Resenha | Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação (Safatle, 2020)

por Viviane Carnizelo

Maneiras de transformar mundos — um livro sobre silêncio e tempestade

“As palavras mais silenciosas são as que trazem a tempestade”[1]

O livro de Vladimir Safatle, “Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação” (Autêntica, 2020), é um conjunto de palavras silenciosas que, à melhor maneira lacaniana, deixa em aberto vazios suficientes para que o leitor, em cada momento que acessar o texto, possa ver uma de suas camadas e compreender uma esfera diferente de seu pensamento. São várias.

A obra se propõe a fazer uma breve introdução à articulação entre psicanálise lacaniana e política, chamando atenção para o fenômeno atual da ascensão conservadora em regimes espalhados pelo mundo. A partir da elucidação de conceitos como identificação, gozo, transferência e ato, o autor compõe, tanto o que seria a trajetória completa de uma análise, até a retificação do modo de gozo, quanto a possibilidade de ocorrência de um horizonte político no qual o que era considerado impossível passa a ser possível. Impossível é, apenas, o que não consegue passar a possível na situação atual, aquilo que não se inscreve. Mas é justamente o que não cessa de não se inscrever, como dizia Lacan, que rompe com o horizonte de possíveis e inaugura uma nova situação. É da força dessa negatividade indizível que se trata.

“Oh alguém, oh nenhum, oh ninguém, oh você/ Para que lugar foi, senão a lugar algum?”[2]

Ao trabalhar o conceito de identificação, Safatle faz uma necessária digressão acerca da constituição do Eu e da estaticidade de sua estrutura. A identificação, isto é, assumir uma forma exterior que coloca ao Eu modelos ideais de interioridade e personalidade se configura, na verdade, como sendo o fundamento da alienação. É da decomposição do Eu que surge a emancipação. Ter o Eu como estrutura rígida dotada de fragilidade narcísica tem consequências políticas importantes, pois tal caráter pode ser compensado pela escolha de um líder grupal autoritário. Fica a pergunta: o que dirão os atuais comentadores de política sobre o capítulo?

Muito diferente disso, diz o autor, seria a possibilidade de identificações simbólicas, isto é, a lugares e não a personalidades, pois o lugar deixa em aberto um vazio, um espaço de indeterminação que permite a subversão. O bom funcionamento da Lei é mostrado quando ela permite o conflito. Este é o ponto do argumento lacaniano onde se baseia o pensamento do autor nesta obra: o lugar da autoridade precisa estar vazio para que a criação social ocorra. O melhor líder, no limite da interpretação, é ninguém, pois ao ser ninguém ele permite que haja identificação simbólica com seu lugar, e não imaginária com sua pessoa, o que mantém a negatividade em circulação. O esvaziamento do lugar de liderança, porém, precisará lidar com a irrupção vinda justamente do que sustenta o poder: o gozo.

“Quem ignora efetivamente que os lobos andam em matilha?”[3]

Se há um conceito chave na teorização lacaniana entre clínica e política é o gozo, como bem mostra Safatle em seu livro. Para Lacan, a leitura do capitalismo é feita a partir de uma economia libidinal que integra o gozo na produção mercantil. Assim sendo, se a administração dele é o que confere propulsão à sociedade de consumo, apenas o gozo para além da estrutura é capaz de produzir efetiva transformação.

É preciso lembrar que, para Lacan, a inscrição social do gozo se dá pela via do masculino. Como para ele “A mulher não existe”, apenas o gozo fálico é inscrito socialmente. A contrapartida de tal afirmação é colocar o gozo feminino, não fálico, a todos possível e que está no campo relacional (para além do gênero), enquanto possibilidade de transformação, aquilo que faz com que a estrutura se atualize e faça com que os impossíveis sejam possíveis. Gozo é aquilo que retira o sujeito do domínio de si mesmo apontando para o impossível, para o Real, aquilo que não pode ser propriamente simbolizado ou imaginarizado. Eis o poder negativo e disruptivo do Real, do núcleo indizível da fantasia. Que dirão os debatedores das teorias sobre o feminino? E a classe artística, sempre convocada a produzir o novo? É sobre esse caráter silencioso, sobre o qual nada pode ser falado, que se forma a tempestade.

“Amor foge a dicionários/e a regulamentos vários”[4]

Em 1964, Lacan fundou um novo modo de formação e transmissão que levou o nome de “Escola”. A partir de tal data, até o momento final de seu ensino, ele fez revisões importantes acerca de laços sociais e expectativas de emancipação. A identificação ao lugar vazio do poder não tinha mais uma função central, mas a experiência do encontro com o Real, sim. A experiência da queda do amor de transferência e emergência do real da fantasia seria capaz de fazer um laço que realizaria transformação social.

