O “Escritos” de Lacan revisitado: sobre a escrita como objeto de desejo

[Lacan’s Écrits revisited: on writing as object of desire]

por Dany Nobus

Tradução | Paulo Beer

Talvez fosse um caso patente de ressonância morfogênica avant la lettre. Talvez fosse uma mera ocorrência de simples sincronicidade não causal. Mesmo se, em 15 de novembro de 1966, a alma não morta de Carl Gustav Jung tivesse sussurrado tão sutilmente nos ouvidos de Rupert Sheldrake, com a psicologia analítica gradualmente parindo causação formativa, o fato é que essa memorável terça-feira foi o dia de três choques grandiosos – dois deles planejados cuidadosamente, um terceiro certamente não planejado, dois programados e avidamente esperados, um terceiro totalmente inesperado, ainda todos os três igualmente memoráveis e importantes. Nas primeiras horas da manhã, o vôo de carga Pan Am 708 indo de Frankfurt a Berlim caiu em sua aproximação inicial no que era então a Alemanha Oriental, a 15 quilómetros da pista de pouso no aeroporto de Tegel, matando todos os seus três membros da tripulação. Mais ou menos 16 horas depois, a nave espacial americana Gemini 12 caiu nas águas do Atlântico do Norte, menos de 5 quilómetros de seu alvo, após o quê, os dois membros de sua tripulação foram resgatados por um porta-aviões americano. Ambos eventos foram manchetes de jornais ao redor do mundo no dia seguinte, ofuscando totalmente o terceiro acidente, ainda que em muitos sentidos o último fosse se mostrar igualmente importante e consequente. Se há alguma verdade no retrato lírico de Paris acordando às 5 da manhã feito por Jacques Dutronc, o terceiro provavelmente já tinha acontecido na capital francesa um bom tempo antes da aurora, ainda que, várias outras cidades nas províncias e ao redor da Europa não tivessem sido poupadas do tremendo impacto de um enorme peso de porta, pousando em grandes quantidades e colonizando grandes pedaços de precioso espaço de prateleiras. Até onde eu sei, quando a colossal bomba de dispersão de papel chamada Écrits[1] aterrissou nas livrarias em 15 de novembro de 1966, ela não causou nenhuma baixa, ainda que ninguém pudesse ter previsto o disparo de um pequeno tsunami intelectual, ao menos no mundo francófono, cuja marola ainda seria sentida cinquenta anos depois[2].

Por todos seus conteúdos explosivos e seu tamanho imenso, os Escritos de Jacques Lacan teriam parecido surpreendentemente sem graça para qualquer um que ousasse se aproximar e reunisse forças para pegá-lo. Branco como um pecado mortal graciosamente perdoado, sem imagem ou pintura provocando ou atiçando o leitor, era como se o pesado tomo tivesse medo de se mostrar, desenhando um véu de marfim sem adornos sobre sua unicidade pesada, convencendo as mãos curiosas a procurarem por sinais do que se tratava em outro lugar, ou forçando olhos escrutinadores a discernirem a si mesmos no espaço central da tela branca de papel. Convidando tanto à projeção como à reflexão, a capa incomodamente vazia do volume foi o equivalente intelectual dos homens estudados à abertura cortada com a folha espelhante que o Uriah Heep usaria em seguida em seu terceiro álbum de estúdio, ou talvez mais apropriadamente ao encarte totalmente branco que os fab four usariam, quase exatamente dois anos depois, em seu marcante nono lançamento. Igualmente incomum para um livro, sua capa mostrava o nome de seu autor duas vezes, uma em cima e outra embaixo, uma vez em vermelho e outra em preto, uma vez na mesma fonte grande como o nome da editora, e uma vez em uma fonte menor, bem acima do nome da editora – o nome do autor então repetido, embora não exatamente do mesmo modo, como se uma menção não tivesse sido suficiente enquanto um index da propriedade autoral e intencionalidade.[3]

Mais que qualquer outra capa, esse letreiro duplamente inscrito infestando as livrarias francesas naquele fatídico 15 de novembro, provavelmente teria instigado um virar involuntário, da frente ao fundo num rápido e fácil truque de mãos. Ali, no que os franceses chamam “la quatrième de coverture”, e que é designado em inglês de modo mais prosaico como contracapa, mais brancura esperava, ainda que com um título duplicado e em outras cores e uma epítome anônima, o qual era tanto uma injunção explícita para o leitor, quanto uma descrição sucinta da razão de ser do volume. Virando o livro do outro lado, como um observador despretensioso olhando os títulos das músicas de um álbum após ter admirado sua capa, é isso que mentes interessadas, intrigadas ou confusas descobririam.[4]

É preciso haver lido essa coletânea, e em toda a sua extensão, para perceber que nela prossegue um único debate, sempre o mesmo, o qual, mesmo parecendo marcar época, pode ser visto como o debate das luzes.

Pois há um âmbito onde a própria aurora tarda: aquele que vai de um preconceito, do qual a psicopatologia não se desvencilha, à falsa evidência da qual o eu se autoriza a pavonear a existência.

Lá, o obscuro passa por objeto florescendo a partir do obscurantismo que ali encontra seus valores.

Não há então surpresa alguma que lá mesmo se resista à descoberta de Freud, expressão que se estende aqui por uma anfibologia: a descoberta de Freud por Jacques Lacan.

O leitor aprenderá o que disso se demonstra: o inconsciente deriva do que é puramente lógico, em outros termos, do significante.

A epistemologia aqui sempre fará falta, caso não parta de uma reforma, que é subversão do sujeito.

O advento não pode se produzir a partir daí senão realmente e em um lugar que no presente os psicanalistas ocupam.

É a transcrever essa subversão, do mais cotidiano da experiência deles, que Jacques Lacan se dedica, para eles, por quinze anos.

A coisa tem para todos demasiado interesse para não provocar rumor.

É para ela não vir a ser desvirtuada pelo comércio cultural que Jacques Lacan, a partir desses escritos, faz apelo à atenção.

Correndo o risco de devanear em reminiscências autobiográficas já sempre ficcionalizadas e levemente autoindulgentes, quando assimilei essas palavras pela primeira vez no original francês, lá nas névoas do passado, em algum momento durante o outono de 1984, eu não tinha a menor ideia do que elas significavam. Mas aí de novo, como o próprio Lacan intimou no parágrafo de abertura, uma apreciação adequada da natureza e dos riscos do debate teria requerido eu ter lido o livro inteiro, do início ao fim, todas suas 900 páginas. Inquisitivo como sou, segui a exortação inequívoca de Lacan para ler. Trinta e cinco anos depois, ainda estou tão curioso quanto estava antes, e ainda estou lendo, ocasionalmente imaginando o que perdi, ou então se eu deveria reler o que já li inúmeras vezes. Com toda sinceridade, apesar das releituras intermináveis, eu ainda não posso afirmar que entendo completamente o que Lacan estava tentando transmitir aqui, de qual indústria cultural ele estava tentando resgatar sua subversão, e para qual campo persistentemente obscuro ele endereçara seu Fiat Lux.

Seja como for, a contra capa dos Escritos indica que Lacan colocou seu livro firmemente sob a égide do Iluminismo, uma declaração que muitos leitores certamente reconheceram, e provavelmente muito antes de terem escrutinado o livro de capa à capa, como supremamente irônica, dado que o que parece reinar supremo nessas 900 páginas, do início ao fim, se apresenta como sendo exatamente o oposto. Ao invés de assinalar o fim da obscuridade, e celebrar a muito esperada chegada de uma nova era, os Escritos parecem levar seus leitores numa viagem de O’Neillian ou Célinesque dentro das mais escuras profundezas da noite, em direção a uma zona hadopelágica intelectual, onde a escuridão eterna reina e onde nenhum mortal ordinário está suficientemente bem equipado para encontrar sua orientação, muito menos sobreviver.[5] Voltando à vastidão branca e vazia na capa do livro e escolhendo, como outras editoras certamente teriam feito, uma obra de arte adequada para preencher o espaço em branco – capturando um traço central do que se encontra sob a superfície, e inflamando a imaginação do leitor – não seria portanto “A liberdade liderando o povo” de Eugène Delacroix, um emblema imagético da tradição iluminista francesa, que se impõe, mas o indiscutido auge do Suprematismo, o infame “Quadrado negro” de Kazimir Malevich.

E o que devemos fazer com o peculiar título do livro? Em seu Lacan, a despeito de tudo e de todos, Élisabeth Roudinesco declarou que o exemplar de Lacan parece ambos o Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure[6] e A fenomenologia do espírito de Hegel[7] como uma síntese que constitui “o livro de fundação [sic] de um sistema intelectual”[8]. Embora eu amplamente concorde com o status que Roudinesco concede, eu respeitosamente discordo com as comparações feitas, independentemente do fato de nem o livro de Saussure ou de Hegel fazerem referência à escrita (écrit, écriture) em seus títulos. Porque, embora seja autoevidente que o livro de Saussure tenha sido escrito, ele não foi realmente escrito por ele mesmo, mas por Charles Bally e Albert Séchehaye, dois de seus estudantes, baseado em anotações de aula. Quanto à Fenomenologia do espírito de Hegel, ele foi escrito em um período muito curto de tempo, o que explica parcialmente por que a substância do livro é mensuravelmente menos desenvolvida que seu prefácio e sua introdução.

