Os fantasmas: crônica de uma escuta

por Thiago Pereira Majolo

No mundo, sou como uma gota d’água que no oceano procura outra gota; em lá caindo para encontrar seu companheiro, confunde-se (invisível, curiosa) consigo mesma.

William Shakespeare, Comédia dos erros

 

Rua acima, rua abaixo

Mais tarde, quando as luzes amareladas dos postes já pipocavam no asfalto sua claridade embaciada, tomei rumo de volta rua acima, em direção ao metrô.

Não sei se foram os passantes, que começavam a recender a fumaça, ou aquele murmúrio crescente de expectativa comum ao cair do Sol das sextas-feiras, ou talvez uma recordação reavivada, como o retrogosto do café… algo assim me enlevou numa meditação difusa em que diferentes tempos da memória clamavam por se condensar. Lá, vi Freud, de férias, charuto preso aos lábios, explicando a um culto rapaz judeu sobre o esquecimento da palavra latina aliquis[1]; em seguida, à porta de um hotel, o mesmo Freud conversava com o músico Gustav Mahler[2]; próximo dali, Sophie Morgenstern, junto ao chefe do hospital onde trabalhava, tentando convencê-lo da eficácia de seu método[3]. Cenas conhecidas, memórias de livros, fragmentos de um conhecimento que adquiri. Mas por que me cobravam atenção? Penso no dia passado e somente uma lembrança se sobrepõe acima de outras: uma conversa de duas horas atrás.

Eu então descia a rua, tendo o Sol lá embaixo, no horizonte, com a sensação agradável de caminhar depois de uma semana sentado no consultório, ouvindo do mundo apenas o que as pessoas traziam nos seus relatos. Nesses momentos de caminhada, uma espécie de nostalgia — não sei bem de quê — sempre me conclama a um café. Entrei no primeiro lugar que encontrei, agarrei meu café e sentei para folhear o jornal, meio entretido com as notícias, meio distraído com o pipoqueiro que, lá fora, fazia estourar os primeiros milhos.

Não consigo me lembrar de notícia alguma que tenha lido. O aroma de óleo e do milho quentes e o pipocar das pequenas explosões dentro da panela são tudo o que me resta daquele momento, como um feixe de sensações da vida urbana que me invadia. Não tenho certeza, mas foi talvez por conta desse êxtase que larguei o jornal e me decidi unicamente pelo café e pela vista da rua.

Devo ter terminado o café antes de ele entrar — não me lembro de ter uma xícara nas mãos quando vi aquele senhor que de longe me avistou como um alvo, apertou o passo e decidiu seu rumo. Calças cáqui largas, um casaco bege amarrotado sobre uma velha camisa polo vinho e um chapéu de pano de abas caídas: ele bem poderia ter dormido dentro de um armário dos anos 80. Contrário a essa figura largada, seu andar era estranhamento rijo e decidido. Esperei que seu cumprimento chegasse antes de seu corpo, mas ele simplesmente se sentou do meu lado e ficou em silêncio.

A conversa

O silêncio não durou dez segundos.

— Tem algum bom filme passando hoje? — ele perguntou, puxando papo.

— Eu posso ver aqui — respondi, pegando novamente o jornal. Que tipo de filme você gosta?

— Eu estou ficando sem visão. Você, por exemplo, vejo todo embaçado. Gosto de filme bonito, daí eu aprecio. Toda sexta-feira eu acordo, tomo café, tranco toda a minha casa, que tem um monte de cadeados, porque essa região não é mais tão segura, e depois eu pego o metrô e vou até Santana almoçar no Bom Prato. A comida é ótima, bem barata, e sempre tem gente pra conversar.

— Vai até Santana? — perguntei curioso, enquanto retornava o jornal à mesa.

— É bom pra cabeça. Sou sozinho, então tenho que ficar ativo… E você, o que faz?

— Eu sou psicanalista.

— Que importante!

— Importante?

— É. Seu ofício é ajudar as pessoas… E, me diga uma coisa, a psicanálise entendeu tudo?

