Pequena Hilda: devaneios e um sintoma em uma menina de 7 anos

[ Klein Hilda. Tagträume und ein Symptom bei einem siebenjährigen Mädchen ]

por Karl Abraham

Tradução |Angela May

Comentário | Adela Stoppel de Gueller

Originalmente publicado em: ABRAHAM, Hilda. Karl Abraham, Sein Leben für die Psychoanalyse: Eine Biographie. München: Kindler, 1976, pp. 173-182.

Antes mesmo de Hilda ir para a escola, percebemos nela uma tendência a sonhar. É claro que ela quase nunca nos contou os sonhos que tinha à noite, mas, assim mesmo, frequentemente era vista absorta em seus próprios pensamentos durante o dia. Essa condição continua a mesma.

Ela deve trocar sapatos e roupas. Começa, mas para no meio da ação e fica sentada, imóvel. Todo incentivo para continuar é vão. Na escola, sua atenção foi precária desde o início. O mesmo em casa, independentemente da tarefa que lhe fosse dada (não apenas tarefas escolares). Mas, quando se interessa por alguma coisa — digamos: uma história ou algo assim —, mostra que é muito inteligente. Seus comentários derivam de um modo sábio de pensar.

Não há outros sintomas neuróticos, no sentido estrito da palavra. Especialmente, não há sinais de angústia [Angst].[1] Ultimamente, à noite, com certa frequência, ela fica mais tempo acordada. Tendo sido flagrada uma vez, confessou que se masturbava. Eu lhe disse que não o fizesse, porque, dormindo pouco à noite, estaria na manhã seguinte sonolenta, sem a disposição e a energia das outras crianças da escola. Lidou com essa advertência como lida com muitas outras coisas que lhe dizemos: mal terminamos de falar, ela passa a conversar sobre algo totalmente diferente, como se nada tivesse acontecido.

3/11/1913 | Uma caminhada

Eu lhe explico que, como médico, gostaria de saber o que realmente se passa com ela, que na escola nunca presta atenção, em casa fica sempre sonhando e, à noite, permanece tanto tempo acordada. Ela se mostra disposta a falar mais sobre o assunto. Responde que raramente sonha quando dorme, mas, espontaneamente, passa a me contar que sonha acordada, principalmente na cama, à noite. São tantos pensamentos diferentes… Ela se esforça para ter pensamentos agradáveis — por exemplo, na escola (“agradáveis” pode ser um eufemismo para “permitidos”) —, mas sempre surgem pensamentos feios que se misturam com aqueles. Em resposta a uma sugestão minha, ela disse que sabia muito bem que poderia pensar em algo alegre, por exemplo, nos presentes que queria ganhar no aniversário, mas, aí, apareciam essas coisas desagradáveis das quais não conseguia se livrar. Sempre vinham três pensamentos (com visível tensão):

1 | Algo a ver com macacos: como se houvesse um alçapão no chão de seu quarto e, abaixo dele, houvesse macacos, que lhe pudessem fazer alguma coisa.

2 | Ela pensava em uma chama que poderia de repente emergir do chão.

3 | Do terceiro pensamento, ela não conseguia se lembrar.

Nesse ponto, lhe explico, em poucas palavras, como funciona o método. É evidente que ela sabe que não há macacos. Mamãe já lhe havia dito que um incêndio em seu quarto era impossível, uma vez que não havia nenhum fogão, nem gravetos de madeira — apenas aquecimento central e luz elétrica. Apesar dessa explicação, ela continuou tendo esses pensamentos.

KA – Você por acaso está com medo [Angst]?

HA – Com medo? Bem, não exatamente. Mas você sabe que não sou tão valente quando penso naquela chama. (Isso era, evidentemente, um passo anterior para fobias. Aos 3 anos de idade, por pouco tempo, Hilda sofreu de uma fobia de moscas e lagartas).

De repente, ela se lembra que também pensa em gigantes, dos bem grandes; não altos como homens, mas daquela altura – disse, apontando os cabos do bonde. No entanto, ela sabe que os gigantes só existem nos contos de fadas. Então, mostro-lhe que, na realidade, sabemos que gigantes não existem e que macacos não moram na casa, logo, não há razão para ter medo. Provavelmente ela estava pensando em alguma outra coisa que realmente lhe dava medo. Várias vezes eu ouvira falar em sonhos de crianças no quais um cachorro despertou angústia [Angst], mas, na verdade, o cachorro representava um ser humano. Imediatamente ela entende, que, de fato, temia homens, que, em suas fantasias, ela agigantava.