Limitando-me ao título do peso de porta de Lacan, há um pequeno punhado de livros em francês com exatamente o mesmo título (veja, por exemplo, Ensor[9]; Rigaut[10]; Malevitch[11]; Janáček[12], Munch[13]). O que une esses livros, em toda sua diversidade, é que eles geralmente se tratam de coleções póstumas de textos escritos por pessoas que são primordialmente conhecidas por outros feitos criativos (na pintura, música ou poesia, por exemplo). Em outras palavras, o título Escritos busca reter o interesse do leitor, aqui, puramente pelo fato de que o autor não é primariamente reconhecido como um escritor. Sempre que o título Escritos é empregado para descrever uma coleção de trabalhos por autores estabelecidos de ficção ou não-ficção, é geralmente expandido pela adição de um adjetivo classificatório, denotando uma qualidade unificadora dos textos apresentados, como nos Escritos de juventude de Jean-Paul Sartre[14], ou nos Escritos políticos de Victor Hugo[15]. Neste caso, Escritos não seria suficiente enquanto um nome descritivo para o conteúdo do livro, precisamente porque o autor já é conhecido principalmente por ser um escritor.

Ao simplesmente chamar o livro de Escritos, o autor, editor e editora então decidiram que o título não tinha que ser sobre qualquer coisa para que o livro fosse sobre algo específico, porque o nome do autor, que não era diretamente associado com escrita, garantia, de alguma maneira, os conteúdos do volume e o assunto em discussão. Falando sobre sua trajetória intelectual a psiquiatras em formação em Bordeaux, em 20 de abril de 1967, Lacan revelou que ele mesmo escolheu o título de seu livro:

Eu juntei algo que eu tive de chamar Écrits, no plural, porque me pareceu que esse era o termo mais simples para designar o que eu me propus a fazer. Eu juntei sob esse título as coisas que escrevi somente para anotar alguns marcadores algumas marcas, como os postes se coloca na água para atracar barcos, em o que eu venho ensinando semanalmente por vinte anos mais ou menos. . . No curso destes longos anos de Ensino, de tempos em tempos eu compunha um écrit  e parecia importante para mim colocá-lo lá como um marcador de cena em um palco, o ponto que nós atingimos em algum ano, algum período em algum ano. Então eu juntei tudo. Aconteceu em um contexto no qual as coisas avançaram desde o tempo em que eu comecei a ensinar.[16] [17]

Em 12 de maio de 1971, quando Lacan apresentou “Lituraterra” em seu seminário semanal em Paris, ele revelou ainda, para sua audiência, que seu título Escritos era, efetivamente “Mais irônico do que se supõe, já que se trata seja de relatórios, funções de congressos, seja, digamos, de “cartas abertas”, em que faço um apanhado de parte de meu ensino”[18].[19] Logo, os ensaios reunidos no Escritos supostamente caíram do ensino semanal de Lacan para psicanalistas em formação, ou mesmo de suas apresentações em conferências e suas aulas públicas, como resíduos, matérias tangíveis de um discurso efêmero, com o detalhe de que, em alguns casos, os textos foram preparados anteriormente, e com o objetivo explícito de serem lidos em voz alta.[20]

Em 9 de janeiro de 1973, logo no começo de uma aula sobre “a função do escrito” (la fonction de l’écrit) – embora esse título tenha sido adicionado posteriormente, notavelmente quando a aula foi passada a escrito para publicação – Lacan concedeu que quando era o momento de escolher um título para seu livro, ele não podia pensar em nada melhor do que chama-lo de Escritos[21]. Eu não tenho nenhuma boa razão para pensar que Lacan estava sendo dissimulado quando disse que não tinha sido capaz de pensar em algo diferente, até porque ele era bastante correto em dizer que a maior parte dos textos incluídos no livro tinham sido originalmente escritos para conferências, ou publicados como destilações meticulosas de um ou outro aspecto de seu ensino. Contudo, não tenho nenhuma dúvida em minha cabeça de que a editora aceitou a sugestão de Lacan porque eles sabiam muito bem que, no outono de 1966, ele já era suficientemente bem-conhecido – embora não como um escritor – para que esse livro de escritos achasse um público de leitores na ausência de um título mais específico, ou de fato, de que a própria falta de um título específico efetivamente aumentaria o apelo do livro, porque tanto no nome como no tamanho isso sugeriria um sumário (para usar o termo de Roudinesco) mais ou menos completo da obra do autor. Afinal, exceto pelo Apêndice I, que inclui a transcrição da apresentação do acadêmico hegeliano proeminente da França, Jean Hyppolite, sobre o artigo de Freud “A negação”[22] no seminário de Lacan em fevereiro de 1954[23], e alguns materiais auxiliares de Jacques-Alain Miller, todos os textos no livro foram efetivamente escritos por Lacan, então chama-lo de Escritos pode ter sido levemente vago e bastante pretensioso, mas todavia inquestionavelmente verdadeiro e indiscutivelmente preciso.[24]

Contudo, tudo isso não deveria nos distrair de reconsiderar a relação (e a disparidade) entre o título curto e resmungão do livro (uma única palavra) e seus conteúdos que são tudo menos curtos e resmungões (ao redor de 375.900 palavras). A primeira coisa a se notar é que Escritos, ao menos quando escritos, é visivelmente plural, e que o conteúdo do livro não só foi escrito, mas de facto inclui uma multiplicidade de textos. Qualquer um que alguma vez pegou uma cópia do livro de Lacan, seja no original francês ou traduzido, e que olhou seu índice, o qual aparece no final na edição original e (por alguma estranha razão) no começo na tradução para o inglês, terá sido capaz de notar isso, tanto que esse meu ponto provavelmente é tomado como descaradamente óbvio, na melhor das opções, e totalmente estúpido na pior. Entretanto, e distintivamente contraintuitivo como pode parecer, eu gostaria de afirmar que a multiplicidade inscrita por Lacan no título de seu livro, e que aparece tanto na frente como na parte de trás, é, de longe, o aspecto mais enganoso de seu nome. Múltiplo, plural e diverso em seu escrever, o livro é singular, monádico e unitário em sua apresentação escrita, embora isso não deva ser tomado para sugerir que seja completo, finalizado e definitivo. Colocado de outra maneira, embora o título Escritos sugira claramente sua pluralidade quando escrito, e Lacan se referiu, ele mesmo, a esse trabalho como uma coleção (um recueil) na contracapa e na introdução[25], o que aterrissou com um grande barulho nas livrarias francesas em 15 de novembro, está longe de ser uma miscelânea confusa, um buffet gaulês ou um alcaçuz intelectual de qualquer tipo. Os ingredientes de Lacan podem ter sido produzidos num período de mais de trinta anos, quando foi o momento de tirá-los de seu solo original e deixá-los suplementar, uns aos outros, num rico caldo psicanalítico, Lacan se mostrou um grande restaurateur, re-cozinhando cuidadosamente e rebalanceando sua produção diversificada para criar um plat de résistance coerente e consistente, subjugando o apetite do leitor com um prato gigantesco com muitos componentes diferentes e uma enorme variedade de sabores, dos quais nenhum deveria mostrar sua idade exata ou sua origem precisa. Écrits foi lançado em novembro de 1966, e 1966 era pra ser a hora do livro, mesmo que algumas das ideias vinham de tão antes quanto a metade dos anos 30.

Para tornar meu argumento mais persuasivo e convincente, eu posso indicar quatro traços distintos do Escritos que atraíram pouca atenção, ou, ao menos, menos interesse que seus componentes mais substanciais, como os próprio textos que o constituem. Primeiro, evitando o modelo padrão de uma compilação convencional, Lacan intercalou os ensaios selecionados com a inclusão de cinco “textos de conexão” e dois adendos, dos quais quatro são datados explicitamente de 1966, ainda que claramente escritos quando o livro estava em construção.[26] Enquanto ensaios de contextualização e historicização, esses entre textos, ou textos de ligação, funcionam como pontes conceituais entre e junto com as seções iniciais do livro, e poderiam, portanto, serem consideradas parte do cimento que mantém o edifício coeso. De fato, quando, no meio de outubro de 1966, Jacques Lacan foi apresentado a outro tão ligeiramente brilhante Jacques, e não deixou de confessar a Derrida que ele estava principalmente preocupado que sua coleção que estava para sair poderia não se sustentar (ça ne va pas tenir)[27], não se deve interpretar literalmente a trepidação de Lacan, como uma preocupação ostensivamente fútil ou desonestamente exagerada sobre a qualidade da liga, mas também e talvez mais importante, como uma aflição totalmente justificável de que seu livro não seria capaz de parar de pé, não cairia no lugar, poderia desmoronar, não se seguraria, especialmente comparado com aqueles de seus rivais ‘estruturalistas’ Lévi-Strauss[28], Foucault[29], Barthes[30], Greimas[31], Genette[32] e Todorov[33], todos que já tinham publicado trabalhos importantes em 1966, e ainda mais definitivamente comparado com aquele livro grande que elidiu nada menos que um inferno de birra – de Paul Ricoeur, Da interpretação: ensaio sobre Freud[34]. Com seus “textos de ligação”, Lacan queria garantir que seu Escritos não viraria somente uma antologia, ou o aquilo que o mundo editorial anglófono as vezes chamava de ‘um leitor’ (notem o termo), mas que ele seria reconhecido, apesar do formato, como uma monografia, em que um debate e um argumento está sendo perseguido – como Lacan lutou para enfatizar em sua contracapa.

