O trans imaginário de Miller (e de alguns outros)

por Eduardo Leal Cunha & Pedro Ambra

Em 2020, o meio psicanalítico francês viveu grandes emoções por conta de um documentário exibido no canal Arte, Petite fille[1], que conta as aventuras e desventuras da pequena Sasha, uma criança que se identifica como menina, apesar de ter sido designada no nascimento, e também criada, como menino. Sasha enfrenta problemas na escola e sua história só começa a mudar com a entrada em cena de uma psiquiatra infantil que traz consigo o diagnóstico de disforia de gênero e o reconhecimento subjetivo da pequena garota a partir de sua inscrição no discurso médico.

Mais uma vez, como nos mal fadados tempos do debate sobre o PACS, a versão francesa da nossa união estável, os psicanalistas ocuparam a imprensa para alertar a todos dos perigos representados pela, apenas aparentemente, inocente ida de um “garoto” à escola usando saias. Teve “tribuna” na popular revista Marianne, muitos textos-manifestos circulando por instituições psicanalíticas, assinados por psicanalistas bem conhecidos dos brasileiros, como Jean-Pierre Lebrun[2] e, em nossa opinião, uma belíssima resposta assinada por Silvia Lippi e Patrick Manglier, cuja leitura certamente recomendamos[3].

Agora, entrando 2021, ainda sob a égide do coronavírus, é Jacques-Alain Miller que lança mais uma ofensiva — ou, melhor dizendo, uma defensiva — nas páginas virtuais de La Régle du Jeu e na edição de número 928 do Lacan Quotidien, cujo título é 2021, O ano trans, onde encontramos não apenas o texto de Miller que é objeto deste artigo, mas uma série de pequenos artigos de diversos autores da Associação Mundial de Psicanálise (AMP) e vários comentários em ressonância a entrevista de Miller com Eric Marty publicada no número anterior, que seremos levados a comentar a seguir[4].

Antes de continuar, pontuemos que tais debates podem soar a princípio distantes ou, quem sabe, restritos aos galomânos mais empedernidos. Porém, considerando a força da psicanálise lacaniana na América Latina — seja nas universidades, nas instituições e, principalmente nas Escolas de Formação — e seus compromissos transferenciais, rapidamente tal debate se espraia nos divãs, redes sociais, artigos e sociedades de psicanálise dos nossos tristes trópicos.

Em seu artigo, Miller se manifesta em relação ao que descreve como crise e revolta trans, em referência a movimentos de visibilização de experiências transidentitárias que já em 2000, há mais de vinte anos, Henry Frignet tratava por termos como epidemia. Categoria, aliás, posta novamente voga em terras brasilis, graças aos trabalhos recentes de Marco Antônio Coutinho Jorge e Natália Travassos[5]. Por muitas razões um significante, que, convenhamos, não pode ser enunciado, sobretudo hoje, sem que se considere as suas inúmeras ressonâncias no imaginário social.

Mas a que crise e a que revolta Miller se refere e por que tomá-las desta forma? Qual a estratégia em jogo e que lugar o francês inventa tanto para a psicanálise quanto para essa curiosa entidade genérica, “os trans”, performativamente instituída em seu texto? Certamente não seria aquela crise identificada por Paul B. Preciado como aquela da epistemologia da diferença sexual, já que a argumentação de Miller parece querer se esquivar da problemática da relação entre construção de conhecimento, poder e sexo. Sem esquecer que há ainda outros significantes curiosos ocupando o texto, como transe e tempestade.

É verdade que talvez nada disso deva ser levado a sério, afinal, Miller plaisante: graceja, faz troça, brinca. Afinal, se reconhece identitariamente como alguém que “não respeitava ninguém”, assim como o outro Jacques, seu mestre, que, igualmente, “debochava de tudo”. Nada é para levar a sério, nem os Wokes[6], nem o MeeToo ou a militância trans. Nos sentimos livres para pensar que, neste ponto, Miller se alinha a certo discurso, típico na direita, contra o “politicamente correto” e também contra os movimentos ditos identitários e um suposto “vitimismo” generalizado. Não será o único momento em que essa sensação aparece. Afinal, há momentos em que a menção à ficção episcopal da “ideologia de gênero” chega a aproximar enunciações de alguns psicanalistas e aquelas da direita fascista[7]. Isso para não mencionar a referência à Cuba, pintada como uma ditadura maligna que teria roubado as esperanças dos boomers do norte global, recurso barato e bem difundido em nossa direita primitiva.