Nossa caminhada chega ao fim, e sugiro que continuemos a conversa no dia seguinte, em casa. Ela se recusa: “É muito chato”. Apesar disso, havia se mostrado extremamente interessada durante toda a nossa conversa. Logo, resistência.

Em sua narrativa, não há sinais de ansiedade [Angst], apenas uma hesitante incerteza.

05/11/1913

Hoje, ela logo de cara abandona a palavra “gigantes” e a substitui por “homens maus”. Volta ao assunto dos macacos e das chamas. Mamãe já lhe havia dito que não existia a possibilidade de homens maus entrarem na casa. Mas poderia haver ladrões que se movem em silêncio ou “arrombam portas”, exclama. Um ladrão (aqui, a palavra era sinônimo de “homem mau”) poderia lhe fazer algo… Poderia levá-la com ele para ver sua esposa (essa pessoa foi citada uma única vez e sem nenhum afeto). “Ele talvez queira ter uma criança”. Antes disso, ela havia mencionado que ele poderia deixá-la morrer de fome. (Isso foi, aparentemente, uma informação anteposta[2]!) Se o ladrão a levasse embora, não seria possível voltar novamente para casa.

Retoma o assunto dos macacos. O macaco (fala de apenas um, como de um único ladrão) poderia devorá-la. É enorme, assim como Missie (um chimpanzé do zoológico). Eu objetei que Missie não devorava crianças, e ela concordou com total compreensão, mas continuou compelida a pensar nisso da mesma maneira.

Enquanto ia me contando a história do ladrão, seu comportamento mudou de forma peculiar. Ela pegou meu braço, beijou a manga do meu paletó aconchegando-se nele, foi amorosa e terna em palavras e olhares, e eu tive a impressão de que havia aspectos positivos em seu medo do “homem mau”. Concluí que eu, provavelmente, devo ser ele. Apesar de muitas vezes termos sido interrompidos pelo barulho do tráfego, ela imediatamente voltou ao tema. Estava bem interessada nele e disse espontaneamente que queria ver se lhe ocorria mais alguma coisa. Quando estávamos perto de casa, pediu para que continuássemos com o tema da chama. Uma prova de que a transferência deixa seu carimbo na análise.

Quando toquei no assunto da chama, ela mostrou uma obstinada determinação em continuar acreditando que poderia acontecer um incêndio em seu quarto. Diz que a chama poderia levá-la embora (como o ladrão).

Ela mostra um excelente entendimento psicanalítico. Veio me perguntar — como fazem muitos pacientes — se eu havia escutado de outras pessoas algo da mesma natureza e o que eu tinha oferecido a elas. Respondi que as pessoas se sentiam melhor quando contavam seus pensamentos para o médico e então, à noite, podiam deitar-se na cama em paz. Depois disso, ela quis saber se eu era com meus pacientes da mesma forma que com ela. E perguntou: “Eles vêm até você com mais frequência?” (Obviamente, era um desejo de que eu passasse mais tempo com ela.)

Nota sobre o tema do ladrão: aqui, cabe lembrar uma conversa que ela havia tido com sua mãe um ano antes. Ela havia visto um surdo-mudo que se comunicava na linguagem de sinais, e isso lhe foi explicado. Primeiro, perguntou se não se poderiam remendar os ouvidos doentes do homem. Quando soube que não, perguntou se não se poderiam colocar ouvidos novos. Quando lhe disseram que era impossível substituir essas partes do corpo por outras sem danos, ela expressou a seguinte ideia: “Existem ‘homens maus’ como, por exemplo, ladrões. Então, se uma pessoa boa tiver uma mão estragada, poder-se-ia cortar a mão de um ladrão e trocá-la”. Nesse ponto, sua mãe objetou que talvez o ladrão pudesse se arrepender de seus modos e, no futuro, querer usar as mãos para trabalhar em vez de roubar. Hilda respondeu: “Mas ele ainda poderia receber a mão ruim de alguém”. “Ladrão” e “homem mau” são, então, termos idênticos. A Lei de Talião leva-me a concluir que ela mesma tem a mão que quer fazer “coisas más”. Talvez contra a mãe, em relação a quem tivera intensas fantasias de morte seis meses antes, ou contra seu pequeno irmão, para com quem mostrou hostilidade desde o começo (ela pediu à enfermeira que o afogasse no banho).

21/12/1913

Devido a circunstâncias externas, nas últimas semanas, não tivemos outra oportunidade de conversa prolongada, e as breves não revelaram nada novo.

No dia 16 deste mês, Hilda passou por uma amigdalectomia bastante severa, com anestesia de éter, e ficou mais manhosa e queixosa.

