Editorial

Poderíamos definir despretensiosamente o “óbvio” como “aquilo que já não é mais segredo para ninguém”. A obviedade é como um terceiro tempo da revelação do segredo, que se deriva de um primeiro impacto imediato, o fascínio retumbante, seguido de uma paciência prolongada, uma certa etapa de absorção, de assimilação. Quando se intercepta o que se intencionou trancado a sete chaves, olhar para trás e para os lados se impõem enquanto improrrogáveis. O legado é um chão de terra por onde se caminha. E é por isso que toda vanguarda digna de tal epíteto terá, necessariamente, os pés sujos de barro.

Passam-se oitenta anos da morte de Sigmund Freud. O exílio, a intolerância, a guerra e o sectarismo seguem sendo como câncer golpeando as mandíbulas, na transformação da vida em agonia. Não há comparação que não seja irresponsável, é certo, mas haveria irresponsabilidade maior do que se isentar de comparar? Novas frentes de leituras lançam luzes sobre autorias deslocadas do centro. É preciso redescobrir as vizinhanças. Se ainda não parece óbvio à primeira vista, que venham os primeiros passos: elas estão mais perto do que supomos quando olhamos muito na vertical, seja para céu ou para o próprio umbigo, e mais ainda quando nos dispomos a caminhar.

Não é de hoje que a história vem dando o seu recado: tirar mais lições, dar menos lições. Sujar os pés de barro. Tempos de luta são, também, tempos de humildade.