Será que Jorge Alemán tem razão e Miller está realmente se transformando na “tradução lacaniana da posição política de Bernard-Henri Levy”[8], para dizer o mínimo? Algo efetivamente se passa com o herdeiro oficial de Lacan que tem feito muitos se afastarem do seu ensino e, sobretudo, das suas posições políticas, tanto no centro como na periferia, como pudemos ver com as manifestações públicas de Ian Parker e David Pavon Cuellar, não por acaso dois nomes ligados diretamente à discussão sobre os laços entre psicanálise e política, analistas preocupados com aquilo que podemos fazer quanto a este nosso mundo definido por suas desigualdades e injustiças e suas infinitas vítimas, reais, não apenas de brincadeirinhas retóricas.

Entre uma ironia e outra, Miller procura se colocar em posição altivamente distante de qualquer guerra das ideias, afirmando recusar tanto o pânico conservador de muitos dos seus colegas quanto o entusiasmo dos seduzidos pela militância — ou promessa — trans, e tranquilamente procura se instituir como representante legítimo de um saber que não se deixa abalar por polêmicas de ocasião. Costurando algumas passagens de sua vida parisiense com generalizações e sobrevoos “analíticos” da dita “crise trans”, Miller parece querer construir uma perspectiva supostamente neutra e transversal em relação às posturas reacionárias e também às críticas que recebe ou receberia de seu “trans imaginário”. Em se tratando de psicanálise, palavras importam e o autor parece expor aqui a mensagem invertida que estaria recebendo do Outrans: ao se esquivar do debate da estrutura, sobram os espantalhos projetados de um tipo de discurso reativo que, em realidade, parece estar emanando da própria psicanálise.

Em outras palavras, ao invés de uma análise, ao pé da letra, relativa às balizas simbólicas e reais aportadas pelas questões de gênero, que radicalizasse as consequências dos giros teóricos e epistemológicos ora em curso — tal como o próprio Lacan empreendera com Lévi-Strauss, Saussure, Fregue, entre outros — JAM reduz sua reflexão ao diálogo ficcional com o trans imaginário. O que não parece, no entanto, deslize ou esquecimento, mas uma lembrança de que um dos efeitos da constituição de uma alteridade imaginária planificada é o reforço especular da própria ilusão do eu: definir uma unidade nas teorias, militâncias e efeitos das questões trans visa, através do reforço de uma lógica de agressividade própria ao imaginário, no limite, a construção de uma narrativa única sobre a unidade da psicanálise de orientação lacaniana, ou, ao menos, milleriana.

Projetar na postura do outro a indisposição para o debate, além de impreciso, é neste caso revelador: grande parte do texto é dedicada a, em bom português, falar mal de Preciado e propor uma outra interpretação para o malfadado evento da sua conferência na 49º Jornada de Estudos da Escola da Causa Freudiana[9]. Mas, como nos velhos tempos, quando Jacques fala de Paul, sei mais sobre Jacques do que sobre Paul.

Poder-se-ia argumentar que o oposto é verdadeiro. Porém, lembremos que, há décadas, diversas autorias do feminismo, das teorias de gênero e queer debatem com a psicanálise, analisando — com mais ou menos rigor — nossos autores canônicos; ao passo que quando chega a hora de debatermos suas teorias e propostas de maneira mais rigorosa, erguem-se reações defensivas, galhofas, frases de efeito e argumentos de autoridade: parece que a construção do trans imaginário verte-se num transe imaginário de parte da comunidade analítica que sente-se ameaçada sabe-se lá exatamente pelo quê.

Aqui temos um ponto fundamental: pensar em que medida JAM se coloca em nome próprio ou o quanto podemos tomar o seu texto como signo de qualquer traço particular de caráter ou simplesmente da sua dificuldade em lidar com um mundo em mutação, do qual seu neto parece saber mais do que ele.

Muitos analistas seguem este caminho, até o ponto em que diremos que as fraquezas do autor não comprometem o vigor da sua obra. Mas será mesmo este o caso de Jacques-Alain Miller? Parece-nos que não, tanto por conta do suporte institucional que acompanha suas palavras, na forma de dois números do Lacan Quotidien, com muitos ecos de apoio ao mestre, quanto simplesmente pelo fato de que suas posições, ainda que postas de modo menos caricatural, não são exceção no movimento psicanalítico, como nossa rápida digressão inicial sobre o contexto francês procurou indicar. Assim, de um modo ou de outro, deslocamento metonímico ou não, quando tratamos de JAM, é da psicanálise, do seu lugar social e político na atualidade, que estamos, sim, falando.

