Se eu quisesse, enlouquecia; sei uma quantidade de histórias terríveis, vi muita coisa, contaram-me casos extraordiários. O capital é trabalho morto, o qual, como um vampiro, vive apenas para sugar o trabalho vivo. Imaginara-se resistindo corajosamente, aceitando estoicamente, sem uma palavra, o sofrimento. Então, como tudo isso vai terminar? Aonde chegarei seguindo por esse caminho? Ler não é apenas se informar, é também (…) esquecer, e, portanto, chocar-se com aquilo que em nós é esquecimento de nós.

IX.

O homem que engolia facas e depois vomitava pregos e tachas. O miserável bebeu num êxtase imundo. Como podemos esperar “abrir” se a porta já está aberta? (…) No aberto se está, as coisas se dão, não se entra. A pressão dos acontecimentos levou-os a tomar posição. Sem dúvida, o ‘engagement’ deles foi apenas superficial. Parece unicamente preocupado em saber se havia interpretado bem o MIMUS VITÆ, a farsa de sua vida. Aguenta bem, nesse momento, o sol já desaparecera no horizonte; a noite não tardaria a cair sobre o platô que dominava a cidade. Justamente quando dizia “podem começar”, justamente quando dizia que podiam começar, a realidade ultrapassou de vez seus limites. Uma palavra não coercitiva, que não comanda e não proíbe nada, mas diz apenas ela mesma. É característico do homem estar sujeito a um freio que não é físico, mas moral, isto é, social. A verdade é que não tenho ideia do quanto você sabe; não me admiraria se você estivesse a par de todos os detalhes. Não ouviu. Os olhos estremeceram e depois se selaram com mais força ainda; continua o enjoo do conhaque; é preciso vomitar. É preciso, é mesmo preciso, é preciso que isso ainda dure. O deslocamento das atividades criadoras é uma das mais estranhas viagens dentro de si que se pode fazer. Pois na arte temos que ver, não através de um simples jogo agradável ou útil, mas através de um desdobramento da verdade. É esse o perigo, quando se faz um diário: exagera-se tudo, vive-se à espreita, deforma-se constantemente a verdade: náusea.

VIII.

Desde que nomeio, sou nomeado. Fico preso na rivalidade dos nomes. Escrevo para não ficar louco. “Toalhas, lençóis, guardanapos pendiam verticalmente, presos por pregadores de madeira e cordas estendidas”. Não pensamos palavras, pensamos somente frases. Desviarei meu olhar, será doravante a minha única negação. Movimento brusco da cabeça, como o de um pássaro que não ouve nada daquilo que nós escutamos, que escuta aquilo que nós não ouvimos. Nosso sol lá em cima, no alto, cujo aparente movimento pelo horizonte do sul foi, claro, a primeira medida de tempo entre os homens. Nem sempre é amigo aquele que te tira do buraco. (…) Escrevo porque não quero as palavras que encontro: por subtração. Isto não é inteiramente verdade. “A morte não é o fim”. Isto não é inteiramente verdade: a morte não é o fim. Parece que somos, então, sempre recusados; reflitamos, entretanto sobre esta estranheza: “o imediato exclui todo imediato”. É sempre o apego ao objeto que causa a morte do dono. As portas são inumeráveis, a saída é uma só, mas as possibilidades de saída são tão numerosas quanto às portas: com mão amiga continua a segurá-la, antes de empurrá-la decidido e voltar a fechar-se.

VII.

O poema é o amor realizado do desejo que permaneceu desejo. Esse jogo insensato de escrever. De que te queixas, silêncio sem origem? Por que vir aqui habitar uma linguagem que não pode te reconhecer? Pois aqueles que vos agrilhoam não compreenderão vossa língua, tal como não os compreendereis. E cavar na língua é também um trabalho de coveiro. A arte existe porque a vida não é perfeita, se fosse, não precisaríamos dela. Gosto de atirar em meus quadros como uma forma de introduzir o fator aleatório; deve-se deixar o acaso penetrar a arte. O artista não é um fazedor; suas obras não são feituras, mas atos. A guerra não exclui a paz… A guerra tem seus momentos pacíficos… Entre duas escaramuças, pode-se esvaziar um canecão de cerveja. Saboreio o reino das fórmulas, a inversão das origens, a desenvoltura que faz com que o texto anterior provenha do texto ulterior. “Amigos, não há amigos” — disse o sábio moribundo. “Inimigos, não há inimigos” — disse eu, o tolo vivente. Inconcebível, sem dúvida, de maneira que tudo passa como se eu nada tivesse escrito.