À noite, gritou repetidamente durante o sono, mas não pôde propriamente ser acordada e, apesar de não responder à nossa insistência, precisou de um ou dois minutos para dizer algo. Sem recordações disso pela manhã. Continua sem mencionar sonhos noturnos, mas, por outro lado, imediatamente voltou ao assunto de seus devaneios: um duende (indicando a altura de seu pequeno irmão) vem e a leva embora para os macacos. Os macacos podem mordê-la. (Como assim?) Ela desenhou uma linha para baixo, do peito ao abdome, no meio de seu corpo. Lembrei-a de seu medo de que outros animais também pudessem vir. Ela imediatamente respondeu: “um rato”.

O rato poderia pular da cabeceira para sua cama, rastejar por baixo dos lençóis e mordiscá-la. (Onde?) Novamente, fazendo o mesmo gesto, ela aponta em direção ao abdome. Volta ao assunto dos homens maus, que poderiam levá-la. Um homem mau poderia deixá-la passando fome, ou bateria nela, ou a levaria a um policial e lhe contaria que ela havia feito algo feio e então ele a colocaria na prisão. Um homem mau poderia dizer isso sobre uma criança, mesmo se ela não tivesse feito nada. Brevemente, expliquei, enquanto ela escutava com vivo interesse, que crianças nunca são colocadas na prisão, e então ela quer saber o que se faz com crianças que se comportam mal.

Pediu-me que confirmasse que também existem pais maus, e eu lhe disse que certamente ninguém poderia colocar na prisão uma criança que não fez nada. Prisão era apenas para pessoas que haviam feito algo errado. Disse-lhe que eu sabia que crianças às vezes pensavam que haviam feito algo feio. Ela pensava isso? Imediatamente, me assegura com ênfase que não. Retomei o tema da autocensura das crianças e expliquei sua conexão com a masturbação, que ela hoje novamente confessa e diz: “Bem, um pouco me censurei a respeito disso”. Por quê? “Bem, porque é feio fazer isso”. Ela acha que todas as crianças sabem que isso não é bonito, que é indecente. (Nós nunca usamos nenhuma dessas expressões quando falamos com ela.)

Conversamos novamente sobre suas fantasias, e ela me explicou que, antes, havia pensado nelas com prazer, mas não o fazia mais. Perguntei se agora havia se tornado metade prazeroso e metade amedrontador, e ela respondeu: “Sim, é mais ou menos isso.”

Enfatizou que os “pensamentos” lhe ocorriam mesmo quando ela tentava pensar em outra coisa. Eles vinham por si mesmos.

“Pequena Hilda ”, de Karl Abraham

por Adela Stoppel de Gueller

Escrito por Karl Abraham (1887-1925) em 1913, “Pequena Hilda: devaneios e um sintoma em uma menina de sete anos de idade”[3] é uma joia esquecida da história da psicanálise. Conhecido como “Diário de Hilda”, por tratar-se das notas do pai sobre a análise da filha quando ela estava com 7 anos de idade, foi feito nos mesmos moldes que “Pequeno Hans”, numa época em que ainda não se pensavam diferenças entre a análise de crianças e de adultos e em que muitos dos tratamentos eram conduzidos pelos próprios pais.

Além de se tratar de uma das primeiras experiências psicanalíticas levadas a cabo com uma criança, o “Diário” integra uma série, ao lado de outros relatos clínicos dessa mesma época: Hans foi analisado por Max Graf; Agathly, por Jung, em 1910; mais tarde, Fritz, por Melanie Klein, em 1919; Hermine Hug-Hellmuth analisou seu sobrinho, filho de sua meia-irmã; e Anna Freud analisou os enteados, Bob, Mabbie, Tinky e Mickey, filhos de Dorothy Burlingham, pouco tempo depois de ela mesma ter sido analisada pelo próprio pai. Na posição desses analistas, entrelaçam-se intimamente o desejo de saber e o de analisar; além, é claro, do amor paternal. O que diríamos, então, da regra da abstinência nesses tempos iniciais?

O diário de Hilda é, no entanto, o único caso dessa série em que não se dissimula a relação paterno-filial, e talvez seja esse o motivo de o texto ter permanecido inédito por 61 anos. Foi a esposa de Abraham, Hedwig Bürgner, filóloga especializada em alemão, quem guardou o diário por décadas, até que um dia o entregou à filha, que estava então em análise com Hilde Maas. Hilda, por sua vez, pô-lo nas mãos da analista, porque tinha a impressão de que seu sintoma, que ainda persistia, tivera início na infância.[4]

Seguindo os passos do pai, Hilda começou a estudar medicina e a fazer análise didática em Berlim. Por causa das perseguições nazistas, teve de interromper ambos os projetos e só conseguiu completar seus estudos na Inglaterra. Clinicou como analista didata da Sociedade Psicanalítica Britânica (British Psyco-Analytical Society) até sua morte, em 3 de outubro de 1971.