Segundo, com algumas poucas exceções, todos os textos incluídos no Escritos foram revisados e modificados pro Lacan antes de serem reimpressos.[35] Ocasionalmente, Lacan chamou a atenção do leitor para o fato de que um ou mais parágrafos foram reescritos em 1966, como é o caso de “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, seu “Discurso de Roma” de 1953[36], ou que ele adicionou uma nota nova, como com a longa nota topológica para o texto sobre psicose[37], ainda que na maior parte dos casos as alterações tenham sido realizadas em silêncio, sem que o leitor fosse informado. Considerado o fato de que, quando Lacan aceitou sua tarefa, ele não estava somente corrigindo erros tipográficos adicionando referências, ou atualizando detalhes bibliográficos, mas modificando regularmente a textura conceitual e o escopo de seus ensaios, o leitor do Escritos então precisa saber, ainda que a maioria provavelmente não teria sabido, e muitos certamente ainda não sabem, que ela/ele está lendo ensaios cuja data de composição é de facto 1966, independentemente do fato de sua data de publicação original poder ser de trinta ou vinte anos antes.

Terceiro, além de um index de nomes e uma lista de conceitos freudianos em alemão, o Escritos continham um index de conceitos inigualável, o qual pode muito bem ainda ser único na história de publicações acadêmicas. Compilado por um normalien de vinte e dois anos chamado Jacques-Alain Miller, que se casaria com a filha mais nova de Lacan três dias antes da publicação do Escritos, esse “index classificatório dos conceitos principais” não é, por nenhum aumento imaginário, um index no sentido comum da palavra, e eu ficaria extremamente surpreso se alguém – leitor casual ou acadêmico devoto, psicanalista ou estudante – alguma vez tenha o usado dessa maneira. Como o próprio Miller indicou em uma longa clarificação para o leitor, esse “index” constituiu uma “ordem” e um “sistema” os quais, embora isso reflita uma interpretação, foram desenhados para encapsular e convergir “a uma ideologia que Lacan teoriza”[38]. Em outras palavras, se há e sempre haveria uma certa cronologia permeando a lógica e a progressão do livro de Lacan, o “index” de Miller pretendia demonstrar que os desenvolvimentos intelectuais no decorrer do tempo foram impulsionados por um conjunto sólido de princípios teóricos, cuja arquitetura ele propôs estabelecer.

Finalmente, para além da ligação física do livro e da argamassa dos textos de ligação mantendo os vinte e sete tijolos juntos, Lacan insistiu em assegurar o edifício todo com uma única pedra angular, ‘O seminário sobre “A carta roubada”’[39], tomada fora da cronologia rígida, e ela mesma extensivamente reescrita e intercalada com dois “textos de ligação” (a “De um Silabário à Posteriori” e o “Parênteses do parênteses”).[40] Como coloca Derrida, de modo tão perspicaz, em maio de 1990: o seminário de Lacan sobre “A carta roubada”, “por vir no começo, recebe assim o ‘privilégio’ (termo de Lacan) de figurar na configuração sincrônica do conjunto e então de atar o todo unido”[41][42]. Usando uma metáfora diferente, pode-se dizer que o seminário de Lacan sobre “A carta roubada” é o anel para todos governar, o anel para acha-los, o anel para trazê-los todos e na escuridão uni-los… Considerando tudo isso, eu então respeitosamente discordo dos editores de Reading Lacan’s Écrits [Lendo o Escritos de Lacan], quando eles sugerem que o Escritos não é um livro, e que o que estamos lidando é com nada mais do que uma versão alternativa de La trahison des images [A traição das imagens] de Magritte, o qual poderia ser chamado de La trahison de l’écriture” (‘The Betrayal of Writing [A traição da escrita])[43]. Escritos definitivamente é um livro, e até mesmo – como Roudinesco[44] coloca –  um Livro, em todos os sentidos possíveis da palavra. Muitos leitores podem não achar, ou experencia-lo desse jeito, ainda assim, isso não impede o desejo de Lacan de ser reconhecido enquanto tal.

Contudo, como apontei antes, o fato de que o Escritos seja claramente um livro, a multiplicidade inscrita em seu nome sendo nada mais, nada menos que um chamariz sagaz para o que é essencialmente projetado para ser um piso único de peso teórico considerável, não deveria ser entendido de forma a concluir que esse livro, simplesmente pelo fato de que ele é o que é, isso é, um livro, também seja o “artigo finalizado”, um texto definitivo, contendo tudo que deveria conter, ou tudo que Lacan queria que contivesse. Eu poderia sustentar esse ponto simplesmente, até mesmo simplisticamente, ao realçar o fato de que o título não diz, ou mesmo insinua Escritos completos, e que até 1966, Lacan já havia escrito (e publicado) muito mais do que eventualmente veio a repousar debaixo da capa do Escritos: uma série substancial de artigos psiquiátricos clínicos[45], um ampliado artigo enciclopédico sobre família[46], e vários ensaios “lacanianos” distintos, incluindo uma reflexão lógica sobre o número 13[47], um tributo a Maurice Merleau-Ponty[48], e uma homenagem a Marguerite Duras[49]. Se fosse para existir somente uma edição do Escritos, seria possível argumentar que esses textos não foram selecionados para inclusão porque, por uma razão ou outra, Lacan não os considerou suficientemente adequados, talvez por atrapalharem a “ordem”, ou mesmo colocando a coletânea em risco de desmoronar, não parando de pé, não se segurando. Ainda assim, mesmo com toda probabilidade, ao menos alguns desses textos não foram incluídos porque Lacan se esqueceu deles, ou não encontrou tempo para revisitá-los e aloca-los em seus próprios lugares no livro. Eu posso dizer isso, porque de fato há duas versões do Escritos, uma ligeiramente maior do que a outra, embora a primeira versão seja raramente, se é que seja alguma vez, mencionada. A versão a que todo mundo se refere como Escritos é a segunda versão do livro, a qual Lacan teve a oportunidade de revisar quando a primeira edição se tornou um best seller e se esgotou rapidamente. Aqueles, como a maioria de nós, que não conseguiriam colocar suas mãos na primeira edição, não saberiam que a segunda edição era diferente, porque em nenhum lugar na capa ou nas folhas finais a editora indicou se era a primeira ou segunda edição,  nem que a segunda (e mais popular) edição diferia da primeira, a edição original. Contudo, uma comparação simples do índice da primeira e da segunda edições é suficiente para verificar que a primeira edição incluía somente um apêndice (o comentário de Jean Hyppolite sobre a Verneinung de Freud) e somente um comentário de Miller, o seu “Index classificado de conceitos maiores”. Para a segunda edição, um segundo apêndice foi adicionado – um curto texto de Lacan intitulado “Metáfora do Sujeito”[50] – enquanto outro comentário de Miller, sobre as representações gráficas de Lacan, foi incluído entre o primeiro comentário e o index dos termos alemães de Freud.

Para muitos, essas observações podem ser somente uma questão de minucias históricas extremamente irrelevantes, mas para mim elas demonstram que, quando Lacan submeteu seu manuscrito original do Escritos para François Wahl – seu ex-analisando e editor designado na du Seuil, que pode ser merecidamente apelidado de “o obstetra obstinado” do Escritos – ele não considerava a compilação como completa ou definitiva[51]. Fosse esse o caso, ele não teria adicionado “Metáfora do Sujeito” quando a oportunidade de uma segunda edição ser produzida surgiu. Além disso, o fato de que, nessa segunda edição, “Metáfora do sujeito” tenha sido incluída como um apêndice ao invés de estar dentro da sequência cronológica – entre “Subversão do sujeito” e “Posição do inconsciente” – provavelmente não deve ser visto como esse texto tendo menor importância do que os outros, mas como uma decisão puramente pragmática dos editores, tomada para evitar que o volume inteiro tivesse que ser rearrumado e repaginado. O Escritos é claramente um livro então, mas também é um livro incompleto, um livro com um começo claramente identificável e cuidadosamente identificado, mas sem um final preciso, um livro que poderia até mesmo ter sido maior e mais pesado do que já é, um livro cuja finalização recua infinitamente na distância, e que só chegou a seu destino em dada forma e tamanho por questões puramente práticas, muito como a própria psicanálise.

No sentido de que muitos ensaios poderiam ter sido adicionados caso a oportunidade tivesse sido dada a Lacan, o Escritos então permanece um livro bastante aberto, ao menos no final, ainda que seja também aberto no final no sentido de que ele foi somente um resumo da jornada intelectual de Lacan até 1966, uma pontuação escrita momentânea numa trajetória intermitentemente circuitada que começou mais de trinta anos antes e que continuaria por mais quinze anos, embora ninguém pudesse prever isso naquele momento. Durante os quinze anos que se seguiram, Lacan não se envergonhou de se auto referir regularmente ao seu Escritos, ou de tecer sua própria história através e ao redor do Escritos, apesar ou talvez por causa, de sua astuta reatualização da “publication” em francês como “poubellication”. Seria fácil interpretar esse jogo de palavras como representativo da ambivalência de Lacan em relação a seus escritos publicados, ou mesmo como um indicativo de seu distanciamento, num ato linguístico próprio de auto rejeição, de sua própria publicação principal. Seja como for , eu arriscarei a afirmação oposta, notavelmente de que o trocadilho condensa, nele mesmo, uma teoria psicanalítica da escrita e transmissão (de saber) como restante, dejeto, resto e resíduo, a qual foi concebida num momento em que Lacan estaria fortemente preocupado em reunir e revisar seus textos para inclusão no Escritos, cujo nascimento foi efetivamente facilitado pelo Escritos, e que ficaria madura após o Escritos. Em outras palavras, no passo de seu título, o Escritos não continha ou sintetizava uma teoria psicanalítica da escrita que Lacan havia desenvolvido com os anos, mas esse mesmo título refocou a atenção de Lacan, e inaugurou reflexões extensivas sobre o estatuto da letra, as quais, nesse caso, representam um caráter de escrita e um texto escrito, mais do que uma carta. Em relação a seus conteúdos, o Escritos constituiu uma série integrada de marcos centrais no itinerário psicanalítico que Lacan percorreu num período de trinta anos. Em relação a seu título, entretanto, o livro abriu um horizonte completamente novo, se estendendo do significante à letra, da linguística à topologia e teoria dos nós, da fala à escrita, da transmissão oral à formalização matemática, e do logocentrismo à gramatologia.