VI.

Os poetas são os legisladores não-reconhecidos do mundo. O atentado contra a criação é impossível; não se pode destruir tudo, há sempre um resto. O mundo presente e ausente que o espetáculo ‘faz ver’ é o mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido.  Não há razão alguma para fazermos o papel de fiadores dos devaneios burgueses. Quando eu começo a escrever, começam a brotar mundos que eu mesmo não suspeitava. Impele a linguagem ao seu ponto de suspensão, canto, grito ou silêncio, canto dos bosques, grito da aldeia, silêncio da estepe. Faziam parte de sua época. Estavam bem em suas peles: não eram, diziam, de todo idiotas. Sabiam manter suas distâncias. Um homem e uma mulher podem se ouvir, não digo que não. Podem como tais ouvir-se gritar. A palavra vem mais tarde, ela é sempre tardia, ela vem depois, ela vem carregada de silêncio. Estava cansada do esforço de animal libertado. A linha sonha. Até então, nunca haviam deixado a linha sonhar. A linha aguarda. A linha espera. A linha repensa um rosto. Impossível determinar o que alguém pode ter pensado ou sentido aqui e ali, nada de essencial se ganharia com tais considerações. A verdadeira procura é a verdade desdobrada, cujos membros esparsos se reúnem no resultado. Não consigo de modo algum entender o problema da chamada ‘liberdade’ ou ‘falta de liberdade’ de um artista; ele nunca é livre: “a relação das fantasias com os sintomas não é simples, mas, ao contrário, bem complexa”. Tenho de falar, nada tenho a dizer apenas palavras dos outros; não sabendo falar, não querendo falar, tenho de falar. Cada um espera algo do seu abandono à leitura; mais que isso, cada um tem uma teoria que orienta sua espera. Se quiseres ir além, vai, e torna-te tu mesmo o escrito e tu mesmo a essência. A solidão, a solidão é necessária, mas que te baste não ser (em) público: assim, em todos os lugares, poderás estar em um deserto. Extirpar como cizânia os menores germes de “plantas raras e exóticas” (…) prevenção não menos dispendiosa que a de cultivá-las. Nos hábitos literários é também todo-poderosa a ideia de um sujeito único; é raro que os livros estejam assinados. A prática da vanguarda consiste em construir o olhar artístico, e não a obra de arte. Descobri que me basta uma única nota bem tocada; essa nota, ou essa pausa, um momento de silêncio, me consolam; à humanidade foram dados certos vícios, e sobre estes se criou um mercado. Porcos, bois, bezerros são abatidos; não há motivo para se preocupar com isso; onde ficamos nós? Nós? Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.

V.

Minha força está em saber o que significa esperar. Mas parece que algo fala, que algo nos utiliza para falar; você não tem essa sensação? Não lhe parece que estamos como habitados? Só nas profundezas de suas órbitas aparece uma fraca e minúscula luz que brilha em meio à desolação. A enfermidade não é catástrofe, e sim dança. A essência da literatura nunca está aqui, é preciso sempre encontrá-la ou inventá-la novamente. Há uma relação de propriedade entre um nome e um texto que tem uma existência sobre a qual esse pálido nome já não pode. A tarefa que nos cabe é a de realizar o negativo: o positivo já nos foi concedido. Velado embrutecimento em busca de uma coisa qualquer informe, cujos contornos podia apenas arremedar. “O caráter interminável da reflexão é índice da finitude mundana: no interior do mundo todos os caminhos são circulares”. Quando a claridade diz: eu sou a escuridão, disse a verdade; quando a escuridão diz: eu sou a claridade, não mente. A terra é basicamente uma fábrica, você mora na mesma fábrica em que trabalha. Se sou confuso, se evito ser mais claro, pai, é que não quero criar mais confusão. Que culpa temos nós dessa planta da infância, de sua sedução, de seu viço e constância? “O que está esperando?” teve vontade de perguntar com voz despreocupada; mas as palavras não chegaram aos seus lábios. O fim dos fins, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é a inércia consciente! O que aqui permanece como deslocamento de um problema forma certamente um sistema. A escritura e a diferença. Nesses diversos sonos, como também na música, era o aumento ou a diminuição do intervalo que criava a beleza. A consciência, a meu ver, é a maior infelicidade para o homem, sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma outra satisfação. Todos os gestos são, aqui, necessariamente equívocos. — Ó, eu nunca disse isso! — Ó, disse sim! — Não disse! — Ela não disse? — Sim, eu ouvi. — Ó, que mentiroso! É algo reconhecido já na primeira vez: citação familiar do jamais visto. Um pouco por inconstância, um pouco por docilidade, esquecia depressa o que desejara. Começar a lê-los e não ter parado com essa leitura até hoje, de haver aprendido, enfim, a filosofar.