Aliás, é precisamente quando o próprio Lacan questiona o binarismo de suas fórmulas da sexuação, ao enunciar que o ser sexuado se autoriza de si mesmo e de alguns outros, que vemos retornar em seu ensino a dimensão coletiva não apenas na instauração do processo de sexuação, mas igualmente na formação de analistas[10]. Ocorre que às vezes alguns outros são mais outros que alguns: autorizar-se, enquanto um chefe de escola que representa ainda hoje uma suposta ortodoxia lacaniana, a deflagrar um conflito com vivências, grupos sociais e discursos altamente heterogêneos a partir de sua assumida imaginarização é, sim, conclamar uma parte significativa da comunidade psicanalítica a cerrar fileiras junto ao mestre. Mas por quê precisaria Miller de tal fantasma para animar sua trupe de analistas?

Em outro momento do texto, o autor resume os ditos de um suposto “axioma de separação” contemporâneo nos seguintes termos “Tu não terás relações amenas com a parte contrária. Tu seguirás o teu caminho. Tu não pactuarás. Tu cuidarás como de ti mesmo, não de teu próximo, mas de teu semelhante. Tu fugirás do outro como de Satã. Quem se assemelha, se agrupa. Que não entre aqui nenhum que se dissimule”.[11] Em uma espécie de nostalgia do que considera uma lógica do cuidado que imperara nos anos de 1960, JAM lê em alguns fenômenos contemporâneos (nomeados, talvez, no Brasil de “identitarismos” e/ou “cancelamentos”) uma lógica de grupalidade aos moldes da Psicologia das Massas freudiana.

Ainda que cite como exemplo de tal axioma os movimentos masculinistas norte-americanos (que, em sua visão, teriam uma lógica surpreendentemente análoga à das reflexões e lutas políticas trans), cabe perguntar se este “tu” não pode na verdade representar um “nós, analistas”, considerando que ao menor sinal de discordância e crítica, a atitude politicamente orquestrada no interior do campo lacaniano é defensiva. Proceder de outra forma não significa, é claro, abrir mão dos pressupostos psicanalíticos, mas lembrar que se eles deixam de responder ao mundo que os cerca, pode ser o caso de — à maneira de Freud e Lacan — reencontrar o real de sua radicalidade em outros termos, afinal, “la théorie c’est bon, mais ça n’empêche pas d’exister.[12]

O texto é recheado de outros momentos nos quais o herdeiro de Lacan deixa a desejar em matéria de psicanálise. Após mencionar um texto de Claire L. no qual é trazida a vulnerabilidade estatística de pessoas trans se suicidarem, menciona: “Lembrete salutar de que nem tudo é cor-de-rosa no país dos trans, e que antes de ser militantes da causa trans, trata-se de pessoas mais frágeis do que outras, mais ameaçadas e que sofrem ainda mais.” Lá onde esperaríamos encontrar um sujeito necessariamente divido, causado e formado por uma alteridade radical, na qual o sofrimento não é um dado em si, mas advém de uma dialética de reconhecimento, surge uma mofada psicologia do eu, na qual “trans” são pessoas mais frágeis psiquicamente. Seria a direção de tratamento um fortalecimento de seus egos por meio da identificação ao cisanalista?

Muitos colegas psicanalistas defendem ignorar o texto, já que não haveria nenhuma argumentação propriamente dita, num artigo relativamente longo. Haveria ironia, arrogância e demonstração de erudição, mas sem qualquer contribuição para um verdadeiro debate. Será que devemos mesmo fazê-lo? Acreditamos que não, e não apenas pelas razões levantadas até agora, em torno da representatividade de JAM e de suas palavras e postura, mas, sobretudo, porque se no plano do enunciado não há efetivamente muita coisa digna de comentários, no que se refere à enunciação, pelo contrário, há muito a ser discutido, inclusive quanto ao uso da ironia e da arrogância ou da erudição.