Vale ressaltar que, como dito acima, o texto de Safatle possui diversas camadas interpretativas, e neste capítulo do livro, sobre transferência e emancipação — política, social —, há também uma breve análise psicanalítica de um dos textos mais belos da história da filosofia. O Banquete, de Platão, conhecido entre os estudiosos pela sensibilidade afetiva e pelos lacanianos como o primeiro manejo transferencial, fala de amor. O autor faz, a partir daí, considerações sobre poder, sujeição e angústia diante da liberdade, entremeadas com uma refinada leitura sobre circulação dos afetos e sobre o amor transferencial.

“O homem é uma coisa em que se atira/ até que o ser humano emerja das ruínas do ser humano”[5]

Na psicanálise lacaniana, o que substitui a interpretação psicanalítica é o ato, aquilo que, por se configurar fora da estrutura vigente, tem o potencial de derrubá-la. São os silêncios que trazem a tempestade, sejam eles suspensão das palavras, música, gesto ou tudo o que se configura em um espaço-tempo diferente do atual. O ato quebra a estrutura gramatical daquilo que antes se repetia na multiplicação de saber e poder, de pertencimento e identidade. Faz desmoronar a narrativa antes falada sobre si mesmo. Rompe para irromper. Sendo a fórmula do ato dada por Lacan em poesia, vale a leitura e a releitura, simbólica, imaginária, literal e crua das palavras de Arthur Rimbaud.

Liberdade, diante disso, pode ser definida, então, como reconhecimento de um ato que age no sujeito e o coloca como suporte de um processo sem que isso signifique submissão. Se o ato analítico subverte o sujeito é por abri-lo para uma esfera do que é incurável em seu sintoma e isso é revolucionário porque tudo aquilo que insiste nele, sem se inscrever, aponta para uma nova forma de vida.

Os desdobramentos políticos daqui advindos são muitos. Maio de 68 foi lido, por Lacan, como uma revolta que não conduziu à revolução justamente por não fazer emergir um novo sujeito. Sem romper com a gramática vigente, que ordena as estruturas de poder e o modo de inscrição do gozo, não há possibilidade de efetiva transformação. Onde cala a estrutura gramatical, onde as palavras silenciam, fica a tempestade e a oportunidade de real revolução, da vida e do político. Como enunciação final sobre a obra de Safatle, fica o silêncio que a palavra poética de Rimbaud comporta na sua abertura para o significado: “Cultiva, não importa onde, a substância de nossas fortunas e desejos”.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Carlos Drummond. Corpo: novos poemas. Rio de Janeiro: Editora Record, 1984.

CELAN, Paul. Cristal. A rosa de ninguém (1964). Trad. C. Cavalcante São Paulo: Iluminuras, 1999.

DELEUZE, Gilles. GUATARRI, Felix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, volume 1. Trad. A. L. Oliveira; A. Guerra Neto e C. P. Costa. São Paulo: Editora 34, 2011.

MÜLLER, Heiner. In SAFATLE, Vladimir. A esquerda que não teme dizer seu nome. São Paulo: Três Estrelas, 2014.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra II (1883). Trad. M. Ferreira dos Santos. Petrópolis: Editora Vozes. 2014.

SAFATLE, Vladimir (2020) Maneiras de transformar mundos: Lacan, política e emancipação Belo Horizonte: Autêntica, 2020


Viviane Carnizelo é Bacharel em Comunicação Social – ECA-USP, Bacharel em Filosofia – FFLCH – USP, Mestranda em Filosofia – FFLCH – USP, Psicanalista Lacaniana. Nascida em São Paulo, possui como áreas de interesse filosofia, arte, psicanálise e política. Como prática psicanalítica, atua em hospital psiquiátrico e consultório particular.



[1] NIETZSCHE, Friedrich. Assim falava Zaratustra II (1883). Tradutor Mário Ferreira dos Santos. Petrópolis: Editora Vozes. 2014.

[2] CELAN, Paul. Cristal. A rosa de ninguém (1964). Tradutora Claudia Cavalcante São Paulo: Iluminuras, 1999.

[3] DELEUZE, Gilles. GUATARRI, Felix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia, volume 1. Tradutores Ana Lucia Oliveira, Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. São Paulo: editora 34, 2011.

[4] ANDRADE, Carlos Drummond. Corpo: novos poemas. Rio de Janeiro: Editora Record, 1984.

[5] MÜLLER, Heiner. In SAFATLE, Vladimir. A esquerda que não teme dizer seu nome. São Paulo: Três Estrelas, 2014.




COMO CITAR ESTA RESENHA | CARNIZELO, Viviane (2021) Maneiras de transformar mundos — um livro sobre silêncio e tempestade. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -14, p. 12, 2021. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2021/07/18/n-11-14/>.