Lacan apresentou pela primeira vez sua concepção de escrita e da letra como um excesso irredutível na sessão de 15 de dezembro de 1965 de seu seminário, quando já estava certamente profundamente envolvido na preparação do manuscrito para o Escritos[52]. Ainda assim, essa aproximação entre escrita e o objeto do desejo (a) já havia sido visada em dois dos textos que seriam incluídos no Escritos – uma vez explicitamente em “Kant com Sade”[53] e uma implícita no ‘Seminário sobre “A carta roubada”’[54] – embora o próprio Lacan não se daria conta de seus contornos no último até 1966, e então retroativamente, “em retrospectiva”, num insight instantâneo de “ação deferida”, como um “já ali” que não foi propriamente apreciado quando se revelou pela primeira vez no presente.

A teoria e a transmissão (de saber) de Lacan gira diretamente, aqui, em torno da conceitualização da letra como uma figuração do objeto a, o elusivo objeto causa do desejo[55], o qual é simultaneamente o objeto da angústia e o objeto do (mais de) gozo, e o qual o próprio Lacan designou, em dado momento, como sua única contribuição real à psicanálise[56]. Cortando uma longa e complicada história, eu me restringirei a uma recapitulação sucinta de algumas das passagens do trabalho de Lacan nas quais essa teoria da escrita como objeto do desejo toma forma, o que me seria suficiente para abrir, no caminho de uma conclusão, uma certa perspectiva sobre a transmissão da psicanálise (lacaniana), para a qual o Escritos, como todos aceitam inquestionavelmente, contribuiu massivamente – não somente durante os anos antes da publicação dos seminários, ou seja, antes de 1973, quando os primeiros seminários de Lacan foram oficialmente lançados em francês[57], mas também após, como um versátil instrumento de formação teórica, uma fonte misteriosa de sabedoria aparentemente infindável e, às vezes, como um contundente instrumento de tortura intelectual.

No começo da sessão do seminário de 9 de janeiro de 1973, depois de ter admitido que, lá em 1966, ele não podia pensar em nada melhor do que chamar seu livro de Escritos, Lacan revelou que ele estava bem consciente do fato de que esses Escritos foram largamente considerados como não fáceis de ler, ao que ele completou que era exatamente o que ele mesmo tinha pensado, ao ponto em que ele até mesmo considerou a possibilidade de que eles “não eram para serem lidos”[58]. A expressão francesa, aqui, é pas à lire, a qual também poderia ser traduzida como “para não ser lido”, “não para leitura”, ou mesmo “ilegível” e “ininteligível”. O pequeno gracejo de Lacan ressoa certamente na experiência de muitos primeiros leitores desinformados, mas mesmo o leitor maduro pode reconhecer alguma verdade nessa declaração, se apenas porque parte da prosa de Lacan for tão críptica e hermética que seja qual for a “estratégia de leitura” adotada, o cadeado continua firme em seu lugar. Não obstante, pas à lire não deveria ser tomado de modo a implicar que Lacan não queria que seu livro fosse lido, que ele não se importava se ele encontraria um público leitor, nem que ele fosse totalmente indiferente ao modo como seria lido. Seis semanas depois de dizer que seus Escritos eram pas à lire, Lacan elogiou, sem ironia, os autores de Le titre de la lettre [O título da letra][59][60], embora sem mencionar seus nomes.[61] “Se é uma questão de leitura”, ele proclamou, “eu nunca fui tão bem lido – e com tanto amor”[62]. Na contracapa do Escritos, Lacan abriu sua epítome com um imperativo direto, que era tanto uma exortação ao leitor quanto uma precondição para que a mensagem do livro chegasse a seu destino: “Il faut avoir lu ce recueil, et dans son long” (“Deve-se ler essa coletânea de ponta a ponta”). Lacan também expressou seu desejo de que o Escritos fosse lido em várias palestras e entrevistas que ele aceitou em seguida da publicação do livro. Em abril de 1967, ele disse a sua audiência em Bordeaux: “Mesmo se você não compreende muito bem, ler o que eu escrevi tem um efeito, prende seu interesse, é interessante. Não é sempre que você lê um escrito que é necessariamente algo urgente [nécessité par quelque chose qui urge], e que é endereçado a pessoas que realmente tem algo a fazer, algo não é fácil de se fazer”[63].[64] Interrogado por jornalistas italianos sobre a obscuridade do Escritos em 1974, Lacan reiterou: “Eu não os escrevi para que as pessoas compreendessem, eu os escrevi para que as pessoas lessem. O que não é nem remotamente a mesma coisa.. . . O que eu notei, no entanto, é que, mesmo se as pessoas não compreendem meus Écrits, esse último faz coisas a elas. Eu frequentemente observo isso. As pessoas não entendem nada, o que é perfeitamente verdade, por um tempo, mas os escritos fazem algo a elas.”[65].[66] O desejo de Lacan de que o Escritos fosse lido também pode ser medido por algumas das dedicatórias escritas à mão em cópias de cortesia que ele enviou para colegas e amigos. A inscrição na cópia que ele mandou para Jean Beaufret, o filósofo francês que facilitou a recepção de Heidegger na França, diz: “Puis-je espérer un autre lecteur que vous?” [Posso eu esperar outro leitor que não você?][67]. E na cópia de Maud e Octave Mannoni, ele escreveu: “Avec ça la discussion peut dépasser le verbe n’est-ce pas et même le cuir chevelu” [Com isso, a discussão pode exceder o verbo, não é mesmo, e até o couro cabeludo?][68].[69]

O desejo de Lacan de que as pessoas lessem o que ele escreveu pode ser inferido até mesmo de como ele lidou com alguns artigos específicos incluídos no Escritos. Por exemplo, na sessão de abertura do Seminário V – As formações do inconsciente, Lacan se apoiava na esperança de que sua audiência havia lido seu ensaio recentemente publicado “A instância da letra”: “Minha esperança. . . é que quem faça o esforço de escutar o que eu tenho a dizer também faça o esforço de ler o que eu escrevo, já que no fim é para vocês que eu escrevo”[70]. Como Jacques-Alain Miller coloca, na epítome de sua própria contracapa da compilação centenária dos Outros escritos de Lacan: pas à lire “é como ‘Cachorro perigoso’, ‘Entrada proibida’, ou mesmo ‘Lasciate ogni speranza’. É um desafio, feito para tentar o desejo”[71]. Pas à lire não assinala, então, ainda outra maneira de dizer que aquilo que estava incluído no Escritos deveria ser instantaneamente relegado à lixeira (poubelle), ao menos não antes de ter sido devidamente lido. Um livro intitulado “Para não ser lido” ou “Ilegível” tem mais chance de ser lido do que um intitulado “Leia-me!”, pela simples razão de que a proibição desperta o desejo do leitor de fazer exatamente o oposto.

Aqui encontramos uma primeira conexão entre escrita e desejo, impelida por um breve comentário de Lacan em janeiro de 1973, seis anos e meio depois da publicação do Escritos. Inclusive a conexão já aparece no Escritos, embora, deva-se dizer, longe de ser auto-evidente ou clara. De fato, para um livro maciço chamado Escritos, é especialmente estranho que a escrita dificilmente receba qualquer atenção detalhada, ainda mais por Lacan ter dedicado boa parte de seus anos de psiquiatra estudando e conceitualizando a função e as características da escrita (psicótica)[72], devotando parte de seus próprios escritos clínicos para a significância da (do estilo de) escrita psicótica[73], e organizando sua própria dissertação de doutorado ao redor de um caso clínico que ele acessou e abriu a partir dos escritos da paciente[74].[75] Sem dúvida, o Escritos lida consistentemente com escritos (no plural), aqueles de Freud mais do que qualquer outro, mas também os de Edgar Allan Poe, Henry Ey, Ernest Jones, André Gide, Immanuel Kant, D.A.F. de Sade e inumeráveis outros. Entretanto, além do desvelamento meticuloso de seus estilos e conteúdos, o lugar, a função e o status desses escritos, e da escrita em geral, dificilmente é um tema que atrai o interesse teórico ou clínico sobre si. Como indiquei acima, é somente no pós-jogo da publicação do Escritos, que em larga medida por causa do Escritos, por exemplo na nomeação do livro como Escritos, que a questão da escrita se tornaria, ou talvez eu devesse dizer re-tornaria, um foco central de atenção.[76]

A conexão entre escrita e (o objeto do) desejo aparece pela primeira vez no “Seminário sobre ‘A carta roubada’”, com a ressalva de que é bastante improvável para qualquer leitor ter identificado isso sem que o próprio Lacan ter mostrado o caminho, e até mesmo ter feito isso na presença de suas diretivas, que aparecem em dois bastante enigmáticos, mas ainda assim extremamente preciosos parágrafos, no final de sua abertura para o Escritos. Lacan escreveu: “Está aqui [em seu ensaio “A Carta Roubada] que meus alunos estariam corretos em reconhecer o ‘já’ [le “déjà”] . . . Pois eu decifro aqui na ficção de Poe. . . a divisão na qual o sujeito é verificado no fato de que um objeto o atravessa sem que se interpenetrem de nenhuma forma, essa divisão sendo na encruzilhada do que emerge no fim dessa coletânea que vai com o nome de objeto a (a ser lido: pequeno a). É o objeto que (cor)responde à questão sobre o estilo [o estilo de escrita de Lacan] que eu estou levantando já de saída”[77]. Traduzido para um idioma que mortais comuns possam entender, Lacan está afirmando aqui, essencialmente, que todos aqueles casos em que pessoas estiveram ardentes em demonstrar como toda a teoria de Lacan já estava contida in nuce em seus primeiros escritos, havia somente uma instância na qual esse esforço não teria sido totalmente imprudente, a saber, nas considerações sobre seu “Seminário sobre ‘A carta roubada’” como um texto que já lida com o objeto a.