Quais seriam os elementos decisivos de tal enunciação? O que nos dizem da posição assumida pela psicanálise, no debate contemporâneo em torno do sexo e do gênero, a fala e o falar deste importante chefe de escola, um dos mais fortes candidatos a, como diria Terry Eagleaton, representante de Lacan na terra? O que não é pouca coisa, já que seu empreendimento de mundialização é explícito no próprio nome da associação por ele fundada em 1992 e inclui dispositivos editoriais, institucionais e, o mais importante, transferenciais e de autorização por alguns outros, no correlato lacaniano da análise didática, o passe (ratificado sempre por um cartel em França, bien sûr). Novamente, encontramos na acusação contra o Outro elementos que, mutatis mutandis, dizem respeito ao sujeito da enunciação: quem cria um “bicho papão para animar sua trupe”? Trupe de transferência”? Assim, responder ao texto de Miller é importante porque já está bastante claro que não se trata de uma posição isolada no pensamento psicanalítico e que seu tom estereotipado apenas evidencia o ridículo de certas posições que vem sendo constantemente sustentadas com mais discrição e aparente bom senso.

Em se tratando da ironia, comecemos pela referência ao assédio moral, potencialmente traumático, para não dizer simplesmente maligno, que teria sofrido nas mãos do mestre. Mesmo que, surpreendentemente, alguns pareçam querer levar a sério a acusação,[13][14] sabe Deus com que motivo, além da surpreendente ausência do espírito necessário para reconhecer o tom sofisticadamente malicioso da escrita milleriana. De toda forma, o efeito performativo da enunciação irônica que o aproximaria dos assédios sofridos por pessoas trans é bem claro: a violência que (não) sofri é igual à que vocês (dizem que) sofrem. Esquivando-se da problemática de poder e dominação, Jacques-Alain parece querer dizer de maneira rebuscada “é tudo mimimi”. Será mesmo?

Por outro lado, mesmo quando talvez não pretenda ser irônico, a impressão que fica é um tanto bizarra, afinal, o que dizer de expressões como “supremacismo trans”? Que espécie de supremacia é essa de pessoas que mal podem gozar dos seus direitos civis e são vítimas diárias de toda a sorte e graus de violência, simbólica e física? Nesse sentido, é curioso ver como a percepção que devemos ter das pessoas trans alterna entre, de um lado, um poderoso grupo político que domina a academia, seduz a grande imprensa, se infiltra no poder público e conquista a norma jurídica; e, do outro lado, um grupo de pessoas que são “muito simplesmente pessoas mais frágeis que outras, mais ameaçadas e que sofrem mais”[15].

Por fim, os argumentos se fecham com uma pequena deturpação da história quando afirma que as histéricas, ao contrário dos/das trans, se portavam mansamente e não faziam da sua doença elemento central da vida política. Quanto a isso, algumas referências rápidas solenemente ignoradas: o belíssimo trabalho de Eli Zaretsky, em Segredos da Alma: uma história sociocultural da psicanálise[16], e os já clássicos Anarquia sexual, de Elain Schoowalter[17] e O feminismo espontâneo da histeria, de Emilce Dio Bleichmar[18]. Aliás, uma reflexão séria sobre a dimensão política da experiência da histeria, incluiria, ainda, como leitura obrigatória, o curso de Michel Foucault no Collège de France em 1973 e 1964, O poder psiquiátrico[19], no qual as relações entre poder e verdade na apropriação psiquiátrica de formas desviantes da experiência subjetiva ocupam lugar central e não sem relação com a questão trans, afinal também hoje o principal embate se dá em torno de quem detém o poder de estabelecer a verdade sobre o corpo e suas formas de expressão.

Feitas essas observações sobre o pequeno manifesto irônico de JAM, se quisermos refletir mais seriamente sobre seus argumentos nessa guerra de ideias da qual diz não participar, é preciso recorrer a um texto publicado quase simultaneamente, a transcrição da entrevista com Eric Marty a propósito do seu último livro, abertamente dedicado à “desconstrução” de Judith Butler e de sua obra bem como a enfrentar o gender, “a última grande mensagem ideológica do Ocidente enviada ao resto do mundo”[20].