— Tudo? Tudo do quê?

— Por exemplo, qual o sentido da vida?

Dei uma risada, mas não irônica, e sim de constrangimento. Tive a sensação de que ele realmente quisesse uma resposta. O que me ocorreu foi apenas uma espécie de frase de um livro de autoajuda:

— Acho que cada um deva criar o seu — eu disse.

Ele apenas sorriu, virando a cabeça, meio de desgosto ou escárnio. E ficou em silêncio, como se me pondo de castigo a pensar na minha resposta tão simplória à sua pergunta irrespondível. Quando eu já estava quase pegando o jornal novamente, ele voltou à ativa.

— O que é esquizofrenia?

Puxa, estava simples a conversa! Saltei do livro de autoajuda direto para uma espécie de Manual Prático de Psicanálise Para Leigos:

— É uma condição que algumas pessoas têm. Elas completam a realidade das coisas que veem com outras que não existem… ou melhor, existem para a pessoa, mas só para ela.

— E isso é bom?

Ufa, pelo menos ele não tinha questionado minha explicação. Agora era só dar minha opinião sobre a tal “condição esquizofrênica”. Fácil, né? Nem tanto. Eu só me saí com isso:

— Eu não saberia dizer. Dizem que é um sofrimento psíquico, então não deve ser de todo bom.

Pronto, mais um silêncio. O que esse cara queria, afinal? E eu mal tivera tempo de respirar, aliviado, quando ele insistiu:

— Tenho um amigo esquizofrênico. Mas ele não sofre com isso. Ele é muito arguto. Foi matemático, é uma pessoa muito lógica… O que pega mesmo para ele é a claustrofobia. Nalguns dias, tem que sair de casa pra respirar. Tranca tudo e sai.

— Sei… e como está seu amigo? — perguntei assumindo uma postura na fala que evidenciava o psicanalista do consultório voltando pra dentro de mim.

— O medo dele é os outros invadirem… — não completou a frase. Olhou para fora e continuou. Sabe, tem aumentado o suicídio, por quê?

Pois ele não me dava tempo de me embaralhar com uma única pergunta e lá vinha outra impossível. Por sorte, continuou falando sozinho, antes que eu tentasse responder.

— Você acha que o suicídio é loucura? — me perguntou.

— Não… — comecei respondendo.

— Esse amigo fala às vezes em se apagar. Eu digo pra ele que isso é besteira, não dá pra se apagar… Mas eu penso que quando eu perder a visão não terei mais motivação pra viver. Não quero ficar dando trabalho pros outros.

— Mas você perguntou pros outros se eles querem ter trabalho com você? — desta vez eu não tinha me saído tão mal.

— Tem que ter motivação pra viver. Esse amigo já pensou em se mudar pra Curitiba, mas parece que a solidão lá é igual. O pior é a solidão.

Eu poderia atribuir a um simples descuido, fruto da informalidade da conversa, a forma que minha frase seguinte emoldurou minhas palavras, mas creio que de fato se tratou de um ato falho, da emergência de algo que pairava evidentemente no ar e que dei corpo.

Você se sente muito sozinho? — perguntei, trocando o “seu amigo” pelo “você”.

Minha fala denunciava de forma tão explícita de quem estávamos falando que assim que a proferi pensei que ele iria me corrigir ou fugir do assunto. Mas não. Resolveu então se colocar na conversa e responder as perguntas que antes colocara a mim.

— Acredito mesmo que somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Mas não como acreditam os católicos. Deus está em mutação constante, e cada pessoa que nasce é feita como imagem e semelhança de um instante de Deus. Não existem duas impressões iguais, dois instantes iguais. Além disso, cada pessoa tem o livre arbítrio depois que nasce. Não dá pra se apagar isso, cada um é único.

Embarquei:

— Eu gosto muito de um filósofo dinamarquês, Kierkegaard. Ele falava do instante como um lugar fora do tempo e espaço, um momentum criador, em que todo o possível está lá, e que precisamos de uma espécie de salto, um passo de fé para nos criar a partir desse instante em que nada está pronto e todo o possível está contido em nós.