Onde o objeto a pode ser encontrado, então, no “Seminário sobre ‘A carta roubada’”? Lacan não nos conta explicitamente, ainda que depois de ter persistentemente contemplado a questão no últimos trinta anos, eu ainda chego à conclusão de que não é nem no circuito da carta – sua jornada de um local a outro, do quarto da Rainha ao apartamento do Ministro à pequena biblioteca de fundo de Dupin – nem em seu suporte material, isso é, na carta ela mesma. Alusivo e oblíquo como muitas de suas declarações podem ser, Lacan não deixa dúvidas de que ele entendia a carta (a missiva) enquanto “um significante puro”[78], e seu circuito como um símile de como a cadeia significante organiza e determina a subjetividade. Se o objeto a deve ser encontrado em algum lugar em “A carta roubada”, e na leitura de Lacan dela, é precisamente nas sobras que é deixada para trás uma vez que a carta qua significante foi para outro lugar. Porque em nenhum lugar, na história de Poe, a carta viaja de um lugar para outro sem que sua existência anterior em cada lugar seja marcada por um objeto substituto, que constitui o detrito da transição da carta para outra posição. Quando o ministro rouba a carta incriminadora da Rainha, ele deixa uma “carta substituta” sem importância própria na mesa[79]. Quando Dupin astuciosamente consegue roubar a carta do apartamento do Ministro, ele deixa para trás uma carta similar no porta-cartões em cima da lareira[80]. E mesmo no momento em que Dupin entrega a carta ao delegado, é somente com a condição de que a carta deixe para trás outro pedaço de papel, um cheque contendo sua grande recompensa[81]. O que distingue essas sobras da própria carta é que o leitor sabe que alguma coisa está escrita nela – alguns rabiscos insignificantes na mão do Ministro, alguns versos de Crébillon na mão de Dupin, a quantia de dinheiro da recompensa pelos serviços de Dupin na mão do delegado. Ademais, essas sobras não entram em seu próprio circuito simbólico, na medida em que elas não viajam de um lugar a outro, logo afetando aqueles que as possuem, mas permanecendo com firmeza naqueles lugares onde elas apareceram pela primeira vez, como sobras e lembretes daquilo que esteve lá antes, e agora se deslocou.

Tão estranho como pode parecer, eu acredito que nessas três sobras escritas que Lacan reconheceu como objeto a – mesmo que depois do fato, através de um processo de ação deferida, quando escrevendo a abertura do Escritos em 1966 – como algo que cai da, e não pode ser recuperado na cadeia significante. É uma estranheza boba, porque pode-se esperar razoavelmente que a carta incriminadora opere como o verdadeiro objeto do desejo e não seus substitutos, ainda que desconsiderando o fato de que essa carta continua vazia (sua mensagem nunca é revelada) e continua a circular, a carta-objeto é muito mais uma força estrutural, simbólica, do que um objeto de desejo. Em contraste, as três sobras são peças materiais de escrita que desencadeiam e sustentam o desejo de qualquer um que cruzar com elas – o desejo da Rainha de recuperar o bem perdido, o desejo do Ministro por vingança, e o desejo de Dupin por uma recompensa adequada. As três diferentes cartas-objetos substitutas, cada uma escrita em diferentes mãos, são intrinsicamente sem valor – a Rainha está totalmente “livre para amassar” a carta do Ministro, Lacan escreveu[82]; o olhar raivoso do Ministro depois de descobrir que os versos provocativos de Dupin poderiam leva-lo a fazer o mesmo; o banco certamente destruirá o cheque de Dupin uma vez que ele for compensado – ainda que em relação a seus valores de Ersatz, que é bem menor se comparado ao valor da carta que eles substituíram, eles reforçam e mantém o desejo de seus recebedores. Em resumo, como restos materiais escritos da circulação do significante, eles não satisfazem, mas causam desejo.

O único outro lugar no Escritos onde Lacan identificou, dessa vez explicitamente, a escrita com o objeto do desejo ocorre em “Kant com Sade”[83]. Investigando como a fantasia sadeana[84]  – a fantasia de destruição absoluta e negação transcendental com a qual Sade dotou sua banda fictícia de libertinos no espaço de sua imaginação criativa e em milhares de páginas de escritos (publicados e não publicados) – pode ser aplicada ao entendimento do próprio Sade sobre a vida como um escritor, Lacan gerou um novo esquema, o qual alguns acadêmicos reconheceram como “o esquema do masoquismo”[85], mas que (num lampejo provavelmente não tão brilhante) eu preferi chamar de “esquema da razão prática de Sade”[86], de modo a atribuir a Kant e evitar que a Weltanaschauung singular de Sade fosse prontamente patologizada[87].

A relação exata entre o primeiro esquema (o da fantasia sadeana) e esse segundo esquema, e a redistribuição de termos associada, não nos interessa aqui. O que importa é que isso que Lacan alocou no lugar (e na função) do objeto causa do desejo (a) no esquema da razão prática de Sade não é nada mais, nada menos que os escritos libertinos de Sade[88], que o colocaram numa instituição psiquiátrica com o diagnóstico de “demência libertina” pelos últimos dez anos e meio de sua vida, apesar do fato de que eles somente circularam em edições clandestinas, foram proibidos de acesso público, e era amplamente entendidos como ilegíveis – pas à lire, tanto no sentido de “acesso proibido” como de “ilegível”.[89] Desse modo, “com Sade”, Lacan já havia chegado à conclusão que (o ato de) escrita funcionava fora da cadeia simbólica, e portanto fora da grade de significado, como um objeto que é tanto gratificante como dessatisfatório, e que pode, de fato, ser jogado fora ou limpado, antes ou depois de seus benefícios potenciais terem sido colhidos, por sua inscrição material, física.

O que apareceu aqui, numa pontinha de um dos ensaios mais inacessíveis do volume que não é exatamente conhecido por sua acessibilidade geral, é que a escrita, seu estilo e técnica mais do que seu conteúdo, funciona como objeto a, causa mais do que suprime desejo, se não no autor, definitivamente nos leitores, porque os força a examinar o modo como estão implicados naquilo que escolheram ler, no que eles decidiram perseguir através da leitura, ou mutatis mutandis, no que eles ignoraram ou descartaram como caindo fora de seu escopo de interesse, ou sendo indigno de maior atenção. Antecipando sua resposta aos jornalistas italianos em 1974, Lacan argumentou em “Kant com Sade” que os romances libertinos supostamente ilegíveis de Sade não somente urgiam os leitores a reexaminar suas relações com outras pessoas, como Simone de Beauvoir afirmou anteriormente[90], mas muito mais fundamentalmente que eles compeliam os leitores a investigar as relações que eles nutriam com eles mesmos. Como Lacan coloca: “[Uma] fantasia [os escritos libertinos de Sade], cuja única realidade é um discurso [como texto escrito] e o qual não espera nada de seus poderes [no sentido físico], demanda a você, em vez disso, de ajustar as contas com seus próprios desejos”[91]. Muito como os romances libertinos de Sade, Lacan disse aos jornalistas italianos em 1974 que seu Escritos podia ser ilegível, mas que na medida em que eles operam no lugar do objeto a eles também forçam seus leitores a chegar a um acordo com seu desejo.

Concluindo, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre como a teoria da escrita como objeto do desejo de Lacan também informou suas reflexões sobre a transmissão da psicanálise pós Escritos, durante os últimos quinze anos de sua carreira. Basicamente, durante esses anos Lacan ficou cada vez mais preocupado com a transmissão de seu próprio trabalho, a qual, nesse caso, não pode ser dissociada da questão da formação psicanalítica. Incomodado com o que ele percebia ser a proliferação corrente e concessão recorrente de emblemas espúrios de sucesso num sistema formal de transmissão psicanalítica, Lacan estava muito tomado por inventar uma rede regulatória alternativa, em que analistas em formação não receberiam acesso à profissão na base de terem demonstrado seu entendimento da teoria e técnica psicanalíticas numa série de ensaios e apresentações de caso ou – Deus nos livre – depois de serem “reconhecidos” como praticantes adequados por um corpo profissional. Nesse contexto preciso, precisamos situar sua proposta enormemente controversa do passe[92], que foi formulada menos de um ano depois da publicação do Escritos, como uma tentativa de substituir a voz monolítica e unificada do mestre que dá sua benção aos novos iniciados, com um carnaval proto-Bakhtiniano de enunciados interpenetrantes (uma heteroglossia formal), mas também (tão estranho como parece) como um esforço de capturar a transmissão do objeto a, de seu lugar enquanto produto-perda no discurso do mestre a seu lugar enquanto semblante-agência no discurso do analista[93]. Nesse contexto preciso, também precisamos averiguar a partida progressiva de Lacan desde a fala e a linguagem, enquanto os veículos de transmissão de conhecimento preferidos, em direção aos horizontes matemático e topológico de um novo tipo de formalização, no qual a escrita e o escrito seriam colocados no palco central. Se ele foi bem-sucedido nesse projeto “gramatocentrico” é outra questão, e o próprio Lacan parece ter ficado cada vez mais desanimado em relação ao valor dessa nova abordagem. Durante seu tradicional discurso de encerramento da conferência anual da École freudienne de Paris em julho de 1978, o qual notavelmente focou na questão da transmissão, ele confessou: “Como eu penso a respeito agora, a psicanálise não pode ser transmitida… Cada psicanalista é forçado… a reinventar a psicanálise… Eu tentei, de toda forma, dar um pouco mais de substância a isso; e é por isso que eu inventei um certo número de escrituras [c’est pour ça que j’ai inventé un certain nombre d’écritures]”[94]. Em retrospectiva, pode-se dizer que é por isso que ele publicou um certo número de Escritos, de fato não mais que um.