Na entrevista, vamos sim encontrar o que parecem ser os principais argumentos de Miller — e de muitos psicanalistas — para recusar a noção de gênero, desqualificar o pensamento de Butler, e de outres autores, e reafirmar uma vez mais a verdade sobre o sexo e o sujeito, descoberta de uma vez por todas pela psicanálise, ou, para ser exato, por Lacan. O que não significa que o tom irônico ou depreciativo esteja ausente: ele está lá, sobretudo nos pequenos detalhes, como a referência a “essa (cette) Judith Butler”. Aliás, de onde vem esse ódio a Butler? Será do fato de que ela se apropria de conceitos e ideias psicanalíticas?

Passemos então brevemente por alguns desses argumentos:

O primeiro deles não é exatamente original: trata-se de uma crítica recorrente ao caráter individualista dos movimentos queer e de gênero, pensados como espécies de sintoma do neoliberalismo norte-americano, o que aparece inicialmente com uma referência ao utilitarismo, e que, no livro de Marty, é revelado também pelos vínculos entre Butler e o pragmatismo linguístico. Nesse sentido, o movimento trans, como os próprios estudos de gênero não são, como a French Theory, nada além de “uma curiosa construção americana”.

Em seguida temos a acusação, também apoiada nos argumentos de Eric Marty de que Butler se resumiria a um “pensamento sociológico” que desconsideraria o sujeito e recairia rapidamente em um behaviorismo ingênuo, no qual o indivíduo seria inteiramente determinado pelas normas sociais. Para Marty, em verdade, a própria ideia de sujeito seria inteiramente ausente do pensamento de Butler e por isso a fragilidade e inconsistência de sua apropriação do pensamento francês.

Tal crítica a uma concepção considerada puramente social da problemática da sexuação se articula ainda ao argumento de que a valorização do gênero se deteriora rapidamente em uma nova norma que produz segregação e na verdade reforça a diferença binária que visava combater. Este é, na verdade, mais um argumento conhecido, e que constitui, por exemplo, o eixo central da argumentação de Cotilde Leguil, em um livro que parece ter feito bastante sucesso por essas plagas[21].

Segundo tal raciocínio, os estudos de gênero são responsáveis por produzir aquilo que pretendem criticar, o que lembra novamente o discurso de certa direita brasileira segundo o qual foi o PT que dividiu o Brasil em pobres e ricos e instituiu o ódio de classe. Aqui, além da confusão entre os estudos de gênero e aquilo que eles pretendem precisamente combater, se ignora que o alvo principal de autores do campo queer, como Preciado, é o que chama de epistemologia da diferença sexual; considerando que não por acaso seu próximo alvo será precisamente a lógica identitária.

Contra uma leitura que é suposta ser puramente sociológica, é preciso então traduzir a experiência do gênero para a língua psicanalítica, que parece ser a única via legítima de acesso à verdade do sujeito. Com isso, as múltiplas formas de relação com a norma binária de gênero são redefinidas como modalidades de gozo.

Nesse ponto causa espanto uma certa leitura rasteira da própria noção de gozo, que é rapidamente associada a práticas sexuais e não à gestão do impacto pulsional e da lida com a linguagem, o que gera um deslocamento da metapsicologia ou do funcionamento estrutural para uma semiologia das práticas sexuais ou experiências no campo das identidades de gênero. Por outro lado, não podemos desconsiderar a fragilidade, em termos lacanianos estritos, da própria ideia de “modos de gozar”. Expressão ausente em todo o ensino lacaniano, esta ideia vem sendo trabalhada por comentadores como uma espécie de confluência entre registros absolutamente heterogêneos: por vezes aproximada dos três campos do gozo na lógica borromeana (gozo do Outro, gozo fálico e gozo do sentido), outras como simples sinônimos de práticas sexuais, outras como a velha cantilena da “singularidade”. Noção que, quando usada levianamente, acaba por eximir toda a responsabilidade ética sobre a reflexão dos impactos psíquicos, das violências e da própria escuta das diferenças políticas e sociais das dissidências sexuais e de gênero, além de arriscar aproximar a própria psicanálise de um individualismo neoliberal que ela, novamente, reconhece apenas no outro.

Além disso, a redescrição do gênero a partir do vocabulário psicanalítico parece tributária de uma estratégia de tradução que recusa a novidade e traz consigo uma série de problemas, visível por exemplo na permanência insistente da lógica da inversão sexual que se materializa de forma caricatural na colagem entre identidades e práticas sexuais, se constituindo ainda em franca negação da alteridade epistêmica.