— É mais ou menos isso — ele disse. Tudo é muito lógico, como num grande computador, e a gente é algo micro dentro dessa lógica. Imagine o cosmos como um banco, estamos nos balançando entre crédito e débito, altruísmo e egoísmo. Cada ação nossa nos faz pender para lá ou pra cá.

— Sei… mas então me diga: o que quer o banqueiro? — perguntei.

Ele sorriu e arrumou o chapéu, que começava a lhe cobrir os olhos.

— Boa pergunta. Isso eu não sei — respondeu.

Resolvi reinvestir:

— Era essa a sua pergunta, né? O que fazemos aqui, o que se é esperado de nós? — ficamos alguns segundos em silêncio e eu resolvi prosseguir. Estou pensando que se cada instante de Deus é capaz de criar uma pessoa, Ele é inteiro feito de corpos humanos, corpos que ele reconhece como partes Dele. Se para nós a nossa existência é tão vasta, para Ele é só um pedacinho. Já nós temos um corpo que não o conhecemos bem, nem reconhecemos muitas vezes seus impulsos e atos, e acho que trabalhamos a vida inteira para nos tornar reconhecíveis para nós mesmos.

— Por isso somos únicos, nada se apaga. Cada existência permanece eterna em algum lugar, em alguma dimensão — ele parou, refletiu e continuou. Olha, todas as culturas têm a sua história do dilúvio. Existiram muitos dilúvios, antes mesmo da era dos homens. Nossas unidades unicelulares guardam essa memória. Os paranormais, ou seja, poetas e artistas, acessam essa memória e a transformam em história poética.

— E não seria então essa a motivação, a grande aventura? Procurar a memória do próprio dilúvio, acessar esse instante de destruição e renovação que vive em cada um de nós como potência.

—  Ah, mas aí… — interrompeu e tirou o chapéu, pra em seguida limpar os olhos brilhantes, que estavam levemente marejados.

— Sabe — eu disse —, esse instante, esse acaso…

— Não existe acaso, está tudo perfeitamente balanceado no cosmos.

— Mas a gente percebe como acaso — insisti.

— Ah, isso sim — concordou, recolocando os óculos.

— Então, acaso ou não, são instantes que reconhecemos como um dilúvio, algo que transborda a partir de fora ou a partir de dentro. Como um encontro de nós mesmos com a história que nos precede e nos formou. Como um reencontro… E fico perguntando, como será que a gente faz para tornar reconhecíveis esses instantes, para que eles façam parte do sentido que damos à vida? Como integrar ou reintegrar o dilúvio?

— Integrar! Isso, essa é a palavra! Integrar… — e olhou para fora, pensativo.

Eu olhei no relógio, precisava ir embora.

— Preciso ir, mas nos vemos por aí — disse, levantando-me.

— Certo, ainda vamos nos ver. Talvez aqui ou em outras dimensões.

— E vamos achar que é acaso — eu disse.

— E vamos achar que é acaso — ele repetiu.

Integração

Bom, então estou de volta subindo a rua, em direção ao metrô. Algo da insurgência dessas memórias se torna mais óbvio, mais fácil de ser integrada na narrativa que faço de mim mesmo. Pareço estar completando a minha realidade com figuras do meu conhecimento — Freud, Mahler, Sophie —, dando-lhes movimento e graça conforme minha imaginação. Nada muito diferente do que faria um esquizofrênico; apenas com a diferença fundante e fundamental de que sei distinguir da realidade compartilhada os fantasmas que me assombram.

Mas isso é pouco para minha compreensão das visões. Não foi Freud quem nos ensinou que no trato com a realidade o psicótico pode empreender uma atividade psíquica mais elaborada do que o neurótico?[4] Que imenso trabalho é negar a realidade e construir sobre ela toda uma nova dimensão! Frente a isso, ser neuroticamente indiferente ao que se percebe, dar de ombros, parece uma atitude de desistência rápida frente à realidade e aos fantasmas, como se eles, mesmo que reconhecidos como meros fantasmas, não tivessem suma importância em nos comunicar do nosso íntimo desejo.