IV.

A meu tio P devo o fato de haver aberto nossos livros, que pareciam fechados para todo o sempre em nossas bibliotecas. Já fazia tanto tempo que não tinha o seu tamanho normal que a princípio estranhou um bocado. Os brinquedos vulgares são assim, essencialmente, um microcosmo adulto; são reproduções em miniatura de objetos humanos. Só os animais superiores são capazes de se entediar. Quando criança, eu devia parecer um nietzschiano inconsciente. Todo aquele papo furado: blá, blá, blá; e eu simplesmente puto comigo mesmo… O manuscrito, os cadernos, o original, a cópia, as provas de prelo. Passos na leitura de seus próprios textos. A bem dizer, não sabemos renunciar a nada, só sabemos trocar uma coisa por outra. É preciso muito trabalho para criar silêncio, para cercar seu lugar do mesmo modo que um vaso cria seu vazio central.

III.

Só depois de chegar ao fim do trecho, registrar o absurdo do resultado da 1ª leitura e relê-lo é que captamos o sentido adequado. “A questão do arquivo continua a mesma: o que vem primeiro? ou melhor: quem vem primeiro? e em segundo?”. Toda obra de arte visa esse ocaso, na medida em que pretenderia trazer a morte a todas as demais. Apesar das aparências, não se trata de um jogo solitário, todo gesto que faz o armador de puzzles, o construtor já o fez antes dele. Empurrar tua palavra e minha palavra e inventar desde ambas uma ilação única para todas as palavras do mundo. Já não é possível escrever livros, portanto, não escrevo mais livros. Quase todos os livros não passam de notas de rodapé. “Porque hay muchas cosas por leer… y la vida no es tan breve como se piensa“. Não se podia dizer: sou livre. Não se podia arriscar a liberdade (e perguntar: que liberdade?). Renovamos a espera inútil. O milagre onde não há milagres. A luz ao fundo, sempre ao fundo. Vou acender o fogo esperando que ele traga madeira. A vista segue os caminhos que lhe foram preparados na obra. A possibilidade de servir a plenos pulmões. Lá estava ela de volta. Regressava sem nenhum motivo para se arrepender da guinada que tinha dado em sua vida. Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘tal como ele propriamente foi’. A verdade é indivisível, não poderia, portanto conhecer-se a si própria. Aquele que pretende conhecê-la, deve ser mentira. 1. Não se sabe mais muito bem qual teria sido o tempo deste teatro, o 1º lance teatral, o 1º lance, o 1º (…) o 1º ponto. Repetidamente havia lido partes da mesma página e cada vez passara pela sentença relevante sem notá-la, como uma alucinação negativa.

I.