Por que a psicanálise parece ter abandonado qualquer disposição de escutar outros saberes e inclusive se deixar analisar por eles? Afinal, discurso, escrita, estrutura, etc. não são nem nunca foram noções estritamente psicanalíticas. O risco aqui é a tentação de afirmar a psicanálise como língua soberana, absoluta, capaz de tudo enunciar, como se Freud e Lacan não tivessem tido a necessidade constante de outros saberes para dar conta do que encontravam em suas clínicas e, o que é mais delicado, como se o pensamento lacaniano se constituísse na realização definitiva da psicanálise, depois do que nada surgirá de novo, numa espécie de fim da história hegeliano, ainda que se veja como não idealista.

E, falando em idealismo e história, outro ponto recorrente em sua argumentação é o caráter a-histórico da dita “guerra dos sexos”: ignorando tanto a emergência moderna do dimorfismo sexual trabalhada por autores como Thomas Laqueur, quanto indicações do próprio Lacan que inscreve a emergência da masculinidade e da feminilidade historicamente[22]. Sem alarde, o analista parece querer reintroduzir uma ontologia sexuada que nem mesmo Freud ousou sustentar.

É preciso registrar, ainda, que toda a fala de Miller é orientada pelo par psicopatologia-etiologia. Quais as consequências e implicações disso para a nossa compreensão das experiências transidentitárias ou mesmo para o modo como podemos compreender nosso trabalho clínico e teórico de modo geral?

Assim, começamos por uma afirmação da soberania da clínica, que se desloca rapidamente para a defesa da soberania do saber psicanalítico chegando à reivindicação da posição soberana que devemos ocupar no espaço público, e que vai muito além do saudoso e tão desejado prestígio social do psicanalista.

Desse modo, percebemos que não apenas as criticas são recorrentes, os problemas que trazem consigo também. Por exemplo, a insistência em um vínculo necessário entre identidade de gênero e orientação sexual: “os gêneros, são incialmente as três grandes orientações sexuais: lésbica, gay, bissexual, LGB. A partir daí elas se põem a proliferar, a se subdividir”[23]

Para acentuar os vícios de tal suposta associação, note-se em determinados momentos a referência, de certo modo insidiosa, a práticas situadas no campo da dita perversão e não por acaso, em particular, ao fetichismo, território privilegiado do desmentido (aqui lembramos que alguns psicanalistas já se referiram abertamente aos estudos queer como um “discurso perverso”)[24].

Outro aspecto delicado nos argumentos de Miller é a sustentação da figura do dito “transexual verdadeiro” do Stoller, uma personagem do século passado, como figura paradigmática das transidentidades contemporâneas. Ignora, assim, uma série de deslocamentos e transformações operadas nos últimos anos nos campos da sexualidade e do gênero, parecendo afirmar, uma vez mais, que, para a psicanálise, não há nada de efetivamente novo no front, nada que mereça o trabalho de elaborar novas teorias ou criar novos conceitos.

Em relação a essa figura stolleriana, é interessante, ainda, como o chefe de escola insiste em como esses transexuais afirmam a diferença binária dos sexos, sem considerar fatores como a adesão ao discurso médico e a própria força da epistemologia da diferença sexual e da própria racionalidade identitária, que as empurra na direção de identidades compulsórias e auto-excludentes: homem ou mulher.

Aliás, quanto a isso, vale destacar um detalhe curioso: os transexuais que Miller valoriza por colocar em questão a multiplicidade de gênero são os mesmos que ratificam o discurso médico da disforia e o próprio poder médico sobre o corpo e sua verdade.

É fácil perceber, de todo modo, o conforto que alguns analistas sentem ao se deparar com experiências que confirmam suas teorias e modo de pensar. É claro que isso sempre vai acontecer, tais teorias não surgiram do nada, a questão é saber se elas ainda são as mais interessantes, do ponto de vista heurístico, para não dizer científico, ou mesmo considerando as perspectivas ética ou política.

Por fim, Miller, tanto no texto em questão quanto no diálogo com Marty, fala tranquilamente em ideologia quando se refere aos estudos de gênero, mas não seria possível, talvez até mais fácil, acusá-los de, ele sim, assumir uma posição ideológica a partir da psicanálise, afirmando-a como, nos termos de Barthes, um discurso vitorioso e, portanto, arrogante? Afinal, ideológico é sempre o outro. Diante da ideologia psicanalítica que pretende afirmar uma verdade definitiva sobre o sexo, diante da insistência de muitos psicanalistas em se colocar numa posição hegemômica nos debates sobre o sujeito e sua experiência do sexual, não faria sentido a tentativa de produção de uma contra-ideologia, a busca por um pensamento contra-hegemônico? Seriam tais movimentos assim tão mortíferos para a psicanálise?