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* Dany Nobus é professor de psicologia psicanalítica na Universidade Brunel de Londres e psicanalista. Ex-presidente do Museu Freud de Londres e fundador do Conselho Britânico de Psicanálise. Ao longo dos anos, ocupou cargos de professor de sociologia na Universidade de Massachusetts-Boston e em psiquiatria na Universidade Creighton. Ele é autor de inúmeros livros e artigos sobre história, teoria e prática da psicanálise, sendo o mais recente The Law of Desire: On Lacan’s ‘Kant with Sade’ (Palgrave 2017). Em 2017, ele foi agraciado com a Medalha Sarton pela Universidade de Gent por suas contribuições excepcionais para a história da psicanálise.

** Paulo Beer é psicanalista, mestre e doutorando no Departamento de Psicologia Social da Universidade de São Paulo. Membro do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip-USP), membro do conselho da Sociedade Internacional de Psicanálise e Filosofia (SIPP-ISPP) e coordenador do Núcleo de Estudos e Trabalhos Terapêuticos (NETT). Autor de “Psicanálise e ciência: um debate necessário” (Blucher, 2017) e editor de Lacuna: uma revista de psicanálise.



[1]LACAN, Jacques (1966a) Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

[2] Segundo a revista francesa semanal de notícias Le nouvel observateur, 5.000 cópias dos Escritos foram vendidas na primeira quinzena, antes que qualquer resenha do livro tenha aparecido na imprensa (Loriot, P. [1966] “Satisfaction au Seuil”, Le nouvel observateur, 30 novembre-6 décembre, p. 37.). No primeiro volume de seu monumental A história do estruturalismo, François Dosse reporta que até 1984, as vendas dos Escritos já tinham excedido mais de 36.000 cópias (DOSSE, François [1991], História do Estruturalismo. Vol. 1: O campo do signo (1945-1966). Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Ed. Unesp, 2019). Até 1993, quando Élisabeth Roudinesco publicou sua bibliografia intelectual de Lacan, o volume único tinha vendido mais de 50.000 cópias, enquanto os dois volumes da edição de capa mole (LACAN, Jacques [1970] Écrits I, Paris: du Seuil. 1970 e LACAN, Jacques [1971], Écrits II, Paris: du Seuil.), que inclui uma seleção generosa de ensaios recém revisados extraídos do volume único, havia alcançado vendas de mais de 120.000 para o primeiro e 55.000 para o segundo (ROUDINESCO, Élisabeth [1993] Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. Editora Companhia das Letras, 2016). Em contraste, a truncada edição inglesa dos Écrits, publicada em 1977 sob o prestigioso selo Tavistock (LACAN, Jacques [1977] Écrits: A Selection. Tradução de A. Sheridan. London: Tavistock) falhou em atrair um grande número de leitores, com a repercussão inevitável de que a editora declinou em aceitar qualquer outra tradução de Lacan (SMITH, G. [1981] Letter of 2 October 1981 to John Forrester, John Forrester Papers, unlisted collection, Albert Sloman Library, University of Essex). Falando em uma conferência de imprensa em Roma em 29 de outubro de 1974, Lacan assumiu, ele mesmo, que o sucesso do dia pra noite de seu Écrits foi uma surpresa total para ele, e que ele não entendia como isso podia ter acontecido (LACAN, Jacques [1974] O triunfo da religião, precedido de discurso aos católicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005; pp. 53-85).

[3] De maneira interessante, os dois volumes da edição de capa-mole foram (re-)relançadas com inúmeras capas diferentes ao longo dos anos, indo de círculos abstratos com faixas diagonais [band sinisters] a fotografias do próprio Lacan, esta novamente dobrando o nome do autor, embora agora com uma imagem de sua pessoa.

[4] Essa epítome não foi incluída na tradução para o inglês dos Escritos de Lacan (LACAN, Jacques [1966d]) Écrits (B. Fink, Trans.), New York NY-London: W. W. Norton & Company, 2006.), e até onde eu sei, nunca foi disponibilizada em inglês em nenhum lugar. O texto fornecido aqui foi originalmente traduzido pelo Bruce Fink para sua tradução completa para o inglês dos Escritos, e sou grato a ele por disponibilizá-la para mim [na presente tradução, esse é o texto que consta na tradução oficial para o português]. Mesmo que esse resumo tenha sido escrito em terceira pessoa e não carregue o nome de um autor, Lacan sanou qualquer dúvida sobre ele mesmo tê-lo escrito na sessão de 12 de maio de 1971 de seu seminário De um discurso que não fosse semblante, assim como na versão publicada do ensaio intitulado “Lituraterra”, o qual ele leu nessa ocasião. Na sessão do seminário, ele declarou: “Quanto a mim, se eu proponho o texto de Poe [o conto de Edgar Allan Poe de 1844 “A carta roubada”], com tudo que há atrás dele, para a psicanálise, é precisamente na medida em que a psicanálise não pode abordar isso sem mostrar seu fracasso. É assim que eu jogo luz na psicanálise, e isso já é sabido, porque está na parte de trás de meu volume [Escritos], como dessa maneira eu também invoco o Iluminismo” (LACAN, Jacques [1970-71], O seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009). Em “Lituraterra”, essas frases aparecem como: “Quanto a mim, se proponho à psicanálise a carta como retida [en souffrance], é porque nisso ela [a psicanálise] mostra seu fracasso. E é deste modo que a esclareço: quando invoco então as Luzes, é por demonstrar onde ela [a psicanálise] faz furo” (LACAN, Jacques [1971] “Lituraterra”. In : Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003; pp. 17). Em todo esse ensaio, todas as traduções de fontes de línguas estrangeiras foram feitas pelo autor, exceto os textos com tradução já disponível em português.

[5] Vale ressaltar aqui, que a inacessibilidade dos escritos lacanianos não é uma característica cultural ou historicamente contingente, condicionada por circunstâncias específicas, como o leitor não ser francês ou não ser psicanalista, mas uma característica imanente, que foi reconhecida em igual medida pelos contemporâneos de Lacan e até pelas pessoas de seu círculo íntimo. Por exemplo, em 26 de novembro de 1953, Daniel Lagache, o presidente na recém estabelecida Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP), escreveu a carta para seu amigo Michael Balint em que comentou sobre o relatório de Lacan na conferência inaugural da SFP em Roma: “Em geral, o relatório foi considerado difícil de ler, mas ele ainda assim contém ideias interessantes e até importantes. Espero fazer uma transcrição despoetizada e mais conceitual, e distribuir essas ideias a uma audiência mais ampla” (LAGACHE, Daniel [1953] Letter to Michael Balint of 26 November 1953, Michael Balint Papers, Archives of the British Psychoanalytical Society, London.). Muitos anos depois, Claude Lévi-Strauss contou a Didier Éribon, numa entrevist,a que ele muitas vezes discutia a questão de ler Lacan com Maurice Merleau-Ponty, mas que eles sempre chegavam na conclusão de que lhes seria necessário cinco ou seis leituras para entender o texto, e que o tempo era muito curto para isso (LEVI-STRAUSS, Claude & ÉRIBON, Didier [1990]. De perto e de longe. São Paulo: Cosac & Naify, 2005, pp. 109-110).

[6] SAUSSURE, Ferdinand de (1916) Curso de linguística geral. Editora Cultrix, São Paulo, 2008.

[7] HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich (1807) Fenomenologia do espírito: parte I. Petrópolis: Vozes, 1992.

[8] ROUDINESCO, Élisabeth (2011). Lacan, a despeito de tudo e de todos. Rido de Janeiro: Zahar, pp.99.

[9] ENSOR, James (1950), Écrits, Bruxelles: Sélection.

[10] RIGAUT, Jacques (1970), Écrits, Paris: Gallimard.

[11] MALEVITCH, Kazimir (1975) Écrits, Paris: Champ libre.

[12] JANÁČEK, Leos (2009) Écrits, Paris: Fayard.

[13] MUNCH, Edvard (2011), Écrits, Dijon: Les presses du réel.

[14] SARTRE, Jean-Paul (1990), Écrits de jeunesse, texte établi par M. Contat & M. Rybalka, Paris : Gallimard.

[15] HUGO, Victor (2002) Écrits politiques, Paris: Le livre de poche.

[16] LACAN, Jacques (2006) “Lugar, origem e fim do meu ensino”. In: Meu ensino; pp. 60-61.

[17] Lacan enfatizou que o título é no plural, porque a última letra ‘s’ da palavra Écrits é muda quando falada, e o plural somente seria ouvido quando a palavra é precedida por um pronome possesivo, como em ‘més Écrits’ ou ‘nos Écrits’.