Além da biografia inacabada do pai, ela e Ernest Freud editaram a abundante correspondência (500 cartas) que Sigmund Freud e Karl Abraham mantiveram de 1907 a 1926. Sintomaticamente, algumas peças foram suprimidas; entre elas, várias em que eles discutiam os sonhos de Hilda, assim como as desavenças com Otto Rank no comitê secreto. Assim, no mesmo ato de desvendar uma correspondência íntima, Hilda omitiu fragmentos que poderiam expô-la.

Após seu falecimento, Hilde Maas entregou o Diário a Dinora Pines, uma amiga de Hilda, para que fosse publicado junto com a biografia de Karl Abraham, que a filha tinha estado escrevendo até o momento de falecer. Em 1974, ambos os textos foram editados conjuntamente, em língua inglesa, por Tom e Marion Burgner e Dinora Pines, no número 1 da Review of Psycho-Analysis, com o objetivo de se completarem mutuamente. Dois anos mais tarde, foram traduzidos ao francês e publicados como livro.[5]

Quando pedi a minhas colaboradoras Ana Beatriz Albernaz e Fabiana Bigio que traduzissem o “Diário” do inglês ao português, só tínhamos conhecimento dessas duas publicações. Foi só ao enviar o material pronto à revista Lacuna que um dos editores nos informou de que existia uma publicação na língua original, o alemão, da mesma época que a versão em francês, isto é, dois anos depois da primeira publicação em inglês. Atendendo à sua política editorial — de só publicar traduções feitas a partir da língua original —, a revista pediu uma revisão da tradução. Nos dispusemos a fazê-la, contando, para tanto, com a valiosa colaboração de Angela May. Para nossa surpresa, pudemos adquirir o livro na Amazon Books por apenas um euro, o que parece indicar, se nos guiarmos pelas regras do livre mercado, que hoje há pouco interesse pelo material. Para nós, no entanto, encontrar o “Diário” em língua alemã revigorou a pesquisa.

A criança de Abraham

Hilda era a filha mais velha de Abraham. Nasceu em Zurique, em 18 de novembro de 1906, quando o pai estava trabalhando em Burghölzli, com Bleuler e Jung, graças aos quais ele tomou conhecimento das obras de Freud. Desde bebê, passeava de carrinho com a mãe pelos jardins da clínica, lugar onde Abraham teria adorado se estabelecer. No entanto, seu espírito conciliador não combinava com a tensão crescente que havia entre Jung e Bleuler. Além disso, tendo malogrado seus esforços por uma posição melhor, Karl decidiu, em 1907, partir para Berlim, levando as marcas do mestre Bleuler, que, já influenciado por Freud, conceituara e organizara o campo da esquizofrenia. Segue-se esse rastro num de seus primeiros textos,[6] em que faz uma análise comparativa da demência precoce com a histeria segundo a mesma metodologia com que, em 1924, trabalharia a melancolia e a neurose obsessiva.[7]

O interesse de Abraham por crianças começou um ano depois de Hilda nascer. Na terceira reunião da Associação Psicanalítica de Berlim, ele apresentou um trabalho[8] em que propôs que a criança poderia ter um papel ativo de sedução com os adultos, chegando a postular a existência de um desejo inconsciente de trauma na criança. Seria esse desejo, acrescido do sentimento de culpa, que as impediria de falar. Resgatando o conceito de polimorfismo perverso de “Três ensaios” e a importância do desejo sexual na infância,[9] Abraham afirmou que esse desejo podia ter uma forma masoquista, sendo essa uma manifestação da atividade sexual infantil.[10] Distinguiu, então, essas crianças das que sofreram um trauma sexual sem ter sido responsáveis por ele: “Essas crianças podem falar livremente; não precisam expulsar a lembrança do fato de seu campo de consciência”.[11]

Assim, Abraham nos apresenta uma criança ativa e desejante, elevada à dignidade do que hoje denominaríamos sujeito, abrindo as portas para que se constitua esse novo campo de atuação da psicanálise, em que sua analisanda Melanie Klein teve um papel fundamental. Dessas proposições e do que recolhemos do Diário, podemos inferir que Abraham sustentou que o sujeito que a psicanálise se dispõe a escutar resulta de postular a realidade sexual do inconsciente, que não tem idade. Nesse sentido, Klein seguiu o caminho aberto por esse pioneiro.