Do ponto de vista social, JAM sabe que neste momento histórico há tanto uma escuta mais apurada para as questões de gênero quanto uma lógica oriunda das redes sociais nas quais a polêmica tem primazia sobre a argumentação teoricamente sólida. Razão pela qual opta deliberadamente por generalizações inespecíficas, deboche e um ensimesmamento que coloca suas vivências identitárias como análogas a um universalismo correto, dotando sua escrita de uma sorte de autoridade moral que permitiria corrigir os erros des outres.

Ao mesmo tempo, pelo estilo do texto, até parece que a psicanálise, também ela, resolveu partir para a lacração total. E nesse caso, partirmos para o debate será vital. Afinal, também podemos imaginar o texto como armadilha que convidaria a propor o cancelamento do próprio Miller. Afinal ele parece querer nos convencer, de muitas maneiras, que não há, dentre os revoltados em transe, nenhuma disposição ao debate, e por isso talvez escreva como supõe que um militante de gênero o faria, num jogo de espelhos do qual a referência ao assédio moral do Lacan é o ponto culminante. Jogo, enfim, que só pode se dar a partir da construção desse trans imaginário.

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* Eduardo Leal Cunha Doutor em Saúde Coletiva (IMS/UERJ) e Mestre em Teoria Psicanalítica (IP/UFRJ). Professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Sergipe. Pesquisador Associado do Departamento de Estudos Psicanalíticos da Universidade de Paris. Membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos, da Rede Interamericana de Pesquisas em Psicanálise e Política e da Sociedade Internacional de Psicanálise e Filosofia. Autor de Indivíduo singular plural: a identidade em questão (7Letras, 2009), O político e o íntimo: subjetivação e política do impeachment à pandemia (Devires, 2021) e O que aprender com as transidentidades: psicanálise, gênero e política (Criação Humana, 2021), dentre outros.


** Pedro Ambra é psicanalista. Doutor em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da USP e em Psicanálise e Psicopatologia pela Université de Paris, é professor de Psicologia da PUC-SP e professor convidado e orientador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social do Instituto de Psicologia da USP. Pesquisador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise (Latesfip-USP), membro da International Society of Psychoanalysis and Philosophy (ISPP) e da Escola Tamuya de Formação Popular, é autor do livro O que é um homem? Psicanálise e história da masculinidade no Ocidente (Zagodoni, 2021) e organizador do livro Histeria e gênero: o sexo como desencontro (nVersos, 2014).



[1] MEYNARD, Muriel; LIFSHITZ, Sébastien (2020) Petite Fille, Produção de Muriel Meynard, direção de Sébastien Lifshitz. França, Arte, 90min.

[2] LEBRUN, Jean-Pierre À propos de petite fille (2). (2021) Disponível em: <https://www.gnipl.fr/2021/01/16/jean-pierre-lebrun-a-propos-de-petite-fille-2/> Consultado em 13/03/2021

[3] LIPPI, Silvia; MANGLIER, Patrick. (2021) Dysphorique toi-même. Lundimatin v. 273, 02 fev. 2021. Disponível em <https://lundi.am/Dysphorique-toi-meme> Consultado em 08/03/2021.

[4] Vale registrar a presença de Lebrun na edição 928 do Lacan Quotidien, Lebrun é ali um estrangeiro — ao campo lacaniano e à AMP —, mas um estrangeiro bem vindo e certamente um aliado estratégico nesta guerra — talvez não de ideias ou não apenas com ideias — contra as dissidências de gênero.

[5] COUTINHO JORGE, Marco Antonio; TRAVASSOS, Natália Pereira. (2018) Transexualidade: o corpo entre o sujeito e a ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

[6] Com origem no movimento negro norte-americano, o termo se refere inicialmente à necessidade de manter constante a luta por reconhecimento e direitos, como na expressão “stay woke”, mantenha-se desperto ou fique alerta, e assim se manteve associado à luta racial ao longo do século XX. Mais recentemente, o termo se vulgariza, sobretudo na internet e passa a ser usado também com ironia em críticas à insistência combativa de movimentos ligados a raça, gênero e sexualidade.