Os fantasmas sempre estão ali, aqui, visíveis ou aludidos, como Os mortos, de James Joyce. “Você já viu um fantasma? Não! Mas você ouviu falar deles”[5], escreveu Bob Dylan. Na minha infância, havia um casarão maltratado, numa antiga esquina do bairro, que servia de loja de ferragens. Nunca gostei de entrar lá, cheirava a porão, e a educação dos donos parecia mais corroída que as estruturas da casa. Certa manhã, após uma noite de chuva torrencial, eu encontrei o casarão no chão, as telhas espalhadas na rua. Nunca soube o que aconteceu com as pessoas lá dentro, se é que havia pessoas lá na hora do desabamento. O misto de espanto e felicidade se uniu a certa culpa — teria sido o meu desejo o que derrubara aquelas velhas estruturas? Quando na esquina surgiu uma nova loja, odiei a transformação do bairro, mas a frequentava constantemente para fazer pequenas compras, como se a incentivasse. Hoje, tenho um carinho especial por essas caóticas e quase arruinadas lojas de ferragens de bairro. Meus fantasmas de ódio e amor, meus fantasmas ambivalentes que guiam meu afeto por mãos espectrais.

 O Fantasma de Canterville[6] assombrava uma casa há mais de três séculos. Ninguém mais se atrevia a morar na propriedade inglesa, com medo de suas aparições horripilantes. Até que uma família americana, distante da influência da cultura local, munida de um senso prático norte-americano e descrente do poder de assombrações, muda-se para a casa e passa ela a assombrar o fantasma. Os truques do pobre fantasma eram banais para a família americana. A história que o mantinha vivamente aterrorizante aos locais não tinha nenhum significado na vida daqueles estrangeiros. Quando o fantasma manchava de sangue o assoalho, o patriarca americano logo resolvia o problema com um novo detergente. Não é que os novos proprietários não acreditassem na existência do fantasma, mas somente que ele não lhes dizia nada de importante, sua existência inoportuna não fazia parte da cultura daquela família, não era o fantasma deles.

As tradições, corporificadas nos hábitos individuais e costumes comuns, verbalizadas nos ditos e não ditos dão vida espectral aos nossos mortos. A cada qual, com sua singularidade, cabe reanimar na tradição uma parcela da fantasmagoria coletiva, como quando visitamos cemitérios e conversamos com os mortos, sejam eles parentes ou não.

Subindo a rua, pus-me a conversar com certos mortos que fazem parte da minha inserção na tradição psicanalítica. Essa tradição eu reavivo no meu fazer a partir de minha escuta singular; e essa escuta singular está contida dentro de outras tradições particulares nas quais minha história pessoal se enreda. Nunca é fácil saber o que nossos fantasmas querem de nós, o que os mortos ainda estão fazendo aqui. Eles são espectros condensados de muitas ideias e pessoas; são afetos deslocados, que ganham figura onírica-delirante e cujos trabalho de interpretação é tão artesanal quanto o de um sonho.

O que vi e vivi naquele final de tarde, já narrei. Não há nada que eu possa acrescentar aos fatos da minha memória daquele dia. Ou quase nada… Lembro agora que, subindo a rua de volta, parei novamente na frente do café em que tivera a conversa. Algo me fez parar e me trouxe à imaginação os meus próprios mortos. Sei agora o que fiz em seguida de modo quase inconsciente, e recordar disso nesse momento, a posteriori, lança um foco de luz nessa imagem trêmula: eu comprei um saco de pipoca para continuar minha jornada rua acima.