Surpreende constatar que, apesar de nunca ter feito uma análise pessoal, Abraham não tenha recuado frente às proposições sobre a sexualidade infantil que Freud postulara em 1905, diferentemente de Bleuler e Jung.[12] Ele mesmo sublinha isso numa carta a Max Eitingon:

Freud dividiu seus seguidores em três graus: aqueles no mais inferior não entenderam mais que “Sobre a psicopatologia da vida cotidiana”; aqueles no segundo grau, as teorias dos sonhos e das neuroses; e aqueles no terceiro acompanham-no na teoria da sexualidade e aceitam sua extensão do conceito da libido. Ele me inclui no terceiro grau, o que é muito gratificante para mim.[13]

Abraham referiu-se a Hilda outras vezes, além do “Diário”. Primeiramente, em 1909, quando a menina tinha dois anos e quatro meses, conta numa carta a Freud que havia aplicado enemas de glicerina, referindo-se às tendências eróticas anais. Chamou-lhe atenção que Hilda não demonstrava afetos e sorria de leve durante o procedimento. Pouco depois, gravou trechos de falas registrando sua crescente relação edípica com o pai e expressões de rivalidade fraterna. Incluiu essas observações em “Children’s corner” e, mais tarde, em 1917, em “Some ilustrations on the emotional relationship of little girls to their parents” (“Algumas observações sobre a relação afetiva de meninas pequenas com seus pais”).[14] Sem mencionar que se tratava de sua filha, fala de duas meninas de 4 anos a que chama Else e Hellen.[15] Tudo indica que esta última é Hilda. Em 1913, volta a falar dela, ao referir uma criança de 3 anos que sofreu durante um tempo uma fobia de moscas e lagartas, para pensar na significação que esses pequenos animais podem ter nas fobias infantis.[16]

No “Diário”, destaca a falta de atenção, apontada pela professora quando Hilda entrou na escola. Mas é interessante notar que esse sintoma, hoje tão comum, é, já desde o título do texto, colocado ao lado da produção dos devaneios (Tagträume). Assim, Abraham deixa claramente exposta a posição psicanalítica em que o fantasiar e o sintoma aparecem como duas faces indissociáveis da mesma questão. Sua hipótese lhe dá subsídios para relacionar ambos à masturbação, de modo tal que a atividade autoerótica da criança fica sendo aquilo que põe o sujeito na tarefa de elaboração.

Assim como Hans, Hilda logo compreendeu como era fazer uma psicanálise e se dispôs a associar e contar com detalhes seus pensamentos. Ela, que via seu pai receber pacientes todos os dias, se identificou com eles e não hesitou em brincar de falar. Por isso quis saber se Karl agia com seus pacientes da mesma forma que com ela. Mas o que dizer de ser o pai aquele disposto a escutar? Que questões levanta estar ele na posição de pai e analista?

Na introdução à primeira publicação do “Diário”, Dinora Pines diz que, “enquanto ele podia ‘enfaticamente’ colocar o ponto de vista da psicanálise em público, em casa, Abraham partilhava as atitudes e preconceitos de sua época”. Analogamente, podemos acrescentar que, a despeito de seus artigos sobre traumas na infância e seus efeitos, no “Diário”, ele escreveu que Hilda ficou queixosa e manhosa após uma séria “amigdalectomia” e que havia notado os terrores noturnos que ela teve depois disso, mas não deu muita importância. Hilda, por sua vez, na biografia do pai, fala do trauma que ele “não conseguiu enxergar” e o associa à angustia de castração que despertara: “Pai, não vês que estou queimando?”

Foi só em 1920, no Congresso Internacional da Haia, que Hermine Hug-Hellmuth questionou que os pais analisassem os filhos. Contestou o que Freud afirmara no caso Hans — que seria bom que o pai e o analista fossem a mesma pessoa — com o argumento de que os filhos jamais revelariam seus desejos e pensamentos mais íntimos aos pais. Implicitamente, esse questionamento se aplicava à apresentação que Melanie Klein fizera do caso Fritz, um ano antes, e também à análise que Anna Freud tinha acabado de fazer com o pai.

Enquanto para Freud era conveniente reunir a autoridade e a confiança numa única pessoa, já que essas condições eram necessárias para o estabelecimento da transferência, Hermine apontava que essa mesma condição poderia ter um efeito inibidor. O que se estava discutindo? Propomos três alternativas possíveis:

  • que os filhos não revelariam seus desejos aos pais para preservar sua subjetividade, como afirmara Hermine;
  • as resistências que necessariamente surgiriam nos pais ao analisar os filhos; ou
  • que dessa junção só poderia resultar uma análise de cunho educativo.