A verdade é como a arte ready-made: um “mictório” é obra de arte quando ocupa o lugar da obra de arte. Ter sido enganado, querendo não ser, acreditando não ser, sabendo ser, e não me enganando de não ser enganado. Talvez não se tratasse de um erro e sim num plano muito mais elevado de parte essencial de toda composição.  É como se o erro se rebelasse: “não, não serei apagado, aqui ficarei como testemunha contra ti, de que é um péssimo escritor”. No momento prefiro não ser mais razoável – foi a sua suave e cadavérica resposta. Mas que fazer, se a destinação única de todo homem inteligente é apenas a tagarelice, uma transferência do oco para o vazio? Queria um pouco de espaço, uma oportunidade de descobrir, de uma vez por todas, se eu era mesmo quem eu achava que era. O mentiroso chama o mentiroso de mentiroso. Essa é justamente a autruicherie, a trapaça de avestruz de que ele foi o artífice, se nos permitem multiplicar nosso monstro. O inventor da arte fotográfica é o inventor da mais desumana de todas as artes. Escrita, a merda não tem cheiro. Nós nos tornamos “humanos” quando ficamos presos num circuito fechado de repetição do mesmo gesto e obtenção de satisfação nisso. É você, realmente, quem protesta em sonhos nessa cama? Adeus, meu belo adormecido; adeus, meu prisioneiro. “Durante muito tempo, fui para a cama cedo”: (…) eu não cessara de refletir sobre o que acabara de ler. Para ele ali, naquela cópia, de certo modo estava contido o mundo inteiro. Cada gesto é um acontecimento em si e por assim dizer um drama em si. A tensão entre objeto real e objeto imaginário não existe, tudo é real, tudo está aqui. Um grande livro é sempre o avesso de outro livro que só se escreve na alma, com silêncio e sangue. Aquele homem ainda está no subsolo? Um dos irmãos? É, aquele idiota! Pois cometeu um crime, foi castigado! Eu sei, era jogador. Dissolvia-se num mundo cinzento e incorpóreo; o mundo real, sólido, em que os mortos tinham vivido e edificado, desagregava-se. De que lado está nossas lealdades? Somos agentes do estado e das instituições? Agentes da ilustração? Ou, quem sabe, do capital? De nossa posição de sujeito, somos sempre responsáveis. Então abandonou tudo e desapareceu, deixou dito: vou procurar um celacanto; e nunca mais voltou, nunca mais voltará. E eu fazia caretas e mais caretas, sabendo que estava me perdendo nessas caretas. E, por fim, mas não menos importante, o psicanalista é uma criatura inumana, não um parceiro humano. O que é ainda mais estranho, mais inexplicável que o resto, é como os autores conseguem escolher tal assunto. No verão, o sagrado está por baixo, o profano por cima; no inverno, o sagrado está por cima, o profano por baixo. A eternidade tem os seus pêndulos; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. O mundo dos gangsters é um mundo do sangue-frio, transformando radicalmente o destino dos homens com um simples acenar de cabeça. O conforto limpo e sólido do home*** burguês. Contar-lhe-ei a história de minha ferida sob uma condição: a de não mitigar nenhum opróbrio, nenhuma circunstância de infâmia. O dever e a tarefa de um escritor são também os de um tradutor: “pour avoir une véritable table, il faut […] enlever sa vérité à véritable”. Não tem olhos para ver o que é único; ver semelhança em tudo e tornar tudo igual é sinal de vista fraca. A lei é proibição (…) não se deve saber quem ou o que ou onde está a lei. A própria insatisfação tornou-se mercadoria. Não, ele disse, não podia fazer isso: teria de ser uma opinião para poder entrar no livro e um sonho não é uma opinião. Quanto tempo você acha que vamos ficar presos aqui? Tenho pruridos atrozes de decompor os humanos, e um dia, daqui a dez anos, vou decompô-los em algum romance longo de amplo contexto. O matemático fala de verdades que guardam todo seu sentido mesmo enquanto dormimos, e mesmo não existindo na natureza. 


* Rodrigo Camargo é psicanalista e membro da seção clínica da CLIPP. Graduação em psicologia (USP). Aprimoramento (CAPS-Itapeva). Mestrado em literatura francesa (FFLCH-USP). Professor da Pós-Graduação da PUC-MG, campus Poços de Caldas. Membro do Latesfip (Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise) da USP. Supervisor associado à Rede Clínica do Laboratório Jacques Lacan (IP-USP). E-mail: <agnera@hotmail.com>.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | CAMARGO, Rodrigo (2017) No discurso do Outro: um tratado sobre autoria. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -4, p. 12, 2017. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2017/11/20/n4-12/>.