[18] LACAN, Jacques (1971) “Lituraterra”. In : Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003; pp. 16.

[19] Lacan já havia argumentado algo similar em uma carta a Winnicott de 5 de agosto de 1960, e portanto quase 6 anos antes da publicação do Escritos: “Tudo o que eu escrevi nos últimos sete anos tem valor somente no contexto do meu ensino” (LACAN, Jacques (1960) Carta a Winnicott. In: Boletim da APPOA. O Infantil. Ano II N6, 1990, pp. 77).

[20] Isso se aplica, por exemplo, à “Formulações sobre a Causalidade Psíquica” (LACAN, Jacques [1947] “Formulações sobre a Causalidade Psíquica”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pág. 102-196.), “Intervenções sobre a transferência” (LACAN, Jacques [1952] “Intervenção sobre a transferência”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 214-225), “[A] psicanálise e seu ensino” (LACAN, Jacques [1957b] “A psicanálise e seu ensino”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 438-460) e “A significação do falo” (LACAN, Jacques [1958] “A Significação  do Falo”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 692-703). A admissão de que seu escritos era sobras, ou de fato “resto de produtos” de suas aulas, também encorajou Lacan a se referir, em várias ocasiões, à publicação do Escritos como “poubellication”, algo como “lixificação”. Ver, por exemplo, Lacan ([1965-’66] Le Séminaire XIII, L’objet de la psychanalyse, não publicado, sessão de 15 de dezembro de 1965), Lacan ([1968] “A psicanálise. Razão de um fracasso”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003; pp. 344) e Lacan ([2011] O Seminário, livro 19:… ou pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012, pp. 183).

[21] LACAN, Jacques (1975), O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

[22] FREUD, Sigmund. (1925). A negação. São Paulo: Editora Cosac Naify. 2014; pp. 235-239.

[23] HYPPOLITE, Jean (1956d) Comentário sobre a Verneinung de Freud. in LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998 ; 843-902.

[24] O texto de Hyppolite foi originalmente publicado no primeiro volume da revista “La psychanalyse” (HYPPOLITE, Jean [1956], “Commentaire parlé sur la Verneinung de Freud”, La Psychanalyse, 1 ; pp. 29-40). Seguindo sua inclusão nos Escritos de Lacan, ele foi reimpresso no primeiro volume da coleção de escritos de Hyppolite, que foi publicado três anos depois de sua morte com o subtítulo escritos (HYPPOLITE, Jean [1956b], “Commentaire parlé sur la Verneinung de Freud”, in Figures de la pensée philosophique. Écrits 1931-1968. Tôme 1, Paris: Presses Universitaires de France, 1971 ; pp. 385-396). Fora a tradução para o inglês incluída nos Escritos de Lacan, outra tradução para o inglês, por John Forrester, consta como um apêndice para a tradução inglesa do Seminário I de Lacan (HYPPOLITE, Jean [1956c], “A spoken commentary on Freud’s Verneinung”, in Lacan, Jacques. The Seminar book 1, Freud’s papers on techniques (1953-1954). Tradução de John Forrester. Cambridge: Cambridge University Press, 1988, pp. 289-297), apesar do fato de que não aparece na edição francesa original.

[25] LACAN, Jacques (1966a) Écrits, Paris: du Seuil.

[26] Somente cinco desses sete textos estão incluídos no índice do livro, onde, em ambas as edições em inglês e em francês, eles foram colocados em itálico. Deve-se notar que não estou me referindo aos apêndices aqui, os quais devem ser considerados separadamente. Também não estou contando a introdução de 1966 a “Posição do inconsciente” (LACAN, Jacques [1966a] Écrits, Paris: du Seuil.).

[27] DERRIDA, Jacques (1996) Resistances of Psychoanalysis (P. Kamuf, P.-A. Brault & M. Naas, Trans.), Stanford CA: Stanford University Press, 1998.

[28] LÉVI-STRAUSS, Claude (1966). Do mel às cinzas (Vol. 2). São Paulo: Editora Cosac Naify, 2004.

[29] FOUCAULT, Michel (1966). As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins, 2007.

[30] BARTHES, Roland (1966), Barthes, R. (2007). Crítica e verdade. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Perspectiva, 2007.

[31] GREIMAS, Algirdas Julius (1966) Semântica estrutural: pesquisa de método. Tradução de Haquira Osakabe, & Izidoro Blikstein.  São Paulo: Editôra Cultrix, 1973.

[32] GENETTE, Gerard (1966), Figures, Paris: du Seuil.

[33] TODOROV, Tzvetan (1966). Teoria da Literatura-Textos dos formalistas russos apresentados por Tzvetan Todorov. São Paulo: Leya, 2018.

[34] RICOEUR, Paul (1965) Da interpretação: ensaio sobre Freud. São Paulo: Imago, 1977.

[35] As exceções são aqueles textos que não tinham sido publicados antes – “A significação do Falo” (LACAN, Jacques [1958] “A Significação  do Falo”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 692-703) e “Subversão do sujeito” (LACAN, Jacques [1960] “Subversão  do  Sujeito  e  Dialética  do  Desejo  no Inconsciente Freudiano”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 807-842) – e a transcrição de sua aula inaugural do seminário de 1965-66, que reapareceu como “A ciência e a verdade” (LACAN, Jacques [1965] “A ciência e a verdade” In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 869-8921965]). Ver, a esse respeito, o compêndio indispensável de Frutos Salvador (FRUTOS SALVADOR, Ángel de [1994], Los Escritos de Jacques Lacan. Variantes textuales, Madrid: Siglo XXI.).

[36] LACAN, Jacques (1956) “Função e Campo   da Fala   e   da Linguagem   em Psicanálise”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 238-324

[37] LACAN, Jacques (1958) “De  uma  questão  preliminar  a  todo  tratamento  possível  da  psicose”.  In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 537-590.

[38] MILLER, Jacques-Alain (1966) “Classified Index of the Major Concepts”. In Écrits (B. Fink, Trans.), New York NY-London: W. W. Norton & Company, 2006; pp. 851-857.

[39] LACAN, Jacques (1957a) “Seminário  sobre  ‘A  carta  roubada’”.  In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; p. 13-66.

[40] Nenhum deles está incluído no índice do Escritos [na versão inglesa].

[41] DERRIDA, Jacques (1996) Resistances of Psychoanalysis (P. Kamuf, P.-A. Brault & M. Naas, Trans.), Stanford CA: Stanford University Press, 1998.

[42] A palavra ‘privilégio’ aparece na abertura de Lacan para seu Escritos, mas não pode ser depois detectada na tradução para o inglês. O texto em francês diz: “Nous lui  [le lecteur] ménageons um palier dans notre style, en donnant à la Lettre volée le privilège d’ouvrir leur suite [des écrits] en dépit de la diachronie de celle-ci [de la suite] » (LACAN, Jacques (1966a) Écrits, Paris: du Seuil, pp. 9).

[43] VANHEULE, Stijn, HOOK, Derek & NEILL, Calum (eds.) (2019), “Introduction to ‘Reading the Écrits’: La trahison de l’écriture”, in Reading Lacan’s Écrits: From ‘Signification of the Phallus’ to ‘Metaphor of the Subject’, London-New York NY: Routledge, pp. xix.

[44] ROUDINESCO, Élisabeth (2011). Lacan, a despeito de tudo e de todos. Rido de Janeiro: Zahar.

[45] Ver, por exemplo, LACAN, Jacques (1931), “Structure des psychoses paranoïaques”, Semaine des hôpitaux de Paris, 14, 7 juillet, pp. 437-445 ; LACAN, Jacques (1933a), “Sur le problème des hallucinations”, L’encéphale, 8, pp. 686-695 ; LACAN, Jacques (1933b), Motivos do crime paranóico: o crime das irmãs Papin. In Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade. Trad. Aluisio Menezes, Marco Antônio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes Silveira Jr. Rio de Janeiro: Forense Universitária., 1987; pp. 25-28.

[46] LACAN, Jacques (1938), Os complexos familiares na formação do indivíduo: ensaio de análise de uma função em psicologia.  Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

[47] LACAN, Jacques (1945-‘46), “O número treze e a forma lógica da suspeita”. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003a.pp. 91-106.

[48] LACAN, Jacques (1961) “Merleau-Ponty: In Memoriam” (Tradução de W. Ver Eecke & D. De Schutter), Review of Existential Psychology and Psychiatry, 18(1-3), 1961, pp. 73-81.

[49] LACAN, Jacques (1965) Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003; 198-205.

[50] LACAN, Jacques (1961) “Apêndice II: A Metáfora do Sujeito”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 903-907.

[51] François Wahl esteve em análise com Lacan de 1954 a 1960, e também frequentou os seminários de Lacan durante esse período e por algum tempo depois. Entrevistado por François Dosse sobre seu envolvimento na produção do Escritos, ele disse: “Para ser honesto, o Escritos foi publicado por minha causa: eu me encontrei de facto numa posição central, no simples sentido topográfico da palavra” (DOSSE, François [1991], História do Estruturalismo. Vol. 1: O campo do signo (1945-1966). Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Ed. Unesp, 2019). Para uma discussão detalhada de seu envolvimento na produção do Escritos, ver Roudinesco (ROUDINESCO, Élisabeth [1993] Jacques Lacan: esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento. Editora Companhia das Letras, 2016).

[52] LACAN, Jacques (1965-’66) Le Séminaire XIII, L’objet de la psychanalyse, não publicado. Sessão de 15 de dezembro de 1966.

[53] LACAN, Jacques (1962), Kant com Sade (p. 780). In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998; p.780.