A primeira impressão que nos dão essas histórias dos primórdios é que estamos diante de uma cena incestuosa e, por aí, nos encaminhamos a pensar no excessivo poder que resulta da junção da confiança com a autoridade parental. Assim, a posição de Hermine nos poderia levar a pensar que, evitando falar, as crianças estariam colocando uma barreira que os pais deveriam instaurar e ultrapassaram. O silêncio das crianças seria, pois, uma manifestação ativa, um modo de se defender da excessiva autoridade parental.

Em outra direção, podemos pensar que são os pais que ficam expostos ao oferecer sua escuta, já que dão aos filhos a possibilidade de destituí-los do lugar de Todo Saber. De fato, a curiosidade que deixariam ver ao supor que o saber está nos filhos os fragilizaria. Por isso, em outro momento, nos perguntamos: esses casos dos primórdios terão ficado sepultados para salvar os pais?[17]

A terceira alternativa, talvez a mais freudiana, enaltece o pai e situa a criança como um ser “influenciável” sujeito a educação. Então, a análise seria possível na infância?

A jovem Hilda deixa ver claramente que nem explicações realistas como “não há macacos em seu quarto” ou sobre o simbolismo inconsciente como aplacavam sua angústia. No entanto, essas intervenções lhe permitiram avançar na análise, já que, em seguida, surgiram associações com a mãe, o desejo de ter um filho e o indicador mais precioso de um analisante[18]: o desejo de continuar a falar. Abraham reconhece aí um efeito transferencial, “uma prova de que a transferência deixa seu carimbo na análise”.

Na biografia de Karl Abraham escrita por Hilda, ficamos sabendo que, assim como Hans ficava observando carros e cavalos, a maior atração para ela e seu irmão era a estação do corpo de bombeiros que ficava em frente à sua casa. Ela conta ainda que o pai tinha criado um personagem imaginário: um bombeiro chamado Piefke, cuja função era manter a ordem familiar. Então, seria a fantasia da chama de que falava Hilda uma expressão de desejo para chamar esse bombeiro salvador, isto é, um apelo ao pai imaginário? Encontraria ela no personagem invocado por seu pai um anteparo frente ao fogo devorador do pesquisador curioso que desejava de sua filha a comprovação da teoria freudiana, ou seja, estaria ela chamando o pai simbólico? Ou, ainda, a chama ardente indicaria o intocado do pai real?

Uma letra faz diferença

Antes de concluir este breve comentário, vale a pena destacar  um erro que encontramos na tradução inglesa ao cotejá-la com o original em alemão:

Um ladrão (aqui, a palavra era sinônimo de “homem mau”) poderia lhe fazer algo… Poderia levá-la com ele para ver sua esposa (essa pessoa foi citada uma única vez e sem nenhum afeto). “Ele talvez queira ter uma criança”. Antes disso, ela havia mencionado que ele poderia deixá-la morrer de fome. (Isso foi, aparentemente, uma informação anteposta!) Se o ladrão a levasse embora, não seria possível voltar novamente para casa.[19]

O termo Vorschiebung, foi traduzido ao inglês como deslocamento [displacement], que em alemão seria Verschiebung. Vorschieben tem em alemão a conotação de “deslizar para a frente”, que aqui significaria “disfarçar”, “interpor”, e que traduzimos como “antepor”. O erro de tradução muda a operação psíquica, que transforma a fantasia de engravidar em morrer de fome. Trata-se de um deslocamento, como sugere o termo displacement, ou de uma substituição, como sugere vorschieben? Metonímia ou metáfora, perguntaríamos com Lacan?

Podemos supor que ambas as fantasias têm por trás uma teoria sexual infantil oral que põe em destaque o lugar que o bebê ocupa na barriga da mãe, por isso, ter um bebê poderia ser o oposto de morrer de fome, ou seja, de estar com a barriga vazia. A operação psíquica em questão, Vorschiebung, indicaria que “morrer de fome” se coloca à frente do desejo/temor de engravidar, encobrindo-o e sepultando-o. Se se tratasse de um deslocamento, morrer de fome seria apenas uma fantasia próxima de engravidar. Se estivesse em jogo um deslocamento (displacement), não haveria recalque; se seguirmos o termo em alemão vorschieben, sim.