Pois então sei o que me fez parar: o cheiro de milho e óleo quentes, o mesmo cheiro que sentira sentado no café, horas antes. É também um aroma de minha infância, de quando eu e minhas irmãs sentávamos para conversar na cama dos meus pais com uma panela enorme de pipoca recém-estourada. Meus fantasmas sabem a milho e óleo. E se meu olfato ainda me convoca à infância e a infância ainda me convoca a pulsar e a criar no presente, sei então que os fantasmas moram fora do tempo e do espaço, naquele aquém das representações, no instante de puro devir, de possível angústia; a carne dos fantasmas é um enrodilhado de memórias sensórias, esperando para ganhar nome, história, sentido, sangue, tempo e espaço.

E é por isso que toda essa história me é tão sinestésica. É por isso que senti e sinto ainda todo o cenário daquele fim de tarde como se continuasse me envolvendo. Por isso também minha memória é tão rica em detalhes. Sim, sei tudo isso agora, mas ainda assim me pergunto: o que mais sei de meus mortos e por que eles retornam dentro da memória de minha conversa de horas atrás? Como tudo isso se condensa e o que me pede para fazer?

Tenho uma súbita ideia: acho que a chave para compreensão é o pipoqueiro. É dele que vinha a convocatória aos meus sentidos enquanto eu conversava. E onde estava o pipoqueiro, que o diferia do resto da cena do café? Lá, na rua. A rua, tão constante e importante nessa história, para mim e para meu interlocutor. Eu, que me sentia liberto da sala do consultório; ele, que se sentia liberto de sua fobia. E todos meus fantasmas também estavam nas ruas; mais do que isso, eles “conversavam com as ruas”. Explico.

Freud e seu amigo judeu: não foram raras as vezes que Freud interrompeu suas férias para tratar alguém, assim como não foram poucas as vezes que atendeu caminhando ou que se empenhou numa conversa, nas ruas, sobre a psicanálise, mostrando a outros seu modo de pensar, dando a outros a oportunidade de sentirem a potência do método psicanalítico que ele tanto queria provar, desafiando seus interlocutores com jogos de palavras, associações, chistes, historietas clínicas, argumentações teóricas… conversas de rua.

Freud e Mahler: o notório encontro em que Freud interrompe suas férias para atender o famoso músico, numa sala improvisada de hotel, com direito a divã e tudo. Uma clínica que se desloca, que caminha.

Sophie Morgenstern e o chefe do hospital: uma das coisas que mais me encanta na história de Sophie, além de ser uma percursora no uso de desenhos em atendimentos de crianças, é a sua coragem quase resignada em prosseguir com seu trabalho psicanalítico em um lugar em que ninguém acreditava nem na psicanálise, tampouco num trabalho psíquico com crianças. Diz Françoise Dolto, ao contar sobre Sophie, que lhe foi uma espécie de mestra, que ela simplesmente interpretava a atitude por vezes cínica e recalcitrante do chefe como um sintoma, uma resistência. No seu íntimo, ainda que poucos acreditassem, Sophie continuava não só acreditando na psicanálise, como também oferecendo sua escuta aos pacientes do hospital. Não era nas ruas propriamente, mas acredito que aqui a palavra “rua” ganhe outra significação. A “rua” é o mesmo que “público”; carrega a ideia de escuta ampliada, de disseminação da escuta.

Quiçá seja esse o sentido que procuro dar aos meus fantasmas: uma escuta pública. Ou melhor, uma escuta que se desloca ao público, atravessando e transformando o setting, flexibilizando ou derrubando as paredes, oferecendo espontaneamente a quem assim desejar uma experiência com o inconsciente. Uma experiência desse tipo vale por isso só; como um fantasma, ela é capaz de fazer uma marca que se solta no tempo e espaço psíquicos, tingindo com sua cor uma série de outras experiências passadas ou futuras, tanto de quem escuta quanto de quem é escutado. Esse instante da experiência não cobra continuidade cronológica, tem uma lógica própria nas modulações do tempo. Assim, uma escuta que sai em busca de um desejo…

Essa escuta andarilha não exclui nenhuma outra, e esse chamado que me faço e dissemino nessa crônica não é uma bandeira teórica ou de militância, não possui o fascismo da obrigação. Ela simplesmente me lembra de uma longa tradição psicanalítica de abalar estruturas (como a do casarão que vi desmoronar), de ressignificar assombrações (como na história de Canterville), e de jamais assumir a posição sacerdotal. A clínica pública não precisa necessariamente de uma instituição para acontecer. Assim como a autorização a ser psicanalista atravessa a infatigável negociação do sujeito com seus desejos de escuta e atendimento e com suas próprias autoridades morais, da mesma forma será ele mesmo que definirá as margens de seu setting.