[7] “[…] é urgente o combate à ideologia de gênero que, com a noção de igualdade de gênero e o incentivo às relações homoparentais, coloca em risco as diferenças sexuais que possuem função estruturante no desenvolvimento psíquico da criança.” SOARES, Rejane. (2017). “Porque os pais devem dizer NÃO à ideologia de gênero”. In Escola Sem Partido. Disponível em: < http://escolasempartido.org/blog/porque-os-pais-devem-dizer-nao-a-ideologia-de-genero/> Consultado em: 01/05/2021.

[8] ALEMAN, Jorge (2021) Polêmicas política / J.A. Miller #Lacanemancipa febrero 2021. Disponível em: <https://lacaneman.hypotheses.org/1780> Acesso em 01/05/2021.

[9] PRECIADO, Paul B. (2020) Je suis un monstre qui vous parle. Paris: Grasset, 2020

[10] LACAN, Jacques (1973-1974) Os não-tolos erram/Os nomes do pai. Trad. F. Denez e G. C. Volaco. Porto Alegre: Editora Fi, 2018.

[11] MILLER, Jacques-Alain. (2021) Dócil ao trans. AMPBlog. p. 11. Disponível em <http://uqbarwapol.com/wp-content/uploads/2021/04/JAM-DOCILE-AU-TRANS-PT.pdf>. Consultado em 14/05/2021

[12] Charcot teria dito ao jovem Freud, quando questionado sobre uma incompatibilidade entre os livros e um caso clínico, “A teoria é boa, mas isso não impede o fato de existir”. FREUD, Sigmund (1923/2011). Autobiografia. Obras completas, volume 16: O eu e o id, “autobiografia” e outros textos (1923-1925). (P. C. Souza, Trad., pp. 13-74). São Paulo: Companhia das Letras, 2011

[13] “Take a minute to read this very strange, idiosyncratic & at times bombastic article by J.A. Miller. He confesses that Lacan abused him. Not a small reveal. He takes on “woke” politics. I mean…this is wild shit.” Tweet de @DanielTutt. Disponível em <https://twitter.com/DanielTutt/status/1389975733934727175?s=19>.

[14] FONSECA, Pedro L. Lacan: um assediador? (2021) Caos filosófico. Disponível em: <https://caosfilosofico.com/2021/04/27/lacan-um-assediador/>Acesso em: 01/05/2021.

[15] MILLER, Jacques-Alain. (2021) Dócil ao trans. AMPBlog. p. 18. Disponível em <http://uqbarwapol.com/wp-content/uploads/2021/04/JAM-DOCILE-AU-TRANS-PT.pdf>. Consultado em 14/05/2021

[16] ZARETSKY, Eli Segredos da alma: uma história sociocultural da psicanálise. São Paulo: Cultrix, 2006

[17] SCHOOWALTER, Elaine Anarquia sexual: sexo e cultura no fin de siècle. Rio de Janeiro: Rocco, 1993

[18] DIO BLEICHMAR, Emilce. O feminismo espontâneo da histeria. Porto Alegra: Artes Médicas, 1988

[19] FOUCAULT, Michel O poder psiquiátrico. São Paulo: Martins Fontes, 2006

[20] MARTY, Eric Le sexe des modernes: Pensée du Neutre et théorie du genre. (2021) Paris: Fiction & Cie / Seuil, 2021. Kindle Edition.

[21] LEGUIL, Clotilde. O ser e o gênero: homem/mulher depois de Lacan. Belo Horizonte: EBP, 2016

[22] AMBRA, Pedro. (2015) O que é um homem? Psicanálise e história da masculinidade no Ocidente. São Paulo: Zagodoni, 2021.

[23] MARTY, Éric; MILLER, Jacques-Alain. (2021) Entretetien sur “Le sexe des modernes”. Lacan quotidien 927. 2021 p.12. Disponível em: <https://lacanquotidien.fr/blog/2021/03/lacan-quotidien-n-927/>Acesso em: 14/06/2021

[24] Ver, por exemplo: FLORES, Vera Maria Pollo. A perversão e a teoria queer. Tempo psicanalítico, 2010. v. 42, n. 1, p. 131-148.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | CUNHA, Eduardo Leal; AMBRA, Pedro (2021) O trans imaginário de Miller (e de alguns outros). Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -11, p. 7, 2021. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2021/08/07/n-11-07/>.