Desse modo, é possível pensar que o fogo desse pioneiro da primeira geração de analistas marcou a filha com o selo da psicanálise que continua circulando, até os dias atuais, como transmissão. Eis o motivo pelo qual a tradução desse “Diário” nos parece portar um valor precioso que merece ser difundido. 

REFERÊNCIAS (comentário)

ABRAHAM, Hildegard Clara (1974) Karl Abraham: an unfinished biography. International Review of Psycho-Analysis. London, v. 1, n. 1, pp. 17-72, 1974.

_____.  (1974) Karl Abraham, Sein Leben für die Psychoanalyse: Eine Biographie. München: Kindler, 1976.

_____. (1974) Karl Abraham: biographie inachevée, précedé de “La petite Hilda”. Trad. J. Adamov. Vendôme: PUF, 1976.

ABRAHAM, Karl (1907) La experimentación de traumas sexuales como uma forma de actividad sexual. In: Psicoanálisis clínico. Trad. D. R. Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1959; pp. 35-47.

_____.  (1908) Las diferencias psicosexuales entre la histeria y la demencia precoz. In: Psicoanálisis clínico. Trad. D. R. Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1959; pp. 48-59.

_____.  (1913) Little Hilda: Daydreams and a Symptom in a Seven-Year-Old Girl. International Review of Psycho-Analysis, London, v. 1, n. 1-2, pp. 5-14, 1974.

_____. (1917) “Some Ilustrations on the Emotional Relationship of Little Girls to Their Parents”. In: Clinical Papers and Essays on Psycho-Analisys, v. 2. Trad. H. C. Abraham et al.. London: Hogarth, 1955; pp. 50-52.

_____.  (1924) Breve estudo do desenvolvimento da libido, visto à luz das perturbações mentais. In: Teoria psicanalítica da libido. Trad. C. M. Oiticica. Rio de Janeiro: Imago, 1970; p. 81-160.

_____.  (1913) Restricciones y transformaciones de la escopofilia en los psiconeuróticos; con observaciones acerca de fenómenos análogos en la psicología de los pueblos. In: Psicoanálisis clínico. Trad. D. R. Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1959; pp. 128-177.

_____.  (1917) Algunos ejemplos de la relación afectiva de las niñas con sus padres. Clinical papers and essas on psycho-analisis. Psicoanálisis y psiquiatria. Trad. D. R. Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1961; pp. 50-52.

FREUD, Sigmund (1905) “Tres ensayos de teoría sexual”. In: Obras Completas, v. VII. Trad. J. L. Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu, 1996.

FREUD, Sigmund; ABRAHAM, Karl (1965) Correspondencia Completa Sigmund Freud-Karl Abraham 1907-1926. Trad. T. Schilling. Madrid: Síntesis, 2001.

GUELLER, Adela Stoppel de. (2016) Pais da psicanálise com crianças. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental [online], São Paulo, v. 19, n. 2, pp. 225-241, 2016. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/1415-4714.2016v19n2p225.3>.

HANS, Luiz Alberto (1996) Dicionário comentado do alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago.

THOMAS, Marie-Claude (2014) Genealogía del autismo: Freud, Bleuler, Kanner. Trad. Nilda Graciela Prados. Córdoba: Babel.


* Karl Abraham. (1877-1925) Psicanalista. Nascido em Bremen, Alemanha. Pertence a primeira geração de discípulos de Freud. Presidiu a Sociedade psicanalítica de Berlim desde 1910 até sua morte e a International Psychoanalytical Association (IPA) em 1924.


** Angela May é psicóloga, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise com Crianças do Instituto Sedes Sapientiae, coordenadora do Setor clínica e Pesquisa do mesmo Departamento, membro do Espaço Potencial Winnicott.


*** Adela Stoppel de Gueller é psicanalista, Doutora em Psicologia Clínica (PUC-SP). Pós-doutora em Psicanálise (UERJ). Professora do Curso de Especialização em Teoria Psicanalítica, COGEAE-PUC-SP, e do curso de Psicanálise com Crianças no Instituto Sedes Sapientiae – SP. Autora de Vestígios do tempo. Paradoxos da atemporalidade no pensamento freudiano. (Arte &ciência, 2006). Coorganizadora de Psicanálise com crianças: Perspectivas teórico-clínicas (Casa do Psicólogo, 2008) e coautora de Atendimento psicanalítico de crianças (Zagodoni, 2011)



[1] É difícil traduzir para o português a palavra alemã Angst. Literalmente, significa “medo”. Entretanto, em português, dispomos de equivalentes como ansiedade, medo e angústia. (Ver a explicação de Luiz Hans no Dicionário comentado do alemão de Freud.) Para aproveitar a riqueza de nossa língua, no caso específico do termo Angst, optamos, ao longo do texto, pela palavra mais adequada em cada caso, de acordo com o contexto, sempre deixando Angst entre parênteses. (N. de T.)