Lembro agora novamente de Freud, ao chegar aos Estados Unidos, anunciando não a novidade ou a solução, como um detergente de alta eficácia, mas a praga. E eu, subindo a rua, naquele dia, pensando inconscientemente em tudo isso, jogava pipocas boca adentro, engolindo pequenas esferas brancas explodidas no caos quente da panela, como estrelas do cosmos. Como disse meu amigo, somos um átimo que aconteceu, uma faísca que se alevantou. E caminhamos pela longa tradição que atravessa eras inteiras em busca desse instante criador que dá forma a ideias e afetos. Assim também se levanta e se renova a tradição psicanalítica, esse modo de escutar e conversar, esse saber que não se sabe, mutante como um vírus que salta de corpo em corpo através dos dias e dos séculos, na sua longa jornada de transformar a vida ao seu redor. Uma praga. Uma praga que põe em marcha nossa cultura. Uma praga que precisa ser disseminada.

BIBLIOGRAFIA

DYLAN, Bob (2006) “Spirit on the water”. In: Modern Times. Nova Iorque: Columbia Records.

FREUD, Sigmund (1924) “A perda da realidade na neurose e na psicose”. In: Obras completas de Sigmund Freud.  Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago Editora, vol. XX (1023-1925), 1976; pp. 205-209.

FREUD, Sigmund (1901) Psicopatología de la vida cotidiana. Trad. L. Lopez-Ballesteros. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, tomo I, 1972.

DOLTO, Françoise (1987) “Meu reconhecimento a Sophie Morgenstern”. In: NASIO, Juan-David (org.) O silêncio na psicanálise. Trad. M. Prada e Silva. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010; pp. 25-41.

JONES, Ernest (1989) A vida e a obra de Sigmund Freud. Trad. J. C. Guimarães. Rio de Janeiro: Imago, 1989.

JOYCE, James (2012). “Os mortos”. In: Dublinenses. São Paulo: L&PM Editores; pp. 162-206.

WILDE, Oscar (1887) O fantasma de Canterville. Trad. O. Schneider. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.


* Thiago Pereira Majolo é psicanalista e mestre em História Social pela USP, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, membro da comissão de Debates da Revista Percurso e integrante da Rede de Psicanalistas Atenta(os) às Relações Raciais, pelo Instituto AMMA – Psique e Negritude.



[1] FREUD, Sigmund (1901) Psicopatología de la vida cotidiana. Trad. L. Lopez-Ballesteros. Madrid: Editorial Biblioteca Nueva, tomo I, 1972.

[2] JONES, Ernest (1989) A vida e a obra de Sigmund Freud. Trad. J. C. Guimarães. Rio de Janeiro: Imago, 1989.

[3] DOLTO, Françoise (1987) “Meu reconhecimento a Sophie Morgenstern”. In: NASIO, Juan-David (org.) O silêncio na psicanálise. Trad. M. Prada e Silva. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010; pp. 25-41.

[4] FREUD, Sigmund (1924) “A perda da realidade na neurose e na psicose”. In: Obras completas de Sigmund Freud.  Trad. Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago Editora, vol. XX (1023-1925), 1976; pp. 205-209.

[5] DYLAN, Bob (2006) “Spirit on the water”. In: Modern Times. Nova Iorque: Columbia Records.

[6] WILDE, Oscar (1887) O fantasma de Canterville. Trad. O. Schneider. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.




COMO CITAR ESTE ARTIGO | MAJOLO, Thiago Pereira (2021) Os fantasmas: crônica de uma escuta. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -11, p. 8, 2021. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2021/06/10/n-11-08/>.