[54] LACAN, Jacques (1957a) “Seminário  sobre  ‘A  carta  roubada’”.  In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; p. 13-66.

[55] LACAN, Jacques (1963) O Seminário: livro 10, A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

[56] LACAN, Jacques (1973-’74), Le Séminaire XXI, Les non-dupes errent, não publicado.: sessão de 9 de abril de 1974.

[57] LACAN, Jacques (1973), O Seminário: livro 11–Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1979.

[58] LACAN, Jacques (1975) O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

[59] LACOUE-LABARTHE, Philippe & NANCY, Jean-Luc (1973), Le titre de la lettre. Une lecture de Lacan, Paris: Galilée, 1990.

[60] NANCY, Jean-Luc & LACOUE-LABARTHE, Philippe (1990), The Title of the Letter: A Reading of Lacan (F. Raffoul & D. Pettigrew, Trans.), Albany NY: State University of New York Press, 1992.

[61] A tradução para o inglês segue a segunda edição do livro, que foi publicada em 1990, e por alguma razão a ordem em que aparecem os nomes dos autores na capa e nas páginas finais foi invertida.

[62] LACAN, Jacques (1975) O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

[63] LACAN, Jacques (2006) “Lugar, origem e fim do meu ensino”. In: Meu ensino; pp. 9-65.

[64] Lacan chegou a afirmar que seus Escritos são, com certeza, ilegíveis (illisibes) para todos que não tem nada importante a fazer, ou que estão com pressa, e assim eles somente “fingem” tê-lo lido. Ele também apontou que esse livro não tinha atraído muitas resenhas, o que era descaradamente inverdadeiro, já que ao menos quinze haviam sido publicadas em seções de jornais especializados e numa variedade de revistas específicas até aquele momento. Para uma extensa seleção das mais importantes, ver ARNOUX, Danielle, BERREBI, Émilie, BOUDET, Monique & GERMOND, Janine (Eds) (2016) Lacan 66. Réception des Écrits. Paris: EPEL.

[65] LACAN, Jacques (1974) O triunfo da religião, precedido de discurso aos católicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005; pp. 53-85.

[66] Uma tradução para o italiano do Escritos, feita por Giacomo B. Contri foi publicada logo antes dessa conferência de imprensa. Ver LACAN, Jacques (1966h), Scritti. Tradução de G. B. Contri. Torino: Einaudi, 1974.

[67] LACAN, Jacques (1966c) Écrits, Paris: du Seuil, copy dedicated to Jean Beaufret, private collection.

[68] LACAN, Jacques (1966f) Écrits, Paris: du Seuil, copy dedicated to Maud and Dominique-Octave Mannoni, private collection.

[69] O primeiro nome de Octave Mannoni era Dominique-Octave, e ele somente usava Octave como seu nome de autor.

[70] LACAN, Jacques (1998) O seminário: livro 5-as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

[71] MILLER, Jacques-Alain (2001) “Pas-à-lire”, in J. Lacan, Autres Écrits, Paris: du Seuil, quatrième de couverture.

[72] LÉVY-VALENSI, P. MIGAULT & J. LACAN (1931), “Troubles du langage écrit chez une paranoïaque présentant des éléments délirants du type paranoïde (schizographie)”, Annales médico-psychologiques, 13(2), pp. 407-408.

[73] LACAN, Jacques (1933b), Motivos do crime paranóico: o crime das irmãs Papin. In Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade. Trad. Aluisio Menezes, Marco Antônio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes Silveira Jr. Rio de Janeiro: Forense Universitária., 1987; pp. 25-28.

[74] LACAN, Jacques (1932) Da psicose paranoica e suas relações com a personalidade. Trad. Aluisio Menezes, Marco Antônio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes Silveira Jr. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.

[75] Falando na Universidade de Yale em 1975, Lacan revelou que ele deu um lugar central ao caso de “Aimée” em sua dissertação de doutorado porque “a pessoa em questão tinha produzido inúmeros… escritos [écrits]” (LACAN, Jacques (1976) “Yale University, Kanzer Seminar”, Scilicet, 6/7, pp. 7-31).

[76] Eu não duvido que a reconsideração de Lacan da escrita durante o final dos anos 60 e 70 tenha sido também acendida pela crítica contundente de Derrida da tradição logocêntrica da filosofia ocidental, a qual, ademais, constituía o pano de fundo contra o qual Nancy e Lacoue-Labarthe fizeram sua leitura de Lacan em Le titre de la lettre. Ademais, eu deveria apontar que há inúmeras passagens no Escritos, incluindo um ensaio inteiro, em que Lacan trata do estatuto da letra, ainda que, com muitas poucas exceções, essas passagens apresentem a letra como um avatar do significante, e portanto não como uma instância ou uma agência que precisa ser diferenciada da cadeia significante. Eu formulei esse argumento pela primeira vez há mais de quinze anos (NOBUS, Dany [2002], “Illiterature”, in L. Thurston (ed.), Re-Inventing the Symptom: Essays on the Final Lacan, New York NY: Other Press, pp. 26-27), baseado em afirmações como “a letra existe como um meio de poder somente através do final conclama o puro significante” (LACAN, Jacques [1957a] “Seminário  sobre  ‘A  carta  roubada’”.  In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; p. 23) e a letra é “o meio material [suporte] que o discurso concreto empresta da linguagem” (LACAN, Jacques [1957c]”A  Instância  da  Letra  no  Inconsciente  ou  a  Razão Desde Freud”. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; pp. 413). Desde então, Tom Eyers (EYERS, Tom [2012], Lacan and the Concept of the ‘Real’, Basingstoke: Palgrave Macmillan, pp. 50-54) questionou minha afirmação de que até a metade dos anos 60, Lacan situava tanto o significante como a letra firmemente no registro do Simbólico ao argumentar que a letra era sempre a prefiguração do Real, ainda que ele só possa fazer isso ao reinterpretar o “primeiro Lacan” a partir do “último Lacan”, o que é, de alguma maneira, o que o próprio Lacan fez, embora com o maior cuidado, na abertura do Escritos. Para uma breve discussão crítica da crítica usualmente tácita que Lacan faz sobre a ênfase de Derrida na primordialidade da escrita, ver Nobus (NOBUS, Dany [2001], “Littorical Reading: Lacan, Derrida and the Analytic Production of Chaff”, Journal for the Psychoanalysis of Culture and Society, 6(2), pp. 279-288.). Para uma análise crítica extensa dos debates Lacan-Derrida, embora sem grande ênfase na desconstrução sistemática de Derrida da leitura de Lacan de “A carta roubada” em “Le facteur de la vérité” (DERRIDA, Jacques [1975], “O fator da verdade”, in Cartão Postal: de Sócrates a Freud. São Paulo: Civilização Brasileira, 2007; pp. 411-496.), ver Hurst (HURST, Andrea [2008] Derrida Vis-à-vis Lacan: Interweaving Deconstruction and Psychoanalysis, New York NY: Fordham University Press.).

[77] LACAN, Jacques (1966b) Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 4-5.

[78] LACAN, Jacques (1957a) “Seminário  sobre  ‘A  carta  roubada’”.  In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; p. 13-66.

[79] POE, Edgar Allan (1844), A carta roubada: e outras histórias de crime & mistério. L&PM Pocket, 2003; pp. 319-333.

[80] Idem.

[81] Idem.

[82] LACAN, Jacques (1957a) “Seminário  sobre  ‘A  carta  roubada’”.  In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998; p. 8.

[83] LACAN, Jacques (1962), Kant com Sade. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

[84] LACAN, Jacques (1962), Kant com Sade. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.653.

[85] FINK, Bruce (2014), “An Introduction to ‘Kant with Sade’”, in Against Understanding: Cases and Commentary in a Lacanian Key, Vol. 2, London-New York NY: Routledge, pp. 123-27.

[86] NOBUS, Dany (2017), The Law of Desire: On Lacan’s ‘Kant with Sade’, Cham: Palgrave Macmillan, p.74.

[87] LACAN, Jacques (1962), Kant com Sade. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

[88] LACAN, Jacques (1962), Kant com Sade. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

[89] Infelizmente, essa conexão entre o objeto a e os escritos libertinos de Sade no esquema de sua razão prática não é mais evidente a partir da tradução para o inglês do Escritos, porque a notação a desapareceu do texto, presumivelmente porque era considerada um index para o começo de uma enumeração que não foi continuada e, portanto supérflua. Na primeira tradução para o inglês de “Kant com Sade”, por J. B. Swenson Jr, ela foi preservada em seu lugar de direito (LACAN, Jacques (1962b), “Kant with Sade” (J. B. Swenson, Jr. Trans.), October, 51, 1989, pp. 66).

[90] BEAUVOIR. Simone de (1950-‘51), Must We Burn Sade? (A. Michelson, Trans.), in SADE, Marquis de (1950-51) The 120 Days of Sodom and Other Writings (A. Wainhouse & R. Seaver, Trans.). London: Arrow Books, 1990; pp. 3-64.

[91] LACAN, Jacques (1962), Kant com Sade. In: Escritos. Trad. Vera Ribeiro Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

[92] LACAN, Jacques (1967), Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. in Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003; 248-264.

[93] LACAN, Jacques (1969) O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

[94] LACAN, Jacques (1979) “Conclusions”, Lettres de l’École freudienne de Paris, 25, 2008 ; pp. 219.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | NOBUS, Dani (2019) O Escritos de Lacan revisitado [Trad. Paulo Beer]. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -7, p. 6, 2019. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2019/08/07/n-7-6/> .