[2] Na versão inglesa, Vorschiebung foi traduzido como deslocamento [displacement], que, em alemão, é Verschiebung. Vorschieben tem a conotação de deslizar para a frente, aqui com o sentido de “disfarçar”, “interpor”. (N. de T.)

[3] A necessidade de traduzir esse texto surgiu durante meu projeto de pesquisa de pós-doutorado na UERJ, “Escritas da clínica psicanalítica com crianças: história e transmissão da experiência”, realizado sob supervisão da Profa Dra Ana Costa e com subsídio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES. A tradução do “Diário” do inglês ao português, foi feita por Ana Beatriz Albernaz e Fabiana Bigio, que me acompanharam nesse longo percurso. A elas, minha mais profunda gratidão.

[4] Durante a adolescência, Hilda já havia feito um tempo de análise com Van Ophujsen, psicanalista pioneiro nos Países Baixos, fundador da Sociedade Psicanalítica Holandesa.

[5] ABRAHAM, Hildegard Clara (1974) Karl Abraham: biographie inachevée, précedé de “La petite Hilda”. Trad. J. Adamov . Vendôme: PUF, 1976.

[6] ABRAHAM, Karl (1908) “Las diferencias psicosexuales entre la histeria y la demencia precoz”. In: Psicoanálisis clínico. Trad. D. R. Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1959; pp. 48-59.

[7] ABRAHAM, Karl (1924) “Breve estudo do desenvolvimento da libido, visto à luz das perturbações mentais”. In: Teoria psicanalítica da libido. Trad. C. M. Oiticica Rio de Janeiro: Imago, 1970; pp. 81-160.

[8] ABRAHAM, Karl (1907) “La experimentación de traumas sexuales como una forma de actividad sexual”. In: Psicoanálisis clínico. Trad. D. R. Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1959; pp. 35-47.

[9] FREUD, Sigmund (1905) “Tres ensayos de teoría sexual”. In: Obras Completas, v. VII. Trad. J. L. Etcheverry  Buenos Aires: Amorrortu, 1996.

[10] ABRAHAM, K. “La experimentación de traumas sexuales como una forma de actividad sexual”. In: Psicoanálisis clínico. Trad. D. R. Wagner Buenos Aires: Hormé, 1959; pp. 35-47

[11] ABRAHAM, K. “La experimentación de traumas sexuales como una forma de actividad sexual”. In: Psicoanálisis clínico. Trad. D. R. Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1959; p. 41.

[12] As posições de Bleuler e Jung em relação à sexualidade infantil, particularmente em relação ao conceito de autoerotismo e sua transformação em autismo, podem ser acompanhadas em THOMAS, Marie-Claude (2014) Genealogía del autismo. Freud, Bleuler, Kanner. Trad. N. G. Prados. Córdoba: Babel.

[13] ABRAHAM, Hildegard Clara (1974) Karl Abraham: an unfinished biography. International Review of Psycho-Analysis, London, v. 1, n. 1, 1974; p. 35.

[14] ABRAHAM, Karl (1917) Some ilustrations on the emotional relationship of little girls to their parents. In: Clinical Papers and Essays on Psycho-Analisys, v. 2. Trad. H. C. Abraham et al.. London: Hogarth, 1955.

[15] Sabemos hoje que a irmã de sua esposa se chamava Else.

[16] ABRAHAM, Karl (1913) “Restricciones y transformaciones de la escopofilia en los psiconeuróticos; con observaciones acerca de fenómenos análogos en la psicología de los pueblos”. In: Psicoanálisis clínico. Trad. D. R. Wagner. Buenos Aires: Hormé, 1959; pp. 128-177.

[17] GUELLER, Adela Stoppel de (2016) Pais da psicanálise com crianças. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental [online], São Paulo, v. 19, n. 2, pp. 225-241, 2016. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/1415-4714.2016v19n2p225.3>.

[18] Neologismo proposto por Lacan para substituir o termo paciente e indicar o lugar ativo de quem está em análise.

[19] ABRAHAM, Hilda (1976) Karl Abraham, Sein Leben für die Psychoanalyse: Eine Biographie. München: Kindler.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | ABRAHAM, Karl Abraham (1976) Pequena Hilda: devaneios e um sintoma em uma menina de 7 anos [Trad. A. May]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -5, p. 7, 2018. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2018/06/04/n05-07/>.